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Financiamento coletivo: novas perspectivas para o mercado de livros?

Por Larissa Nakamura

Créditos das imagens: Carlo Giovanni

A partir dos anos 2000, presenciamos a criação de diversas plataformas de financiamento coletivo presentes na internet. Desde então, é possível notar o espraiamento e a transformação dessa prática que se torna cada vez mais comum. Para participar, basta oferecer um produto (livros, cds, linha de roupas, HQs, projetos científicos etc.) ou mesmo especificar um objetivo (como, por exemplo, um auxílio para angariar fundos para instituições não governamentais ou pessoas) e estipular um valor a ser arrecadado, ficando a cargo do público o acolhimento à solicitação.

O crowdfunding, como é mais conhecida essa prática, também é utilizado por aqueles que desejam publicar seus livros. A pergunta que surge, então, é se tais iniciativas podem representar uma concorrência às editoras ou mesmo alguma desestabilização, ainda que pontual, do circuito livreiro tradicional. Quais as desvantagens e vantagens que tais plataformas oferecem aos escritores?

A autopublicação – inteiramente paga com os recursos do autor– não é novidade entre os artistas que desejam ver suas obras tomarem vida. Ainda nos anos 60, Sérgio Sant’anna se utilizou de tal estratégia como o pontapé inicial de sua carreira, segundo relata em entrevista: “Fui juntando os textos, levei os originais à gráfica e paguei de meu bolso. Minha mulher, que era artista plástica, criou a capa. Fizemos mil exemplares, que eu próprio distribuí. Enviei metade da tiragem pelo correio a escritores e críticos que poderiam me dar algum retorno. Como naquela época não havia tanta gente escrevendo, recebi muitas respostas.”

Considerando o depoimento do autor, acreditamos que há uma semelhança com os empreendimentos de autopublicação. Muitos autores no contemporâneo  administram as etapas de produção de seu livro, encarregando-se de sair a campo em busca de profissionais (revisor, diagramador) que o produzam, quando eles mesmos não assumem essas várias tarefas.

Neste último caso, a disponibilidade na internet de instrumentos de edição e divulgação de uma publicação dá ao artista autonomia suficiente para manejar toda a cadeia de produção do livro por meio de networking (de um trabalho feito na e por meio da rede) que pode inclusive contar com uma fan-base, com um conjunto de admiradores que ajudam a divulgação da publicação.

Assim, para os autores iniciantes que ainda têm pouca ou nenhuma visibilidade no campo literário e que encontram dificuldades para conseguir publicação em uma editora comercial, a autopublicação por crowdfunding representa também a oportunidade de conseguir, a uma só vez, investidores e admiradores da produção do autor.

Tais iniciativas e ferramentas criam um circuito próprio e não há garantia de que a publicação que circula na rede alcance inserção no mercado mais tradicional do livro, como livrarias, feiras e premiações literárias. Mas em casos de notável sucesso, com boa repercussão on-line, é possível despertar o interesse de editores ou casas editoriais consagradas que entendem a repercussão virtual do livro e do autor como um filtro de seleção, de passagem para o circuito mais tradicional de circulação do livro (impressão, distribuição pelas livrarias).

No exterior (em especial, nos EUA e a Europa) vêm surgindo plataformas de financiamento coletivo exclusivas para a publicação de livros, como Inkshares e Publishizer, que se apresentam como alternativas mais abertas, democráticas e lucrativas para o autor em relação às editoras mais tradicionais. É interessante notar que essas empresas, a partir do momento em que os escritores atingem a meta programada, se dispõem a atuar de maneira semelhante a uma casa editorial tradicional, já que se propõem a realizar todo o processo de produção e distribuição do livro. Nessa lógica, importa sinalizar a conveniência para autores e editoras, ainda que não possamos nos certificar da qualidade das publicações, da representatividade e do impacto editorial no campo literário.

Acreditamos que a iniciativas como o crowdfunding revelam um cenário incerto, mas que vale a pena ser observado, pois vem transformando as relações entre autores, editores e público, por isso concordamos com o professor da PUC do Rio de Janeiro Karl Erik Schollhammer quando afirma que “ é notório que a internet tem propiciado rotas alternativas e eficazes de atuação, conferindo novos contornos para os capitais simbólicos firmados em torno da literatura.”

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A arte da palavra e da profissionalização

por Larissa Nakamura

Aproveitando o post da semana anterior, hoje trouxe um exemplo de uma iniciativa promovida por uma empresa privada, que busca a promoção da literatura no país e que também pode contribuir para a profissionalização do escritor. No mês passado, o Serviço Social do Comércio (SESC) deu início a um projeto chamado Arte da Palavra – Rede Sesc de Leituras que ao longo deste ano promoverá uma série de atividades em vários estados do país: bate-papos; oficinas literárias; slam poetry; saraus; performances; contação de histórias etc., contando com a participação de 91 escritores do todo o Brasil.
O SESC afirmou que a curadoria ocorreu de forma independente em cada unidade regional, embora os critérios precisos para a escolha não tenham sido divulgados. Nas lista, figuram nomes mais conhecidos como Rafael Gallo, Cintia Moscovich e Bráulio Tavares, vencedores de prêmios literários de grande renome nos últimos anos.
No rol de atividades, é possível notar uma preocupação com a formação de um público leitor e com o papel do escritor como agente cultural, pois a programação contempla diferentes formas de produção e atuação no campo da literatura. Uma delas envolve a leitura e discussão das obras dos autores convidados nas escolas antes das sessões de bate-papos com o público estudantil.
Talvez iniciativas como essa amenizem o que João Cezar de Castro Rocha considera como atitudes puramente performáticas dos autores, que deixam em segundo plano a discussão de suas próprias obras nos eventos literários de que participam. Castro aponta a necessidade de “criação e multiplicação não mais de ouvintes, porém de leitores […] Leitores críticos”. Parece-nos, então, que o crítico propõe uma reflexão sobre o significado da profissionalização do autor de literatura.
Acreditamos que o escritor, que atua também como um agente cultural, lançando mão de uma série de intervenções e estratégias, vem renovar, refazer e/ou a reafirmar constantemente as posições que ocupa no sistema literário, redimensionando-o, e incrementando também, por tabela, as possibilidades de sustento financeiro garantidas pelo ofício da escrita.
Henrique Rodrigues, técnico de literatura do departamento nacional do Sesc, afirmou recentemente em reportagem de O Globo:

“Temos um vício no meio literário de achar que, ao convidar um artista da palavra para participar de um evento ou publicar um livro, estamos fazendo um favor para ele. Essa é uma prestação de serviço que precisa ser remunerada. O autor está ali cedendo o seu tempo e reconhecimento. É preciso valorizar e remunerar. O artista é parte da cadeia produtiva.”

A declaração revela-se interessante por apontar um vínculo que é considerado um tabu no debate sobre profissionalização: o que envolve cifras. O campo literário sempre tratou como problemática a associação entre dinheiro e arte.
Tal rejeição ainda pode ser detectada no contemporâneo e sua persistência pode ser fruto da manutenção de uma imagem do escritor impregnada de um ideal romântico: o do escritor diletante que, por amor puro e desinteressado à arte, rejeita, às vezes apenas simbolicamente, os bens materiais que poderiam advir de sua produção, afirmando trabalhar por vocação ou por pura necessidade visceral. A persistência desse imaginário, inclusive entre os próprios autores, constitui um entrave para o pesquisador que quer analisar as condições da profissionalização do escritor nacional, principalmente porque julga-se de mau gosto tratar das condições de contratação de um agente literário ou tematizar os termos de contrato com uma editora. Embora saibamos que muitos autores hoje já conseguem “viver de sua pena”, ainda é muito difícil tematizar as condições concretas que permitem aos escritores usufruírem da sua condição de profissional das letras.

Para mais informações sobre o projeto, clique aqui: http://www.sesc.com.br/portal/noticias/cultura/literatura+por+toda+parte

O ano em que vivi de literatura, de Paulo Scott

Por Larissa Nakamura

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Ilustração: Fabio Zimbres (capa do livro)

Não é novidade vermos escritores se autorretratando ou ficcionalizando suas carreiras nas obras literárias: a lista vai de Enrique Vila-Matas (Paris não tem fim) a J.P Cuenca (Descobri que estava morto), entre muitos outros. Trazendo mais um exemplo brasileiro sobre personagens escritores, temos O ano em que vivi de literatura (2015), de Paulo Scott, que traz uma mordaz sátira ao mundo literário. E para quem inicia a leitura esperando encontrar no personagem principal, Graciliano, um escritor sério e dedicado ao seu labor, saiba que o engano já se inicia pelo título: afinal, nada mais frustrante que um autor que nada escreve justamente no ano em que passa a viver de literatura!

Dividido em quatro partes, acompanhamos o cotidiano de pouco mais de um ano na vida de Graciliano, jovem autor gaúcho que após se mudar para o Rio de Janeiro ganha um dos mais importantes prêmios literários do país (vitória, aliás, questionável), assim embolsando vultosa quantia em dinheiro, e é visto como grande promessa no ambiente artístico.

A partir de então, ele passa a ser considerada figura VIP no circuito das letras e relata aos leitores as intrincadas relações e agruras do meio em que passa a circular com mais intensidade: encontros e conversas com editores, outros artistas, jornalistas, produtores culturais etc. A narrativa torna possível especularmos que representações da profissionalização do escritor de literatura está em jogo no relato que envolve premiações e holofotes, escolhas pensadas ou intempestivas que vão traçando a trajetória de Graciliano.

O background da carreira de Graciliano aparece aos poucos na trama. Sabemos que antes de ser escritor trabalhava como professor universitário na área de História, sua primeira obra literária já havia sido adaptada ao cinema, participou de uma antologia de contos, e que o livro premiado era produto de uma encomenda que acabou publicada por uma pequena editora de Porto Alegre ao invés da sua prestigiada editora do Rio de Janeiro (fato que irrita terrivelmente seu editor). Todos esses elementos parecem dar indícios de que a personagem dava significativos passos na profissão. No entanto, a partir do momento em que recebe o prêmio e é pressionado a escrever imediatamente um novo livro, Graciliano recua e não consegue escrever uma linha sequer. Mais que isso: assistimos a um espetáculo sofrível que passeia entre a solidão no campo social e certa – quando não total – inadequação moral e ética do escritor profissionalmente.

Não deixa de ser risível que muitos dos excessos e maneirismos nas situações vividas pelo narrador e seus pares podem mesmo surpreender o leitor – seja pela ponta de veracidade (ainda que por vezes soe absurda) ou completa imprecisão. Algumas dessas circunstâncias estão presentes nos capítulos em que aparece o editor, cruel figura empresarial que, como reconhece o narrador, é um ótimo homem de negócios. Ao final do livro, Graciliano recebe uma proposta que reafirma sua visão crítica à prevalência do caráter econômico nas negociações do mercado editorial na contemporaneidade:

[…] Berardi, o chefão da editora mais agressiva daquele ano no mercado naquele ano, cria do mundo financeiro, das bolsas de ações, alguém que lá pelas tantas resolveu botar suas fichas no mercado editorial de livros técnicos e livros de autoajuda e seu deu bem, uma alma generosa que, nos dois últimos anos, talvez pelo simples prazer de exercitar seu talento predatório, tinha resolvido apostar em literatura, em ficção brasileira e bagunçar geral o campinho da concorrência […] (SCOTT, 2015, p. 248)

Somada aos cenários inusitados, também é interessante a interação promovida por Graciliano nas redes sociais: desde propostas absurdas (“Deposite cinco mil reais a título de doação na minha conta do Banco do Brasil e seja um dos três protagonistas do meu novo romance.” (p.111), uma “brincadeira” levada a sério por alguns seguidores; sem contar o uso da internet para marcar encontros sexuais com fãs leitoras) às mais comuns (publicação de pequenos poemas, trechos de histórias que não consegue levar adiante).

Em suma, mais que celebrar ou mesmo romantizar a vida de escritor, Paulo Scott nos traz uma representação irônica de Graciliano que mesmo diante das facilidades ofertadas e “[…] [d]a possibilidade de realizar o sonho de muitos escritores brasileiros: ficar um ano livre de pressões econômicas e disponível para se dedicar a seu ofício” (ALVES-BEZERRA, 2016) se depara com um misto de rejeição e desejo de viver de literatura, de alcançar a profissionalização no campo literário.

Literatura e profissionalização

Por Larissa Nakamura

“profissionalizar-se antes de se tornar um profissional das letras” – Silviano Santiago

Aconteceu em outubro nossa Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), que a cada ano cresce e atrai mais visitantes (quem quiser saber mais, pode acessar a recente entrevista que o organizador do evento, Emmanuel Mirdad, concedeu ao blog). Aproveitamos a oportunidade para assistir às mesas literárias, conhecer os escritores e também entrevistá-los sobre um assunto que muito nos interessa: a profissionalização do autor.

A participação dos autores revela como cada escritor reflete sobre sua carreira, sobre a interação com a mídia, o mercado e os leitores.  João Filho cita a importância de travar parcerias com editores competentes e pequenas editoras locais, que pouco a pouco fortalecem seus catálogos e têm uma preocupação com a qualidade editorial, tornando os livros atrativos e comerciáveis o suficiente para concorrer com as demais publicações do mercado. Além disso, há também o interesse em atingir o grande público, vender e popularizar suas histórias. Notamos que longe de rejeitar os possíveis ganhos econômicos advindos da produção artística, João Filho os compreende como necessários para o escritor, para a construção de uma carreira no campo das letras.

João Filho: […] no Brasil, tem que divulgar a obra. O que é ser escritor profissional no Brasil hoje? Hatoum tava falando mais cedo que os Dois irmãos, que eu considero a obra-prima dele vendeu um negócio absurdo, não foi? Um negócio assim, uma coisa linda, uma cifra maravilhosa, é muito bom acontecer isso. Isso é profissionalização? Eu não sei, até chegar direito autoral, livro que não chega, livro que você tem que ir atrás e a editora é pequena. […] O Gustavo Felicíssimo é o editor da Mondrongo, que publicou A dimensão necessária, ele me convidou em 2013, o livro foi publicado em 2014 e ganhou prêmio em 2015 da Biblioteca Nacional, então pra mim é tudo parceria, porque nesse sentido eu sou profissional. […] eu ganho dinheiro com a literatura e eu quero ganhar dinheiro, eu faço minhas palavras com as de Aurélio Schommer que é quando ele diz “Quero ficar rico”. Eu também quero, entendeu? Eu quero ganhar dinheiro, é claro. Você vê o seu livro adaptado (aponta para Milton Hatoum) pra tevê e eu falei para ele, para Milton, […] ele vai ser o novo Jorge Amado […] eu falo em questões de venda, isso vai ser ótimo para você, é claro. E Jorge Amado deu um conselho para João Ubaldo no seguinte: João Ubaldo reclamando da adaptação que fizeram de O sorriso do lagarto e aí Jorge falou assim: “Cobre o máximo que você puder e não veja.”. É claro que você quer fazer sucesso com o que você produz e eu produzo literatura, então nesse sentido sou profissional. Agora, essa pergunta sempre me deixa sem muita opção de resposta, porque eu só consigo responder assim: eu me empenho no que faço e tento fazer uma parceria com pequenos editores, que eu publico que é o Gustavo Felicíssimo, da Mondrongo, a P55, do Cláudio Portugal. O primeiro (livro), na verdade, foi quase um presente pra mim e todos são quase presentes pra mim, […] e tudo em edições pequenas, bonitas, edições benfeitas, e você trabalha como um mercador, como eu passei minha vida inteira dentro de um comércio, de uma venda no interior, eu continuo mercando, entendeu? Com os meus livros agora.

Eduardo Spohr destaca a pertinência de uma sólida rotina de trabalho que envolve tanto a escrita como o diálogo com os leitores, seja em um evento ou na interação proporcionada pelas mídias sociais.

Eduardo Spohr: Eu acho que o escritor profissional não é só aquele que ganha dinheiro com isso, eu já me considerava escritor profissional desde muito antes. Eu acho que, isso na minha visão, é aquele que leva a profissão a sério: escreve sempre que pode, persiste e tem uma rotina de trabalho. Acho que não só eu, como muitos que aí que não vivem de escrever, eu considero como escritor profissional, que tem essa seriedade na literatura. As feiras literárias fomentam a profissionalização no fato que levam mais gente a se interessar em ler e escrever, e isso que é excelente, a gente precisa de mais gente lendo e escrevendo, alguns vão se tornar escritores, outros não. Tem dois lados no espaço para se divulgar enquanto autor e ter contato com os leitores. O autor fica muito solitário e não vê muito o rosto de leitores, e quando ele vem a esses festivais, feiras, esse encontro é maravilhoso. E para o leitor também é legal, falando enquanto leitor, quando eu vou a feiras e vejo os autores que eu gosto, é o maior barato, porque você vai lá e conhece aquela figura que escreveu aquele texto, o contato é muito importante. Eu uso tudo que posso nas redes sociais para ter contato com os leitores, tenho o Twitter, Facebook, Snapchat, tô um pouco velho, mas, às vezes, eu uso também o Instagram.

Dois tabus são desconstruídos pelos comentários dos autores: o primeiro,  presente na fala de Spohr, diz respeito à ideia de que todo autor de best-seller, sem exceção, vive confortavelmente das cifras de suas vendas sem se importar com a fatura de composição do texto; o segundo,  é desmistificado pela preocupação trazida à tona por João Filho com a questão da sobrevivência financeira do autor, o que abala o culto ao artista amador, sem plano de trabalho ou projetos futuros.

Acompanhe no link a seguir a mesa literária de João Filho na Flica: Flica 2016 Ao Vivo | Mesa 4 | A voz do autor.

2016-10-28

João Filho é baiano, mestrando em literatura portuguesa, tem cinco obras lançadas e também traduzidas no exterior, participou de diversas antologias, e em 2015 ganhou o prêmio Alphonsus de Guimaraens pelo livro de poesia A dimensão necessária.

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Eduardo Spohr é carioca, jornalista de formação, publicou cinco livros que são sucesso comercial no país e que agradam ao público jovem por conta das temáticas ligadas ao universo fantástico.

Imagens: Instagram da Flica

Booktubers: um espaço para a crítica de literatura?

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Crédito da imagem: http://tomgauld.com/

Por Larissa Nakamura

Nos últimos anos, saltou aos olhos a quantidade de revistas, cadernos, suplementos de jornais que dedicavam, total ou parcialmente, seu conteúdo ao mundo das letras e que tiveram suas publicações encerradas. Alguns exemplos mais conhecidos são o caso do Prosa & Verso (jornal O Globo), o Sabático (jornal O Estado de São Paulo – Estadão) e a revista Bravo! (que após ter encerrado definitivamente suas atividades por três anos, volta a ser lançada somente em versão digital). Os mais pessimistas bradavam que era o fim do jornalismo cultural e da crítica literária, outros apostavam que era uma crise ou período de reconfiguração. Talvez esse seja o momento ideal para entender os processos e alterações por quais passa a crítica se voltarmos nossa atenção para o universo cibernético.

Se a crítica encontra-se escassa, embora ainda presente, nos meios tradicionais de comunicação, onde podemos encontrá-la de modo que possa alcançar diversos públicos, cada um com suas especificidades e interesses? No cenário em que despontam os blogs e, atualmente, com cada vez mais canais dedicados à literatura, o YouTube, poderíamos apostar em um novo espaço de circulação de literatura? Para muitos, o site já é considerado a nova televisão. Programas de culinária, música, análise de filmes, aulas de línguas e jogos são algumas das possibilidades que o serviço nos oferece. E por que não o comentário sobre literatura?

Tomemos como exemplo uma das booktubers mais conhecidas,  Tatiana Feltrin dona do canal Tiny Little Things. Formada em Letras e professora de inglês, começou o canal falando de variedades, dedicando-se somente à literatura um pouco depois. Hoje, contabilizando mais de 200.000 assinantes no canal, os vídeos se dividem entre a literatura canônica e a comercial. Feltrin considera importante trazer para a discussão os dois universos sem que ambos sejam tratados de forma antagônica ou excessivamente hierarquizada, pois segundo a comentarista ambos possuem facetas diferenciadas, mas não menos relevantes para o mundo das letras.

O que é interessante, guardadas as devidas diferenças entre os canais existentes, é como lidam com o nicho de mercado específico com que se propõem trabalhar. Sobre tal quesito conta muito o como se comenta, o que pode garantir menos ou mais espectadores. O que diferenciaria, então, a crítica como disciplina formal do comentário sobre literatura na internet?

A meu ver, os que os booktubers fazem são bons comentários pessoais sobre livros, indicações atravessadas por falas mais dinâmicas e simplificadas, marcadas por um quê de expressionismo, deixando de lado os jargões mais técnicos, o que pode aproximá-las à antiga crítica de rodapé. No entanto, existem também aqueles que embora não possuam uma dicção propriamente acadêmica, baseiam seus comentários subjetivos em algumas noções de teoria da literatura, promovem e tencionam uma discussão sobre o livro escolhido, superando a mera postura opiniática.

Minha conclusão é que, a despeito de a crítica formal e o comentário na internet apresentarem alguns aspectos comuns, têm propostas diferentes, sem que haja perda de sua relevância para a comunidade leitora.

Talvez um dos maiores trunfos que o YouTube proporciona é a diminuição da sensação de distância entre o booktuber e o espectador, posto que o resenhista dificilmente assume a postura de um especialista quando compartilha sua opiniões com o público. Sendo assim, o leitor/espectador sente-se em uma “conversa” sobre o livro comentado em vídeo. O segundo trunfo, a meu ver, é a interatividade quase que imediata entre o resenhista e o espectador, que marca sua participação ativa na rede (muito frequentemente ocorrem votações e sugestões de temas e livros a serem discutidos, assim o booktuber cria suas pautas a partir do que o público deseja assistir). Um exemplo curioso que vale a pena ser citado são as playlists nas quais o youtuber reúne suas críticas de diversos livros indicados ao vestibular de diversas instituições de todo país. De fato, uma estratégia que visa a um público-alvo que se torna cativo.

Como último ponto, não podemos nos esquecer da relação estreita que os booktubers têm hoje com o mercado, considerando que uma parcela significativa deles é contratada por editoras grandes e pequenas para auxiliar no processo de marketing de obras recém-lançadas. Os critérios de escolha das casas editoriais são claros: variam de acordo com o número de assinantes do canal, sua faixa etária média, o estilo de crítica e tipo de literatura resenhada. Os booktubers também são assediados por escritores que publicam seus livros de forma independente e buscam a divulgação de suas obras.

As inovações promovidas pelas ferramentas da internet, como as utilizadas por booktubers, podem não ser indício da renovação de antigos moldes de conteúdo crítico, mas a criação de mais um espaço para a literatura é bem-vindo em um momento em que os canais tradicionais de circulação de conteúdo cultural estão em extinção.

As agruras de um poderoso editor

2016-08-08

Por Larissa Nakamura

http://www.blogdacompanhia.com.br/

Pode um “simples” blog de uma famosa editora brasileira trazer, além de elementos vários à discussão literária, uma interessante perspectiva sobre quem está do lado de lá – quem edita livros?

A meu ver, parece uma boa ideia dar continuidade ao compartilhamento de sites que interessem àqueles que acompanham o que anda acontecendo com a literatura contemporânea na internet (ver texto de Davi Lara, em junho). Neste post, quero explorar o blog da Companhia das Letras, uma das editoras mais prestigiadas do país.

Desempenhando o papel de plataforma de divulgação dos discursos dos escritores e funcionários da empresa, e também de estratégia de marketing, a presença de editoras no espaço digital, independente do formato sob os quais se introduzem (redes sociais, blogs, sites etc.), revela algo das novas dinâmicas do campo literário contemporâneo.

Diante das tantas seções que compõem o blog da Companhia, destaco a denominada “Da casa”, que se subdivide em: “Palavra do autor” e “Companhia apresenta”, nos quais os próprios autores podem escrever ou deixar a cargo da editoria a promoção de sua obra. Além disso, os escritores da editora também podem atuar como colunistas no blog. Sob esse aspecto, Milton Colonetti (2014, p. 75) assinala a importância de tal atividade para a carreira do escritor, já que: “O espaço no blog da editora, além de ser um local de acúmulo de capital simbólico, garante ao produtor uma exposição contínua e um meio de captação de recursos monetários que vincula seu trabalho à produção editorial, tornando o escritor um verdadeiro produtor assalariado da editora.”

Voltando então à minha pergunta inicial, creio que a voz do Luiz Schwarcz, editor­-chefe da Companhia das Letras, presente nesse espaço virtual dá aos leitores a oportunidade de conhecer um pouco melhor a atuação de uma figura tão intrigante quanto a do editor, acostumado ao backstage da vida literária, mas que, aqui, aparece tentando estabelecer algum contato com os leitores.

Basta uma primeira leitura dos posts publicados por Schwarcz para adentrarmos no complexo universo do editor – suas preocupações enquanto profissional no mercado das letras, o(s) processo(s) de edição, as relações com escritores/clientes, as intuições que as primeiras páginas da leitura dos manuscritos despertam nele, a importância das capas, o papel dos agentes literários, etc.

Destaco dois posts do Schwarcz que podem resumir a autorreflexão proposta em seus textos e que trazem à tona questões que estão no âmago do ofício: Detalhes tão pequenos de nós dois são coisas muito grandes pra esquecer — ou um tempo à toa na estação de trem e O mundo assombrado pelos best­sellers — ou me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios. De modo geral, o que se nota são as falas representativas acerca da velha dicotomia arte vs. mercado. Sendo assim, qual o posicionamento do editor sobre o tema?

“[…] o clamor contra o aspecto comercial do livro é ingênuo, não só nos dias de hoje, mas mesmo se pensado historicamente. Ainda assim, os leitores deste blog veem que, vez ou outra, mantenho vivo certo idealismo, presente desde o dia em que optei por trabalhar com livros. Justifico assim, relativizando logo de cara, o meu clamor ou angústia intermitentes pela comercialização exacerbada do ambiente cultural em que vivo. Sei que tenho alguma razão e muita ingenuidade. O mercado editorial sempre foi mercado, e sempre será.”

É interessar ressaltar que, mesmo adotando uma atitude que deseja aberta e não conservadora, ainda existe alguma hesitação, resistência; transparece uma espécie de ambiguidade intrínseca no trabalho do editor de livros. Entre a defesa do caráter artístico ou mercadológico, Luiz Schwarcz enfrenta o dilema apontando para a necessidade de existir um equilíbrio entre ambos que garanta que seus empreendimentos editoriais e todo o sistema artístico que os envolve continuem a existir.

Voltando aos posts, é possível que o grande público se interesse por temas que estejam diretamente relacionados aos números, contratos e negociações por trás das obras lançadas, mas não é ainda nesse espaço que tais questões serão expostas ou discutidas. No blog, o que prevalece é a face artística do processo de produção da obra de arte. Assim concluo que falar de cifras ainda causa desconforto, ao menos é o que sua omissão parece nos indicar.

Fatos, anedotas histórias, erudição, engajamento político é o que podemos ler na coluna assinada por Luiz Schwarcz no blog da Companhia. E, você, conhece blogs de outros editores? Se sim, compartilha aqui com a gente nos comentários.

“Dois lados do efeito Ruffato”

Por Larissa Nakamura0,,17148385_303,00

O post desta semana é sobre a matéria de Leonardo Neto, chamada “Dois lado do efeito Ruffato”, publicada em março na Publish News. O texto é muito interessante, principalmente para quem acompanha a carreira de Luiz Ruffato nos últimos anos e seus desdobramentos no mercado editorial.

Neto quer discutir atualmente a repercussão que teve o discurso proferido por Luiz Ruffato na Feira de Frankfurt em 2013. A fala pouco elogiosa ao Brasil gerou uma grande polêmica no próprio evento, na imprensa estrangeira e brasileira, e entre os colegas de profissão. O que também nos importa, para além da recepção polêmica do discurso na mídia e academia, é o fato de Ruffato ter travado, na época, diversos acordos de tradução de suas obras com grandes e pequenas editoras europeias, principalmente alemãs. Três anos depois do ocorrido, qual é o saldo na carreira do escritor?

Leonardo Neto aposta, segundo depoimentos do próprio Luiz Ruffato, que no Brasil nada tenha melhorado em particular (principalmente em relação às vendas, e à recepção crítica da obra do autor) e sugere que o governo brasileiro passou a evitar a presença do autor em eventos oficiais em que o país é convidado ou homenageado. Por sua vez, no exterior, mostra-se crescente a demanda pelo escritor, pois não só está presente em eventos literários, como seus livros traduzidos venderam bem, vem recebendo convites para participar de coletâneas e para novos contratos de publicação de suas obras.

Diante de tais reações, entendemos que o resultado seria a existência de oposição entre a recepção estrangeira e a nacional à produção de Rufatto. Afinal, se o país de origem do escritor reage quase que indiferente (em termos de mercado), ou com o olhar suspeito sobre o artista, como sugere Neto, parece que o exterior o acolhe como uma boa aposta da literatura contemporânea. Sendo assim, uma notícia recente que não pode ser divulgada a tempo por Neto e que parece ratificar a ideia do interesse estrangeiro é o Prêmio Internacional Hermann Hesse a Ruffato e seu tradutor para o alemão, Michael Kegler. Não deixa de ser relevante mencionar que de acordo com a organização do prêmio literário uma de suas principais finalidades seria ressaltar a obra de um artista que não fora ainda devidamente valorizado.

Observando o percurso trilhado por Luiz Ruffato na direção da internacionalização de sua carreira, podemos afirmar que o autor parece investir nos frutos colhidos após a Feira de Frankfurt que podem garantir a ele a construção de um nome sólido e reconhecido em solo estrangeiro.

Link para a matéria:  Os dois lados do ‘Efeito Ruffato’