Arquivo do mês: outubro 2016

O que pode um biografema?

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Barthes por Agustín Sciammarella

Por Luan Queiroz

Quando penso em alguns modelos mais tradicionais de escrita da vida, o que me vem logo à cabeça são aquelas biografias imensas (geralmente divididas em vários volumes), e que exploram incansavelmente a ideia de totalidade e de profundidade, como se a partir do texto escrito fosse possível reconstituir toda a trajetória e os caminhos da vida do biografado.

Textos em que há a tentativa de buscar na vida que está sendo escrita, uma verdade singular, uma essência, como se realmente houvesse uma verdade maior, soberana sobre a existência de alguém, que após um grande esforço, pudesse ser alcançada e finalmente reportada, como bem observa Ewerton Ribeiro em sua dissertação de mestrado.

No contemporâneo, porém, convivendo com esses modelos mais tradicionais de escrita da intimidade, se verificam uma série de produções que subvertem, das mais variadas maneiras possíveis, algumas das características canônicas do gênero, apontando para o estabelecimento do que Leonor Arfuch, pesquisadora argentina, chamará de espaço biográfico, um campo marcado por uma intensa abertura ao múltiplo, ao híbrido e ao intertextual.

Nesse sentido, surge como ferramenta de construção biográfica, por exemplo, o biografema, conceito forjado por Roland Barthes, e que se configura em linhas gerais como a tomada de uma característica, um detalhe, um evento da vida de um sujeito como metonímia para a narração dessa vida.

Longe de um retrato totalizante, o que o biografema nos oferece de nosso biografado é sempre um olhar superficial, disperso e fragmentário: uma biografia em estado precário, em eterna construção, poderíamos dizer. Da vida que está sendo escrita, só é capturado o puctum, ou seja, os detalhes, os traços que mais me interessam e mais me encantam nessa vida.

Isso me faz pensar em outra importante característica de uma biografemática, que é essa relação afetiva depreendida entre o biógrafo e o biografado, mas também entre o texto sendo escrito e o seu futuro leitor. Sobre este “gesto amoroso”, como classificará Barthes, Luciano Bedin da Costa, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, inclusive, chega a comentar: “só se biografa o que em nós é biografado”, revelando, portanto, que para além de uma exigência historiográfica ou uma preocupação com a veracidade, um biografema seria composto majoritariamente por uma “anamnese factícia”, novamente citando Barthes, uma memória falsa, uma tenuidade de lembrança que me impulsionaria a querer falar daquele que amo.

Luan Queiroz cursa Letras Vernáculas e Língua Estrangeira Moderna na UFBA e faz parte do grupo NEG(A) como bolsista FAPESB de iniciação cientifica. Sua pesquisa é sobre as ficções biográficas, textos nos quais procedimentos da biografia são utilizados como ferramentas para a construção ficcional.

A experiência ordinária da arte contemporânea

Por Luciene Azevedo

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Yuri Firmeza, “Vida da minha vida”, 2011, video-instalação.

Chama a atenção no cenário contemporâneo das artes, o incrível número de narrativas que lançam mão da primeira pessoa. Não me parece que essa incidência seja um privilégio do campo literário. Um passeio despretensioso pela cena atual  dá a dimensão de como o eu, a narrativa de si, é proeminente em vários estratos de nosso contemporâneo.

No cinema, Los Rubios (2003) da argentina Albertina Carri ou mesmo o brasileiro Santiago (2007) de João Moreira Salles, nas experiências teatrais de Vivi Tellas e de seu Biodrama, nas fotos de Francesca Woodman, ou nas performances de Sophie Calle encontramos narrativas que ficcionalizam a vida de seus autores que são também personagens das histórias.

Pensando mais especificamente na literatura é possível perceber como muitas narrativas que exploram uma dimensão autobiográfica no relato colocam em xeque o entendimento delas como romances, pois, muitas vezes, regozijavam-se com a banalidade e a trivialidade não apenas do que contam, mas também da forma como o fazem, simulando muitas vezes um conjunto de anotações que parecem preparar a escrita de uma “obra”.  É possível lembrar aqui do diário-romance do autor uruguaio Mário Levrero, por exemplo: “não estou escrevendo nada que valha a pena, mas estou escrevendo” ou “só anotando coisas, mas não sei para quê”.

Assim, as narrativas assemelham-se muito a um conjunto de anotações, a textos que parecem meras anotações de si e que dão à escrita um caráter de laboratório, fazendo da figura autoral um verdadeiro curador de si e de sua própria obra. É o que parece estar em jogo se observamos a produção de David Markson ou os livros do autor americano Ben Lerner.

Basta que nos aproximemos de quaisquer dessas obras para perceber que há algo funcionando como um rascunho, como esboço inacabado de um processo que se dá a ver ainda em elaboração e que, no entanto, nos é entregue já como obra acabada e por isso a expressão “estado de estúdio”, utilizada pelo crítico argentino Reinaldo Laddaga parece servir como uma luva para concretizar o que julgo um procedimento muito presente nas narrativas contemporâneas.

Flertando com a prática da anotação, os romances parecem exceder a forma do próprio romance, expondo ao leitor a manufatura do processo de composição, a possibilidade de explorar o relato do trabalho com a manufatura da obra, revelando os andaimes da escrita e apostando na “potência dos processos contingentes e estruturalmente inconclusos”, para falar nos termos de outro crítico argentino, Alberto Giordano.

E se ainda é possível falarmos em nome da literatura, é porque talvez ela esteja sendo expandida, forçada em seus limites, por uma espécie de estética da anotação, que, tal como Barthes preconizava, apela a uma simplicidade, que, embora seja difícil de caracterizar, é marcada pelo gesto de recolha de trivialidades do cotidiano, do autor, do personagem, pela ordinariedade das vidas de escritores (não raramente autorretratados de maneira muito derrisória), pela incorporação do acaso, sugerindo uma coleção de histórias sempre incompletas  que se dão a conhecer em seu estágio de montagem.

Um projeto editorial para Bruno Tolentino

Por Nívia Maria

A balada do cárcere

Bruno Tolentino

1ª ed. comentada.

Record, 2016.

Mais de 20 anos depois do primeiro lançamento, o livro A balada do cárcere de Bruno Tolentino conta agora com uma edição comentada. O título é uma alusão à obra quase homônima de Oscar Wilde, A balada do cárcere de Reading, e também foi produzida durante e a partir da experiência da prisão vivida pelo autor.

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Nesta nova edição, a capa de Victor Burton, produzida sobre detalhe de A degolação de São João Batista de Caravaggio, foi substituída pelo design de capa de Marcelo Girard, uma decisão que muito contrastou com os modelos de capa dos livros de Tolentino, geralmente, com referências a obras pictóricas consagradas (como ocorre em O mundo como ideia e Imitação do amanhecer). Quem conhece outras obras tolentianas pode estranhar o tom menos presunçoso da nova capa, suas cores e fontes, mas seu aspecto menos solene é uma das apostas editorias para aproximar mais a obra de Tolentino do leitor contemporâneo.

Neste novo lançamento, há um cuidado, sobretudo didático, com o leitor. A começar pela nota introdutória e explicativa dos organizadores, seguida pelo texto “Escrito nas estrelas” de Érico Nogueira. Já publicado anteriormente em formato de artigo na revista CESP, sob o título de “Bruno Tolentino e a poética classicizante: o caso de ‘A balada do cárcere’”, esse texto de Nogueira aparece com algumas alterações e funciona como um “guia” para a leitura da obra. Podemos notar as intitulações diferentes, agora mais diretas, para cada uma de suas seções: “Classicismo pós-cabralino”, por exemplo, vira “A poética”. É possível perceber também o acréscimo de uma parte inicial, chamada “O cárcere”, na qual Nogueira contextualiza os leitores com pormenores sobre a prisão de Tolentino, informando-lhes as circunstâncias a partir das quais o livro foi escrito. Seus parágrafos finais também foram modificados, ganhando um tom mais pessoal.

Além disso, há muitas notas de Juliana Pasquarele Perez e Jessé de Almeida Primo, as quais intentam auxiliar o leitor a atravessar o entroncamento de referências a poetas, músicos, poemas, libretos, mitologias presentes em cada página. Em 2010, a Record já tinha recorrido a expediente semelhante ao publicar uma edição comentada de As horas de Katharina. É um movimento que relança a obra, recolocando-a no mercado e direcionando-a “tanto aos leitores que desejam conhecer a obra de Bruno Tolentino quanto aos que conhecem e querem aprofundar sua leitura”, como afirma a nota dos organizadores, Guilherme Malzoni Rabelo, Martim Vasques Cunha e Renato José de Moraes.

A nova publicação ainda manteve o prefácio e os posfácios escritos por Tolentino para o livro de 1996. Por meio deles, o leitor encontra um tanto das polêmicas nas quais Tolentino se envolveu. Não à toa, Érico Nogueira situa A balada do cárcere “como a mais consciente resposta do autor” à sua querela com Augusto de Campos. No prefácio, “Da quod jubes, Domine”, por exemplo, o autor, além de falar sobre o “number-maniac”, que inspirou sua criação ficcional, se encarrega também de explanar sobre “a distância expressiva entre o texto de um poema e as palavras de uma canção”.  Ideia reforçada pelos dois textos que integram o posfácio da edição anterior, “Dj & Déjà vu” e “As joias e as cartas de amor”, publicados no Apêndice desta nova edição, no qual podemos encontrar também um glossário, referências bibliográficas, mais notas e observações.

Com um texto de orelha que coloca Tolentino no “topo da modernidade literária brasileira”, a edição comentada de A balada do cárcere é um exemplo do esforço empreendido por seus organizadores, não só para elucidar mais a obra tolentiana e seu projeto poético, mas, sobretudo, para que novos leitores possam ser formados, ou melhor, “para que o leitor descubra a poesia de Bruno Tolentino”.

A apresentação de Érico Nogueira ao livro pode ser lida na íntegra aqui: http://www.record.com.br/images/livros/capitulo_3NKiAt.pdf

Quem quiser conhecer melhor a verve polêmica de Bruno Tolentino pode acessar: http://www.inventario.ufba.br/16/05%20Bruno%20Tolentino.pdf

Ana C. e suas tramas

Raquel Machado Galvão

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Um misto de ensaio e síntese de um estudo dissertativo, Ana C.: as tramas da consagração é um livro de autoria da pesquisadora argentina Luciana di Leone publicado em 2008 pela coleção papéis colados da editora 7Letras.

No livro, interessou a Luciana di Leone refletir sobre a construção de mitos no campo da literatura, a partir do estudo de caso de uma figura que ela considerou emblemática no contexto contemporâneo da literatura brasileira: a poeta paradoxal construída como uma espécie de “santa pós-moderna”.

O estudo concentra-se nas leituras, enunciações e intenções presentes nos documentos que compõem o arquivo de Ana Cesar, nas versões dos discursos que foram revelando a sua figura ao longo do tempo, e nas influências diretas que podem exercer no processo de consagração da escritora.

A primeira parte do livro, Aproximações ao nome Ana C., fica imersa na rede de textos publicados por e sobre Ana Cristina Cesar e reflete como as produções dialogam, provocam tensões e suplementam-se entre si. Além disso, Luciana di Leone aponta para uma análise das obras de Ana C. publicadas postumamente e da fortuna editorial publicada no exterior.

Em uma tentativa de ressignificar a obra e a figura de Ana C., di Leone percebe nos textos o reforço em torno da ideia da construção de um mito e aprofunda o debate na apresentação da fortuna crítica sobre Ana Cristina Cesar, analisando sua proliferação, os tipos de discursos envolvidos, a linguagem apresentada e a circulação do nome da autora no meio acadêmico e literário.

A maior qualidade do trabalho da pesquisadora argentina Luciana di Leone, ao tratar do arquivo e das tramas da consagração de Ana Cristina Cesar, é apontar para o processo de consagração literária como algo aberto. Não se trata de um processo natural, mas construído através de uma rede de discursos oficiais ou não. As ideias de di Leone são originais, críticas e objetivas, além de muito bem apuradas junto aos arquivos e à família da escritora. Desde que o livro foi publicado, em 2008, o processo de consagração de Ana Cristina Cesar passa por uma continuidade. Atualmente, a escritora é publicada por uma das maiores editoras do Brasil, a Cia das Letras, e em 2013 teve a sua obra compilada no livro Poética, o que a tornou ainda mais difundida entre os leitores brasileiros. Além disso, no ano corrente a escritora foi homenageada na Festa Literária de Paraty (Flip 2016), uma das mais importantes do mercado editorial nacional e internacional, e teve outros livros reeditados pela Cia das Letras.

Os discursos em torno da figura/obra de Ana Cristina Cesar continuam presentes e recorrentes na mídia e na crítica literária. Resta-nos, dentro das nossas possibilidades de pesquisa, remontá-los nesse movimento contemporâneo muitas vezes disperso, e apreciar a relevante colaboração que Ana Cristina Cesar deixou nas diversas cenas da literatura brasileira, tendo atuado como poeta, revisora, tradutora, pesquisadora e crítica cultural. Labores artísticos e intelectuais que geraram um impacto na cena cultural brasileira das décadas de 1970-1980 e que continuam ecoando até hoje.

Raquel é doutoranda em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e faz pesquisa sobre as relações entre a crítica, a biografia e a poesia de Ana Cristina César.