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O editor e a autopublicação

Por Neila Brasil

 

As relações entre autor e editor são complexas e matizadas. Cabe ao editor, em última instância, decidir quais textos serão transformados em livros e como estes livros serão editados, distribuídos e comercializados, dependendo do público que se quer atingir e das demandas do mercado e diretrizes comerciais da empresa para a qual trabalha. O editor, portanto, é detentor de saberes e poderes específicos, que implicam em responsabilidades e tomada de decisões nas esferas intelectual, social, financeira, administrativa e jurídica.

Como observou com argúcia o editor da famosa editora alemã Suhrkamp, Siegfried Unseld, as relações entre autores e editores se caracterizam por um mal-estar persistente, que resulta da própria atividade do editor, que tem duas faces, como o deus Jano. Por um lado, o editor tem habilidades para reconhecer uma “obra sagrada” (o nome do editor Maxwell Perkins é emblemático), por outro, é um comerciante que precisa vender.

Em muitas situações o editor é peça fundamental para a concretização do texto de um escritor que está no início de sua trajetória. Devido à sua experiência no campo, o editor, por meio da observação de elementos e detalhes que muitas vezes passam despercebidos aos olhos do escritor, modula o texto final, tornando-o mais adequado para a edição e comercialização.

Na visão de Luiz Schwarcz, fundador da Companhia das Letras, que manteve durante algum tempo um blog na página da editora na internet,  o relacionamento entre autor e editor assemelha-se, muitas vezes, às relações amorosas ou familiares, compostas de altos e baixos e susceptíveis a rompimentos catastróficos. O editor acrescenta ainda que a parceria pode ser crucial ou irrelevante para o resultado final da obra, e que há, por parte do editor, comprometimento integral em relação à obra, desde a leitura minuciosa do texto até a sugestão para resolução de problemas práticos envolvendo as condições de criação do autor. Entretanto,  há casos em que o editor excede seu papel, interferindo no processo de criação do autor ou arrogando-se um poder maior do que possui de fato. Aqui, o caso mais clássico é a parceria de Gordon Lish e Raymond Carver.

Atualmente, todo o campo literário, incluindo aí a atividade editorial, tem sofrido o impacto das inovações tecnológicas. A autopublicação é uma delas. Se, em outros tempos, os autores que não contavam com uma grande editora para investir em sua obra pagavam uma versão impressa, hoje, muitos autores optam por uma edição virtual, que é um recurso acessível e barato. Uma inovação tecnológica, que está modificando a forma de produzir e divulgar literatura, é o surgimento de plataformas que possibilitam financiamentos coletivos. Uma das grandes vantagens dessa ferramenta é que ela oferece independência ao escritor que, agora, pode manusear seu trabalho sem ter que atender às exigências das editoras ou negociar mediações com o editor.

A utilização dessas plataformas atribui ao autor toda a responsabilidade pela publicação e divulgação do livro. Para participar, muitas plataformas exigem apenas que o interessado inscreva-se na plataforma de financiamento coletivo, apresente seu projeto em vídeo e defina uma meta e um prazo de arrecadação. A partir daí, os eventuais colaboradores passam a fazer contribuições financeiras para a execução do projeto.

Embora algumas pessoas enxerguem a novidade como uma ameaça ao mercado editorial, a utilização da ferramenta tem mostrado o contrário: através de parcerias entre as plataformas, as editoras, os escritores e os investidores, está sendo possível criar uma nova cultura, que valoriza a produção independente. Um exemplo é a proposta da coletânea de poesia brasileira Garganta, feita por Sérgio Cohn (ele mesmo um poeta-editor responsável pela Azougue) por meio da plataforma “Embolacha” que propõe a produção de um vinil com registro sonoro da poesia brasileira contemporânea falada pelos próprios autores.

Atualmente, a revolução tecnológica é responsável por grandes mudanças no cenário editorial. A facilidade da autopublicação na rede é apenas um exemplo disso, e de como podem mudar as relações entre autores e editores.

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A Carreira do Escritor e as Oficinas Literárias 

Por Neila Brasil 

As oficinas literárias são uma prática comum nos dias de hoje no Brasil. Escritores e diversos profissionais da área de Letras passaram a ministrar oficinas literárias em espaços culturais. Essas oficinas podem se configurar como sessões conjuntas de análise crítica dos textos, contribuindo para o amadurecimento literário dos participantes. Neste caso, autores iniciantes procuram escritores e críticos mais experientes para que estes deem sugestões sobre seus trabalhos.  Esse diálogo com o leitor qualificado é muitas vezes sugerido pela própria editora e considerado fundamental por muitos escritores.

Num momento em que as novas estratégias de profissionalização do escritor estão se consolidando, a proliferação de oficinas representa uma importante reconfiguração do campo de formação e inserção do autor iniciante no cenário literário. Nesse post, gostaríamos de refletir sobre algumas questões: As oficinas podem ensinar alguém a escrever? Qual o papel das oficinas literárias na formação dos escritores? 

Em um primeiro momento vamos pensar nas oficinas como espaços de discussão e aprendizagem. Ministrantes de oficinas literárias podem, por meio de sua experiência cultural, artística ou acadêmica, proporcionar aos alunos o conhecimento de técnicas baseadas na leitura de textos em prosa, trechos de poemas e contos, mediados por seus comentários críticos. Essa atividade tem sido uma resposta à demanda de formação dos escritores iniciantes que desejam conhecer as principais técnicas ficcionais e refletir sobre a escrita.

Diversos escritores brasileiros contemporâneos que circulam com êxito no cenário literário passaram por oficinas. Este é o caso de Daniel Galera, Michel Laub, Cintia Moscovich, Paulo Scott, Carol Bensimon. Alguns deles já confirmaram em entrevistas e depoimentos que terem participado de uma oficina literária contribuiu para sua carreira. Segundo Daniel Galera, participar da oficina literária de Assis Brasil, na PUC de Porto Alegre, serviu como “ponto de partida para pensar a literatura com um pouco mais de ambição”. 

Entretanto, essa visão positiva do papel das oficinas literárias não é unânime. O escritor gaúcho José Hildebrando Dacanal define oficina literária como “uma atividade privada e paga, e o mais das vezes informal, auto-apresentada como tendo o objetivo e a capacidade de ensinar adultos a escrever”. O autor contesta a possibilidade de ensinar alguém a escrever e considera um engodo oferecer tal serviço. O pressuposto que sustenta essa posição é o de que o artista nasce artista. Na sua visão, a arte não pode ser ensinada. Embora concorde com Dacanal em alguns pontos, o escritor Charles Kiefer defende que nenhuma oficina literária afirmará ser capaz de criar escritores, pois segundo ele o papel das oficinas é “desenvolver escritores”. 

O escritor Raimundo Carrero, em entrevista sobre a oficina que ministrou na FLIP em 2005, assim definiu a importância das oficinas literárias para os escritores potenciais: “É importante que eles descubram que são escritores. E que também não existe essa distância extraordinária entre seres mitológicos inspirados por musas e aqueles mais humildes que apenas se propõem a estudar e escrever literatura”. 

Em depoimento a este blogue, a ensaísta e professora Márcia Ligia Guidin, que coordena oficinas literárias há oito anos, afirma que a finalidade das oficinas é “compartilhar os trabalhos (em prosa, ou poesia, ou textos críticos) e desenvolver um senso autocrítico a partir da experiência”. Ouvindo e opinando, o autor desenvolverá a segurança necessária para analisar sua própria escrita, segundo a professora. Ela também enfatiza a questão do respeito ao trabalho e à opinião do escritor iniciante. 

Como podemos observar, não há um único ponto de vista sobre as oficinas literárias. Alguns argumentam incisivamente que talento ou dom não se ensinam e que inspiração não é mercadoria. Outro grupo acredita que é possível adquirir critérios de qualidade textual frequentando uma oficina literária e que os alunos podem, sim, compreender os mecanismos do texto. Divisões à parte, o fato é que cresce a demanda por oficinas literárias, e muitas pessoas motivadas pelo interesse em se tornarem escritoras procuram esses espaços para refletir e discutir literatura. Em minha visão, as oficinas literárias contribuem para a formação do escritor. Penso que a escrita pode ser aperfeiçoada e que a produção de textos, a análise crítica e o diálogo com um profissional experiente são fatores decisivos para escritores iniciantes. 

Podemos colocar ainda algumas questões finais: Para um escritor renomado haveria vantagens em ministrar oficinas literárias? Em caso positivo, quais seriam elas?

Para autores já renomados, ministrar uma oficina significa uma proximidade maior com seus leitores, a divulgação de seu nome e de seus livros, a interação com outros escritores e a possibilidade de refletir sobre técnicas literárias e sobre sua própria obra, além de motivar autores iniciantes. Ministrar oficinas também pode ser uma opção profissional em termos de mercado de trabalho, assim como dar palestras, ministrar cursos, participar de feiras e festas literárias e outros eventos de divulgação patrocinados por editoras e diferentes instituições. 

A universidade e a profissionalização

Por Neila Brasil

 

Como um escritor em início de carreira se inscreve no circuito literário? Além das habilidades relacionadas à criação literária, que implicações a atuação do escritor iniciante na cena literária da qual faz parte tem para a consolidação de sua trajetória? Conhecer alguns momentos importantes e alguns passos decisivos da carreira da autora Adriana Lisboa – uma escritora reconhecida e consagrada – pode nos ajudar nessa reflexão. A relação do escritor iniciante com críticos, jornalistas e agentes literários pode ser entendida como um elemento importante para a legitimação de sua carreira?

Adriana Lisboa desde o início de sua carreira demonstrou grande interesse em se estabelecer profissionalmente como escritora. Ingressando em um curso de pós-graduação, mesmo sem ter a intenção de seguir a carreira acadêmica, Lisboa, no mestrado, escolheu como objeto de estudo a poesia de Manuel Bandeira, reunida no livro Estrela da vida inteira. Sua pesquisa resultou na elaboração de um romance, Um beijo de colombina, que foi publicado pela editora Rocco.

Na trajetória literária de Adriana Lisboa, a universidade teve um papel estratégico, funcionando como uma importante instância legitimadora, para falarmos como o sociólogo, Pierre Bordieu, da legitimação do nome da escritora. Não apenas porque na academia Lisboa estabeleceu relações com outros elementos importantes do campo literário, como críticos e especialistas na produção literária contemporânea brasileira, mas porque pôde entrar em contato com um modus operandi à instituição universitária, seu modo de produção de conhecimento teóricos e prático a respeito do objeto literário, e participar de debates e discussões sobre literatura.

O livro Um beijo de colombina, que nasceu como dissertação de mestrado, foi finalista de dois prêmios importantes: o Prêmio Jabuti e o Prêmio Zaffari Bourbon. Ao ser inscrito em premiações literárias, o livro passou a circular por uma esfera de leitores qualificados, críticos, acadêmicos e jornalistas especializados, e ao figurar como finalista de premiações importantes, obteve o aval de uma outra instituição legitimadora.

Logo depois de seu mestrado, Lisboa ingressou no doutorado em Letras e manteve o projeto de apresentar como tese um romance baseado no diário de viagem escrito pelo poeta japonês Matsuo Basho. Para a produção do romance, Adriana Lisboa

foi pesquisadora visitante no International Research Center for Japanese Studies, em Kyoto, com uma Bolsa da Fundação Japão. O romance Rakushisha também figurou como finalista em três prêmios literários: Prêmio Jabuti, Prêmio Zaffari-Bourbon e Prémio Casino da Póvoa em Portugal.

A chancela da academia, ou seja, o fato de ambos os romances terem sido avaliados previamente e terem passado por bancas formadas por professores especialistas abre um flanco ao reconhecimento do nome da autora por outras instâncias legitimadoras, como os prêmios literários.

A partir daí, é possível perceber que Adriana Lisboa volta à academia, agora, como objeto de estudo, já que atualmente a obra de Lisboa é discutida em monografias e teses universitárias.

Acreditamos, assim, que instâncias de consagração como a universidade e os prêmios literários têm peso considerável para o reconhecimento público do escritor nos dias de hoje. Elas ampliam a rede de relações do autor colocando-os em contato com outros profissionais que atuam na cadeia do livro, favorecem a interação do escritor com outros escritores, fornecem ao público uma avaliação prévia das obras por especialistas, funcionando como engrenagens importantes para a profissionalização do escritor.

Viver (d)a literatura

Por Neila Bruno

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Crédito da imagem: Peter Ticien. Disponível em: <http://ronyblat.blogspot.com.br/2012/11/e-se-hoje-fosse-seu-ultimo-dia.html&gt;.

Segundo o sociólogo francês Pierre Bourdieu, a autonomização do campo literário está sujeita a três condições: a emergência de um corpo de produtores especializados, a existência de instâncias de consagrações específicas e a existência de um mercado.

Pierre Bourdieu sugere ainda que um campo é um espaço constituído de posições sociais, que podem ser ocupadas por diversos agentes e no qual a posição de qualquer ator envolvido implica em diferentes tipos de capital: econômico, cultural e social.

O capital econômico corresponde a rendas, proventos, recursos; o capital cultural refere-se aos saberes e competências, abrangendo também títulos e premiações; já o capital social estende-se às redes de relações e contatos que um agente forjou ao longo do tempo.

Elegemos esse conceito de campo como uma espécie de estratégia para entender as posições tomadas pelos autores que têm a literatura como atividade profissional.

Com o advento da internet e das redes sociais houve uma transformação radical na forma de circulação, divulgação e até de comercialização dos textos literários. Apostando na publicação em blogues e em outras plataformas eletrônicas, muitos autores encontram mecanismos alternativos ao mercado editorial tradicional.

O escritor Daniel Galera pode ser considerado um exemplo dessa nova geração de escritores no Brasil. Pioneiro no uso da internet, publicou textos de ficção na rede entre 1996 e 2001. Em seu site http://ranchocarne.org/ oferece obras para download gratuito, mas podemos dizer que Galera é um escritor consagrado, afinal, publicou obras por uma grande editora, a Companhia das Letras, e seus romances ganharam prêmios de prestígio: Barba ensopada de sangue (2012) foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura e finalista do Prêmio Jabuti e Cordilheira (2008) foi vencedor do Prêmio Machado de Assis e também finalista do Jabuti.

Os sinais de que é possível viver de literatura no Brasil estão visíveis ainda em outro exemplo quase antípoda ao de Galera: trata-se do escritor Luiz Ruffato. Para dedicar-se à literatura em tempo integral, Ruffato desligou-se do jornalismo em 2003: “Minha decisão se baseava numa intuição: se me mantivesse disponível para viajar e divulgar meus livros, talvez conseguisse uma maior repercussão do meu trabalho”.  O que importa ressaltar são as diferentes tomadas de posição dos dois autores mencionados em relação à construção de suas carreiras. Com a publicação do romance Eles eram muito cavalos (2001), Ruffato também ganhou prêmios importantes como o da Biblioteca Nacional e da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

Para Ruffato “já não causa tanta comoção quando alguém demonstra interesse em dedicar-se à carreira literária – isso por que, além do dado simbólico (a aura de prestígio que envolve o autor na sociedade), há efetiva possibilidade de viver de literatura no Brasil”.

A figura pública do escritor também mudou de estatuto. O campo literário se expandiu: os prêmios literários, financiados por instituições públicas ou privadas, abarcam valores consideráveis. Os lançamentos das obras também envolvem uma estratégia profissional e de marketing, participação em eventos literários, lançamentos em grandes livrarias e aparições na imprensa. Essa interação com o público leitor cria uma estratégia eficiente de promoção do livro.

Um outro exemplo que poderia ser mencionado, é o do ex-professor universitário Cristovão Tezza. Com 15 livros de ficção publicados, além de algumas publicações acadêmicas, o autor preferiu abandonar as aulas que ministrava na Universidade Federal do Paraná depois de vinte anos, para dedicar-se exclusivamente ao ofício de escritor. Essa decisão foi tomada em virtude do enorme sucesso de público e de critica que o autor alcançou com a publicação do romance O filho eterno, lançado em 2007.

Embora a antiga imagem do escritor como um artista por vocação ou talento, totalmente desvinculado do mercado, já tenha perdido terreno, sabemos que o processo de profissionalização ainda está em curso oferecendo grandes desafios aos escritores.

Acreditamos, assim, que uma questão como “quem é escritor profissional?” fica menos obscura quando lançamos um olhar sobre escritores que deixaram seus ofícios para viver de literatura.

A profissionalização do escritor brasileiro no século XXI

Por Neila Bruno

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Crédito da imagem:  Aart-Jan Venema

A fundação de academias, agregando grupos de intelectuais, foi a forma de escritores obterem um primeiro reconhecimento do público. Porém, hoje, o escritor poderá tornar-se independente por meio de uma série de ações no sentido de se inserir numa profissionalização do ofício.
Para alguns, não é de bom tom associar dinheiro com literatura, preferindo apagar o caráter econômico das atividades culturais. Para outros,os planos financeiros  e artísticos, dos quais advém o controle sobre a difusão das obras, permitem através dos lucros a subsistência do escritor.
O fato de que o livro é, atualmente, um produto consolidado no mercado favoreceu o desenvolvimento do ofício do escritor. Paralelo a isso, as mudanças ocorridas no campo literário nas últimas décadas vêm produzindo uma expectativa de melhoria na vida financeira dos autores. Atividades das mais diversas estão aí disponíveis para manter e auxiliar o trabalho de quem escreve: cursos, oficinas de escrita, eventos e festas literárias, feiras do livro nas quais os escritores recebem um cachê para proferirem palestras ou fazerem apresentações. Dessa maneira, muitos escritores pensam em viver de literatura, somando aos direitos autorais, essas atividades ao exercício profissional da escrita.
Quanto à busca da profissionalização, os próprios escritores se veem divididos entre a expectativa de viver exclusivamente da literatura e a aceitação das regras ditadas pelo mercado editorial. Ora, quando um autor resolve publicar seu original, ele deve buscar uma editora (excetuando-se os casos daqueles que preferem custear uma edição independente). Tendo o seu original aceito, a editora se responsabilizará pela leitura, revisão, edição e o projeto gráfico, antes de encaminhar o copião final à gráfica, que imprime e encaderna os livros e os despacha para a distribuidora, que, por sua vez,pode pertencer à própria editora ou não. Na etapa final desse ciclo, o livro é comercializado nas livrarias, físicas ou virtuais. Ou seja, publicar um livro é lançar um produto no mercado, ainda que um produto que não pode se igualar a venda de um sabonete, por
exemplo.
O século XXI viu surgir uma multiplicação de instâncias profissionais ligadas à literatura (sociedades de autores, oficinas para escritores), bem como instâncias de difusão das obras (festas e feiras literárias, imprensa, programas na tv, sites, blogs, redes sociais, entre outros) e de consagração literária (revistas, concursos, prêmios literários). Nesse contexto, a ideia de profissionalização está diretamente ligada à atuação do autor como um agente do mercado. E quanto mais marcante for a sua performance, mais condições ele terá de conquistar um público potencial para seus livros. Entrevistas em programas de televisão, reportagens de jornal, declarações em eventos, resenhas, biografias, fotos em revistas, tudo isso compõe a trajetória do autor.
Por esse motivo, poderíamos dizer que para exercerem o ofício de modo a conquistar a profissionalização, os escritores precisam do respaldo dessas instâncias para garantir a construção de uma carreira literária bem-sucedida.

Tornar-se escritor: a profissionalização possível

Por Neila Brasil Bruno

“Escrever, compor, pintar, nada disso é trabalho, é o exercício lúdico, revigorante, glamouroso e sublime de um dom artístico”. O depoimento, concedido ao jornal O Estado de São Paulo, é do escritor João Ubaldo Ribeiro e contraria ironicamente o lugar que transforma a arte em mercadoria. Tal reflexão sustenta-se entre os artistas que não estão preocupados com a expressão comercial do que realizam. O escritor ainda acrescenta: “por conseguinte o artista não pode pensar em dinheiro” (RIBEIRO, 2002). Ora, o status do artista vem se alterando muito nos últimos anos, não mais caracterizado como um pobre excluído, tentando ganhar a vida. Atualmente, o artista percebe a arte como uma vertente profissional. Por sua habilidade em conquistar mercados para suas obras, inspira empreendedores, inovadores e agentes de todos os tipos. A partir dessa habilidade, o artista busca profissionalizar-se no exercício da atividade artística ou literária.

Neste post, eu gostaria de aproveitar essa discussão para refletir sobre a seguinte questão: “É possível viver sendo escritor no Brasil?” Nas últimas décadas, é visível que os escritores vêm experimentando um processo gradativo de profissionalização. Começam “a viver de literatura”, coisa reservada há algum tempo atrás a um número reduzido de escritores, e a se relacionar com a ideia de que o livro, mais do que objeto cultural, é uma mercadoria vendável e lucrativa. Há uma expectativa de melhoria de vida financeira, atividades, as mais diversas, podem estar aí presentes para manter e auxiliar o trabalho de quem escreve:  cursos; oficina de escrita; eventos e festas literárias, feiras do livro na qual os escritores recebem um cachê para fazerem palestras ou apresentações. Dessa maneira, muitos escritores pensam em viver de literatura, não apenas de direitos autorais, mas somando essas atividades ao exercício profissional da escrita.

Ser “escritor”, enquanto projeto de vida, é passar, necessariamente, por várias paradas obrigatórias: o autor precisa saber quem são seus pares – conhecer a obra de outros escritores; estudar técnicas literárias, história da literatura; ler literatura brasileira, crítica literária, ou seja, encarar a atividade de escrita como um trabalho. Há também o surgimento de cursos de formação do escritor e oficina literária que tem como objetivo favorecer a profissão de autoria, ao explorar técnicas ficcionais e suposições sobre escrita. Outra perspectiva interessante é considerar a posição da qual um autor fala, uma combinação de suas credenciais, sua visibilidade e sua capacidade promocional através da mídia. Com isso, se um autor aparece com regularidade nos meios de comunicação, ou assina uma coluna no jornal ou uma revista, isso dá a ele uma imagem de alto perfil que cria um mercado potencial preexistente para seus livros.

Finalizando, poderíamos então arriscar dizer que é possível que um autor consiga viver do mercado literário, trabalhando em toda a cadeia do livro, mas no que diz respeito a viver de direitos autorais ainda é um desafio para qualquer escritor brasileiro.

Conversando com… Emmanuel Mirdad

Entrevista concedida pelo Whatsapp a Neila Brasil

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Festas literárias, como a de Paraty e a de Cachoeira, desempenham importante papel na promoção dos escritores e de suas obras. Nessa entrevista, Emmanuel Mirdad, um dos organizadores da Flica, a Festa Literária de Cachoeira, cidade do Recôncavo Baiano, toca em muitas questões que já foram alvo de nosso interesse nos textos  publicados aqui no blog, como por exemplo a questão da profissionalização do autor, do papel do agente literário. Chama a atenção o fato de Mirdad afirmar que os convites privilegiam autores que já possuem uma carreira literária mais ou menos estabelecida ou que tenham jogo de cintura para circular no campo literário. Não deixa de ser curiosa, então, a formação de um círculo vicioso alimentado pelas festas: o autor tem de ter algum destaque na vida literária para participar da festa, que como evento da vida literária, vai lhe dar algum destaque.

Agradecemos a entrevista e a reflexão que as respostas de Mirdad nos proporcionam. Vamos a ela:

Leituras contemporâneas: Após 5 edições da Flica, quais são os desafios e as conquistas?

Emmanuel Mirdad: Acho que a nossa maior conquista foi ter vingado uma festa literária na Bahia que não tinha e ela ter tido esse sucesso, tanto de público como de repercussão no meio literário. Os autores já conhecem a Flica, o mercado já sabe que tem a Flica. A Flica já está calendarizada. Isso é muito importante porque às vezes os bons eventos surgem e não conseguem se manter, e a gente conseguiu, com o apoio dos patrocinadores, fazer esse evento por cinco edições, chegando agora na sexta edição. Acho que a maior conquista foi isso, ter conseguido fazer uma festa literária na Bahia, porque já se pedia por isso, e também, de ter trazido para Cachoeira mais uma oportunidade de ter um evento cultural de relevância. Como nós já tínhamos a Festa da Boa Morte, a Festa da Ajuda, o São João, então a gente chegou para somar ao escopo de eventos culturais, turísticos da cidade. E o desafio agora é crescer mais e mais, conseguir trazer grandes nomes internacionais para cá e se firmar como uma opção a Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, que é a festa literária mais importante do Brasil.

Leituras contemporâneas: Quais são os critérios para a seleção e participação dos escritores e poetas na Flica?

Emmanuel Mirdad: Bom, esses critérios são definidos pelo curador e os curadores variam durante o tempo. Esse ano e das vezes que eu participei da curadoria, os critérios que a gente utilizou foram a programação, conseguir equilibrar o número de autores nacionais, internacionais e locais, colocar os locais no mesmo espaço de dignidade que nós oferecemos para os nacionais. Ou seja, não é mesa baiana só com baiano. É baiano com nacional, baiano com internacional, para poder valorizar, não é? E a gente sempre teve muito sucesso com isso, o que os autores baianos tiraram de letra. Todos os autores… e geralmente para os autores nacionais, o critério é que seja um grande nome já reconhecido e que esteja lançando um livro no momento. O autor baiano, ele vai a partir dessa condição, de quem está aparecendo mais, quem está vendendo livro, quem está lançando livro, de quem já tem história, de quem já tem experiência em participar desse tipo de evento, quem é disposto a falar, quem fala bem, quem tem o que falar. Então são muitos critérios que dependem especificamente do momento do autor, naquele instante, por exemplo, a gente sempre prioriza trazer autores que estejam lançando livros neste ano ou que tenham acabado de lançar livros. E a gente visa equilibrar a escolha a partir do que já foi definido do autor nacional.

Leituras contemporâneas: Há espaço para novos talentos na Flica?

Emmanuel Mirdad: Sempre teve. Por exemplo, na primeira edição a gente teve um poeta que era menor de idade. É como eu falei na questão anterior, tudo depende dessas variáveis. Se esse novo talento lançou um livro que está sendo bem comentado, que está sendo bem vendido, que tem resenhas  boas por aí, que ele tenha uma aparição, então a gente… o autor, ele tem que existir para que venha fazer parte da programação. Aqueles autores de gaveta que lançam livro, que só os amigos conhecem, fica um pouco difícil. Então o novo talento, ele tem que aparecer para poder ir para a Flica também.

Leituras contemporâneas: Como é o contato com os autores, a negociação envolvendo o convite para participar da festa? A negociação é direta ou mediada pelos agentes literários dos autores?

Emmanuel Mirdad: Então…. varia. Tem autor que a gente só consegue falar com a rede literária, tem autor que a gente consegue falar por via das editoras, e a gente sempre busca falar diretamente com o autor. Quando não é possível, não tem jeito: a gente vai falar com o agente ou com a editora. É que às vezes, por exemplo, um autor famoso ou um autor caro nem tem conhecimento do que é o evento, o que está sendo proposto, porque o cachê não satisfez ao agente, ao empresário, ao produtor, enfim… sendo que ele teria outros ganhos, ganho de imagem e até mesmo ganho pessoal de vir a Cachoeira, conhecer a cidade que todos os autores que vêm se encantam.

Leituras contemporâneas: É possível afirmar que esse evento colabora com a profissionalização de escritores?

Emmanuel Mirdad: Bom, depende. Por exemplo, eu vejo um autor iniciante que está querendo escrever, está querendo ter contato com o meio. A gente proporciona isso, a gente proporciona o acesso ao autor, ele vai ouvir o autor falar, ele vai conhecer o autor, vai vivenciar a cidade; enfim, o lugar, o ambiente, isso tudo influência, mas eu acho que a profissionalização… Vamos pensar naquilo que eu já respondi: se o autor não fizer sua parte junto com a editora de pensar a carreira, de construir a carreira, fica difícil dele ir para a Flica. Então também pode ser que faça, o estimule a buscar a profissionalização, mas acredito que ela só exista mesmo a partir do esforço individual de cada um, da bagagem de leitura e dos cursos, etc. Porque a Flica não é um curso, é apenas um evento de amostragem do que está acontecendo de melhor na literatura.