Arquivo da categoria: Campo literário

Escrita de si, Escrita de nós

Caroline Barbosa

Créditos da imagem: “As filhas de Eva” (2014), Rosana Paulino.

Como um dos resultados de minha pesquisa de iniciação científica, apresentei uma tabela sobre os conceitos que pareciam ser variantes do termo autoficção (alterficção,  alterbiografia e autoficção especular, entre outros). Me chamava a atenção, naquele momento, o fato de que o conceito de escrevivência sempre aparecia próximo e ao mesmo tempo distante desse rol de nomenclaturas. Por isso, resolvi dar prosseguimento a essa indagação em meu mestrado.

A origem do termo autoficção já é bem conhecida. Ele surge na França em 1977, após Serge Doubrovsky se sentir impelido a preencher uma das casas vazias no quadro elaborado por Philippe Lejeune, em 1973, para explicitar a noção de “pacto autobiográfico”. A casa mencionada, que Lejeune não conseguiu completar,  dizia respeito à relação onomástica entre autor, narrador e personagem.

Nesse contexto, Doubrovsky publicou o romance Fils (1977) e o chamou de autoficção. O escritor definiu sua prática como “ficção de fatos e acontecimentos estritamente reais”, e definiu também algumas características para seu empreendimento: a ausência de linearidade, o uso da metalinguagem, a exploração do tempo presente e de um pacto oximórico com o leitor (verdade e ficção), a fragmentação, o caráter psicanalítico do texto.

Na contemporaneidade, essa prática ganha destaque pela valorização do biográfico, com o incremento da exposição midiática e do interesse pela vida do autor, por exemplo. Diana Klinger chama de escritas de si as obras que transitam entre o ficcional e o factual, como a autoficção, próprias de nosso contexto atual em que público e privado se confundem.

Mas Conceição Evaristo, pesquisadora e escritora, parece repensar o solipsismo e o egocentrismo comumente relacionados a essas escritas, quando, ao cunhar o termo escrevivência o aproxima de uma “escrita de nós”, que diz respeito não apenas às vivências de um indivíduo, mas também à história de um coletivo, o da população afro-descendente.

O termo escrevivência foi mencionado pela primeira vez em 1995 pela própria Evaristo no Seminário de Mulher e Literatura. A imagem que embasa o termo é a da Mãe Preta, aquela que vivia como escrava dentro da casa-grande cuidando e contando histórias para adormecer os filhos dos poderosos. Assim, o projeto literário de Evaristo é apresentar a população afro-descendente, com foco especial nas mulheres negras, a partir das suas subjetividades, longe dos estereótipos racistas.

As principais características presentes nas obras de escrevivência são a ficcionalização de uma vivência individual que ao mesmo tempo transpassa a experiência do coletivo; o tempo circular, pois o trânsito entre passado e presente é constante, e a exploração de uma linguagem que se aproxima da oralidade, através do uso de palavras cotidianas, do modo de construção frasal, dos sentidos explorados pela carga simbólica que é trabalhada pelo texto.

Será que podemos pensar modos de relação entre a autoficção, que nasce do ambíguo, do jogo com o leitor, e a escrevivência que une o sujeito de enunciação individual com o coletivo, que busca revelar memórias que foram negadas? Como o campo literário está lidando com produções que possuem subjetividades, objetivos e temas narrados de formas distintas, mas que fazem parte do mesmo cenário literário contemporâneo: o do incremento da exposição e revelação de subjetividades?

Um novo campo literário?

Lílian Miranda

Créditos da imagem: Arte de Maria Júlia Moreira para a revista Pernambuco

“Quantas perdas cabem na vida de uma mulher?”, assim a escritora Micheliny Verunschk inicia a orelha do livro O peso do pássaro morto, publicado pela editora Nós de autoria de  Aline Bei.  Depois de ganhar o prêmio promovido por Marcelino Freire em sua oficina-concurso, a Toca, Bei conquistou o prêmio São Paulo de Literatura 2018, na categoria de melhor livro do ano- autores estreantes com menos de 40 anos.

O peso do pássaro morto é o romance de estreia da autora paulista e narra, em primeira pessoa, a história de uma mulher sem nome, desde de seus 8 aos 52 anos, com alguns saltos temporais que se concentram nos fatos trágicos e nas perdas que a personagem sofre ao longo da vida. No livro, são abordados temas delicados e muito debatidos nos últimos tempos como estupro, gravidez na adolescência, machismo, o papel da mulher na sociedade e também questões subjetivas que tratam da situação psicológica da personagem, suas escolhas ao longo da vida e as consequências oriundas delas.

Não é possível falar sobre o livro de Bei e deixar de comentar sua forma, já que o livro é inteiramente escrito em fragmentos (que lembram versos), que impõem ao leitor um ritmo “quebrado” de leitura:

quando um bebê

nasce

é preciso contar para ele que bebês

também morrem

e o caixão

é sempre branco. ainda assim

quando um bebê nasce

uma Flor brota

no peito e sai

pelo leite da mãe.

é assim que os bebês crescem (p.64)

A história provoca um forte efeito de verossimilhança, pois muitas das agruras presentes na vida da personagem são as que estão presentes hoje em nossa sociedade. Também por isso, o romance recebe uma ótima aceitação do público, virando rapidamente leitura obrigatória entre clubes do livro, bookgrams e booktubers. Vide entrevista da autora para o canal LiteraTamy: https://www.youtube.com/watch?v=bohKftiJYQw&t=309s

Mas há um outro elemento que é surpreendente: a forma como o livro é promovido pela própria autora, que se engaja no merchandising da obra. Aline Bei usa o quanto pode as redes sociais como ferramenta para divulgação e venda do seu livro. Qualquer pessoa que interaja com seus posts na internet, curtidas, compartilhamentos e comentários, ou apareça em algo relacionado à literatura no Instagram, recebe automaticamente uma mensagem convidativa oferecendo o link para compra de seu Pássaro Morto. A estratégia deu certo, pois o livro esgotou a primeira edição graças a esse cheek to cheek virtual.

Pensando nas discussões teóricas atuais sobre a literatura, é possível dizer que o livro e a atuação de Bei tornam possível pensar dois postulados apresentados pela crítica argentina Josefina Ludmer em seu texto “Literaturas Pós-autônomas” (2000). O primeiro deles diz que esse novo regime da literatura representa “o fim das lutas pelo poder no interior da literatura”, representando por tabela, o fim do campo literário, tal como proposto pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu. O segundo pressuposto de Ludmer é o que afirma que as literaturas pós-autônomas “fabricam um presente”.

Na pesquisa que empreendo, utilizo o livro de Aline Bei para colocar à prova essas premissas, investigando melhor a noção de campo literário e observando alguns elementos relacionados à noção de literatura contemporânea, em especial o modo como o autor surge, como começa uma carreira literária e como insere seu nome de autor e sua obra no campo literário.

“É metafísica ou putaria das grossas”: Hilda Hilst e o mercado de livros – anotações iniciais

Newton Leite Campos

No ano de 1990, Hilda Hilst se rebelou. Ou recuperando expressão da própria escritora à época: a santa resolveu levantar a saia. Com o Caderno Rosa de Lori Lamby, (que compõe uma tetralogia com os títulos Contos D’Escárnio/Textos Grotescos, Cartas de um Sedutor e Bufólicas), Hilda Hilst dá início à publicação de um conjunto de livros responsável pela imagem de pornógrafa midiaticamente construída e cristalizada em torno da multifacetada escritora, que descontente com a invisibilidade de sua obra por parte do grande público, investe na escrita de “adoráveis bandalheiras”.

A própria Hilst não se escusava de apresentar a tetralogia como mera tática mercadológica, uma maneira de invadir o mercado editorial e também de enfim ganhar algum dinheiro com seus livros (a autora tinha na literatura uma profissão, a despeito de ser formada em Direito, não exercia outra atividade além de escrever), um ato de agressão que pretendia chamar a atenção dos leitores, mas, sobretudo dos editores, personagem-vilão que sistematicamente reaparece em três dos quatro volumes que compõem a tetralogia e que proíbe o ato de criação/pensamento do artista.

Quem não acatou a nova empreitada da obscena e criticamente respeitada senhora Hilst foi Leo Gilson Ribeiro, durante anos grande divulgador da obra hilstiana a ponto de considerá-la “o maior escritor vivo em língua portuguesa”. Eu e não outra – a vida intensa de Hilda Hilst, recente trabalho biográfico realizado pelas jornalistas Laura Folgueira e Luisa Destri, recupera alguns episódios interessantes: presente na reunião que Hilda organizara em sua casa para leitura de trechos do Caderno Rosa, o crítico literário Leo Gilson, aborrecido com o texto que escutava, pontificou: “o seu castigo vai ser o meu silêncio.” Massao Ohno, editor responsável pela primeira edição do Caderno Rosa de Lori Lamby, também concordava que o livro em questão se tratava de uma “subliteratura”. Caio Graco Prado, da Editora Brasiliense, que havia publicado o título hilstiano Com meus olhos de cão (1986), se recusou a publicar o Caderno Rosa, já que na sua avaliação o texto era “escabroso”. Três exemplos, portanto, que ratificam a ideia de que “a santa resolveu levantar saia”, alardeada pela própria Hilda Hilst.

Recém-ingresso no Mestrado em Literatura e Cultura (UFBA), tenho me dedicado a investigar a conturbada relação de Hilda Hilst com o mercado editorial brasileiro, considerando o estudo sobre a tetratologia obscena. Nesse momento inicial da pesquisa, sobram perguntas acerca do corpus: “É metafísica ou putaria das grossas” (pergunta que a própria autora lança num dos volumes da tetralogia e que intitula este post)? Estratégia de mercado, resposta desaforada aos editores, uma banana em forma de livro (como a própria autora também asseverou em entrevista a TV Cultura por ocasião do lançamento do seu Caderno rosa)? Show de humor e cinismo no qual o próprio mercado editorial é o principal personagem obsceno? Em que medida atacar os agentes do campo não significa também uma estratégia de inserção? Tentativa de ampliar o seu público leitor? Corte, inauguração de outra, novíssima fase no interior de sua obra? Reflexão-recusa-deboche do caráter comercial da literatura?

Questões que apontam para nuances instigantes para pensar o relacionamento de Hilda Hilst com o campo literário. Levantamento realizado por Destri e Folgueira, autoras da mais recente biografia da escritora, aponta que o interesse midiático por Hilst literalmente explodiu após a publicação da tetralogia obscena: as biógrafas identificaram cerca de 90 reportagens sobre Hilda concentradas naquele período. As traduções de O caderno rosa de Lori Lamby para o italiano em 1992 pela Ed. Sonzogno, dos Contos de escárnio/textos grotescos para o francês em 1994 pela Gallimard e fragmentos de Cartas de um sedutor para o alemão em 2001 são também índices do interesse e ampliação da circulação do texto hilstiano.

Se podemos afirmar que durante um bom tempo a marginalidade editorial marcou o projeto literário de Hilda Hilst, assistimos a uma significativa alteração de rota no princípio dos anos 2000, quando a Editora Globo inicia a publicação de sua obra completa (que inclui poesia, teatro, prosa de ficção e crônica), permitindo ampla circulação do seu texto antes restrito a editoras menores e a um público de culto. Lembre-se ainda que recentemente a Companhia das Letras assumiu a publicação de uma reedição de toda obra poética e em prosa de ficção.

No interior desse processo de consagração, para utilizar expressão apresentada por Fernanda Shcolnik na tese Nos Rastros do Arquivo: um estudo sobre as formas autorais de Hilda Hilst, identificamos na década de 1990, com a publicação da tetralogia obscena e todos os seus desdobramentos crítico-editoriais, um momento que merece ser pesquisado com calma, é o que pretendemos fazer, perseguindo inclusive a relação da narrativa dita literária com as aparições públicas da escritora no farto material de suas entrevistas jornalísticas, e em breve retornar com novidades…