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Marguerite Duras: autobiografia à sombra da autoficção

Ismael Mariano

Crédito da imagem: Marguerite Duras: MD, 2013.

Marguerite Duras escritora francesa nascida na antiga Indochina (atual Vietnã) nasceu em 1914 e morreu em 1996. Perdeu o pai muito cedo e sua mãe, ingenuamente, investiu todas as economias da família em terras improdutivas, sujeitas à inundações constantes. Tinha dois irmãos, o mais velho, odiado e cruel; e o mais novo, frágil e dócil. A infância pobre, quase miserável, na colônia, a “loucura” da mãe, os dois irmãos, a força do mar, todos esses elementos biográficos estão presentes em sua obra.

O primeiro investimento veio com o livro Un barrage contre le Pacifique (1950), que narra a luta inglória de sua mãe para tentar salvar suas terras contra as forças do Oceano Pacífico. Em O Amante (1984), livro base de nossa pesquisa, os temas acima citados retornam, mas sobre outras nuances. Mais de três décadas depois, Duras resolve contar mais sobre sua história, mas pela primeira vez assume o pronome “eu”, muito embora, em alguns momentos do livro o pronome deslize para a terceira pessoa, “ela”.

Nas primeiras páginas do livro Duras escreve “A história de minha vida não existe. (…) Nunca há um centro, uma linha.” Podemos entender essa vida “inexistente” pelo fato dela nunca ter sido contada, escrita; como bem assinala uma de suas comentadoras Leyla Perrone-Moisés. Segundo ela, o que Duras pretende contar “é um segredo, um fato recalcado”.

Mas seria possível pensar em Duras como uma escritora que experimenta brincar com os limites entre a biografia e a ficção, arriscando-se à autoficção? É esse, justamente, o cerne do problema da pesquisa, a engrenagem que moverá a investigação de meu trabalho final do curso de graduação que quer considerar as tortuosas (e muitas vezes contraditórias) teorias que problematizam a autobiografia e a autoficção. A pesquisa pretende se ater à investigação deste limiar e não apenas a catalogar a obra em um dos dois termos mencionados. Queremos instigar, provocar, convidar a uma reflexão sobre o autobiográfico e o autoficcional analisando O Amante, obra de Duras que a crítica, apesar de notar a tensão com a presença de dados biográficos, logo acomodou no terreno da “pura” ficção.