OS SAPOS DE ONTEM: A polêmica como tomada de posição

os sapos de onte
Fig. 01- Capa do livro
Os sapos de ontem

Por Nívia Maria Santos Silva

O texto polêmico apresenta algumas peculiaridades que o definem enquanto um gênero textual específico. Seja oral ou escrito, ele possui uma estrutura própria com características e intenções comunicativas que lhe são inerentes. Uma de suas principais particularidades é a sua linguagem. Sempre incisiva e repleta de expressões depreciativas, ela é, muitas vezes, tanto agressiva quanto irônica. Esses recursos são aplicados porque a sua retórica é construída de modo a enaltecer a qualidade do polemista e seus afins e enfatizar a fragilidade do outro (no caso, o opositor) e fazer com que suas qualidades sejam desmerecidas ou eclipsadas. Com esse intento, os polemistas lançam mão de uma infinidade criativa de metáforas pejorativas e, entre um argumento e outro, até de xingamentos. Na polêmica, há também espaço para o humor que, às vezes, suaviza alguma afirmação mais forte, tornando-a mais agradável, mas, outras vezes, intensifica-a, atribuindo ao texto um tom de galhofa que ridiculariza seu destinatário.

O livro Os sapos de ontem é um exemplo de produção polêmica, com todas essas especificidades que lhe são peculiares. Escrito pelo poeta Bruno Tolentino¹ e lançado em 1995, pela editora Diadorim, ele é composto por quatro partes: “A farsa como história”, um ensaio crítico e polêmico contra o Concretismo ; “O princípio do fim”, a compilação das matérias jornalísticas com a réplica, a tréplica e alguns dos desdobramentos da querela literária entre Bruno e o poeta, tradutor e crítico literário, Augusto de Campos; “A retirada da lacuna” e “Responsabilidades”, reunião de poemas satíricos, sobretudo, sonetos e quadras.

Em meio a subtítulos de troça, como Noigandres à penteadeira das solteironas, e afirmações depreciativas sobre Campos e os seus, como chamá-lo de “insosso dublê de Pitanguy literário” (p. 51), o livro Os sapos de ontem, mais que um alinhavo “de inaudito enxurro de insultos e grosserias” (p.55), é parte da crítica (cultural, literária) produzida por Bruno em sua obra poética e, por isso, é exemplo de polêmica enquanto “tomada de posição”².

Ridicularizar o opositor não era o objetivo central da polêmica tolentiana, isso era para ele mais um meio, não o seu fim. A principal meta de seus textos polêmicos era definir um lugar de fala, o que acabou por demarcar seu ponto de vista estético e literário e delimitar ideias a serem superadas, assim como também estremar seus aliados e adversários. Isso é possível porque a atitude polêmica é, antes de tudo, uma performance em defesa de uma opinião (ou opiniões) que revela muito das escolhas de seu produtor e, consequentemente, de seu campo de atuação. Os textos polêmicos são mais do que um falar mal gratuito e perverso, são um manifesto e a polêmica, vista por essa perspectiva, é assumir publicamente uma postura.

A crítica realizada por Bruno já é exposta no próprio título, que sugere algo que está desatualizado, “de ontem”. A referência ao batráquio é explicitamente um diálogo com o poema de Manuel Bandeira Os sapos, declamado por Ronald de Carvalho, na abertura da Semana de Arte Moderna de 1922: “Clame a saparia/Em críticas céticas:/Não há mais poesia,/Mas há artes poéticas”³. No poema de Bandeira, há a crítica ao Parnasianismo e seu modos operandi. No livro de Tolentino (fig. 01), há a crítica aos que ele chamou de “sub-parnasianismo” (p. 47), o movimento concretista e seus representantes: “Vai-se abrindo uma lacuna/no cérebro nacional/e a poesia vira aluna/de sapos de manual” (p. 78).

Nessa crítica, há uma tomada de posição contra a substituição do poema por fórmulas (“arte poética”, “manual”). Para Bruno, “[os concretos] nunca fizeram absolutamente nada além de receituários, um atrás do outro e todos instantaneamente caducos.” (p. 35).  A expressão “sapos de manual” confirma essa postura, pois, além do sentido literal de “manual” como um guia de funcionamento, sugere, por meio de um jogo de palavras, que os poetas concretos são os “sapos de Manoel”, ou seja, insinua que a crítica feita por Bandeira ao Parnasianismo e o esteticismo de sua Arte pela arte pode ser direcionada ao Concretismo.

Por mais estranho que pareça relacionar a vanguarda concretista com o conservador Parnasianismo, Bruno vê neles pontos de intersecção, sobremaneira, no culto da “linguagem-em-si”, e se coloca veementemente contrário à ideia da “estrutura como […] verdadeiro conteúdo” (p. 12). Essa postura tolentiana representa a não aceitação do poema como uma realidade em si mesmo⁴ , princípio basilar do Concretismo, e é a defesa da linguagem como “instrumento natural de comunicação” (p. 11).

Cabe destacar também, em Os sapos de ontem, a posição de Bruno contrária ao autoritarismo desse grupo que, de forma excludente, sufocava a diversidade ao impor a sua teorização: “Não, irmãos, nem o caçula/nem o sapo primogênito/tem qualquer talento ou gênio,/tem só ambição, só gula.” (p. 74). Assim como essas, outras críticas vão se alinhavando nessa compilação crítica, pois, tanto no ensaio quanto nas matérias jornalísticas e nos poemas que apresenta, esse livro manifesta as discordâncias de Tolentino contra certa hegemonia do pensamento concretista.

Assim, Os sapos de ontem é um exemplo de que a polêmica pode ser também a defesa de um ponto de vista. Além disso, ele nos faz voltar o pensamento para o último quartel do século passado e pensar o funcionamento do campo literário do qual ele representa tanto um produto quanto uma proposta de mudança. Mais do que uma ordinária antipatia pessoal contra a tríade concretista, a polêmica contida nesse livro manifesta a divergência entre sistemas de valores literários distintos. Para além do simples concordo-discordo, talvez seja este seu maior mérito: suscitar o debate literário, sendo uma voz dissonante num momento de monotonia e preguiça.

TOLENTINO, Bruno. Os sapos de ontem. Rio de Janeiro: Editora Diadorim, 1995. 119 p.


[1] Para ler sobre Bruno Tolentino: https://leiturascontemporaneas.org/2014/08/29/bruno-tolentino-o-ilustre-desconhecido/

[2] “potencialidades objetivas, coisas ‘a fazer’, ‘movimentos’ a lançar, revistas a criar, adversários a combater, tomadas de posição estabelecidas a ‘superar’ etc.” (BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. Tradução Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, grifos do autor).

[3] BANDEIRA, Manuel. Seleta em prosa e verso. Organização Emanuel Moraes. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007.

[4] Um poema não quer dizer isto nem aquilo, mas dizer-se a si próprio (PIGNATARI, Délcio. Depoimento. In: CAMPOS, Augusto; PIGNATARI, Délcio; CAMPOS, Haroldo. Teoria da poesia concreta: textos críticos e manifesto 1950-1960. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1975, p. 09)

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