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A crônica e a conversa

Vanessa Ive

Joan Miro - Blue Labyrinth, 1956

Créditos da Imagem: Joan Miro – Blue Labyrinth, 1956

Nas tentativas de definição da crônica, recorre-se, quase sempre, à palavra conversa. Eça de Queirós a define como “conversa íntima, desleixada”. Clarice Lispector, como “conversa, um resumo de estado de espírito”. Assim, despretensioso, o gênero é concebido, por muitos cronistas, como uma “prosa fiada”, uma “arte da desconversa” – o dizer muito como quem não diz nada. Por isso, o cronista escreve com a presunção de um sujeito ouvinte, o que torna o diálogo com o leitor um traço presente desde os seus formatos originais, seja de modo direto por meio de interlocuções e vocativos – como bem fazia Machado de Assis no auge dos folhetins, seja pelo tom coloquial assumido no texto, subentendido como um uma forma indireta de interação.

Por diversas vias, a crônica tende a ser um gênero mais próximo do leitor. Por conta disso, numa época em que os leitores ainda escreviam cartas aos jornais, era recorrente a chegada de correspondências endereçadas a cronistas, com comentários sobre as publicações ou, até mesmo, como consultório sentimental, a exemplo da crônica Meditações sobre o amor (1947) – uma resposta de Rachel de Queiroz à carta de uma leitora que lhe pedia conselhos amorosos.

Hoje, essa “conversa” entre cronista e leitor é feita através de postagens em sites e redes sociais. As ferramentas oferecidas pelas plataformas da web redimensionam a participação dos leitores que, além de comentarem os textos publicados de modo quase imediato à publicação, podem disseminar as crônicas, recriá-las e parodiá-las. É o caso da crônica Desculpe o transtorno, preciso falar de Clarice , de Gregório Duvivier, publicada no Jornal Folha de São Paulo, em setembro de 2016. O texto rememora detalhes de um relacionamento encerrado que foi rapidamente associado, pelos leitores,
ao término do casamento do cronista com a cantora Clarice Falcão, ocorrido em 2014. Logo após a publicação, a crônica viralizou na internet, acrescida de comentários e palpites sobre o relacionamento vivido pelo casal.

A crônica de Gregório Duvivier inspirou a produção de outras versões do texto. O site de sátiras Piauí Herald postou uma versão “escrita” por Michel Temer, intitulada Desculpe o transtorno, preciso falar sobre o Cunha . E vários outros internautas pegaram o mote e escreveram versões da crônica de Duvivier. Como disse Octavio Paz, a leitura “é uma repetição – uma variação criadora – do ato original”. E a circulação da crônica na internet potencializa o gesto de escuta-escrita-conversa, próprio do gênero, e sua reterritorialização. Talvez, então, possamos pensar a dinâmica da conversação, apontada como característica do gênero por muitos cronistas a partir da dinâmica dos novos modos de produção e recepção do gênero na internet.

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A crônica, o cotidiano e a intimidade

Vanessa Ive

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Créditos da imagem: Autorretrato, 1979, Saint Tropez, França, de Elliott Erwitt

Os cronistas vivem à espreita de um acontecimento trivial, de um detalhe que pode passar despercebido em meio ao ritmo da vida cotidiana. É como um flâneur que percorre as ruelas boêmias das cidades para captar ‘instantes’ e revesti-los de palavras.  Nos áureos tempos da crônica, o gênero estava marcado por poesia e contemplação. O lirismo reflexivo de Rubem Braga descobre a borboleta amarela, o mar, o conde e o passarinho. Contudo, no século XXI, como sobrevive esta tradição?

O cotidiano continua sendo a matéria-prima dos cronistas cuja tarefa básica é mostrar o grandioso dentro do miúdo, o inesperado dentro do óbvio. Os cronistas contemporâneos continuam a enxergar as miudezas e a transformam o pormenor em texto literário. Aquilo que de tão miúdo só parece render um comentário curto vira uma crônica sagaz, dotada de graça e leveza. Nesta habilidade de inverter o tamanho das coisas, Antônio Prata tem se apresentado como mestre. A compra de uma meia, o gesto de tocar uma guitarra imaginária, o sustinho após ouvir uma pergunta imprecisa, a vontade súbita de abraçar uma árvore. Tudo isso virou tema de crônicas do quinto volume do autor dedicado ao gênero, Trinta e poucos, de 2016, que reúne os principais textos publicados no jornal Folha de São Paulo.

Talvez pela necessidade de estarem próximas ao leitor, as crônicas, em grande parte, são escritas na primeira pessoa do singular a ponto de Carlos Heitor Cony brincar ao dizer que o pronome corresponde ao único personagem do gênero. Como a proposta do cronista é narrar o fato sob a sua própria ótica, durante o processo, muito de si é desprendido no gesto da escrita, o que levou Afrânio Coutinho, desde o início, a definir o gênero como altamente pessoal, como uma reação individual, íntima, ante o espetáculo da vida. Ao perceber essa exposição do gênero, Clarice Lispector endereçou uma carta a Rubem Braga, indagando: “O que escrevo está se tornando excessivamente pessoal. O que eu faço?”, e recebeu a seguinte resposta: “É impossível, na crônica, deixar de ser pessoal”.

Na crônica contemporânea, a dicção é ainda mais pessoalizada e a intimidade  pode ser observada. Nos escritos de Antônio Prata, as narrativas se passam em ambientes comumente frequentados no dia a dia: a casa, o trabalho, a padaria, o supermercado, o bar, a clínica médica ou, até mesmo, o armário da cozinha – cenário da Crônica de quatro faces, sem esquecer-se do reduto da intimidade, o banheiro – cenário principal da crônica Dente por dente. Assim, os principais fatos das crônicas do autor não estão na arena norte-americana, no Planalto, nos acontecimentos mais debatidos da semana, mas na banalidade aparente da vida da qual extrai significado e humor.

A lupa do cronista para ampliar as sutilezas da vida circula na órbita da intimidade. As temáticas das crônicas de Trinta e poucos parecem acompanhar a cronologia da vida do autor: as inseguranças do primeiro encontro, os transtornos para decorar a casa, os impasses da vida a dois, a espera do primeiro filho, a dificuldade em conciliar trabalho e família, a espera do segundo filho, o avanço da idade e os típicos dilemas de quem tem trinta e poucos anos. Em uma época em que as redes sociais estimulam a exposição de si e a criação do próprio “eu”, o tratamento que a intimidade e a notação cotidiana encontram nas crônicas contemporâneas pode oferecer uma perspectiva de compreensão não apenas para a renovação do gênero, mas também uma reflexão sobre como pensamos a exposição da subjetividade no presente.

Crítica e literatura: trânsitos

Por Vanessa Ive Pimenta

Adventure of the Dancing Man 2017- Jeanette Palsa

Créditos da imagem: Jeanette Palsa – Adventure of the Dancing Man (2017)

Escritores que injetam na veia literária uma dose de teoria e fazem da literatura o próprio exercício de pensá-la. Por trás da palavra, o discurso crítico que nos faz constatar: existe algo que quer ser dito para além da narrativa. Ou ainda escritores que transformam o espaço da crítica em laboratório de criação. Trabalhos finais de mestrado e doutorado viram obras de ficção. Os trânsitos que sempre existiram entre vida acadêmica e literária agora mostram-se mais constantes e, por vezes, ousados ao escapar das formalidades impostas pela academia.

Um dos primeiros registros de narrativa literária como produto universitário, no Brasil, é o livro Variante Gotemburgo, de Esdras do Nascimento. O autor entregou a obra concluída no lugar da tese de doutorado em Letras, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1977. Mais recentemente, outros casos surgiram. Tatiana Salem Levy escreveu A chave de casa no primeiro capítulo da tese de doutorado, defendida na UFRJ, em 2007, apresentando no segundo capítulo a discussão sobre o próprio processo de escrita. No mesmo ano, a autora lançou o livro que venceu o prêmio São Paulo de Literatura, na categoria autor estreante. Na mesma linha, Adriana Lisboa fez da dissertação de mestrado e da tese de doutorado, ambas defendidas na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), a escrita dos respectivos livros Um beijo de Colombina (2003) e Rakushisha (2007).

Tratando-se de diálogos entre academia e literatura, as figuras do estudioso e do escritor fundem-se nas obras de Júlian Fuks. Todos os seus livros, com exceção do primeiro, permeiam a experiência acadêmica do autor. Histórias de literatura e cegueira (2007) é uma ficção sobre ficção que combina fragmentos da vida dos escritores Jorge Luis Borges, João Cabral de Melo Neto e James Joyce que têm, na trama, algo em comum: a cegueira. O livro é resultado do trabalho de conclusão de curso de graduação em Jornalismo, na Universidade de São Paulo (USP). Em paralelo à produção literária de seus dois últimos livros Procura do romance (2011) e A Resistência (2015), o autor esteve envolvido respectivamente com duas empreitadas acadêmicas, o mestrado e o doutorado.

Júlian Fuks conjuga seus posicionamentos teóricos com o caráter inventivo da escrita. Em Procura do romance, como o próprio nome indica, o protagonista Sebastián é um escritor brasileiro que viaja para Argentina em busca de inspiração para escrever um romance. Os cenários, as pessoas, os objetos, as situações vividas no país instigam o personagem a transformá-los em material de escrita. No entanto, não o faz. Dúvidas, angústias e alguns fantasmas vêm à tona e bloqueiam o ato de escrever. Assim, Procura do romance é o romance que não consegue ser escrito pelo personagem. A impossibilidade de ser narrado o atravessa, remetendo às questões estudadas pelo autor na dissertação de mestrado Juan José Saer e o paradoxo necessário (2009).

Na tese de doutorado, História abstrata de um romance (2016), Fuks problematiza a teoria do romance, questiona as fraturas sofridas pelo gênero, as diversas formas adotadas, o hibridismo, uma possível crise e sobrevivência da forma. Lendo A resistência encontramos na ficção um diálogo subliminar com o investimento teórico realizado e um exemplo de como o romance sobrevive às transformações do agora.

O diálogo entre as produções literárias e os trabalhos acadêmicos, a crítica dentro da ficção,  inspiram autores a discutir metaliterariamente. Por isso é possível ler em algumas obras uma espécie de projeto crítico-teórico em meio às tramas. Consequentemente, surgem obras difíceis de serem catalogadas, pois imbricam ficção e real, imagens e poesia, crítica e literatura e, por fim, esperam do leitor um outro gesto de leitura.

Se a imbricação entre crítica e ficção, não é exatamente uma novidade, basta lembrar os nomes de Silviano Santiago e Evando Nascimento, Fuks reivindica para si esse entrelugar:  “Sinto que me insiro nessa nova ordem de escritores que se observam a si mesmos…dos escritores que pensam a própria literatura”, como afirmou ao site deusmelivro em 2017.