Arquivo da categoria: Bruno Tolentino

No Xangrilá das abstrações

Por Nívia Maria Santos Silva

 

tolentino livro

Xangrilá, ou Shangri-la, é uma cidade fictícia criada por James Hilton em seu livro “Horizonte perdido” (1933), uma espécie de paraíso perdido, inspirado em Shambhala. Situada entre muitos desfiladeiros do Tibet, a bela cidade é um local de difícil acesso, poucas pessoas conhecem o caminho entre as montanhas, o que significa que aqueles que são levados até lá não possuem a possibilidade de sair de lá, a não ser que sejam guiados. No romance de Hilton, as personagens que fugiam da guerra tiveram a rota de seu avião alterada até caírem, sendo socorridos por lamas que os levam para Xangrilá. Todos são muito bem recebidos, mas a recepção amistosa e benevolente não os tira da condição de “prisioneiros” daquela terra oculta, sedutora e, sobretudo, repleta de promessas.

Bruno Tolentino se remete a essa cidade acolhedora, mas ao mesmo tempo ilusória, ao se utilizar da expressão “Xangrilá das abstrações”, em seu texto-ensaio-prefácio “O cego nu: um exórdio”. Para ele, é nesse lugar de encantos e ilusão que vai parar tudo o que se “propõe a traduzir o mundo numa exatidão de teorema que termina por conceitualizá-lo […] esvaziando-o de todo sentido”. Inspirado principalmente no pensamento de Ives Bonnefoy, a quem chama de mestre, os dez textos distribuídos nas mais de 70 páginas que formam o prefácio do livro O mundo como ideia (2002) se esforçam na defesa do que Tolentino chama de “mundo-como-tal”, ou seja, o acesso ao mundo sem a interferência das “muralhas de conceitos”, que insistem em intermediar nosso contato com “os dados brutos do real”, desfigurando-o. Estar no “Xangrilá das abstrações” seria, então, nem perceber que se está trocando o mundo-como-tal pelo mundo-como-ideia, um mundo limitado e reduzido, mediado por conceitos que “paralisam o prazer”.

Partindo desse pensamento, Tolentino se coloca contrário às teorias que tentam mediar a experiência do ser-no-mundo, assim como aquelas que se interpõem entre o sujeito e a experiência estética, trocando-a por um “jogo de conceitos” que leva “A notória embriaguez formal da arte pura” e a consequente substituição da “intuição do ser pelo número” e da substância pela ideia. O pensamento que atravessa os textos preliminares de O mundo como ideia retoma e adensa o discurso crítico de Tolentino, divulgado antes em sua atuação polêmica no campo literário brasileiro, tanto por meio de suas intervenções no jornalismo cultural quanto por meio do híbrido e satírico Os sapos de ontem. Escrito ao longo de 40 anos, o livro se apresenta como o zênite do programa poético tolentiniano, que o poeta qualifica como um “projeto em mim”, uma ars poetica, um “arrazoado em defesa do real”.

Na prática, esses ensaios fundamentam especulativamente sua postura antiformalista, antimarxista, antiestruturalista, antivanguardista, antidesconstrutivista, mesmo sem citar diretamente nenhum desses “ismos”, como faz de forma reiterada e explícita em sua produção polêmica. Juntando o quebra cabeças, todos os “ismos” para Tolentino são formas de ceder “a tirania tentadora do conceito”, como a que ele chama de “utopia formalista”. As teorias seduzem e aprisionam agindo de forma totalitarista, uma vez que funcionam como uma patrulha, como se a arte tivesse que ser realizada de determinada maneira para atender anseios que nem sempre são os anseios de seu produtor, provocando uma indesejada inversão entre os fins e os meios.

A postura tolentiniana pode ser facilmente classificada como antiacadêmica e conservadora, no entanto, há de se levar em consideração suas colocações principalmente quando percebemos que seu movimento não é uma reação isolada nem apenas vinda de fora da academia, mas um comportamento que vem tendo adesão de nomes consolidados do campo acadêmico. É inescapável não relacionar o ponto de vista tolentiniano com livros como os de Todorov, A literatura em perigo (2007), e Gumbrecht, Atmosfera, ambiência, Stimmung: sobre o potencial oculto da literatura (2011).

Depois de se tornar um dos nomes de referência do Estruturalismo, Todorov passou a defender a ideia de que a imanência estruturalista e outras teorias fizeram com que triunfasse “uma concepção absurdamente reduzida do literário”, colaborando para o afastamento entre a obra literária e o mundo. Para ele, “Todos os ‘métodos’ são bons, desde que continuem a ser meios, em vez de se tornarem fins em si mesmos”. Em seu livro, essa postura se soma a afirmações do tipo: “A função da literatura é criar, a partir do material bruto da existência real, um mundo […] mais verdadeiro” e “Ela nos proporciona sensações insubstituíveis que fazem o mundo real se tornar mais pleno de sentido e mais belo.”.

Gumbrecht, por sua vez, supera, sobretudo, o desconstrutivismo e os estudos culturais, e parte do pressuposto de que “Em termos conceituais, tudo fica mais complicado”. Ele nos propõe uma terceira via: ler em busca do Stimmung, grosso modo, da sensação. Sobrepor a sensação à interpretação seria valorizar a experiência imediata da obra literária. Ou seja, uma experiência de leitura deve se dar sem a mediação dos conceitos/teorias que leem as obras “como se elas se propusessem enquanto alegorias de argumentos ou agendas filosóficas.” Sua particularidade é que para ele a arte não busca a verdade, a arte existe enquanto presença e não representação.

Dentro das peculiaridades de cada um, os três apresentam como ponto em comum o colocar-se contra a substituição da literatura/arte pelas teorias/conceitos. O que leva então a essa interseção? Esse cruzamento de posturas entre o poeta brasileiro, o filósofo búlgaro e o crítico alemão se retroalimenta apenas do repetitivo discurso da crise ou registra certo cansaço e/ou insuficiência da teoria? Tolentino se reconheceu como um dos “prisioneiros” seduzidos no “Xangrilá das abstrações” em busca de sua “filosofia da forma” e se colocou como aquele que, estando lá, procura apontar a saída, a “diagnose e cura”. O tom de Todorov e de Gumbrecht também parece ser daquele que aponta uma solução. Enquanto não conseguimos perceber direito para onde eles apontam, as teorias vão nos auxiliando a entender melhor suas proposições.

Das Booty: Se non è vero, è ben trovato

Por Nívia Maria Santos Silva

Um, professor e intelectual. Outro, aluno e esportista. Um, carioca. Outro, londrino. Um, com a cabeça nos astros. Outro, com os pés no chão. Um, verborrágico e eloquente. Outro, calado e ponderado. Um, erudito. Outro, pop. Ambos amantes e poetas. Diferentes e complementares, mas, sobretudo, imprevisíveis. Lúcio e Shyno são duas personagens improváveis do livro Das Booty, que, companheiros e amantes por mais de uma década, lançaram-se numa aventura marítima na qual parecem ser mais críveis as licenças poéticas do que aquilo que pretende ser a “recriação imaginativa de fatos reais”.

 

A própria capa do livro traz o aviso: “Um verdadeiro conto de contrabando, vudu e poesia”. Um exercício de ambiguidades que é intensificado ainda mais na versão brasileira, na qual encontramos o nome “Bruno Tolentino” estampado e o destaque da informação: “Uma história real”. O autor problematiza mais a questão quando faz a ressalva: “mas não uma reportagem”. Mais do que de Pringle, é de Tolentino essa história, é ele o homenageado do livro e muitas das situações vividas pelos personagens fazem parte da biografia do poeta.  Inclusive, é dele a fotografia da capa.

 

O autor, Simon Pringle, britânico, formado em Letras, poeta não praticante, ex-vendedor, publicitário etc., tem em Das Booty o seu primeiro romance, gerado justamente porque tinha uma grande história para contar. E a história é a seguinte: indivíduos cheios de trejeitos, que são verdadeiras caricaturas de si mesmos, “Dois ex-presidiários, um aleijado, um par de sodomitas e um sujeito metido a californiano”, unem-se numa missão nem um pouco lícita: transportar haxixe de barco do Marrocos para a Espanha e seguir por terra até a Inglaterra. Já no primeiro capítulo, os integrantes dessa quadrilha são apresentados como “A turma da prensada”, para ser mais exata “uns 130 kilos, prensado de primeira”, numa referência à droga com a qual fariam o serviço de mula. Até o quinto capítulo, o plano de ação já estava todo bolado.

 

Tolentino-Lúcio é o mentor intelectual do crime. Além disso, foi apresentado no livro como gourmet, jogador de futebol, bailarino, boxeador, bruxo, poliglota, navegador, cantor, um homem de múltiplas habilidades, não só linguísticas ou intelectuais. Em meio a todas essas atividades/talentos, é apresentado como poeta: “Shyno sempre ficava perplexo por ele ser capaz de fazer poesias em meio a circunstâncias mais impropícias”.

 

A história é uma aventura marítima, mas a viagem era o modo de Lúcio “Restabelecer seu amor propre”, o que faz o relacionamento amoroso dos poetas, embora não explorado, ser um ponto nuclear da trama, pois foi pela necessidade de reaver o encanto entre eles, que Lúcio e Shyno se lançaram rumo ao desconhecido. Esse era “o único jogo que realmente era importante”.

 

Percebo outro jogo aí em exercício, um jogo de figurações. Vejo Das booty como um discurso que colabora para uma certa imagem do poeta, um retrato de Bruno Tolentino  em diálogo ambivalente com uma autofiguração laboriosamente trabalhada pelo próprio Tolentino. À sua imagem de poeta católico e conservador, são acrescidas a sua mitomania patológica, a sua “hipocondria cosmológica”, a sua paixão homoafetiva e aventureira. Paradoxalmente, saber que muito do mundo que ele nos apresenta não se realizou apenas textualmente torna a narrativa mais fantástica e sua figuração mais múltipla e complexa. Afinal, não é todo dia que se vê dois poetas, amantes, fazendo parte do “grupo mais improvável de traficantes internacionais”.

 

 

PRINGLE, Simon. Das Booty: candomblé, tráfico e poesia. Uma história real. Tradução Pedro Sette-Câmera. São Paulo: É Realizações, 2015.

 

O eu lírico e os outros eus II

Por Nívia Maria Santos Silva

blog

Crédito da imagem: Roman Rockwell

No último texto que produzi para este blog, eu falava do impasse em aceitar o narrador e o eu lírico apenas como elementos formais ou concordar com certa identidade deles com o eu empírico que escreve. Problematizei a questão afirmando que, ao trabalhar a obra tolentiana, reconhecer a identidade entre o eu lírico e o eu do poeta ainda não é admitir uma identidade entre eles e o eu empírico. Como prometi melhores esclarecimentos, vamos a eles.

Eu, o poeta Bruno Tolentino,

Porque nunca me dei com tiranos

Nem com títeres, vivi ao léu,

E perambulei anos e anos

Em território alheio inglês,

Francês, yanque, italiano

Etc&tal.. […] (TOLENTINO, 1995, p. 259)

Se poemas como o “Poema de sete faces”, de Drummond, no qual ele chega a evocar seu nome e o que é associado a um traço de sua personalidade (“Vai, Carlos! ser gauche na vida.”) e como o “Autorretrato”, de Bandeira, no qual ele se descreve (“Arquiteto falhado, músico/Falhado (engoliu um dia o piano, mas o teclado/Ficou de fora”), sugerem uma relação direta do conteúdo do poema com a pessoa empírica que  escreve, seja pelo nome seja pela concordância com a biografia do poeta, no fragmento do poema supracitado, a correspondência parece completa: “Eu, poeta Bruno Tolentino,”. O aposto, além de revelar nome e sobrenome daquele que escreve, nos indica a sua função social, “poeta”, como se o sujeito da enunciação e o sujeito enunciado configurassem uma só persona. Essa mescla confirma-se quando passamos investigativamente do poema para a biografia. Tolentino de fato perambulou “anos e anos/Em território alheio”. Constatações como essa parecem endossar a axiomática frase borgeana: “Toda literatura é autobiográfica”.

O trecho foi retirado do poema “A torre cabocla”, mais precisamente da terceira parte do livro “Os deuses de hoje”, chamada “Na terra provisória”. Essa última seção apresenta tom sugestivamente confessional. Tolentino chegou a afirmar que “Os deuses de hoje” é o “único livro em que, de verdade, falo de mim, sou sempre Eu que estou presente.”. Mas quem é este “eu” presente de verdade? Qual é esta verdade? Ela é possível? Qual seria o “eu” dos demais livros de Tolentino?

Pensar na aproximação entre o sujeito que fala no texto literário e seu autor remete-nos a uma discussão importante para a teoria literária: a questão da representação da realidade pela literatura. Ver a obra literária como um locus no qual se pode depreender uma realidade objetiva, apostar na impossibilidade/dispensabilidade disso ou ainda assegurar a representação como uma reinvenção dessa realidade, são algumas alternativas entre outras já apresentadas por pensadores que se debruçaram sobre o fenômeno literário (Platão, Aristóteles, Barthes, Foucault, Deleuze, Auerbach…). A escolha de um desses caminhos incide, principalmente, sobre o próprio conceito de literatura que se quer defender.

A questão é que todos eles apresentam bons rendimentos em suas controvérsias e a maneira como a realidade é reproduzida/dispensada/negada/reinventada no texto literário parece não se dar de um só modo, mas aparece manifesta de forma variada, tendo que ser estudada caso a caso já que assim como os teóricos, acreditamos que os poetas também ao produzirem sua obra poética se empenham em legitimar um conceito de literatura e lidam com o estatuto da representação de forma dissemelhante.

Em Tolentino, apostamos que a representação do sujeito poético é instituída por meio de um investimento autofigurativo. A divisão entre o eu poético e o eu empírico não se dá por meio de uma identidade inconteste nem de uma polarização dicotômica, mas se encerra em um movimento tripartido, no qual entre eles está a figura do poeta, que, como diria Premat, “é uma figura distinta do eu”. Daí a escolha pelo “Triple self portrait”, de Roman Rockwell, para ilustrar esta postagem. Ele não apresenta apenas três autorretratos simultâneos e em diferentes ângulos, mas vários se considerarmos os estudos presos à pintura que ainda nos traz outros autorretratos que parecem informar suas influências: Durer, Rembrandt, Picasso, Van Gogh. O “eu”do poema tolentiano é esse eu tripartido e fragmentado em várias referências.

Penso que existe um espaço entre a pessoa física do poeta e a sua biografia que é suscetível de ser preenchido pelo empenho do próprio autor na formação de uma imagem de si. A interpretação que traz de si mesmo (“Porque nunca me dei com tiranos/Nem com títeres, vivi ao léu,”) pretende ser uma mediação entre esse eu e o público leitor. É a essa imagem modulada que o eu poético se associa e se revela, o que significa dizer que aproximar o eu poético do eu do poeta ainda não é aproximá-lo do eu empírico. O poeta é ele também uma obra, uma construção ficcional do sujeito que tenta interferir na figuração que a recepção (leitores e críticos) fará de si. No caso de Tolentino, esse investimento não está presente apenas em “Os deuses de hoje”, onde o eu poético promete ser e se apresenta nominalmente como sendo o próprio poeta, mas também em outros como “As horas de Katharina”, no qual o eu lírico é uma freira, ou em “A balada do cárcere”, no qual o eu lírico é um prisioneiro assassino, ou mesmo em “Os sapos de ontem”, no qual o eu satírico se apresenta como um poeta incompreendido e isolado esteticamente.

A autofiguração, que nem sempre é deliberada ou consciente, é a ponte que une a atuação autoral, tanto literária quanto extraliterária, à representação que se faz do autor. Todos esses eus, a freira enclausurada, o prisioneiro e o poeta distante de sua pátria, investem na imagem do exílio (banimento, degredo, desterro), que é recorrente não só em seus versos (“Sei que duro é o exílio e que difícil/a arte de, nos pulsos tendo algemas,/escalar pedra a pedra o precipício.”), mas também em suas entrevistas e biografia (“1964 – Com o golpe militar no Brasil, parte para Europa.”), e acabam por abonar sua imagem de poeta exilado/isolado em seu sentido literal e conotativo. Em outras palavras, esse “eu” representado é, a nosso ver, fruto da gestação de uma autoimagem. Isso é o que chamamos de autofiguração, que não é a representação em si, mas o processo de construção dessa representação que não é definitiva nem estável.

Mais que isso, acredito que, ao apontar constantemente para a figura do poeta não só nos poemas em si, mas também em meio a epígrafes, datas, lugares, prefácios e posfácios, ou seja, ao deixar obsessivamente traços de sua escritura, oferecendo pistas para uma possível figuração, ao mesmo tempo em que tem uma exposição excessiva no campo literário, Tolentino não investe apenas particularmente na construção de sua imagem de poeta, mas de forma mais ampla na recuperação da importância da imagem de autor, colocando-a em evidência, empenhando-se contra o que ele chama de “teorizador ‘aprisionado’ nas ideologias formalistas”. Esse duplo movimento que a autofiguração deixa descoberto é um posicionamento crítico que traz o autor de novo à cena literária e se mostra importante para pensar seu lugar na poesia contemporânea.

Um projeto editorial para Bruno Tolentino

Por Nívia Maria

A balada do cárcere

Bruno Tolentino

1ª ed. comentada.

Record, 2016.

Mais de 20 anos depois do primeiro lançamento, o livro A balada do cárcere de Bruno Tolentino conta agora com uma edição comentada. O título é uma alusão à obra quase homônima de Oscar Wilde, A balada do cárcere de Reading, e também foi produzida durante e a partir da experiência da prisão vivida pelo autor.

capa capa1

Nesta nova edição, a capa de Victor Burton, produzida sobre detalhe de A degolação de São João Batista de Caravaggio, foi substituída pelo design de capa de Marcelo Girard, uma decisão que muito contrastou com os modelos de capa dos livros de Tolentino, geralmente, com referências a obras pictóricas consagradas (como ocorre em O mundo como ideia e Imitação do amanhecer). Quem conhece outras obras tolentianas pode estranhar o tom menos presunçoso da nova capa, suas cores e fontes, mas seu aspecto menos solene é uma das apostas editorias para aproximar mais a obra de Tolentino do leitor contemporâneo.

Neste novo lançamento, há um cuidado, sobretudo didático, com o leitor. A começar pela nota introdutória e explicativa dos organizadores, seguida pelo texto “Escrito nas estrelas” de Érico Nogueira. Já publicado anteriormente em formato de artigo na revista CESP, sob o título de “Bruno Tolentino e a poética classicizante: o caso de ‘A balada do cárcere’”, esse texto de Nogueira aparece com algumas alterações e funciona como um “guia” para a leitura da obra. Podemos notar as intitulações diferentes, agora mais diretas, para cada uma de suas seções: “Classicismo pós-cabralino”, por exemplo, vira “A poética”. É possível perceber também o acréscimo de uma parte inicial, chamada “O cárcere”, na qual Nogueira contextualiza os leitores com pormenores sobre a prisão de Tolentino, informando-lhes as circunstâncias a partir das quais o livro foi escrito. Seus parágrafos finais também foram modificados, ganhando um tom mais pessoal.

Além disso, há muitas notas de Juliana Pasquarele Perez e Jessé de Almeida Primo, as quais intentam auxiliar o leitor a atravessar o entroncamento de referências a poetas, músicos, poemas, libretos, mitologias presentes em cada página. Em 2010, a Record já tinha recorrido a expediente semelhante ao publicar uma edição comentada de As horas de Katharina. É um movimento que relança a obra, recolocando-a no mercado e direcionando-a “tanto aos leitores que desejam conhecer a obra de Bruno Tolentino quanto aos que conhecem e querem aprofundar sua leitura”, como afirma a nota dos organizadores, Guilherme Malzoni Rabelo, Martim Vasques Cunha e Renato José de Moraes.

A nova publicação ainda manteve o prefácio e os posfácios escritos por Tolentino para o livro de 1996. Por meio deles, o leitor encontra um tanto das polêmicas nas quais Tolentino se envolveu. Não à toa, Érico Nogueira situa A balada do cárcere “como a mais consciente resposta do autor” à sua querela com Augusto de Campos. No prefácio, “Da quod jubes, Domine”, por exemplo, o autor, além de falar sobre o “number-maniac”, que inspirou sua criação ficcional, se encarrega também de explanar sobre “a distância expressiva entre o texto de um poema e as palavras de uma canção”.  Ideia reforçada pelos dois textos que integram o posfácio da edição anterior, “Dj & Déjà vu” e “As joias e as cartas de amor”, publicados no Apêndice desta nova edição, no qual podemos encontrar também um glossário, referências bibliográficas, mais notas e observações.

Com um texto de orelha que coloca Tolentino no “topo da modernidade literária brasileira”, a edição comentada de A balada do cárcere é um exemplo do esforço empreendido por seus organizadores, não só para elucidar mais a obra tolentiana e seu projeto poético, mas, sobretudo, para que novos leitores possam ser formados, ou melhor, “para que o leitor descubra a poesia de Bruno Tolentino”.

A apresentação de Érico Nogueira ao livro pode ser lida na íntegra aqui: http://www.record.com.br/images/livros/capitulo_3NKiAt.pdf

Quem quiser conhecer melhor a verve polêmica de Bruno Tolentino pode acessar: http://www.inventario.ufba.br/16/05%20Bruno%20Tolentino.pdf

Um sítio para chamar de seu

Por Nívia Maria Santos Silva

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Para aqueles que não podem se deslocar até o CEDAE da UNICAMP para consultar o Fundo Bruno Tolentino, é bom saber que, desde 2012, o poeta carioca tem um sítio para chamar de seu. Lá podem se inteirar sobre muito de sua vida e de sua obra, assim como de sua fortuna crítica, entrevistas e notícias. O site https://brtolentino.wordpress.com/, editado por Leonardo Oliveira, é muito bem organizado e apresenta um conteúdo rico que vai de uma galeria de fotos até as produções críticas do poeta e sobre o poeta.

Na página PRODUÇÃO CRÍTICA E TEÓRICA, há muitos links que nos direcionam para os textos que Tolentino escreveu para veículos diversos, sobretudo, para a Revista Bravo!, na qual atuou com frequência, principalmente, de 1997 a 2000. Entre ensaios e resenhas (como “A lorota de Ipanema”, na qual criticava o lançamento do livro A teus pés, polemizando, já em 1998, com a agora homenageada pela FLIP, Ana Cristina Cesar), encontramos as transcrições de suas palestras e das três últimas aulas de Bruno Tolentino, ministradas em maio de 2007, menos de um mês antes de sua morte, editadas por Guilherme Malzoni Rabello sob o título de “Do enigma ao mistério”.

A FORTUNA CRÍTICA também é expressiva, contando com textos que expressam críticas nem sempre positivas sobre o poeta como o “A história como múmia: sobre a poesia de Bruno Tolentino” ou “Tolentino recusa a modernidade e pregacontrareformapoética”, ambos de Marcos Siscar. Além disso, há links para dois textos publicados aqui no Leituras Contemporâneas: “Bruno Tolentino: uma ideia de poesia” e “Os Sapos de Ontem: a polêmica como tomada de posição, o que mostra como os responsáveis pelo sítio estão atentos ao que vem sendo produzido sobre a produção do autor.

Não poderia deixar de indicar as ENTREVISTAS. Está lá na íntegra a controversa entrevista concedida à revista Veja em 1996, “Quero meu país de volta”. Convido também a não sair de lá sem dar uma passada pela, como o próprio Tolentino dizia, “cinematográfica” cronologia, que, com certeza, sofrerá mudanças com o lançamento de sua biografia, ainda sem data prevista para o lançamento e a cargo de Pedro Sette-Câmara.

Mas imprescindível mesmo é a página de POESIA. Lá, Leonardo Oliveira teve o cuidado de colocar cada uma das obras de Tolentino, as publicadas somente no exterior ou mesmo Infinito Sul (1957) que não costuma aparecer na bibliografia oficial do poeta. É possível também clicar sobre o nome dos livros e conhecer a capa, o número de páginas, os prêmios que recebeu e, mais importante, o sumário que dá uma ideia do conteúdo de cada obra.

O sítio é todo interessante, apresenta, de fato, um painel geral para os curiosos e para os pesquisadores, para os que conhecem ou pretendem começar a conhecer o poeta Bruno Tolentino. Quando tiver navegando por aí, então, faz uma visita: https://brtolentino.wordpress.com/.

 

Pesquisa: uma aventura autorreflexiva

Por Nívia Maria Santos Silva

Muitas vezes, em nossa ânsia por encontrar uma fundamentação teórica perfeita para nossos objetos de pesquisa, vemo-nos inclinados a aplicar em nossos estudos conceitos operatórios que se encaixam com as nossas necessidades científicas e, assim, acabamos por promover um uso automático e engessado de teorias as quais passamos a defender indiscutivelmente como se tivéssemos nelas uma crença quase sagrada, fazendo delas o porto seguro de nossas ideias, a fim de confirmar nossas conclusões, as quais, em ocasiões várias, são tomadas antes mesmo de o trabalho ter sido executado.

Tal procedimento, todavia, conduz a uma espécie de cegueira intelectual com a qual não conseguimos perceber que uma pesquisa não deve buscar apenas aquilo que nela parece se encaixar. Imprescindível é lembrar que os conceitos operatórios não são imutáveis nem insubstituíveis e as teorias não anunciam verdades absolutas. Por isso, não devem ser tratadas de forma doutrinária como se o que proferem fosse insuperável e nem os seus teóricos devem ser seguidos dogmaticamente e defendidos com fervor muito próximo ao religioso.

Não é a fé que deve conduzir o pesquisador, mas a visão crítica, a capacidade analítica e, obviamente, a pesquisa propriamente dita, que não se limita a levantar informações e obter conhecimentos, mas abarca, sobretudo, ter critérios para selecioná-los, filtrá-los, relacioná-los, reelaborá-los, até mesmo, mostrar-lhes as fragilidades e, por que não, dispensá-los parcial ou totalmente.

Essa postura crítica e reflexiva não é fácil e exige, especialmente, que o pesquisador saía da zona de conforto e perca um pouco (ou muito) de suas certezas, o que pode levá-lo a recuar, mas também a realizar um trabalho mais apurado e importante para comunidade acadêmica e a sociedade em geral.

Cabe ao pesquisador se apropriar sim, mas também refutar, reformular, criar e, dessa forma, fazer surgir novos pontos de vista. É assim que surgem novas teorias que, por sua vez, serão revisitadas e a partir delas gerados novos conhecimentos e conceitos. O exame da teoria escolhida pode, por si, mostrar fissuras que alargam as possibilidades de surgirem novos resultados, o que torna a pesquisa uma empresa extraordinária, imprevisível e fértil.

Essa conduta combativa é como a de um aventureiro prestes a se entregar a um feito perigoso e sem um fim previsível que, inclusive, pode deixar sequelas irreversíveis. Revisitar os conceitos operatórios que o dirigem e se lançar na empreitada de reexaminar a teoria escolhida para nortear seus estudos e estabelecer sua tese é aceitar esse desafio. Para tanto, o pesquisador tem que se jogar de parapente da encosta montanhosa e rígida na qual se apoiava e se deixar conduzir, autorreflexivamente, pelos ventos da seguinte questão: quais são os limites da fundamentação teórica que me orienta?

Bruno Tolentino: o ilustre desconhecido

Por Nívia Maria Santos Silva

Você já ouviu falar em Bruno Tolentino? Poeta, ensaísta e tradutor brasileiro, Bruno Tolentino marcou o debate literário no último quartel do século XX e nos fez lembrar que os domínios da literatura são compostos por conflitos não só literários, mas, principalmente, ideológicos e eletivos.

Nascido no Rio de Janeiro em 12 de novembro de 1940 e dono de uma “personalidade solar” – como dissera o crítico Claudio Leal (1) –, esse carioca arrebatou o prêmio Revelação do Autor (em 1960), Casimiro de Abreu (em 1974), Cruz e Souza (em 1995), Abgar Renault (em 1996), Senador Ermírio de Moraes (em 2003) e não um nem dois, mas três prêmios Jabuti (em 1995, 2003 e 2007).

Lançou livros não só no Brasil, mas na França e na Inglaterra. Viveu 30 anos na Europa onde foi editor da Oxford Poetry Now, amigo de grandes nomes da literatura mundial e prisioneiro por 22 meses em Dartmoor. Voltando a terras brasileiras na década de 90 do século passado, foi editor da Revista República e principal crítico dos poetas concretistas (e afins), contra quem disparou toda sua verve polemista pelos quatros cantos da Literatura Brasileira.

Sobretudo, tanto aqui quanto lá, foi poeta, e poeta de um lirismo franco e intelectualizado. Com seus metros alexandrinos, seus sonetos e a terza rima a la Dante, trouxe de volta, nas palavras de Arnaldo Jabor (2), a “peste clássica”. Defensor do “mundo como tal”, declarava combater o “mundo como ideia” e encontrava nesse embate a justificativa para o seu fazer poético.

BRUNO TOLETINO FOTO

Alvos de minhas pesquisas, Tolentino e sua posição combatente no campo de produção cultural são objetos de investigação de minha tese de doutorado. Nela, parto do pressuposto que as declarações de Bruno, suas entrevistas e, até mesmo, os seus livros, mais explicitamente o livro Os sapos de ontem, são “tomadas de posição” que partem de seu “capital simbólico”, “capital social” e “capital cultural” para confrontar o já estabelecido no campo literário brasileiro.

Conheci-o pessoalmente em 2001, faleceu em 2007. Dono de uma memória privilegiada, de um vasto conhecimento literário e de um humor ácido e envolvente, Bruno Tolentino é aquele tipo de poeta de belos poemas e muita história para contar.

Mas, por enquanto, continua sendo aquele ilustre desconhecido.

Para conhecer não só suas poesias, mas também a produção crítica, as traduções de Bruno Tolentino e muito do que a crítica especializada escreveu sobre ele, vale ir ao sítio:  Tolentino.

(1) LEAL, Claudio. Bruno Tolentino, o poeta silenciado. Disponível em http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1812105-EI6595,00.html Acesso em 10 maio 2014.

(2) O texto de Arnaldo Jabor, Tolentino traz de volta a peste clássica que foi publicado no jornal Folha de São Paulo em 19 de julho de 1994, está reproduzido na íntegra na contracapa do livro Os sapos de ontem (TOLENTINO, Bruno. Os sapos de ontem. Rio de Janeiro: Editora Diadorim, 1995)