Arquivo do mês: abril 2015

Lemebel e a crônica

Lemebel e a crônica - imagemPedro Lemebel.

Por Eder Porto

“Ligada ao tempo (chrónos), ou melhor, ao seu tempo, a crônica o atravessa por ser um registro poético e muitas vezes irônico, através do que se capta o imaginário coletivo em suas manifestações cotidianas. Polimórfica, ela se utiliza afetivamente do diálogo, do monólogo, da alegoria, da confissão, da entrevista, do verso, da resenha, de personalidades reais, de personagens ficcionais…, afastando-se sempre da mera reprodução dos fatos. E, enquanto literatura, ela capta poeticamente o instante, perenizando-o”.

Considerando a descrição de Angélica Soares (2007), podemos considerar a crônica um gênero fronteiriço.:

Em geral, o que se observa é que a crônica se desloca na fronteira do jornalismo estilizado e da literatura referencialista, enraizando o seu discurso na urbanidade moderna. Centra sua força contingente no instante e no fragmento para dar conta de toda a diagramação “periódica” da urbe, em crise com seus significados e carente de novos significantes e possibilidades de representação.

Pedro Lemebel, escritor chileno performativo, chama a maioria de seus escritos de crônica:

“Eu digo crônica por ter que chamar de alguma coisa, talvez porque não queira delimitar ou cercar meus retalhos escriturais com uma receita que imobilize minha pluma ou a assinale uma categoria literária. Posso querer definir o que faço como um caleidoscópio oscilante, onde cabem todos os gêneros ou subgêneros que possibilitem uma estratégia de escrita, como a biografia, a carta, o testemunho, a canção popular, a oralidade, etc. . Acho que escolhi a escrita pelas distintas possibilidades que me oferece de inventar. Para dizer em linguagem travesti, é como ter o guarda-roupa da Lady Die no computador”.

Podemos conectar essa espécie de amorfia que caracteriza a crônica e, mais especificamente, a crônica escrita por Pedro Lemebel com as reflexões empreendidas por Julio Ramos no seu livro Desencuentros de la Modernidad en América Latina. Aí, o crítico observa o contexto de surgimento da crônica moderna e afirma que o gênero estabeleceu novos padrões de criação para Literatura. Na crônica de Lemebel, por exemplo, pode-se observar a justaposição fragmentária dos despojos capitalistas na percepção do caos citadino, tal como realça Ramos em sua argumentação. Nas crônicas de Lemebel, é fácil perceber a presença de personagens empurrados para as margens, que desafiam a ordem estético-moral de uma fantasiosa integridade urbana. Também é possível vislumbrar uma representação da cidade que quer virar pelo avesso a lógica do consumo e do mercado – uma “retórica da vitrine” que insiste em expôr o que não tem valor ou que não é passível de ser exibido, segundo os critérios daquela mesma lógica-, constituindo-se o narrador a partir de uma atitude flaneur e convidando o leitor a olhar Santiago a partir dos seus espectros socialmente obliterados.

Abaixo, segue um trecho traduzido por mim da crônica “La loca del carrito (o el trazo casual de un peregrino frenesí)”. Aí podemos perceber que a maleabilidade do gênero acopla-se ao olhar escrutinador do narrador, atiçando a atenção do leitor:

“Ali, pela rua Lira, Carmen ou Portugal, perto do antes glorioso bairro de prostituição travesti San Camilo, sua silhueta desmantelada desequilibra a lógica do apressado transeunte em hora de almoço. Ou melhor, é um reflexo onde o olhar do bom cidadão desconhece com rubor, na desordem de sua peregrina paródia sexual. A bicha do carrinho conduz o seu bote de supermercado colecionando cacarecos que Santiago dejeta em sua flamante modernidade. Por aí agarra uma boneca sem braço, a veste com ternura, pondo-a em sua barca rodoviária. Por aquí se encanta por trapo desfiado que recicla como lenço de cabeça. Com o paninho amarrado em seu queijo sem barbear, toda uma velhinha camponesa ou uma grotesca Mãe da Praça de Maio, desaparece do fragor do tráfico, deixando seu alucinado delírio como uma estampa irreal que esfumaça entre as buzinas neuróticas do Centro.”

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Lísias, Delegado Tobias, e-books e facebook

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 Por Marília Costa

O contexto das novas tecnologias reconfigura o sujeito contemporâneo de modo que torna o ambiente propício para o retorno do autor. Atualmente existe uma grande valorização da intimidade, uma obsessão pelo vivido.  Todo mundo tem um perfil na internet onde publica informações a respeito da sua intimidade. Os autores criam histórias a respeito das suas vidas que não são necessariamente reais. É um jogo de influências, o personagem empírico fabrica a figura autoral estimulando poses e a criação de mitos.

Além de produzir biografias, autobiografias, memórias, diários íntimos, os autores participam de entrevistas, contam histórias de vida e expõem a intimidade fazendo relação com suas obras, construindo imagens de si mesmos a partir de um jogo de identidades cênicas e fragmentadas.  O escritor cria várias performances de si mesmo, deste modo, as intervenções do escritor não devem ser consideradas como expressões de uma interioridade ou de experiências pessoais, mas como narrativas que tecem identidades sempre em processo.

O conjunto de narrativas intituladas Delegado Tobias que Ricardo Lísias, autor da literatura contemporânea brasileira, vem publicando em e-book é um exemplo digno de validar os pressupostos acima, concernentes aos veículos midiáticos serem usados pelos autores para criar personas, divulgar suas obras e fazer das redes sociais um suporte de divulgação de suas publicações.

Podemos dizer que a série de narrativas Delegado Tobias é autoficcional, pois traz à tona elementos da vida do autor que dialogam com acontecimentos imaginários. Contudo, o leitor comum pode confundir-se num primeiro momento quanto aos limites entre a ficção e a realidade, devido ao excesso de personagens “reais” como críticos, editores e professores de Literatura mencionados nas narrativas. Encontramos, ainda, o próprio Lísias, que aparece como autor e personagem, assassino e assassinado.

Mas há mais:  após publicar na forma de e-book a série intitulada Delegado Tobias, (à venda nos sites das principais livrarias, como Cultura e Saraiva), Lísias publica também em sua rede social o que ele mesmo chama de um último capítulo da série, intitulado “Os Documentos do Inquérito”. Trata-se do perfil fictício de um delegado criado numa rede social alimentada por editores e por um autor lançando notícias falsas que dialogam com situações e personagens que podem ser encontrados na série narrativa vendida em e-book.

Acompanhando as produções recentes de Ricardo Lísias, o leitor depara-se não somente com uma história inventada, mas reconhece no texto autoficcional características de personagens ou fatos que refletem informações vinculadas à própria pessoa do autor. Essa relação entre produção narrativa e produção de si é estimulada pelo jogo entre a publicação da ficção (da autoficção) e da intensa participação do autor em suas redes sociais.

Podemos concordar, então, com Ana Claudia Viegas, quando afirma que  “assistimos hoje a um ‘retorno do autor’, não como origem e explicação última da obra, mas como personagem do espaço público midiático” (VIEGAS, 2007: 15).