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Possíveis lugares da assinatura

Por Nivana Silva

Trace of existence_Mateo López

Créditos da imagem: “Trace of existence” – Mateo López

Ao tratar da performance autoral na literatura contemporânea em meu último post, considerei que os gestos performáticos que compõem o material textual, o seu “dentro” – fragmentando uma suposta autenticidade autoral e fabricando personas, incluindo a própria voz do autor – parecem estar relacionados às atuações performáticas de “fora”, empreendidas por quem assina a obra, conexão que “ensaia um ‘dentro-fora’, numa sobreposição muitas vezes difícil de ser separada”. Creio que uma das consequências disso pode ser um funcionamento específico da noção de autor, influenciando a sua relação com o leitor e os modos como sua assinatura é forjada.

Para desdobrar a questão, é importante mencionar que a contemporaneidade vem catalisando o enveredar-se da literatura em direção a outras formas e a outras artes, proporcionando encontros que ultrapassam o contexto apenas literário e nos fazendo questionar qual o lugar da assinatura de autores que, não só transitam entre texto e exposição midiática, mas se deslocam nas fronteiras difusas entre a realidade e a ficção, trazendo à tona na obra, por exemplo, a apropriação do real, a ficcionalização do verídico e, até mesmo, uma disseminação e reapropriação dessa ficção pela própria realidade. Diante desse “dentro-fora”, que fratura e faz transbordar os limites da literatura e de seu entorno, é possível arriscar a hipótese de que o gesto signatário se inscreve numa espécie de zona movediça, percorrida por quem assina, e que, acredito, interfere no papel que o leitor assume em relação ao reconhecimento, à legitimação de um nome de autor.

Estou sugerindo que a inscrição de uma assinatura e seu consequente reconhecimento estão indissociavelmente conectados aos modos como a obra é elaborada e recebida, se levarmos em conta que a assinatura é firmada como resultado da relação instituída entre o texto literário, quem o assina e quem o “recebe”. Em outras palavras, não seria o autor, ele mesmo, que forjaria o seu nome no campo literário, mas o próprio texto e a crítica teriam papel decisivo para “criar” uma assinatura.

Nesse sentido, cabe considerar que, na literatura contemporânea, a crítica e o público leitor também são impactados pelas intervenções do autor – comumente marcadas pelo jogo do “fora” – e, muitas vezes, decisivas para a exposição e circulação de sua obra, que, por seu turno, também reverbera o que vem da recepção. Ao que parece, portanto, a recepção crítica, a mesma que contribui, sobremaneira, para a construção e reconhecimento da assinatura, é marcada pelos movimentos de “dentro-fora”, que têm caracterizado muitas atuações performáticas do contemporâneo.

Um caso emblemático para o que estou tentando problematizar diz respeito ao livro Diário da Cadeia (Record, 2017), de autoria de Eduardo Cunha (pseudônimo), cuja publicação causou diversas polêmicas e inquietações que ultrapassaram o circuito literário. Com a suspensão da venda – resultado de uma ação movida pelo ex-deputado Eduardo Cunha – o jornal Correio Brasiliense trouxe uma matéria em que o editor da Record, Carlos Andreazza (um dos nomes que, no início do imbróglio, conhecia a verdadeira identidade do autor), afirma que “a estratégia deste livro sempre foi construída como resposta às reações, em tempo real, mesmo. Sabíamos que seria assim, que dependeríamos de movimentos alheios para definir os nossos”. Esses movimentos alheios estão ligados também aos trânsitos autorais (e, nesse caso, também aos editoriais) e é esse emaranhado de pequenos lances, calculados ou não, que são um ingrediente a ser considerado na recepção crítica da obra e na construção da assinatura do autor.

Ainda que o livro em questão oculte o legítimo nome do autor e traga um pseudônimo, a polêmica não deixou de suscitar a curiosidade sobre a identidade autoral por trás de Diário da Cadeia. Uma vez revelado o autor-signatário, o texto escrito por Eduardo Cunha (pseudônimo), ao lado da sua recepção – e, eu diria mais, ao lado das polêmicas e performances do “dentro-fora”, que já fazem parte da vida real e literária do verdadeiro autor – contribuem para a construção de uma assinatura e para seu reconhecimento. Conforme já dito, esse fluxo tende a reverberar na própria obra e nos gestos performáticos daquele que assina, o que, de maneira geral, parece ser uma tendência da literatura contemporânea e, particularmente, uma grande marca do autor que emula o ex-congressista, mas isso é pauta para uma outra discussão.

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Atrás da assinatura: Elena Ferrante

Por Fernanda Vasconcelos

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Crédito da imagem: Katia Wille

Elena Ferrante é um nome de peso no campo literário contemporâneo. A autora, que conquistou a cena internacional, começou a escrever no início dos anos 90 e ampliou seu público para outros países com a publicação do primeiro livro da quadrilogia napolitana, A amiga genial (2011).  A venda dos seus romances atingiu a casa dos milhões de exemplares e, contra a vontade de críticos que não abrem margem para a literatura vinculada ao mercado mais explicitamente, seus romances também conquistaram a crítica especializada devido à qualidade de sua escrita. Qual seria o segredo de Elena Ferrante?

A narrativa captura o leitor pela exímia capacidade de construir seus personagens. Os romances, escritos em primeira pessoa, são narrados por Elena Greco, que conta sua vida em uma atmosfera intimista, marcada pela amizade com Lila: “E em seu aspecto não havia nada que agisse como corretivo. Estava sempre desgrenhada, suja, com cascas de ferida nos joelhos e cotovelos que nunca saravam”, é assim que ficamos conhecendo um pouco da “amiga genial” da narradora.  Segundo Wood, seus personagens são construídos como se estivessem sempre “à beira de um colapso”, caracterizados por relatos de vivências intensas e profundas.

O estrondo sucesso dos romances convivia, até pouco tempo, com o anonimato da identidade da autora. Em plena era da “sociedade do espetáculo”, como diria Guy Debord, Ferrante escolhe ocultar-se por trás de um pseudônimo que assina sua obra. E, o que parece inviável em nosso contexto midiático, se mostrou eficaz. Durante um bom tempo, o público não teve acesso a outras informações da autora além da assinatura e do conteúdo dos livros.

O embate entre o sucesso e a postura discreta em torno da assinatura de autora despertou um rebuliço no campo literário. Por vezes, ela é comparada a J. D. Salinger e Thomas Phynton por críticos, devido ao comportamento recluso e à grande repercussão pela postura assumida, bem como pelo lugar que vai conquistando no campo literário.

Mas o sucesso não deu trégua para o recolhimento: uma pesquisa na universidade La Sapienza de Roma que buscou investigar, por meio de algoritmos, o estilo das obras da autora, comparando-o com estilos de outros escritores, a fim de identificar possíveis autores para as obras assinadas por Ferrante, na tentativa de desvendar sua “verdadeira” autoria, apontou como um dos prováveis autores para os livros o escritor Domenico Startone, que, em outubro de 2016, a partir de uma investigação feita pelo jornalista Claudio Gatti, foi identificado como o marido de Anita Raja, a “verdadeira” Ferrante.

Alegando agir em nome do direito legítimo de os leitores conhecerem a identidade da autora, o jornalista italiano investigou e cruzou as transações bancárias da editora Edizione E/O com as do casal Anita Raja, tradutora italiana, e a do marido escritor, apostando em uma resposta para as evidências encontradas. Os argumentos que sustentam sua hipótese de que Raja é Ferrante baseiam-se na exposição de altos valores depositados na conta de Raja pela pequena editora italiana, bem como ao considerável aumento do patrimônio do casal de escritores nos últimos anos.

A descoberta de quem está por trás do pseudônimo Ferrante, cria alguns constrangimentos aos críticos que, como James Wood apostaram na literatura “fortemente pessoal” de Ferrante (http://www.newyorker.com/magazine/2013/01/21/women-on-the-verge ), pois Raja, diferentemente das protagonistas, foi morar em Roma aos três anos de idade.

Como se os bastidores da autoria não fossem já aventurescos o suficiente, cabe observar que o pseudônimo escolhido para assinar os romances, Elena, é o mesmo da protagonista, o que não deixa de ser interessante, pois mostra uma perspicácia da autora em captar no espírito do tempo uma sede pelos perfis biográficos, um desejo de complicar ainda mais o jogo entre a ficção e a realidade, como fazem as chamadas autoficcções.

Mas descobrindo-se a “verdadeira” identidade autoral e as não correspondências entre a vida de Raja e a dos personagens, nos perguntamos, então, se o uso de um pseudônimo não resguarda uma potência ficcional, uma opção que reafirma o distanciamento entre o narrador e o autor e dá prioridade à “pura imaginação criativa” na elaboração do universo narrado.

Ao jogar com a semelhança dos nomes entre autor e personagem, mas optar por pseudônimo, Ferrante dá mais uma volta no parafuso da intrincada engrenagem da produção contemporânea e colabora para as discussões sobre a condição do autor no cenário literário contemporâneo.