Arquivo do mês: outubro 2014

Achados e perdidos: sobre o conceito de literatura menor.

Para um literatura menor

Por Débora Molina

Há cerca de um ano, iniciava uma pesquisa no âmbito da iniciação científica, cujo título era “Literatura contemporânea: uma literatura menor?” O objetivo desta pesquisa consistia em analisar o conceito de Literatura menor empregado por Gilles Deleuze e Félix Guattari sob a Literatura de Kafka, no contexto do início do século XX, para pensar seu rendimento em obras da literatura do início deste século XXI.

Um dos primeiros desafios ao qual me lancei foi dar conta do complexo arcabouço teórico desenvolvido por Deleuze e Guattari no livro Kafka: para uma literatura menor, a fim de compreender melhor o conceito e a maneira pela qual os filósofos o aplicavam à obra de Kafka. E lá foram, dias dedicados a leitura e fichamento, capítulo a capítulo. De fato, não foi uma leitura fácil, costumo dizer que ao ler Deleuze sinto como se segurasse algo escorregadio, quando parece que entendi, que segurei o conceito com firmeza, lá vem outro parágrafo impulsionando seu deslize de minhas mãos.

Diante da dificuldade, a ideia de elaborar um verbete soou como uma solução. Logo, se colocava o segundo desafio: escrever sobre um conceito no qual se apresentava deslizável, já que como o próprio conceito de rizoma sugere: todo ponto fixo aponta um deslocamento. E, adivinhem? Após alguns, muitos, dias de dedicação para a escrita, além das regulares sessões de orientação, finalmente, o verbete saiu.

Levando em conta a dificuldade em apreender determinados conceitos teóricos, que às vezes parecem gigantescos obstáculos na graduação, como no meu caso, uma ideia pareceu-me útil. No momento no qual escrevia o verbete senti falta de um material que auxiliasse minha leitura, achei alguns artigos publicados sobre os conceitos de desterritorialização, devir, rizoma, etc, mas nenhum com uma aplicabilidade mais direta à ideia de literatura menor. Pensando nisso, achei pertinente compartilhar o verbete para, quem sabe, ajudar os próximos aventureiros que pretendem lançar-se aos conceitos de Deleuze, ou aos curiosos que sempre ouvem falar de ‘literatura menor’, mas ainda não tiveram acesso ao pensamento dos filósofos.

O plano de compartilhar textos e materiais que auxiliem na pesquisa e façam com que haja uma troca de ideias entre os pesquisadores, existe desde a idealização deste blog. O verbete, que compartilho aqui com vocês, inaugurará, então, uma nova seção, que deixará disponível textos, artigos e ensaios dos pesquisadores vinculados a este grupo.

Então, aí está.

VERBETE – Literatura Menor

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Um olhar sobre Laub e seus escritores ficcionais

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Por Rodrigo Estevão

Todo último trimestre do ano, a Pró-Reitoria de Pesquisa da UFBA promove um seminário de pesquisa (o SEMPPG) para dar oportunidade aos pesquisadores de apresentarem os trabalhos desenvolvidos. Este ano apresentarei minhas considerações finais (que nunca são tão “finais” assim) a respeito da minha pesquisa desenvolvida em 2013/2014 sobre o escritor Daniel Galera e seus (personagens) escritores ficcionais.

Esse é um momento importante, especialmente para mim, pois na segunda etapa da minha pesquisa, mantenho meus pressupostos, mas mudo o autor. No período 2014/2015, meus olhos, atentos, voltam-se para Michel Laub, porto alegrense que já conta com seis romances publicados. Aliás, em entrevista disponível na internet, o escritor se diz um “novelista que é um contista estendido”, brincando com o fato de seus livros serem vendidos como romances, quando, segundo ele, têm o formato mais próximo do gênero novela.

Na mesma entrevista, conta que considera quase um elogio quando a crítica aponta em seus romances um veio autobiográfico, pois encara essa mistura entre o ficcional e o biográfico como um jogo, já que garante que ninguém conhece muito bem sua vida para se certificar da verdade ou não da presença desses elementos em seus romances

Em seu romance de estreia, Música Anterior,  o narrador-personagem é formado em direito, assim como o próprio Laub. No entanto, lendo a ficção e considerando os depoimentos dados pelo autor em entrevistas, notamos que o dado sofre uma transformação: o narrador-personagem se tornou juiz logo após se formar e fazer concurso público. Em entrevistas, o escritor afirma que  mesmo quando estudava direito, não se via como alguém com vocação  para fazer concurso público, o que o levou a iniciar o curso de jornalismo. Ou seja, à primeira vista, o texto se faz aparentemente autobiográfico, aos poucos, contudo, permite afastar-se dessas marcas.

Talvez por isso o escritor pareça empolgado ao contar que Immaculée Ilibagiza foi uma entrevistada sua e se tornou uma personagem de um dos seus romances. Lendo resenhas a respeito dos livros de Laub, constatei a recorrência dessa representação: o escritor é constantemente evocado na obra de Michel Laub. Traçar os perfis desses escritores ficcionais é uma das propostas da minha pesquisa.

Se o leitor acessar o link que segue abaixo, poderá conferir Michel Laub – ele próprio um autor-personagem?-  atuando na cena literária para falar de si, de sua obra e das demais engrenagens que põem o campo literário a funcionar.

 A Nova Literatura Brasileira – Michel Laub, por Sempre um Papo, em 03/02/2014: https://www.youtube.com/watch?v=moix-A9eoGc

O maravilhoso mundo dos quadrinhos

Por Taís Veloso

Desvendando os quadrinhos é a tradução do livro Understanding comics , de  Scott McCloud, um teórico dos quadrinhos, que foi publicado em 1993 nos EUA pela editora Tundra Publishing e no Brasil em 1995 pela editora M.Books. Trata-se de uma interessante obra metalinguística, já que o livro explora, por meio da própria linguagem em quadrinhos, não só o surgimento dessa arte, mas suas técnicas.

O primeiro capítulo é uma apresentação de como o autor passou a gostar de quadrinhos. Segundo conta, quando criança, achava os quadrinhos nada mais, nada menos que revistas coloridas e idiotas, mas na pré-adolescência,  McCloud se tornou não apenas um leitor assíduo dessas histórias, como decidiu virar desenhista. Parte do que o livro é está anunciado em seu título já que seu conteúdo tentar mostrar em linguagem acessível como funciona essa arte.

Uma das primeiras definições para os quadrinhos aparece na forma de um verbete, logo nos primeiros capítulos do livro: 1. Imagens pictóricas e outras em sequência deliberada destinadas a transmitir informações e ou a produzir uma resposta no espectador.” (MCCLOUD, 2004, p.9) .

McCloud distingue ícones pictóricos de não-pictóricos. A bandeira do Brasil, por exemplo, seria um ícone não-pictórico, já que representa a ideia invisível de uma nacionalidade. Outro exemplo disso seria o símbolo do Yin Yang, que representa uma ideia religiosa e filosófica de dualidade, o que dá à imagem uma possível representação convencional dessa ideia. Apesar de os desenhos dos personagens em quadrinhos serem representações também, são considerados ícones pictóricos pelo autor, pois constituem uma realidade própria ao universo dos quadrinhos, como Tin-Tin ou Charlie Brown, ganhando assim sua “existência de papel”, através dos traços, do próprio desenho.  Assim, o desenho do personagem McCloud representado no livro não está baseado na identidade com o autor empírico, sendo apenas um avatar distanciado dele, uma representação, ou nos termos do livro, um ícone pictórico.

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Uma boa parte do livro dedica-se a pensar na relação entre a palavra e a imagem: “É preciso conhecimento especializado para decodificar os símbolos abstratos da linguagem. Quando as imagens são mais abstraídas da “realidade”, requerem maiores níveis de percepção como as palavras. Quando as palavras são mais audaciosas, mais diretas, requerem níveis inferiores de percepção e são recebidas com mais rapidez como imagens.” (MCCLOUD, 2004, p.49)

O livro interessa não apenas a admiradores ou pesquisadores de quadrinhos como também a atuais e futuros quadrinistas. Nele, podemos encontrar muitas dicas para se fazer um quadrinho, descobrir um estilo ou apenas mudar o olhar de quem vê os desenhos em quadrinhos como uma arte menor.

MCCLOUD, Scott. Desvendando os quadrinhos. M.Books, São Paulo, 2004.

 O autor também mantém um site. Basta clicar em http://scottmccloud.com/