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Viver (d)a literatura

Por Neila Bruno

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Crédito da imagem: Peter Ticien. Disponível em: <http://ronyblat.blogspot.com.br/2012/11/e-se-hoje-fosse-seu-ultimo-dia.html&gt;.

Segundo o sociólogo francês Pierre Bourdieu, a autonomização do campo literário está sujeita a três condições: a emergência de um corpo de produtores especializados, a existência de instâncias de consagrações específicas e a existência de um mercado.

Pierre Bourdieu sugere ainda que um campo é um espaço constituído de posições sociais, que podem ser ocupadas por diversos agentes e no qual a posição de qualquer ator envolvido implica em diferentes tipos de capital: econômico, cultural e social.

O capital econômico corresponde a rendas, proventos, recursos; o capital cultural refere-se aos saberes e competências, abrangendo também títulos e premiações; já o capital social estende-se às redes de relações e contatos que um agente forjou ao longo do tempo.

Elegemos esse conceito de campo como uma espécie de estratégia para entender as posições tomadas pelos autores que têm a literatura como atividade profissional.

Com o advento da internet e das redes sociais houve uma transformação radical na forma de circulação, divulgação e até de comercialização dos textos literários. Apostando na publicação em blogues e em outras plataformas eletrônicas, muitos autores encontram mecanismos alternativos ao mercado editorial tradicional.

O escritor Daniel Galera pode ser considerado um exemplo dessa nova geração de escritores no Brasil. Pioneiro no uso da internet, publicou textos de ficção na rede entre 1996 e 2001. Em seu site http://ranchocarne.org/ oferece obras para download gratuito, mas podemos dizer que Galera é um escritor consagrado, afinal, publicou obras por uma grande editora, a Companhia das Letras, e seus romances ganharam prêmios de prestígio: Barba ensopada de sangue (2012) foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura e finalista do Prêmio Jabuti e Cordilheira (2008) foi vencedor do Prêmio Machado de Assis e também finalista do Jabuti.

Os sinais de que é possível viver de literatura no Brasil estão visíveis ainda em outro exemplo quase antípoda ao de Galera: trata-se do escritor Luiz Ruffato. Para dedicar-se à literatura em tempo integral, Ruffato desligou-se do jornalismo em 2003: “Minha decisão se baseava numa intuição: se me mantivesse disponível para viajar e divulgar meus livros, talvez conseguisse uma maior repercussão do meu trabalho”.  O que importa ressaltar são as diferentes tomadas de posição dos dois autores mencionados em relação à construção de suas carreiras. Com a publicação do romance Eles eram muito cavalos (2001), Ruffato também ganhou prêmios importantes como o da Biblioteca Nacional e da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

Para Ruffato “já não causa tanta comoção quando alguém demonstra interesse em dedicar-se à carreira literária – isso por que, além do dado simbólico (a aura de prestígio que envolve o autor na sociedade), há efetiva possibilidade de viver de literatura no Brasil”.

A figura pública do escritor também mudou de estatuto. O campo literário se expandiu: os prêmios literários, financiados por instituições públicas ou privadas, abarcam valores consideráveis. Os lançamentos das obras também envolvem uma estratégia profissional e de marketing, participação em eventos literários, lançamentos em grandes livrarias e aparições na imprensa. Essa interação com o público leitor cria uma estratégia eficiente de promoção do livro.

Um outro exemplo que poderia ser mencionado, é o do ex-professor universitário Cristovão Tezza. Com 15 livros de ficção publicados, além de algumas publicações acadêmicas, o autor preferiu abandonar as aulas que ministrava na Universidade Federal do Paraná depois de vinte anos, para dedicar-se exclusivamente ao ofício de escritor. Essa decisão foi tomada em virtude do enorme sucesso de público e de critica que o autor alcançou com a publicação do romance O filho eterno, lançado em 2007.

Embora a antiga imagem do escritor como um artista por vocação ou talento, totalmente desvinculado do mercado, já tenha perdido terreno, sabemos que o processo de profissionalização ainda está em curso oferecendo grandes desafios aos escritores.

Acreditamos, assim, que uma questão como “quem é escritor profissional?” fica menos obscura quando lançamos um olhar sobre escritores que deixaram seus ofícios para viver de literatura.

A profissionalização do escritor brasileiro no século XXI

Por Neila Bruno

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Crédito da imagem:  Aart-Jan Venema

A fundação de academias, agregando grupos de intelectuais, foi a forma de escritores obterem um primeiro reconhecimento do público. Porém, hoje, o escritor poderá tornar-se independente por meio de uma série de ações no sentido de se inserir numa profissionalização do ofício.
Para alguns, não é de bom tom associar dinheiro com literatura, preferindo apagar o caráter econômico das atividades culturais. Para outros,os planos financeiros  e artísticos, dos quais advém o controle sobre a difusão das obras, permitem através dos lucros a subsistência do escritor.
O fato de que o livro é, atualmente, um produto consolidado no mercado favoreceu o desenvolvimento do ofício do escritor. Paralelo a isso, as mudanças ocorridas no campo literário nas últimas décadas vêm produzindo uma expectativa de melhoria na vida financeira dos autores. Atividades das mais diversas estão aí disponíveis para manter e auxiliar o trabalho de quem escreve: cursos, oficinas de escrita, eventos e festas literárias, feiras do livro nas quais os escritores recebem um cachê para proferirem palestras ou fazerem apresentações. Dessa maneira, muitos escritores pensam em viver de literatura, somando aos direitos autorais, essas atividades ao exercício profissional da escrita.
Quanto à busca da profissionalização, os próprios escritores se veem divididos entre a expectativa de viver exclusivamente da literatura e a aceitação das regras ditadas pelo mercado editorial. Ora, quando um autor resolve publicar seu original, ele deve buscar uma editora (excetuando-se os casos daqueles que preferem custear uma edição independente). Tendo o seu original aceito, a editora se responsabilizará pela leitura, revisão, edição e o projeto gráfico, antes de encaminhar o copião final à gráfica, que imprime e encaderna os livros e os despacha para a distribuidora, que, por sua vez,pode pertencer à própria editora ou não. Na etapa final desse ciclo, o livro é comercializado nas livrarias, físicas ou virtuais. Ou seja, publicar um livro é lançar um produto no mercado, ainda que um produto que não pode se igualar a venda de um sabonete, por
exemplo.
O século XXI viu surgir uma multiplicação de instâncias profissionais ligadas à literatura (sociedades de autores, oficinas para escritores), bem como instâncias de difusão das obras (festas e feiras literárias, imprensa, programas na tv, sites, blogs, redes sociais, entre outros) e de consagração literária (revistas, concursos, prêmios literários). Nesse contexto, a ideia de profissionalização está diretamente ligada à atuação do autor como um agente do mercado. E quanto mais marcante for a sua performance, mais condições ele terá de conquistar um público potencial para seus livros. Entrevistas em programas de televisão, reportagens de jornal, declarações em eventos, resenhas, biografias, fotos em revistas, tudo isso compõe a trajetória do autor.
Por esse motivo, poderíamos dizer que para exercerem o ofício de modo a conquistar a profissionalização, os escritores precisam do respaldo dessas instâncias para garantir a construção de uma carreira literária bem-sucedida.

Tornar-se escritor: a profissionalização possível

Por Neila Brasil Bruno

“Escrever, compor, pintar, nada disso é trabalho, é o exercício lúdico, revigorante, glamouroso e sublime de um dom artístico”. O depoimento, concedido ao jornal O Estado de São Paulo, é do escritor João Ubaldo Ribeiro e contraria ironicamente o lugar que transforma a arte em mercadoria. Tal reflexão sustenta-se entre os artistas que não estão preocupados com a expressão comercial do que realizam. O escritor ainda acrescenta: “por conseguinte o artista não pode pensar em dinheiro” (RIBEIRO, 2002). Ora, o status do artista vem se alterando muito nos últimos anos, não mais caracterizado como um pobre excluído, tentando ganhar a vida. Atualmente, o artista percebe a arte como uma vertente profissional. Por sua habilidade em conquistar mercados para suas obras, inspira empreendedores, inovadores e agentes de todos os tipos. A partir dessa habilidade, o artista busca profissionalizar-se no exercício da atividade artística ou literária.

Neste post, eu gostaria de aproveitar essa discussão para refletir sobre a seguinte questão: “É possível viver sendo escritor no Brasil?” Nas últimas décadas, é visível que os escritores vêm experimentando um processo gradativo de profissionalização. Começam “a viver de literatura”, coisa reservada há algum tempo atrás a um número reduzido de escritores, e a se relacionar com a ideia de que o livro, mais do que objeto cultural, é uma mercadoria vendável e lucrativa. Há uma expectativa de melhoria de vida financeira, atividades, as mais diversas, podem estar aí presentes para manter e auxiliar o trabalho de quem escreve:  cursos; oficina de escrita; eventos e festas literárias, feiras do livro na qual os escritores recebem um cachê para fazerem palestras ou apresentações. Dessa maneira, muitos escritores pensam em viver de literatura, não apenas de direitos autorais, mas somando essas atividades ao exercício profissional da escrita.

Ser “escritor”, enquanto projeto de vida, é passar, necessariamente, por várias paradas obrigatórias: o autor precisa saber quem são seus pares – conhecer a obra de outros escritores; estudar técnicas literárias, história da literatura; ler literatura brasileira, crítica literária, ou seja, encarar a atividade de escrita como um trabalho. Há também o surgimento de cursos de formação do escritor e oficina literária que tem como objetivo favorecer a profissão de autoria, ao explorar técnicas ficcionais e suposições sobre escrita. Outra perspectiva interessante é considerar a posição da qual um autor fala, uma combinação de suas credenciais, sua visibilidade e sua capacidade promocional através da mídia. Com isso, se um autor aparece com regularidade nos meios de comunicação, ou assina uma coluna no jornal ou uma revista, isso dá a ele uma imagem de alto perfil que cria um mercado potencial preexistente para seus livros.

Finalizando, poderíamos então arriscar dizer que é possível que um autor consiga viver do mercado literário, trabalhando em toda a cadeia do livro, mas no que diz respeito a viver de direitos autorais ainda é um desafio para qualquer escritor brasileiro.

Conversando com… Emmanuel Mirdad

Entrevista concedida pelo Whatsapp a Neila Brasil

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Festas literárias, como a de Paraty e a de Cachoeira, desempenham importante papel na promoção dos escritores e de suas obras. Nessa entrevista, Emmanuel Mirdad, um dos organizadores da Flica, a Festa Literária de Cachoeira, cidade do Recôncavo Baiano, toca em muitas questões que já foram alvo de nosso interesse nos textos  publicados aqui no blog, como por exemplo a questão da profissionalização do autor, do papel do agente literário. Chama a atenção o fato de Mirdad afirmar que os convites privilegiam autores que já possuem uma carreira literária mais ou menos estabelecida ou que tenham jogo de cintura para circular no campo literário. Não deixa de ser curiosa, então, a formação de um círculo vicioso alimentado pelas festas: o autor tem de ter algum destaque na vida literária para participar da festa, que como evento da vida literária, vai lhe dar algum destaque.

Agradecemos a entrevista e a reflexão que as respostas de Mirdad nos proporcionam. Vamos a ela:

Leituras contemporâneas: Após 5 edições da Flica, quais são os desafios e as conquistas?

Emmanuel Mirdad: Acho que a nossa maior conquista foi ter vingado uma festa literária na Bahia que não tinha e ela ter tido esse sucesso, tanto de público como de repercussão no meio literário. Os autores já conhecem a Flica, o mercado já sabe que tem a Flica. A Flica já está calendarizada. Isso é muito importante porque às vezes os bons eventos surgem e não conseguem se manter, e a gente conseguiu, com o apoio dos patrocinadores, fazer esse evento por cinco edições, chegando agora na sexta edição. Acho que a maior conquista foi isso, ter conseguido fazer uma festa literária na Bahia, porque já se pedia por isso, e também, de ter trazido para Cachoeira mais uma oportunidade de ter um evento cultural de relevância. Como nós já tínhamos a Festa da Boa Morte, a Festa da Ajuda, o São João, então a gente chegou para somar ao escopo de eventos culturais, turísticos da cidade. E o desafio agora é crescer mais e mais, conseguir trazer grandes nomes internacionais para cá e se firmar como uma opção a Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, que é a festa literária mais importante do Brasil.

Leituras contemporâneas: Quais são os critérios para a seleção e participação dos escritores e poetas na Flica?

Emmanuel Mirdad: Bom, esses critérios são definidos pelo curador e os curadores variam durante o tempo. Esse ano e das vezes que eu participei da curadoria, os critérios que a gente utilizou foram a programação, conseguir equilibrar o número de autores nacionais, internacionais e locais, colocar os locais no mesmo espaço de dignidade que nós oferecemos para os nacionais. Ou seja, não é mesa baiana só com baiano. É baiano com nacional, baiano com internacional, para poder valorizar, não é? E a gente sempre teve muito sucesso com isso, o que os autores baianos tiraram de letra. Todos os autores… e geralmente para os autores nacionais, o critério é que seja um grande nome já reconhecido e que esteja lançando um livro no momento. O autor baiano, ele vai a partir dessa condição, de quem está aparecendo mais, quem está vendendo livro, quem está lançando livro, de quem já tem história, de quem já tem experiência em participar desse tipo de evento, quem é disposto a falar, quem fala bem, quem tem o que falar. Então são muitos critérios que dependem especificamente do momento do autor, naquele instante, por exemplo, a gente sempre prioriza trazer autores que estejam lançando livros neste ano ou que tenham acabado de lançar livros. E a gente visa equilibrar a escolha a partir do que já foi definido do autor nacional.

Leituras contemporâneas: Há espaço para novos talentos na Flica?

Emmanuel Mirdad: Sempre teve. Por exemplo, na primeira edição a gente teve um poeta que era menor de idade. É como eu falei na questão anterior, tudo depende dessas variáveis. Se esse novo talento lançou um livro que está sendo bem comentado, que está sendo bem vendido, que tem resenhas  boas por aí, que ele tenha uma aparição, então a gente… o autor, ele tem que existir para que venha fazer parte da programação. Aqueles autores de gaveta que lançam livro, que só os amigos conhecem, fica um pouco difícil. Então o novo talento, ele tem que aparecer para poder ir para a Flica também.

Leituras contemporâneas: Como é o contato com os autores, a negociação envolvendo o convite para participar da festa? A negociação é direta ou mediada pelos agentes literários dos autores?

Emmanuel Mirdad: Então…. varia. Tem autor que a gente só consegue falar com a rede literária, tem autor que a gente consegue falar por via das editoras, e a gente sempre busca falar diretamente com o autor. Quando não é possível, não tem jeito: a gente vai falar com o agente ou com a editora. É que às vezes, por exemplo, um autor famoso ou um autor caro nem tem conhecimento do que é o evento, o que está sendo proposto, porque o cachê não satisfez ao agente, ao empresário, ao produtor, enfim… sendo que ele teria outros ganhos, ganho de imagem e até mesmo ganho pessoal de vir a Cachoeira, conhecer a cidade que todos os autores que vêm se encantam.

Leituras contemporâneas: É possível afirmar que esse evento colabora com a profissionalização de escritores?

Emmanuel Mirdad: Bom, depende. Por exemplo, eu vejo um autor iniciante que está querendo escrever, está querendo ter contato com o meio. A gente proporciona isso, a gente proporciona o acesso ao autor, ele vai ouvir o autor falar, ele vai conhecer o autor, vai vivenciar a cidade; enfim, o lugar, o ambiente, isso tudo influência, mas eu acho que a profissionalização… Vamos pensar naquilo que eu já respondi: se o autor não fizer sua parte junto com a editora de pensar a carreira, de construir a carreira, fica difícil dele ir para a Flica. Então também pode ser que faça, o estimule a buscar a profissionalização, mas acredito que ela só exista mesmo a partir do esforço individual de cada um, da bagagem de leitura e dos cursos, etc. Porque a Flica não é um curso, é apenas um evento de amostragem do que está acontecendo de melhor na literatura.

O crescimento das feiras literárias

Por Neila Bruno

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A feira literária é um fenômeno novo no Brasil: as primeiras festas surgiram em Porto Alegre, em 1955 (http://www.feiradolivro-poa.com.br/). Atualmente, diversos eventos literários começaram a aparecer apostando em repercussões de longo prazo na cultura e na economia do livro. Entre as festas mais importantes está a Flip (criada em 2003) que neste ano chegou a sua 14ª edição. O evento contou com nomes importantes como o norueguês Karl Ove Knausgaard e a bielorrussa Svetlana Aleksiévitvh, e teve como autora homenageada a poeta Ana Cristina Cesar (1952-1983). À medida que a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) foi se tornando um exemplo de evento bem sucedido, foram surgindo outras feiras espalhadas pelo país, como a Fliporto, em Olinda, Pernambuco; a Flimar, em Marechal Deodoro, Alagoas; a Flica, em Cachoeira, Bahia; a Flivima, em Visconde de Mauá, Rio de Janeiro, entre tantas outras.

Em termos de marketing, grande parte desses eventos concentram suas programações em sites e redes sociais como facebook, twitter, instagram e o You Tube. Também são criados aplicativos que mantêm os leitores atualizados a respeito da programação, autores, ingressos e oficinas, além de contar muitas vezes com transmissão on-line da programação. Toda essa publicidade permite que os autores convidados tornem-se ainda mais conhecidos pelo público leitor. Certamente, esses eventos colaboram para a divulgação do nome do autor, já que é instigante para o leitor esse contato direto com escritores. Assim, nos dias atuais, o crescimento das feiras e festas literárias pode ser entendido como um sinal da mudança do campo literário contemporâneo.

Embora haja muita discussão sobre a finalidade desses eventos, podemos compreendê-los como um canal de promoção de muitos escritores e um incentivo à profissionalização da condição do autor de literatura. Associado ao caráter comercial do evento, é válido considerar que esses espaços aproximam leitor, escritores e livros. Nesse sentido, o escritor e curador de uma das edições da Festa Literária Internacional da Bahia, Aurélio Schommer, realça o valor positivo das feiras: 

“Escrever é um ato geralmente solitário. Escritores tendem a ser solitários. Mas não o são por vocação íntima, pelo contrário. A ninguém fascina o contato com cada indivíduo tanto quanto ao escritor. Nas festas literárias, o contato direto, não tanto na mesa, em que as pessoas são plateia, mas nos bastidores e andanças pela cidade que abriga o evento, é para o escritor uma revelação, certamente inspiração para escrever ainda melhor. Assim tenho observado na Flica, por onde já passou mais de uma centena de escritores.”

Há ainda outra razão para o interesse dos autores em participar dessas feiras e festas literárias: elas se tornaram cada vez mais importantes porque atualmente o escritor não veicula apenas os textos que escreve. Construir uma performance é essencial: conseguir fazer as pessoas falarem sobre seus livros, contarem a amigos ou colegas que acabaram de conhecer um escritor em um evento, tende a assumir uma importância fundamental na luta pela visibilidade da obra e do autor.

Por esse motivo, esses eventos costumam dividir as opiniões da crítica que acredita que as feiras se converteram em megaeventos que estimulam a superexposição dos autores, enquanto as obras literárias perdem visivelmente  prioridade, mas tal crítica é rebatida por aqueles escritores que acreditam que as feiras são investimentos ligados à cultura e à promoção de livros, contribuindo para dinamizar o mercado editorial.

Delicadeza ao avesso

Por Neila Brasil Bruno

Sinfonia em branco – Adriana Lisboa

Alfaguara, 2013 [2001, Rocco]

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Em Sinfonia em branco, romance de Adriana Lisboa, a narrativa sobre a infância das personagens Clarice e Maria Inês constrói-se por meio de recuos e avanços temporais, de lembranças independentes e interligadas. Nota-se a presença de referências significativas ao romance A morte em Veneza, de Thomas Mann, e a um quadro de Whistler. O enredo coloca em debate situações da realidade urbana que se constituem em torno da violência traumática experimentada por Clarice. É possível assinalar diversas qualidades em sua estrutura, como os elementos narrativos, o estilo refinado e a escolha de personagens, que nos permitem encontrar no livro uma espécie de compromisso: narrar uma boa história.

Valendo-se dos dramas familiares envolvendo Maria Inês, Clarice e os pais (Afonso Olímpio e Otacília), Lisboa invoca, ao longo dos quinze capítulos, temas como adultérios, abuso sexual, amor, paixão e morte. As personagens transitam entre o meio rural – fazenda nas cercanias de Jabuticabais –, representando a vida bucólica, e o Rio de Janeiro, representando a vida urbana. Nos entremeios dessa história, borbulham outras. Por momentos, surge a que poderia ser de Tomás, um pintor absolutamente apaixonado por Maria Inês, ou mesmo a de Otacília, que aos vinte oito anos casara-se com Afonso Olímpio sob secretas expectativas de felicidade.

Todo o universo do romance ancora-se nas experiências vividas pelas duas filhas de Otacília e Afonso Olímpio. A narrativa mostra-se bem à vontade com as idas e vindas que sustentam as vidas das personagens Maria Inês, Clarice, Tomás e Eduarda: todos eles fogem para o passado numa tentativa de compreensão dos eventos que foram silenciados, mas não totalmente esquecidos.

Em Sinfonia em branco, Lisboa parece ativar, de maneira expressiva, referências constantes à música e às artes plásticas. Por meio da atividade criadora, desmistifica a temática da violência proposta no romance através da delicadeza com que a história é narrada. De fato, é um romance atravessado por poesia, suavidade e fluidez, que convoca o leitor a exercer suas capacidades interpretativas, decifrando os segredos ao longo das páginas.

Publicado em 2001 pela Editora Rocco, Sinfonia em branco recebeu em Portugal, no ano de 2003, o Prêmio José Saramago, sendo alvo de elogios e das boas impressões de críticos e leitores. O romance favoreceu a carreira internacional de Adriana Lisboa e, atualmente, já foi traduzido para dez línguas, com traduções em albanês e esloveno no prelo. Em 2014, foi relançado pela Editora Alfaguara com um novo design de capa, edição corrigida e um prefácio redigido por Pilar del Río, presidente da Fundação José Saramago. O impacto dessas mudanças consolida e fortalece a trajetória literária de Adriana Lisboa.

 

Oficinas de criação literária: esboços de escritor

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Por Neila Brasil

É notável a crescente oferta de oficinas literárias na cena contemporânea brasileira. No Brasil, um dos nomes de destaque é Luiz Antônio de Assis Brasil, que vem ajudando a formar escritores de diferentes gerações. A partir de 1985, Assis Brasil abriu a primeira turma da “Oficina da PUC”, em Porto Alegre, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Letras. Se, no início, as oficinas eram abertas para o público em geral, hoje é preciso candidatar-se a um processo seletivo.

As oficinas ministradas por Assis Brasil têm ganhado notoriedade ao longo desses trinta anos. Escritores como Michel Laub, Amilcar Bettega, Cíntia Moscovich, Daniel Galera, Paulo Scott e Carol Bensimon são alguns exemplos de autores que têm conseguido destaque no cenário nacional e que passaram pela “Oficina da PUC”. Em depoimento ao site ZH Entretenimento sobre o trabalho de Assis Brasil, o escritor Michel Laub afirmou: “Ele foi a pessoa que mais me ajudou no início da carreira. A oficina me tornou um leitor melhor, no mínimo, e portanto um escritor melhor – considerando que escrever é ler o próprio trabalho o tempo todo, julgando o que presta e o que deve ser jogado fora”.

A oficina literária também pode ser entendida como uma espaço de formação da carreira do escritor. Além da muitas oficinas ministradas por autores que também passaram pela experiência de formação das oficinas,  também é possível encontrar oficinas de criação literária on-line. Adriana Lisboa, escritora carioca ofereceu, pela internet, uma dessas oficinas que consistia em encontros semanais virtuais, com duas horas de duração por encontro, durante quatro meses. Nas oficinas são discutidos elementos básicos da escrita de ficção e o resultado desses encontros deu origem ao e-book 14 novos autores brasileiros, lançado pela Mombak Editora.

Na apresentação ao volume, Lisboa observa que “a maior carência de um escritor acho que é a de um par de olhos ou ouvidos com que se possa compartilhar um trabalho e perguntar aquele sincero ‘e então?’ – para em seguida ouvir, com sorte, uma crítica sincera, pormenorizada, construtiva, arguta (embora não necessariamente agradável). O texto sai daí revigorado, livre do abismo do próprio umbigo. O mundo é vasto, ainda que seja uma bolinha de gude”.

As oficinas podem se configurar como sessões conjuntas de análise crítica dos textos contribuindo assim para a formação e o amadurecimento da carreira literária dos escritores, já que muitos escritores contemporâneos confirmam o quanto essas oficinas podem contribuir para a profissionalização. Podemos, então, arriscar dizer que tais espaços são interessantes para o debate do fazer literário e possibilitam compreender o trabalho de outros escritores, seu surgimento e atuação no campo literário.