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O que “Cat person” pode nos dizer sobre a literatura?

Débora Molina

Créditos da imagem: The lines of my hand. Robert Frank, 1989

“Ela é tão perfeita, ela o imaginou pensando. Ela é tão perfeita, o corpo dela é perfeito, tudo nela é perfeito, ela tem só vinte anos, a pele dela é impecável, eu quero transar com ela, quero transar com ela mais do que jamais quis com qualquer outra pessoa, quero tanto que acho eu vou morrer” (ROUPENIAN, Kristen. Cat Person)

Em dezembro 2017, um conto publicado na revista americana The New Yorker viralizou nas redes sociais. A tradicional coluna semanal de ficção da revista publicou “Cat Person” escrito pela até então desconhecida autora Kristen Roupenian que, em uma semana, superou o número de acessos a todos os outros contos publicados pela revista naquele ano. A repercussão garantiu a autora um contrato de um milhão de dólares para a publicação de dois livros. No Brasil, os direitos foram comprados pela Companhia das Letras.

“Cat person” é um nome dado às pessoas que são aficionadas por gatos (quando o caso é com cães nomeia-se de dog person) e trata de uma história narrada em terceira pessoa sobre a malsucedida relação amorosa entre a jovem Margot de 20 anos e Robert, 13 anos mais velho. A trama se concentra em descrever os pensamentos da Margot em torno de seus anseios e expectativas acerca do relacionamento que vai se construindo através de trocas de mensagens por aplicativo.

O curioso é que a narração é tão colada à protagonista (mesmo sendo escrito em terceira pessoa e deixando falar também os pensamentos de Robert) que o relato parece ser contado pela voz de Margot; talvez seja por esse motivo que “Cat Person” tenha feito tanto sucesso. A tomada de posição do narrador nos dá a sensação de que estamos lendo a própria voz de Margot (muitos leitores nas redes sociais associaram essa voz narrativa à própria Roupenian, identificação que a autora teve de, constrangedoramente, desfazer).

É justamente na parcialidade do olhar do narrador que, ao meu ver, se encontra o ponto fundamental que pode explicar o instantâneo sucesso da curta história: Margot parece representar um grupo social inteiro, mulheres que já passaram por episódios parecidos. “Cat Person” é um conto que poderia ser também uma hashtag das redes sociais: #somostodasmargot.

Nesse sentido, todo o episódio pode nos levar a pensar na forma como as ficções vêm se amalgamando a experiências vividas cotidianamente, o que a crítica argentina Josefina Ludmer chama de “imaginação pública”, incentivando-nos a pensar em uma relação mais intrincada entre ficção e realidade. A partir de “Cat Person” e da repercussão da história, do modo como provocou uma discussão pública sobre as relações de poder que envolvem os afetos entre homens e mulheres, que por sua vez serviu de mote à narrativa de Roupenian, viveríamos um modo de imbricação entre a literatura e as realidades nas quais vivemos que implicaria também repensar a própria ideia de ficção.

Nesse sentido, me parece que o conto de Roupenian é uma boa oportunidade para colocar à prova o polêmico conceito de Ludmer. “Cat person” pode ser pensado como um exemplo do que a crítica caracteriza como “Literatura pós-autônoma”?

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