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A primeira pessoa do autor-personagem Ricardo Lísias

Por Marília Costa

Concentração e outros contos

Ricardo Lísias Objetiva, 2015.

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O livro Concentração e outros contos de Ricardo Lísias pode funcionar como uma espécie de antologia que permite ao leitor perceber nitidamente o projeto literário do autor. Nessa reunião dos principais textos há apenas um inédito “autoficção”, pois os demais já tinham sido publicados em livros, revistas literárias ou suplementos.

A maioria dos contos são narrados em primeira pessoa e o rico trabalho com a linguagem fortifica a prosa. Os principais temas são recorrentes também em outros livros do autor: a solidão, a memória, o xadrez, a insanidade, as pressões da vida acadêmica, o deslocamento da zona de conforto, a carreira de escritor, a morte do amigo André e a política latino-americana.

O conto inédito “Autoficção” estabelece uma dura crítica ao trabalho da imprensa brasileira que seria, na visão do narrador, altamente parcial e mentirosa. Essa forma irônica como Lísias se refere aos jornalistas funciona também como uma resposta aos ataques que sofreu após a publicação de seu romance, Divórcio. No conto, Ricardo Lísias, o personagem, desiste da carreira de escritor para dedicar-se às artes plásticas e,  depois de vender dez quadros por um valor milionário, decide ir viver na Suíça. Uma renomada jornalista brasileira viaja para entrevistá-lo e, contrariando todas as críticas que o autor-personagem tinha recebido da imprensa,  desmancha-se em elogios a ele. No final do conto é revelado que a jornalista envolve-se sexualmente com seu entrevistado:

“Foi fácil constatar, porém, que as acusações de arrogância, solipsismo e comportamento destrambelhado que recaem sobre Lísias no Brasil são absurdas. O que as pessoas queriam? Depois de um manifesto que lembra os melhores textos modernistas e uma exposição que chamou a atenção do mundo inteiro, que Lísias ficasse com uma parcela tão pequena do dinheiro das vendas que mal conseguiria comprar um apartamento?! Um absurdo. Na Suíça, ele pode continuar criando com mais conforto. Essas fontes são todas invejosas, a reportagem teve certeza ainda nessa terceira visita, quando Lísias  a currou pela primeira vez com toda força. Seu pau imenso e poderoso entrava e saía da reportagem sem dó.” (LÍSIAS, 2015, p. 88 e 89)

Ainda sobre esse mesmo conto vale a pena comentar como Ricardo Lísias-autor investe no projeto literário de misturar os fatos e a ficção, característica cada vez mais presente na produção contemporânea, e que nesse conto mitiga uma crítica ao embaralhamento das fronteiras entre o público e o privado.

Em Concentração e outros contos aparecem também sete fisiologias: da memória, do medo, da dor, da solidão, da amizade, da infância e da família. Nesses contos é feito uma espécie de estudo do funcionamento desses sentimentos presentes nos títulos. São todos textos escritos em primeira pessoa que revelam uma subjetividade intensa e um Lísias-personagem político, sentimental, problematizador da vida e da profissão de escritor, que invoca as muitas temáticas também presentes no livro O céu dos suicidas, como a morte do amigo André e a impossibilidade de salvá-lo do suicídio. Essa série  narrativa pode ser considerada autoficcional, embora o autor repudie a ideia e defenda que toda sua obra é só ficção que parte de acontecimentos e figuras reais.

A principal característica do projeto literário recente de Lísias é o uso frequente da narração em primeira pessoa, na qual o narrador se confunde com o próprio autor, resultando na figura do “escritor-personagem”. Concentração e outros contos pode, então, ser lido como uma produção importante do projeto literário de Lísias, pois refere-se tanto à exposição formal de intenções de trabalho, quanto ao caráter estético da produção ficcional, e pode servir como um farol para orientar seus leitores e críticos na compreensão de sua trajetória como escritor.

Diego Moraes: uma carreira construída à margem

Por Marília Costa

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A internet é na contemporaneidade um veículo fundamental para a transmissão de informação e os escritores do século XXI têm utilizado essa ferramenta para divulgar os textos e também como suporte literário. Desse modo, as redes sociais servem como arquivos on-line para as produções literárias atuais e como mecanismo publicitário. Por conta disso, tornou-se possível conhecer novos autores e mergulhar em suas obras virtualmente.

É o caso, por exemplo, do autor que gostaria de comentar hoje. Diego Moraes, nascido e crescido no Amazonas, resolveu tentar a vida em São Paulo para viver uma história de amor que não deu certo. O romance acabou e o escritor passou a morar nas ruas, mais especificamente na Praça da Sé, pedindo esmolas e usando crack até ter coragem de entrar em contato com a mãe e voltar para sua terra natal. Moraes estudou apenas até a sexta série do ensino fundamental, concluiu o ensino médio através do supletivo e não teve acesso à universidade.

Ao retornar para o Amazonas, Diego Moraes publicou o seu primeiro livro “Fotografia do meu antigo amor dançando tango”, escrito no período em que viveu nas ruas de São Paulo e impresso em casa na gráfica do próprio pai. A carreira de escritor começou de maneira marginal e clandestina e foi ganhando espaço na cena literária por meio das redes sociais alimentadas pelo autor (Facebook e Twitter).

Atualmente, o autor mantém o blog Urso Congelado com textos em verso e prosa. Em 2015 foi um dos escritores convidados a participar da Balada Literária em São Paulo e retornou para a metrópole como uma promessa da nova literatura. Entretanto, busca assumir a postura de quem prefere estar à margem dos grandes centros literários, publicando seus livros (cujos títulos mereceriam um post à parte) por editoras independentes:  “A solidão é um Deus bêbado dando ré num trator” (Ed. Bartlebee); “Um bar fecha dentro da gente” (Ed. Douda Correria); “Eu já fui aquele cara que comprava vinte fichas e falava eu te amo no orelhão” (Ed. Corsário Satã); “Meu coração é um bar vazio tocando Belchior” (Ed. Penalux). Além disso, Diego Moraes idealizou e organizou a primeira Feira Literária Virtual pela Flipobre – a Flica dos escritores pobres, demonstrando disposição para criar um circuito diferenciado em relação ao mainstream literário.

Leitor ávido de Charles Bukowski, Pedro Juan Gutiérrez, John Fante e Plínio Marcos, o pujante escritor Diego Moraes é influenciado pela cultura pop, sem medo de escrever o que pensa e sente, tem um estilo literário intenso e feroz, um lirismo marcante e uma escrita prosaica em ritmo poético ou vice versa. O autor acredita que a solidão e infelicidade servem como material literário para produzir bons textos. Em um viés autoficcional as temáticas das suas obras passeiam pelas decepções amorosas, drogas e solidão: “Se você não melhorar sua literatura com um chifre, não é com oficina literária do SESC que aprenderá a escrever.”, afirma de forma polêmica e divertida.

As muitas vidas de autor

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Por Marília Costa

Isto não é um cachimbo – Perfis literários  é um projeto criado em maio de 2012 por Luiz Nadal, jornalista e pesquisador de literatura contemporânea, que ficcionaliza a vida e obra de escritores da prosa contemporânea, como Ricardo Lísias, Veronica Stigger, Adriana Lisboa, Bernardo Carvalho, Lourenço Mutarelli entre muitos outros. O modo peculiar de narrar os perfis, misturando a função comunicativa da crônica, reportagem, ficção e crítica literária intriga o leitor. Cada texto parece na verdade uma longa entrevista em que Nadal  reúne além de suas próprias impressões como leitor da obra dos autores que ganham perfis literários no site, opiniões que poderiam ser expressas pelos autores retratados.

O nome do site mantido por Nadal é inspirado no quadro do pintor belga René Magritte que retrata um cachimbo e traz a inscrição “Ceci n’est pas une pipe” ou “isto não é um cachimbo”. Assim como a pintura de um cachimbo não é um cachimbo, mas sim uma pintura de um cachimbo, Nadal sugere que os perfis literários que podemos encontrar ali  não têm a pretensão de retratar os autores, mas consistem em representações.

O modo particular de apresentar os autores contemporâneos em Isto não é um cachimbo – Perfis de autor é atrativo devido ao fato de fazê-lo através da própria literatura. O autor deixa de ser apenas o ourives da linguagem e passa a ser também a pedra preciosa modelada, moldada e refinada pelas palavras e jogos linguísticos, constituindo-se como autor e personagem dentro de uma obra.

Esse jogo de identidades cênicas tecido na cadeia narrativa tende a ser sintomático na contemporaneidade, já que muitos autores que se tornam personagens de Nadal apostam, eles mesmos em suas obras, no teatro de suas performances.

O que Luiz Nadal fez não é diferente do que muitos autores vem fazendo para angariar  um espaço no campo literário, que é construir perfis em redes sociais e publicar informações de fórum intimo, criar histórias a respeito da suas próprias vidas que não são necessariamente reais. É um jogo de influências, o personagem empírico fabrica a figura autoral estimulando poses e a criação de mitos. Essa grande valorização da intimidade dos escritores e obsessão pelo vivido podem ser atribuídas ao retorno do autor contrariando o prognóstico de Barthes.