Arquivo do mês: novembro 2017

Será que a literatura resiste?

Por Luciene Azevedo

post luciene nov

Créditos da Imagem:  Harry Callahan. Chicago (1955)

A pergunta implica uma reflexão sobre o papel e a importância da literatura hoje. Recebendo todo semestre alunos que ingressam nos cursos de Letras, costumo perguntar quantas pessoas do círculo de relações deles podem ser consideradas leitores e leitoras de obras que, apesar da elasticidade do termo, possam ser chamadas de literárias. O silêncio que recebo em resposta não deixa de provocar certa melancolia, mas também é um ponto de partida para refazer um percurso da história do termo literatura na era moderna, no final do século XVIII, quando diante da autonomia da arte soava injustificável questionar sua importância social.

Peter Sloterdijk. Em seu Regras para o parque humano, lança mão de uma série de imagens para evocar o panorama de constituição do que chama de humanitas ou “a comunicação propiciadora de amizade realizada à distância por meio da escrita”. Mencionando o escritor romântico Jean Paul que comparou os livros a cartas dirigidas a amigos, Sloterdijk sugere que é a notável receptividade dos romanos aos textos gregos a responsável por dar início a uma tradição humanista que reconhece na literatura um convite feito pelos livros a um círculo de destinatários que “descobrem, por meio de leituras canônicas, seu amor comum por remetentes inspiradores”, afirma ironicamente o filósofo. Tratando o humanismo como a “fantasia de uma seita ou clube”, Sloterdijk acompanha seu recrudescimento e sua transformação programática até o momento em que nos séculos XIX e XX “o padrão da sociedade literária ampliou-se para norma da sociedade política”. Todos conhecemos bem essa história. Apesar da decepção que se seguiu ao entusiasmo com o projeto iluminista, a literatura era entendida como uma saída fundamental ao embrutecimento provocado pelo naufrágio dos ideais que nortearam a Revolução Francesa ou como assevera Schiller: “para resolver na prática o problema político é necessário caminhar através do estético, pois é pela beleza que se vai à liberdade”.

“Essa época parece hoje irremediavelmente esgotada”, afirma Sloterdijk, e sugere que esse esgotamento está relacionado ao modo como repensamos nossa maneira de ser e estar no mundo, as artes, a política.

A pergunta que dá título a esse post é claramente inspirada na provocação de Jacques Rancière (2007) que tematizando a relação entre arte e resistência se pergunta: “será que a arte resiste a alguma coisa?” Pensando na relação entre a arte e a política, o filósofo francês defende que os pressupostos da modernidade continuam válidos para pensar a arte hoje e se algo deve ser salvo do panorama nada otimista traçado por Sloterdijk, esse algo é a autonomia artística. Pois para Rancière, “A arte é política”, à sua maneira, dentro da esfera autônoma que lhe assegura uma espécie de resistência independente da ideia de política e por isso pode asseverar convicto que “A resistência da obra não é o socorro que a arte presta à política”. Na visão do filósofo, o que chama de “confusão ética” se impõe equivocadamente em nome da resistência que a arte pode oferecer, pois os produtos que identificamos como arte se inscrevem sobre o “paradoxo da resistência sem resistência”, numa “tensão irresolvida”.

Nesse sentido, não deixa de ser curioso o fato de que, falar em pós-autonomia, e me refiro aqui ao texto-manifesto de Josefina Ludmer, remeta à perda dessa resistência como elemento caracterizador da condição autônoma da arte, pois na visão da crítica argentina a literatura pós-autônoma “perderia o poder crítico, emancipador e até subversivo que a autono­mia atribuiu à literatura como política própria”.

As duas posições parecem emblemáticas do impasse sobre a condição da arte hoje, pois ainda que se considere a oposição entre as conclusões de Rancière (que defende a manutenção da autonomia como princípio de resistência da arte) e de Ludmer (que afirma que a transformação do que entendemos por arte, por literatura, implica uma condição que supera o momento autônomo e mina sua capacidade de resistência, ao menos nos termos em que a compreendemos na modernidade, nos termos em que a argentina a descreve) é uma certa ideia consensual do que identificamos ao longo de toda a modernidade como literatura que é colocada em xeque.

Mas se não é possível discordar de Sloterdijk quando afirma que é só marginalmente, como uma forma de “subcultura sui generis” que a literatura importa, isso talvez não signifique capitular diante da possibilidade de resistência do literário, pois talvez seja possível apostar que a discussão sobre a autonomia ou a pós-autonomia implique em uma reconfiguração dos modos críticos de leitura dos produtos estéticos do presente a fim de que se torne possível reimaginar novas formas de resistência para a literatura hoje.

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O eu, a arte, a morte

Por Davi Lara

post davi nov

Créditos da Imagem: Jed Matin

No semestre passado dei um importante passo na direção da defesa de minha tese realizando meu exame de qualificação, que foi ótimo e me deu muito o que pensar. E enquanto decidia o que ia fazer com as observações feitas pela banca, para deixar as ideias se assentarem, me permiti um período de leitura ociosa que dediquei quase que exclusivamente a autores contemporâneos. Entre as melhores surpresas que tive, uma das experiências de leitura mais intensas me foi proporcionada pelo autor francês Michel Houellebecq. Já o conhecia por causa dos tabloides em que ele sempre aparece e que se multiplicaram por ocasião do lançamento do seu último livro, Submissão, de 2015. Mas confesso que não sabia muito o que esperar da sua literatura, propriamente dita. Aliás, se me é permitida a observação, esse é um quadro comum em se tratando de autores contemporâneos, mesmo os mais famosos, como Houellebecq, cuja fama se baseia em grande medida em seu pendor polemista. Seja como for, o livro que escolhi para me iniciar na obra do autor francês não foi Submissão, mas um livro anterior com um título meio vago, meio instigante: O Mapa e o Território (2010).

O livro acompanha a trajetória de Jed Martin, um artista deslocado que se dedica a projetos bastante peculiares, que se sucedem uns aos outros, como fotografar objetos industrializados (centenas de fotografias dos mais variados artefatos industriais), fotografar mapas franceses da marca Michelin ou pintar quadros consagrados a profissões, formando um grande painel das ocupações dos homens e mulheres em nossa sociedade. O romance (a primeira metade dele, pelo menos; e o fim da segunda metade também) se constrói como uma espécie de biografia artística de Jed Martin, acompanhando não apenas seu processo solitário de criação, como os meandros objetivos e mais ou menos fortuitos que constroem sua reputação artística. Como os leitores do blog talvez já saibam, eu me interesso pela presença da arte na literatura contemporânea. Só por isso, este livro já proporcionou uma boa lenha pra essa minha tara. Não bastasse isso, ele traz outro elemento que muito me interessa: a presença do autor nas narrativas atuais.

Em O Mapa e o Território, o autor aparece de uma maneira um pouco distinta do que acontece na autoficção (ou, ao menos, no que eu entendo como sendo autoficção). Ele é apenas um personagem do livro, sem que a voz do personagem se confunda com a voz do narrador impessoal (heterodiegético, diriam alguns). Com o mesmo nome do autor real, Michel Houellebecq aparece na trama como um escritor contratado por Jed Martin para escrever o catálogo de sua exposição de pinturas e desperta no artista um sentimento muito próximo da amizade. Mais do que apenas se autorrepresentar, o que mais chama atenção é o modo de autorrepresentação escolhido pelo premiado escritor francês. O Houellebecq ficcional é um misantropo amargurado e alcoólatra, que vive sozinho com seu cão e suas muitas garrafas de vinhos.

É intrigante ver como alguns escritores contemporâneos, escolhendo se autorrepresentar, se autofigurar ou se autoficcionalizar (nem sempre me é muito clara a diferença entre essas três ações), deliberam fazer uma má figura de si próprios. Houellebecq, no entanto, vai além. Não satisfeito em fazer um autorretrato como um homem consumido por uma obsessão ardente e autodestrutiva (o próprio Jed Martin faz um retrato do seu quase-amigo Houellebecq em que se destaca seu olhar febril), não satisfeito com isso, resolve perpetrar contra sua persona ficcional o mais cruel dos destinos que um autor pode conceder a um personagem. Num momento em que o livro dá uma guinada, saindo das páginas culturais para a seção policial, Houellebecq, o autor, narra com vagar luxurioso o assassinato de Houellebecq, o personagem. Decapitado e com o corpo todo estripado em pequenos pedaços de carne espalhados no chão da sala de estar de sua casa no interior da França.

É Jed Martin que, convidado pela polícia a ajudar no caso, faz a relação do assassinato de Hoellebecq com a arte. Sem saber do que se tratava, observa que as fotos da cena do crime se pareciam com uma imitação vulgar de Pollock… Aqui, o tema da arte contemporânea e o mote da inscrição do autor se unem. E isso graças a um terceiro elemento que tem me interessado cada dia mais: a união, nos romances contemporâneos, da violência com a arte. Ou, mais especificamente, a narração da arte como um ofício perigoso, quase sempre relacionada a atos de violência extrema.

Esse tema, inclusive, apareceu brevemente num post recente do blog em que mencionei o caso do pintor nova-iorquino Edwin Jhons (um personagem da galeria do romanção 2666, de Roberto Bolaño) que decepa sua mão para incorporá-la num quadro. Neste mesmo post, cito um artigo do crítico de arte cubano Iván de la Nuez, “Cuando el arte mata”, que fala justamente sobre essa união mórbida da arte com a morte na literatura contemporânea. Lá está disponível, para quem estiver interessado, uma pequena galeria de artistas desajustados. Aqui, no caso de Houellebecq, o que eu gostaria de destacar é o triângulo (não diria amoroso, mas certamente prazeroso, esteticamente) entre a arte, a violência e a autorrepresentação autoral. Três motes proeminentes das narrativas contemporâneas, que são manejados de modo magistral neste romance disparador uma série de reflexões sobre a condição do artista frente à sociedade contemporânea e sobre o frágil destino do homem, que luta com seus mapas, sua indústria, suas profissões, enfim, com todas as ferramentas que compõem a trama quimérica da civilização, contra a natureza implacável que avança sobre nós e nos lembra, a cada instante que passa, da inevitabilidade da morte.

A Literatura e o Ensaio

Por Allana Emilia

o filosofo lendo 02-11

Créditos da Imagem: O filósofo lendo – Chardin

 

Abel Baptista, em O desparecimento do ensaio, afirma que, do ponto de vista da teoria, a literatura é uma forma de conhecimento que possui alguma relação com a verdade, mas de uma maneira muito particular, que está relacionada com sua capacidade de refletir sobre si mesma. Uma maneira que a literatura possui de conhecer a si mesma é a partir da teoria, que, ao pensar os gêneros, as estruturas, a crítica, pensa a maneira de a literatura pensar sobre si mesma. Uma outra maneira, segundo a sugestão de Baptista, seria através do gênero ensaio. Daí para Abel, a “pouca importância” dada ao ensaio pela teoria, pois ambos viveriam em competição. E qual a importância de se pensar essa relação entre o ensaio, a teoria e a capacidade de autorreflexão da literatura?

Tomemos o panorama apresentado por Leyla Perrone-Moisés em O “fim” da literatura, um dos ensaios de seu último livro. Aí, a crítica elenca uma série de nomes e obras teóricas, produzidas no final do século XX, marcadas por um tom apocalíptico: A literatura em perigo, de T. Todorov; Os fins da literatura, de B. Levinson; O adeus à literatura, de W. Marx, entre outros.

Segundo Perrone-Moisés havia um pressentimento de que a literatura estava estagnada, de que existia “esse sentimento de que a literatura, como força ativa, Mito vivo, está, não em crise, mas talvez em vias de morrer…”, conforme o prognóstico de Roland Barthes. Mas segundo Perrone-Moisés, os “fins”, na verdade, são indícios de mutações, que permeiam a literatura no presente. As noções que foram construídas historicamente acerca da ideia de literatura foram mudando paulatinamente, o que pode significar para muitos críticos um declínio, mas diz respeito apenas à transformação de uma certa ideia de literatura: a ideia de literatura moderna, afirma a autora de Altas Literaturas.

Creditava-se esse suposto fim da literatura ao impacto das mutações tecnológicas, apontadas como responsáveis pelo cultivo das leituras apressadas. Entretanto, de acordo com Perrone-Moisés, “Nunca se publicou tanta ficção e tanta poesia quanto agora. Nunca houve tantas feiras de livros, tantos prêmios, tantos eventos literários. Nunca os escritores foram tão mediatizados, tão internacionalmente conhecidos e festejados.” Resta-nos um desafio: como ler e comentar a literatura produzida hoje, já que ela não é mais a mesma literatura produzida na modernidade?

O questionamento de Abel parece indicar uma alternativa possível. Talvez a investigação sobre a presença da dicção ensaística na ficção contemporânea, uma marca também das produções do alto modernismo, possa oferecer à teoria uma “maneira de proceder com argúcia e com imaginação” diante das produções literárias do presente.