Arquivo do mês: janeiro 2014

Dante: um escritor construído por fragmentos

Rodrigo Estevão

A recorrente representação do escritor nas narrativas contemporâneas brasileiras aguça o interesse em buscar como esse tipo vem sendo construído na produção literária desse século. Nesse sentido, encontramos na obra de Daniel Galera uma forte contribuição para esse estudo, uma vez que a presença do escritor como personagem é significativamente salientada. Em meio a essa produção do autor, destaca-se Dante, personagem do qual buscarei traçar uma espécie de perfil considerando a forma como ele [o personagem] é construído. Isso mesmo, Dante. Não o Alighieri, mas Dante: escritor e irmão do protagonista de Barba Ensopada de Sangue, romance de Daniel Galera publicado pela Companhia das Letras.

A figura de Dante (moldada sempre em oposição ao irmão que, ironicamente, tem traços que nos remetem ao autor, como o gosto por nadar) vai tomando forma de maneira gradual, através de poucos – mas significativos – momentos nos quais, sempre através da fala de outros personagens, ele “aparece” na narrativa. A figura do escritor e seu mundo é sentenciada desde a situação inicial do romance, momento no qual o protagonista, irmão de Dante, em meio a conversa na qual seu pai anuncia que cometerá suicídio e o incumbe de sacrificar seu cachorro, responde ao pedido: “Por que não chama o outro? Ele vai achar graça nisso, quem sabe. Vai escrever um livro a respeito”, [grifo nosso] (p. 31). O recorte evidencia a representação do escritor como aquele que enxerga como possibilidade de material literário tudo que está ao seu alcance na realidade tangível.

A sentença ainda prenuncia um outro problema muito atual: é possível um autor de literatura viver hoje de seu ofício?  A representação de Dante no romance de Galera parece tensionar a posição do escritor colocado entre o capital simbólico e o capital financeiro. Nos termos de Pierre Bourdieu, sociólogo francês, o capital simbólico referencia-se por uma moeda de valor abstrato e está ligado ao imaginário das Artes em geral. Trata-se de, por exemplo, de ‘regalias’ adquiridas por conta do conhecimento ou do reconhecimento ou de um poder e local de fala mais privilegiados ou por tudo isso junto, já que esses elementos não estão necessariamente conectados. O segundo, considera uma moeda de valor físico, tendo como maior expoente o dinheiro.

Pois bem. Analisemos agora as dúvidas da mãe do personagem sobre o modo como o filho ganha a vida:  “Anos atrás eu cheguei a achar que o Dante era o filho que ia acabar se complicando na vida com aquela história de ser escritor. Até hoje eu não faço a menor idéia de como ele ganha a vida já que os livros vendem pouco e ele nunca vence os prêmios que dão dinheiro. Acho que é com palestra. Sei que ele tá em São Paulo vivendo num ótimo apartamento que conseguiu comprar (…)”, (p. 284)

A fala, além de insinuar o quão distante sua progenitora está do ofício de escritor do filho e o quanto ela entende esse ofício fora da lógica de mercado do capital financeiro (como se nota muitas vezes), respalda e potencializa um dos lados dessa caracterização construída pela dualidade dos dois capitais. A passagem, por um momento, nos faz acreditar que Dante é um dos escritores que se sustentam financeiramente por sua atuação no próprio Campo Literário. Porém o protagonista da trama funciona como uma ferramenta problematizadora dessa discussão, ao revelar, instantes depois, que o apartamento é financiado e o escritor divide as parcelas com a mulher. Ou seja, a literatura de Dante (e as esferas que a rodeiam) é suficiente ou não para lhe garantir capital  financeiro? Acredito que a pergunta permanece também na cabeça dos parentes do escritor, já que a eles parece improvável ganhar dinheiro escrevendo…

Ainda fundamentando esse aspecto, que é a base da construção da imagem de Dante como escritor, numa leitura detida de outro fragmento é possível notar que o autor dispõe o personagem como um escritor que necessita abdicar de suas atividades extra-literárias e se fazer, de certo modo, recluso, “Emprestei pro Dante também e ele vai me pagar de volta, mas não sei quando. Ele disse que só vai ter dinheiro depois de terminar o livro. Porque precisa parar de trabalhar pra conseguir terminar.”, (p. 289). Isto, de certo modo, romantiza a figura do escritor e reforça a distância cultural-histórica entre o Capital Financeiro e o capital simbólico conquistado pelo artista das Letras.

Em Barba Ensopada de Sangue, a narrativa de Daniel Galera convida o leitor a tatear, superficialmente, a figura do autor na literatura contemporânea. Nesse sentido, Dante se faz um intensificador de algumas discussões que envolvem o escritor no Campo Literário Brasileiro Contemporâneo, tornando-se relevante elemento para os estudos da representação do escritor na ficção de Galera e de outros autores. Dante é, portanto, uma pergunta que permanece: quem é esse escritor do século XXI?

BES*: Barba Ensopada de Sangue.