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Falando sobre o silêncio

Samara Lima

Créditos da imagem: Ulay and Marina Abramović, AAA-AAA, 1978.

Em Julho, durante a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), foi lançado no Brasil, pela Editora Cobogó, traduzido pela Mestre Jessica Oliveira, o livro Memórias da Plantação: Episódios de racismo cotidiano da escritora e teórica portuguesa Grada Kilomba. Tal livro, como está escrito na orelha e subtítulo, é formado por “uma compilação de episódios cotidianos de racismo” que, tendo como referência alguns intelectuais negros, como Frantz Fanon, busca expor o racismo e analisar a herança colonial presente na sociedade à luz de determinados conceitos psicanalíticos.

No primeiro capítulo do livro, intitulado A Máscara: Colonialismo, memória, trauma e descolonização, a teórica mostra como a máscara, um aparato de tortura que os escravizados eram obrigados a utilizar durante o trabalho nas plantações, também pode ser considerada o símbolo do projeto colonial de silenciar a voz do sujeito negro e impor medo durante o período escravocrata, já que a boca representaria a fala e a enunciação.

A fala, dessa forma, significa não só o ato de emitir som e um conjunto de palavras, mas também, a existência, a humanidade desse sujeito. O instrumento, então, legitima a política de silenciar aqueles que não fazem parte do regime de autorização discursiva e abre margem a vários questionamentos, de acordo com a pensadora, sobre quem pode falar numa sociedade racista e patriarcal.

Pois bem. É pensando nessa problemática que busco tecer um ligação com um trecho do conto O caso da Vara (1899) de Machado de Assis, escrito após a Abolição da Escravatura (1888), mas que tem a história desenvolvida num período anterior à data de sua publicação, como expõe o narrador no início da narrativa: Damião fugiu do seminário às onze horas da manhã de um sexta-feira de agosto. Não sei bem o ano; foi antes de 1850.

À primeira vista, o conto parece tratar da fuga de Damião do seminário e da carreira eclesiástica. O personagem rapidamente escolhe Sinhá Rita, uma amiga querida do padrinho, para ajudá-lo em tal empreitada. Com a fuga seguida dos adjetivos usados pelo narrador ao descrever a condição de Damião, como espantado, medroso e fugitivo, o leitor deixa-se comover pela situação de Damião, torcendo até para que tudo corra bem com o rapaz. Porém, no decorrer da narrativa, Lucrécia, escrava de Sinhá Rita, que vinha ocupando o pano de fundo da cena, ganha protagonismo quando é ameaçada por rir de uma piada:

Sinha Rita tinha quarenta anos na certidão de batismo, e vinte e sete nos olhos. Era apessoada, viva, patusca, amiga de rir; mas, quando convinha, brava como o diabo. Quis alegrar o rapaz, e, apesar da situação, não lhe custou muito. Dentro de pouco, ambos eles riam, ela contava-lhe anedotas. (…) Uma destas, estúrdia, obrigada a trejeitos, fez rir a uma das crias de Sinhá Rita, que esquecera o trabalho, para mirar e escutar o moço. Sinhá Rita pegou de uma vara que estava ao pé da marquesa, e ameaçou-a:

-Lucrécia, olha a vara!

Essa passagem é interessante para refletir como Machado, utilizando-se de uma contenda familiar aparentemente sem importância, problematiza nas entrelinhas questões mais sérias, como a escravidão e o poder senhorial. Os personagens assumem características que antes não aparentavam, como Sinhá Rita, que transparecia ser um mulher vaidosa, risonha, mas torna-se cruel quando dirige-se à Lucrécia. E Damião que, aparentemente frágil e bom rapaz, não interfere na ameaça feita pela Sinhá. Dessa forma, pouco a pouco, quase em silêncio, o Bruxo do Cosme Velho, desmascara a sociedade – e seus leitores de mentalidade escravagista, que se apiedam de Damião, mas pouco se importam com o destino de Lucrécia.

Se, ao invés de deixarmos nos levar pelo protagonismo de Damião e ouvirmos o silêncio da Lucrécia, podemos nos perguntar: sobre quem, realmente, é a história? É igualmente intrigante notar, para quem tem conhecimento do conto, como a narrativa termina sem a resolução do caso, sugerindo, então, uma ambiguidade: trata-se da fuga do seminarista ou da hipocrisia da sociedade e crueldade do sistema escravagista? Assim, ao mesmo tempo em que propõe ao leitor um exercício crítico e de escuta do silêncio daquela que não tinha seus direitos de fala garantidos numa sociedade baseada nas relações de poder, a narrativa questiona quem obriga a personagem a usar a máscara, isto é, quem a silencia e detém a vara como um instrumento de poder/punição.

Nessa perspectiva, minha pesquisa visa entender como Machado de Assis e os autores negros contemporâneos, que fazem parte do meu corpus, transcendem, através da literatura, o regime hegemônico de enunciação e discutem problemáticas da sociedade brasileira, como as mazelas da colonização e o racismo. Eles falam, então, pelos orifícios das máscaras, às vezes com tanta potência que a máscara é estilhaçada, como afirmou a escritora Conceição Evaristo em entrevista ao site Carta Capital.

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