Arquivo do mês: abril 2022

Representação social e literária sobre HIV/aids e as minorias de direito

Ramon Amorim

Créditos da imagem: Camila Alvite (Janus, 2019)

Ao longo de minha investigação sobre a representação do HIV/aids na literatura brasileira, é notável a ausência de produções de autoria feminina sobre o tema, bem como a limitada presença de personagens femininos nas narrativas literárias sobre HIV/aids. Esse é um reflexo do ainda pouco expressivo número de obras, lançadas por editoras de relevo e assinadas por minorias de direitos, como mulheres, pessoas negras etc. Quando me questiono sobre o modo que o tema da minha pesquisa aparece nas narrativas, surge ainda um outro problema que diz respeito a como a literatura pode também confirmar uma certa representação social do vírus e da doença, já que a maioria das narrativas sobre essa temática tem como personagens homens gays brancos jovens.

As pesquisas, porém, mostram outros dados. Nas primeiras décadas dos anos 2000, a Agência AIDS identificou que pelo menos 25% do total de casos notificados são de pacientes mulheres e, segundo dados do Boletim Epidemiológico de 2020, em 2009, a cada 15 homens diagnosticados com HIV, 10 mulheres recebiam o mesmo diagnóstico. Também a partir dos primeiros anos deste século, ainda segundo esse documento, a epidemia de HIV/aids tem alcançado um contingente de pessoas cada vez mais pobres. Essa dinâmica aponta, pela história da organização social do Brasil, de forma paralela, para o aumento do número de diagnósticos na população preta e parda, principalmente, feminina.

Diante desse cenário, é preciso questionar os motivos pelos quais a literatura ainda não se afastou daquela identidade social plasmada sobre os sujeitos com HIV/aids. Será que a conhecida desproporção histórica no número de produções literárias de autoria feminina em relação às de autoria masculina é suficiente para explicar a manutenção de um viés representacional para HIV/aids nas narrativas que reiteram preconceitos surgidos no momento da descoberta do vírus e da doença? Dizendo de outra forma: seria possível pensar que a reiterada representação literária de personagens homens brancos jovens gays com HIV e/ou aids é apenas uma consequência da forma como nosso campo literário está estruturado? Embora essa possa ser uma possibilidade concreta, acredito que é possível investir em outra hipótese.

Apesar de a investigação científica ter avançado sobre o conhecimento do vírus, proporcionando tratamentos mais efetivos para o mesmo e verificando mudanças nos perfis dos sujeitos afetados, a representação social avançou pouco, pois ainda é muito comum no imaginário social a associação entre HIV/aids e homens gays. A literatura, como parte da cultura, também produz, reitera ou cria representações sociais. Se em narrativas de autoria masculina que abordam o tema, ainda é muito comum encontrar homens gays como protagonistas, narrativas brasileiras que tematizam o HIV/aids escritas por mulheres como Depois daquela viagem, de Valéria Polizzi, e O voo da guará vermelha, de Maria Valéria Rezende, ainda associam o vírus e a doença à infelicidade, à decadência física dos portadores e à morte iminente.

Autoficção: as tensões para além do conceito

João Matos

Créditos da imagem: Maurizio Cattelan Il Super Noi in 50 parts, 1998

 Em outras oportunidades, publiquei aqui mesmo no blog do Leituras Contemporâneas que um dos principais objetivos da minha investigação é entender os motivos da rejeição ao termo “autoficção” por parte significativa da crítica e dos próprios autores de obras que podem ser consideradas “autoficcionais”. É uma tarefa bem difícil, tendo em vista a persistente imprecisão teórica do termo, o que implica numa enorme variedade de perspectivas sobre o assunto e também em diversos motivos para justificar essa rejeição.

Tiago Ferro, autor de O pai da menina morta, objeto de estudo da minha investigação, faz questão de esclarecer que seu romance parte de um acontecimento de sua própria vida, a morte de sua filha vítima de uma gripe, e ainda assim rejeita a associação de sua obra com o conceito de autoficção, alegando que sua obra teria uma “forma própria”. Não pretendo problematizar novamente a justificativa de Ferro, e sim pensar na sua confirmação do acontecimento de sua vida no livro, pois isso nos ajuda a perceber que sua maior preocupação não é o autobiográfico em si, mas o papel que será desenvolvido pelo autobiográfico no texto literário.

Observar isso me fez pensar: “bom, se o problema não é o autobiográfico, por que não pensar os efeitos da autoficção nas autobiografias?”. Parece interessante olhar para o outro lado da autoficção, principalmente pelo meu entendimento de que o termo francês não propõe uma espécie de novo gênero para o campo da ficção literária, tampouco pretende ser apenas um conceito – acredito que a autoficção é essencialmente um questionamento aos pactos de leitura. O próprio surgimento da autoficção, na quarta capa do romance Fils (1977), de Serge Doubrovsky, deixa explícita sua intenção de contestar os pactos de leitura estabelecidos por Phillipe Lejeune em 1975, tanto o pacto ficcional quanto o pacto autobiográfico.

Das considerações feitas por Lejeune a respeito das autobiografias, a que mais me intriga é a ideia que toda autobiografia pode ser uma “invenção de si”, pois o mesmo Lejeune rejeita que essa invenção seja um fator que inscreve a autobiografia no campo da ficção literária. Mas um entendimento básico da noção de autoficção é que ela põe em xeque o pacto autobiográfico ao ser lida primordialmente como uma “invenção de si”. Assim, ao invés de pensar em um tensionamento provocado pela presença do autobiográfico na ficção, gostaria de investigar melhor os efeitos desse hibridismo na autobiografia. Como reconhecer, por exemplo, que uma autobiografia é romanceada?

Para a ficção, o conceito de “romance autobiográfico” é praticamente um tipo de escudo anti-autoficção. O próprio Tiago Ferro é um dos autores que utilizam esse rótulo que reforça o pacto ficcional, justamente porque nesse conceito o papel do autobiográfico é secundário, quase irrelevante, mas será que a leitura de sua obra pode relevar esse dado autobiográfico (exposto meses antes da publicação do livro pelo próprio Ferro em matéria para a revista Piauí)?

Assim, a adoção da nomenclatura “romance autobiográfico” tenta afrouxar os tensionamentos propostos pela autoficção. Mais do que indicar uma resistência ao termo híbrido (“esse conceito já existe”) é um jeito de preservar os pactos de leitura sem os redefinir (ainda que isso pareça necessário), excluindo as nítidas tensões entre textos autobiográficos e textos literários/autoficcionais.

Ainda sobre história e ficção: O Crime do cais do valongo

Lílian Miranda

Créditos da imagem: Purchase, Lila Acheson Wallace Gift, 2003

Minha investigação atual de iniciação científica debruça-se sobre a relação possível entre dois importantes romances brasileiros, Viva o povo brasileiro e Um defeito de cor. Como apontei anteriormente, o romance de Ubaldo Ribeiro encara como um compromisso a relação da literatura com a formação de uma identidade nacional.  Na obra, essa relação é construída criticamente e encenada desde os momentos iniciais do Brasil colônia com o Caboco Capiroba para culminar na interação conflituosa entre gerações dos núcleos familiares descritos na obra. Já nos primeiros anos do século XXI, Um defeito de cor inscreve-se também como ficção, mas cumpre um papel complementar à história oficial, como se a literatura pudesse preencher as lacunas de uma história que foi apagada.

Após o impacto da publicação de Um defeito de cor, que deu voz a uma personagem escravizada, é possível pensar que outras narrativas se propuseram a explorar os arquivos apagados pela história oficial, resgatando outras narrativas. É o que faz a autora e jornalista Eliana Alves Cruz em seu segundo livro publicado – O crime do cais do valongo  – que constrói uma conversa entre história e literatura. 

A obra é narrada em duas vozes e empreende um romance (histórico) policial ambientado no Rio de Janeiro de 1820. No início de cada capítulo, a obra apresenta fragmentos de jornais da época, que funcionam como títulos orientando a leitura e algumas vezes esse conteúdo também é aproveitado na trama da narrativa. Assim como em Um defeito de cor, uma das personagens principais é uma mulher negra alfabetizada chamada Muana que foi traficada para o Brasil ainda na tenra idade para servir como escrava. O outro narrador é Nuno Alcântara, um filho de mãe negra e pai branco que nasce livre e leva uma vida boêmia e corresponde ao estereótipo de “malandro”. Ambos narram suas perspectivas acerca do assassinato de Bernardo, o dono da hospedaria do Vale Longo, que também é “senhor” de Muana e de alguns outros homens e mulheres negros descritos na história.

A autora lança mão de um recurso romanesco bem conhecido: ao final da narrativa, ficamos sabendo que parte do que lemos é o manuscrito do relato de vida de Muana por ela mesma, encontrado por Nuno. Só a partir dessa leitura o crime do cais do valongo é completamente revelado:

Juro, por tudo que me é mais sagrado que…. Não posso fazer juramentos. Quem conhece a este homem, que tudo o que mais ama na vida são seus livros e uma boa farra, jamais daria crédito a um juramento meu baseado em algo sagrado, pois das missas apenas me interessavam os vinhos. Embora, depois de ler todos estes apontamentos da africana Muana Lómuè, comece a rever seriamente esta minha renitente mania de não crer em nada que ao natural se sobreponha.

É aí que, em meio à moldura documental que mostra o trabalho de pesquisa nos arquivos dos jornais da época, a autora traz um elemento metafísico como parte importante da história  e esse elemento interfere e atua diretamente nos acontecimentos da narrativa. Na trama, Muana recebe um professor inglês, um abolicionista que dava aulas para o dono da hospedaria a quem ela servia. Interessado no fato de ela ser alfabetizada, Mr. Toole decide saber mais sobre a história de Muana:

Quando já estavam ele e o senhor Bernardo em alguns meses de classes, o Sr. Toole descobriu que a negra de quem a irmã Maria do Carmo falara pertencia ao seu novo aluno. Mesmo cabreiro, o senhor Bernardo então combinou que nos deixaria em paz por algumas horas semanais, mas obviamente não sem que o inglês desse um bom desconto nas aulas e, obviamente, com a condição de falarmos apenas quando todo o serviço acabasse, e isto acontece só muito tarde. Eu não tenho a escolha de não concordar, mas se tivesse esta chance também não recusaria, pois é uma forma de visitar outra vez aqueles lugares com meus olhos da memória saudosa. O que eu tenho a perder? Ele fala um português com sotaque muito carregado, porém compreensível. O meu também tem as notas do lugar que para sempre vou chamar de meu, pois, para mim, é lá onde eternamente vai morar o encantamento.

Em meio ao desenrolar da história do assassinato, Mr. Toole visita Muana algumas vezes  e assim ela tem a oportunidade de narrar sua vida antes da travessia atlântica. Porém, no final, ficamos sabendo que o inglês na verdade é um espírito desencarnado que ela consegue ver devido à sua mediunidade.

Assim, entre a história e a ficção (que faz da religiosidade da personagem um elemento que “resolve” a trama) ficamos conhecendo o que foi de fato o crime do cais do Valongo, um assassinato documentado pela imprensa da época, mas também outros crimes, ainda hoje pouco reconhecidos, como o surgimento do cemitério dos pretos novos. Além de sermos apresentados a personagens históricos como Joaquina Lapinha, a primeira cantora lírica negra brasileira a ganhar destaque internacional, e  o livreiro Manoel Mandillo, que são retirados da história e invadem a narrativa.

O livro de Cruz explora, então, o trânsito entre o documental e o inventado, entre a história e a ficção, mas a maneira como a religiosidade de Muana é utilizada para resolver a trama é algo que merece uma interrogação. Em Um defeito de cor a religião de matriz africana é tratada como elemento inerente à identidade narrativa que vai delineando a personagem Kehinde através da fé que ela tem em seus ancestrais e orixás. Já a mediunidade de Muana parece atender mais à resolução da trama, se sobrepor aos fatos relatados (já que em nenhum momento anterior da narrativa recebemos qualquer indicação de que Mr. Toole poderia ser uma entidade espiritual). Nesse sentido, o resgate da religiosidade na narrativa não funciona como reconhecimento “da sofisticada cosmogonia e dos modos de invenção da vida dos povos saídos das Áfricas”, como afirma o pesquisador Luiz Antônio Simas, no comentário à obra, ainda que seja possível ler na obra de Eliane Cruz a dificuldade de os negros escravizados inventarem a vida em um país ainda tão desigual.  

“Estou tentando fazer com que outras pessoas reconheçam algo de si e não de mim”

Samara Lima

Créditos da imagem: Cindy Sherman’s Untitled Film Stills (1977)

Já comentei em posts anteriores que Nan Goldin e Francesca Woodman fazem parte do meu corpus investigativo e que ambas as fotógrafas são as principais modelos de suas fotos. Assim, uma das questões que me interessa é justamente o aproveitamento da presença de “eu” dentro da imagem fotográfica e do universo encenado. É pensar o caráter autobiográfico não como mero traço narcísico, mas como uma possibilidade criativa aberta a questões mais amplas, ainda que estejamos diante de uma representação de si.

Em Autobiografías visuales. Del archivo al índice (2009), a crítica de arte Anna Maria Guasch afirma que o gênero autobiográfico não é exclusivo da literatura, mas abre-se para outras artes, como a pintura e a fotografia. Afinal, se existem diversas formas de textualizar a realidade, igualmente haverá múltiplas formas de inscrever a vida no trabalho.

No decorrer do livro, a autora comenta a produção de diversos artistas conceituais que utilizam imagens, textos ou a combinação de ambos, para criar o que ela chama de “autobiografia visual”. Sua proposta é analisar a forma como os artistas desafiam algumas das constantes desse gênero, como “a narração contínua e o culto ao ego”, apostando na “desfiguração” do sujeito, na narração não-linear e fragmentada.

Perseguindo essas possibilidades, Guasch investe em ler nas imagens um esvaziamento do “eu”. É interessante notar como a discussão levantada por Guasch abre margem para pensarmos como esses autores constroem novas formas de lidar com a identidade, por meio de um “eu” mais ambíguo e precário, não meramente fixado no autorretrato, mas que pode materializar o sujeito e sua identidade por meio de objetos e situações representadas, que atuam “não […] tanto [como] o suporte de uma vida, mas [como] o resultado de sua narração”.

Uma das artistas analisadas pela teórica é a importante fotógrafa norte-americana Cindy Sherman, em especial seu trabalho intitulado “Untitled Film Stills”. “Untitled” é um conjunto de imagens, baseadas no vocabulário da cultura popular da América do pós-guerra. O trabalho busca refletir sobre as representações clichês da identidade feminina na cultura ocidental, principalmente sobre aquelas presentes nos entretenimentos de massa. Aí, em cada fotografia, Sherman posa como uma personagem diferente: da dona de casa solitária e infeliz à ingênua perdida na cidade grande.

O argumento de Guasch é que apesar da presença da fotógrafa como modelo, suas imagens não são autorretratos tradicionais, pois “sempre é ela e nunca é ela”. É Cindy Sherman, já que claramente a reconhecemos, mas ao mesmo tempo estamos diante de atuações fictícias que performam uma ideia do feminino. Dessa forma, a imagem visual não indicia a personalidade do sujeito retratado, mas aponta para uma multiplicidade de identidades, exigindo que o espectador relativize a presença da artista como escrita apenas de sua vida, e leia o seu corpo como ferramenta de construção de outras histórias.