Arquivo do mês: maio 2013

A profissionalização do escritor

Carolina Peixinho

A temática de profissionalização do autor entra em cena com força total como questão fundamental do campo de atuação do autor de literatura nacional hoje em dia. Alguns autores, intuitiva ou estrategicamente, percebem que muitos caminhos levam a Roma e que o facebook, o blog e o twitter são atalhos gratuitos de divulgação. As premiações, palestras, entrevistas também funcionam como estratégia de divulgação do nome do autor e de sua obra. E se for certo que conhecer o “inimigo” é a melhor maneira de vencê-lo, recorrer à mídia, às ferramentas tecnológicas de facilitação de todo o processo de legitimação, editoração, vendas e ampliação do público leitor é o melhor caminho para alcançar a profissionalização.

Um bom exemplo dessa atitude está no poeta, cronista e jornalista Fabrício Carpinejar. Atuando como autor desde 1998 com o lançamento do livro As Solas do Sol, ele foi escolhido pela revista Época como uma das 27 personalidades mais influentes da internet. Seu Twitter já ultrapassou cento e oitenta mil seguidores e seu blog já recebeu mais de dois milhões de visitantes, enquanto sua página do facebook já recebeu mais de 160 mil “curti”. Apresentador do programa “A máquina” da Tv Gazeta e ganhador de diversos prêmios de literatura, Carpinejar, gaúcho de Caxias do Sul, teve recentemente um poema seu publicado na capa do jornal O globo no dia 28/01/13, após o incêndio da boate Kiss em Santa Maria (interior do Rio Grande do Sul). Performático por natureza, há aproximadamente sete meses ele tatuou a planta de Porta Alegre nas costas e divulgou as fotos do processo de construção da tatuagem com o título “carregando Porto Alegre nas costas”. Ele utiliza ainda sua própria cabeça para o que chama de “jardinagem dos cabelos”, uma produção de Jofter Oliveira do salão Top Hair 24 de Outubro (salão que e Carpinejar promove através das redes sociais). Não satisfeito, realiza também campanhas promocionais antes da inauguração de seus livros, distribuição de brindes, camisas autografadas, premiações com bonecos do Doutor Poesia, além de ministrar oficinas literárias em vários estados do país. Assim é inegável a busca de Fabrício Carpinejar por uma profissionalização mediada pelas ferramentas tecnológicas acessíveis, que não somente aproxima seus leitores, como define um “público” e possibilita o sucesso das suas obras. Uma verdadeira celebridade…

Erotismo ordinário

Débora Molina

André Sant’Anna é, no contexto contemporâneo, um autor diferente. Afirmando estar em guerra contra o “escrever bem” ou contra o modo como a Literatura é comumente concebida, seus livros causam um desconforto imediato no leitor. Entusiasmada com os conceitos da teoria literária que vinha estudando, logo me perguntei pela literariedade do livro de Sant’Anna e decidi fazer dessa interrogação meu objeto de pesquisa.

Um dia qualquer, no ônibus, na viagem de volta para casa, fui lendo um conto que começava com a seguinte frase : “O Executivo De Óculos Rayban”. Sem muito estimulo para a leitura, o início do conto assim como o nome do autor, não me chamaram muito a atenção. A leitura de alguns parágrafos me deixou confusa sobre o conteúdo, havia muitas palavras sendo repetidas, muitos termos coloquiais e muitos, muitos palavrões. Após a leitura, um pouco chocada com o que acabara de ler, fiquei convencida de que tal conto era erótico, com um tom um tanto machista, mas ao conversar mais tarde com quem indicou-me a leitura, fui surpreendida com: “- não, ele não é machista, ele trata de uma relação sexual como ela é, “nua e crua”, sem flores, sem erotismo”.

Intrigada com a opinião, fui procurar mais informações sobre o autor e descobri que o conto fazia parte do romance Sexo que explora a obsessão contemporânea com os desejos, gozos e desprazeres da vida sexual cotidiana dos mais comuns dos mortais. Sant’anna escolhe falar sobre sexo da maneira mais explícita possível, mas isso não é capaz de despertar nenhum interesse sexual, pois o foco principal está na narração da vida sexual de personagens estereotipados. Através da repetição de termos, Sant’anna imprime a repetição do cotidiano, fazendo com que os nomes dos personagens, suas ações, as conotações sexuais presentes em todas as relações alcancem expressividade a partir do que parece não ter nenhuma expressão incomum (o sexo se repete, os nomes se repetem, a vida se repete), a não ser o fato de que nosso cotidiano parece permeado por uma sexualidade que marca todas as nossas ações.

A partir de então venho buscando informações sobre o autor a fim de configurar um ‘estilo André Sant’Anna de escrever’. Um bom contraponto para Sant’Anna é a apelação ao sexo que marca o mais novo sucesso editorial de nossas livrarias: Cinquenta Tons de Cinza. Em

setembro de 2012, o jornal Folha de São Paulo escolheu quatro autores para reescrever uma cena desse livro para uma coluna especial chamado “Ménage à 4”. Sugestivo, não?

André Sant’anna, um dos escolhidos para a releitura, conseguiu tonalizar o cinza para algo mais divertido e muito sarcástico. O trecho original registra a volta para casa do casal cinzento, cena que, claro, acaba em sexo. Ok, nada muito surpreendente para o gênero. Mas com o título “Um gosto podre na boca”, André Sant’Anna dá outra voz ao personagem Christian Grey de Ana Steele, desmascarando o tédio de uma vida de sexo, sem drogas ou rock’n roll:

“Que merda é essa? A gente já se conhece há mais de dez anos, já fez sexo em todas as poses pornográficas e ela ainda me envolve nessa conversa nada espontânea só porque não aguenta um silêncio de cinco minutos. Sou obrigado a responder qualquer coisa:

– Você me conhece melhor do que qualquer pessoa.

E pronto. Até poderíamos calar a boca por mais alguns minutos.

Mas não. Ela tem que falar, assim, de repente:

– Faça amor comigo.

Porra, mas a gente ainda nem jantou! E eu? Sabe o que eu digo?

– Boa menina”

O que André Sant’Anna parece fazer é levar ao extremo o apelo caricatural ao sexo presente nos mais banais espaços da nossa vida contemporânea.