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História e ficção em Um defeito de Cor

Lílian Miranda

Créditos da imagem: Henrietta Harris, Fixed It VIII, 2016

O romance Um defeito de cor, escrito pela mineira Ana Maria Gonçalves e publicado pela primeira vez em 2006, constrói ao longo de 952 páginas a odisséia de Kehinde, personagem nascida em Savalu no reino de Daomé, sequestrada e traficada ainda na infância para ser escravizada no Brasil junto a irmã e a avó, que morrem durante a travessia. Após cruzar o Atlântico num navio negreiro, ela desembarca na Bahia. Contada em primeira pessoa sob a perspectiva da personagem já no final da vida, Um defeito de cor é dividido em dez capítulos que reconstroem e marcam eventos importantes da vida de Kehinde. Além disso, o livro reconstrói a narrativa acerca do processo de escravização a partir de uma voz feminina que vivencia na pele diversos desdobramentos desse período. A autora propõe uma outra perspectiva historiográfica, ao manter entrelaçados a narrativa da personagem e os fatos históricos do período.

Mas aí entra a ficção: Gonçalves lança mão de um recurso bastante tradicional para começar a narrativa. Um manuscrito do século XIX é encontrado, sua provável autora é Luiza Mahin, heroína no levante dos Malês ocorrido em Salvador em 1835, e mãe do poeta e advogado Luiz Gama. Um dos objetivos da narrativa é reconstruir e dar voz a essa figura silenciada pela história.

Assim, o que chama atenção na narrativa de Um defeito de cor é o fato de a autora relatar uma sucessão de eventos históricos inseridos numa narrativa ficcional, ou seja, o que chama a atenção é a mistura entre ficção e não-ficção, privilegiando a forma intimista de descrição dos fatos que lembra um diário ou livro de memórias para apresentar, discutir e revisar uma parte da história brasileira que quase nunca é contada da perspectiva dos vencidos. Essa relação entre história e ficção é também fruto dos procedimentos utilizados pela escritora Ana Gonçalves, que realizou um extenso trabalho de curadoria selecionando documentos pesquisados em arquivos para escrever o livro.

Gonçalves relata no prólogo Serendipidades! que seu estudo acerca dos malês se inicia anos antes quando teve contato com um escrito de Jorge Amado intitulado Baía de Todos os Santos – guia de ruas e mistérios. Após ver citado ali o nome do Alufá Licutan, comandante da revolta dos malês, a escritora inicia uma extensa pesquisa através da internet, bibliotecas, livrarias, sebos, materiais emprestados e ligações telefônicas para Bahia e tempos depois toma a decisão de se mudar para Salvador e escrever o romance.

Mas como seria possível caracterizar melhor isso que estou chamando de um trabalho de curadoria na escrita do romance?

Ao longo da história a noção de curadoria ganhou diversas acepções, estando comumente ligada às artes plásticas, galerias e museus. Na contemporaneidade, o trabalho de curadoria pode ser entendido como um processo de seleção a partir de critérios específicos para constituição e organização de um projeto conceitual em que o curador assume também o papel de criador e proporciona uma nova perspectiva narrativa àquele conjunto de obras ou documentos. Claire Bishop em seu ensaio O que é um curador? A ascensão (e queda?) do curador auteur, cita Boris Groys quando ele afirma que:

 os papéis do curador e do artista são um só: posto que criação e seleção convergem no readymade duchampiano, a autoria de hoje é necessariamente uma “autoria múltipla”, mais semelhante à de um filme, uma produção teatral ou um concerto.

No caso de Ana Gonçalves, a criação e a seleção são processos catalisadores de sua escrita. E esse processo é acentuado porque, embora Um defeito de cor se constitua como romance, a autora realizou uma ampla pesquisa e revisão bibliográfica acerca de todo o contexto histórico que o livro abarca, compreendendo um espaço de tempo de oito décadas que vai desde a atenção aos costumes dos negros africanos em sua terra natal até a vida no Brasil colônia. Um dos principais eventos históricos narrados foi o levante dos Malês, que Kehinde conta com riqueza de detalhes e pessoalidade. No trecho abaixo ela revela consequências sofridas pelos negros muçulmanos que participaram do levante:

“Todos os condenados à morte eram líderes ou réus confessos, presos em flagrante com armas na mão, provavelmente na batalha de Água de Meninos, na qual o Fatumbi morreu.” (p.542)

Além disso, em outros contextos, ela cita eventualmente relações internacionais que influenciavam as dinâmicas apontadas pela trama principal, como por exemplo a atuação dos ingleses e franceses no território da África Ocidental. Assim, a autora inscreve sua personagem nos eventos, espaços e costumes de cada período que descreve.

O documento histórico pesquisado passa por uma seleção para se juntar à imaginação que dá voz ao que ficou silenciado e constitui o procedimento que singulariza o romance. O gesto de coletar, “recortar e colar” documentos dos arquivos pesquisados vai dando vida às narrativas dos personagens que projetam um desejo pelo qual lutamos ainda hoje: a liberdade de poder contar nossa própria história.

Um novo campo literário?

Lílian Miranda

Créditos da imagem: Arte de Maria Júlia Moreira para a revista Pernambuco

“Quantas perdas cabem na vida de uma mulher?”, assim a escritora Micheliny Verunschk inicia a orelha do livro O peso do pássaro morto, publicado pela editora Nós de autoria de  Aline Bei.  Depois de ganhar o prêmio promovido por Marcelino Freire em sua oficina-concurso, a Toca, Bei conquistou o prêmio São Paulo de Literatura 2018, na categoria de melhor livro do ano- autores estreantes com menos de 40 anos.

O peso do pássaro morto é o romance de estreia da autora paulista e narra, em primeira pessoa, a história de uma mulher sem nome, desde de seus 8 aos 52 anos, com alguns saltos temporais que se concentram nos fatos trágicos e nas perdas que a personagem sofre ao longo da vida. No livro, são abordados temas delicados e muito debatidos nos últimos tempos como estupro, gravidez na adolescência, machismo, o papel da mulher na sociedade e também questões subjetivas que tratam da situação psicológica da personagem, suas escolhas ao longo da vida e as consequências oriundas delas.

Não é possível falar sobre o livro de Bei e deixar de comentar sua forma, já que o livro é inteiramente escrito em fragmentos (que lembram versos), que impõem ao leitor um ritmo “quebrado” de leitura:

quando um bebê

nasce

é preciso contar para ele que bebês

também morrem

e o caixão

é sempre branco. ainda assim

quando um bebê nasce

uma Flor brota

no peito e sai

pelo leite da mãe.

é assim que os bebês crescem (p.64)

A história provoca um forte efeito de verossimilhança, pois muitas das agruras presentes na vida da personagem são as que estão presentes hoje em nossa sociedade. Também por isso, o romance recebe uma ótima aceitação do público, virando rapidamente leitura obrigatória entre clubes do livro, bookgrams e booktubers. Vide entrevista da autora para o canal LiteraTamy: https://www.youtube.com/watch?v=bohKftiJYQw&t=309s

Mas há um outro elemento que é surpreendente: a forma como o livro é promovido pela própria autora, que se engaja no merchandising da obra. Aline Bei usa o quanto pode as redes sociais como ferramenta para divulgação e venda do seu livro. Qualquer pessoa que interaja com seus posts na internet, curtidas, compartilhamentos e comentários, ou apareça em algo relacionado à literatura no Instagram, recebe automaticamente uma mensagem convidativa oferecendo o link para compra de seu Pássaro Morto. A estratégia deu certo, pois o livro esgotou a primeira edição graças a esse cheek to cheek virtual.

Pensando nas discussões teóricas atuais sobre a literatura, é possível dizer que o livro e a atuação de Bei tornam possível pensar dois postulados apresentados pela crítica argentina Josefina Ludmer em seu texto “Literaturas Pós-autônomas” (2000). O primeiro deles diz que esse novo regime da literatura representa “o fim das lutas pelo poder no interior da literatura”, representando por tabela, o fim do campo literário, tal como proposto pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu. O segundo pressuposto de Ludmer é o que afirma que as literaturas pós-autônomas “fabricam um presente”.

Na pesquisa que empreendo, utilizo o livro de Aline Bei para colocar à prova essas premissas, investigando melhor a noção de campo literário e observando alguns elementos relacionados à noção de literatura contemporânea, em especial o modo como o autor surge, como começa uma carreira literária e como insere seu nome de autor e sua obra no campo literário.