Vida e arte, autonomia e pós-autonomia

Marília Costa

Créditos da imagem: Mona Kuhn. “Kiss, 2004” Disponível no Instagram @monakuhnstudio.

A autoficção desde que foi forjada em 1977 pelo escritor francês Serge Doubrovsky tem sido duramente rejeitada e considerada uma estratégia barata de narcisismo e autopromoção por parte da crítica especializada, dos artistas e da mídia. Talvez por esse motivo muitos autores, ainda que escrevam textos autoficcionais, se esforçam para se afastar do rótulo de escritores de autoficção. Uma outra possibilidade encontrada por esses autores é tentar ocultar o “auto” e revelar apenas a “ficção” das obras para se salvaguardar de problemas jurídicos e éticos, causados pela exposição nas narrativas do círculo social do autor como amigos, familiares e ex-parceiros amorosos. Assim, mesmo explorando largamente a dimensão biográfica do vivido, os autores insistem  que “há um narrador visivelmente criado e diferente do autor”, como advoga Ricardo Lísias, por exemplo.

As acusações de invasão de privacidade e as avaliações sobre a falta de limites éticos dos autores são elementos que aparecem atrelados à autoficção, desde as primeiras narrativas com essa etiqueta produzidas na literatura francesa.

Mas não é apenas na França que o termo é cercado de controvérsia. O norueguês Karl Ove Knausgård ao longo dos seis volumes da saga Minha luta relata episódios que envolvem familiares e, em especial, a vida e a morte do próprio pai. Alguns dos “personagens” conservam os nomes reais e, mesmo que Knausgard tenha consultado e obtido autorização dos envolvidos para a publicação, enfrentou a ameaça de uma demanda judicial por parte de seu tio paterno, tendo de proceder a ajustes na narrativa para driblar as condenações por expor a intimidade alheia.

Na Alemanha, Maxim Biller, prestigiado escritor e jornalista, teve o livro Esra (2003) tirado de circulação pelo Superior Tribunal de Justiça que deu ganho de causa à ex-namorada do autor, que o processou por expor a vida conjugal de ambos quando ainda eram casados.

A autoficção também está presente no universo das séries. Um dos episódios de Easy, intitulado “Vida e Arte”, tematiza a relação entre esses elementos. Um autor de novelas gráficas, que utiliza a própria vida como mote para suas histórias, experimenta do próprio “veneno”. Ao se relacionar amorosamente com uma fotógrafa, é surpreendido com uma foto sua depois do sexo (After Sex Selfie) exposta em uma galeria de arte sem autorização prévia. Ao se deparar com a foto na galeria, o ilustrador se revolta e provoca um escândalo exigindo que a obra seja retirada imediatamente da exposição, situação no mínimo irônica já que ele costuma retratar suas parceiras nas narrativas que cria. Embora haja na série uma crítica veemente a como a exploração da esfera da vida, do privado nas obras pode servir como moeda de troca para o sucesso e o incremento do consumo, além de explorar o puro narcisismo, é interessante pensar que a tensão com a vida pode dizer algo sobre outras possibilidades estéticas e formais do campo da arte no contemporâneo.

Os exemplos comentados acima, trazem à baila as questões em torno dos limites das representações na arte. Há limites éticos para a arte? Um autor pode ser responsabilizado judicialmente pelo conteúdo do livro que escreveu?  Em Easy, no final do episódio, os dois artistas e amantes debatem sobre o gesto artístico de representar pessoas e situações reais nas obras artísticas e chegam à conclusão de que “arte e vida… Não têm diferença”.

Para Josefina Ludmer no ensaio “Literaturas pós-autônomas”, vivemos hoje “o fim da diferenciação literária entre realidade (histórica) e ficção”. Uma consequência disso é que a arte deixa de ser o espaço de mediação dos discursos políticos, históricos, sociológicos e passa a ser engendrada a partir deles, tornando-se parte da sua composição.

Segundo o princípio da autonomia artística que dá legitimidade à arte moderna, a literatura como discurso ficcional não pode ser avaliada segundo os princípios que atuam na “realidade”, pois nesses textos vigora a separação entre autor e narrador e por isso o signatário da obra não pode assumir a responsabilidade civil sobre os personagens e suas ações na trama.  É com esse argumento que muitos autores respondem aos processos judiciais. Mas e se vivemos em um momento pós-autônomo da arte? Poderíamos considerar a ambiguidade intrínseca à autoficção, que faz com que a figura do autor seja, e ao mesmo tempo, não seja diretamente associada à figura do narrador, um bom exemplo de como a autonomia moderna está sendo questionada? E se aceitamos a resposta afirmativa a essas perguntas, será possível ao autor que investe na autoficção desviar-se da responsabilidade daquilo que escreve?

Curadoria como um processo de (des)montagem e reorganização

Lílian Miranda

Créditos da imagem: Rosana Paulino, técnica mista sobre papel. 28,5 x 38,0 cm – 2016.

No meu último post apresentei a noção de arquivo segundo Jacques Derrida (2001) e minha hipótese de como ela pode nos ajudar a pensar o trabalho feito por Ana Maria Gonçalves para composição do livro Um defeito de cor. Hoje, quero acrescentar mais uma ideia: será que é possível falar em curadoria para caracterizar o modo como a autora (des)monta, seleciona e reorganiza criticamente os documentos de que ela se apropria para a construção do livro?

O curador-chefe do Museu de Arte Moderna de São Paulo, Cauê Alves aborda o papel do curador num contexto contemporâneo em seu textoA curadoria como historicidade viva” (2010) e explica que o curador de arte é o profissional responsável por organizar e supervisionar ou dirigir exposições de arte, seja em museus, nas ruas ou outros locais nos quais esse tipo de atividade pode ser desenvolvida. Ele aponta que a atividade de curadoria implica em reinventar trabalhos de arte suscitando outras experiências. Além disso, afirma que por estar mais próximo do campo da recepção do que da invenção, o trabalho do curador inclui compreender e relacionar as obras de que cuida à história da arte, inserindo-as em um diálogo com outros trabalhos no contexto de uma discussão atual.

Hans Ulrich Obrist em seu livro Uma breve história sobre a curadoria entende a curadoria e a atividade do curador como um trabalho de ligações e escolhas. Ana Maria Gonçalves lança mão desse processo fazendo uma seleção de obras que conversam entre si e compõem uma bibliografia de referência  que registra a história oficial do período colonial no Brasil e os eventos históricos que a autora narra ao longo do livro. Tomás Maria Tavares Diniz Neves e Castro em sua dissertação de mestrado intitulada “Curadoria como interpretação e interpretação sem curadoria: Um ensaio sobre arte”,  afirma:

Um conhecido curador [Obrist] descreveu-se uma vez como um “fazedor de ligações” entre pessoas, objetos artísticos, conceitos e muitos outros tipos de coisas. Segundo esta posição, fazer ligações é uma atividade produtiva que dá origem a novos entendimentos quando se juntam diferentes elementos.

Para Alves o curador é um sujeito que pensa, estuda e reflete sobre obras que mesmo que não sejam do seu agrado, acabam por complementar aquele trabalho que ele está desenvolvendo. Gonçalves elenca uma série de registros que inclui desde fontes primárias –  documentos, anais, revistas e jornais- até obras ficcionais como Viva o povo brasileiro de João Ubaldo Ribeiro e Memorial do convento de José Saramago, por exemplo.

Mas como pensar a curadoria na composição de uma obra ficcional?

Cauê Alves diz que é preciso lembrar que sempre percebemos parcialmente porque há  inúmeras perspectivas que podem dirigir nosso olhar. Embora a narrativa do Brasil colonial tenha sido replicada e recontada ao longo dos anos por diferentes tipos de representações, esses registros constituem partes dessas “percepções incompletas”. Gonçalves realiza uma curadoria dos arquivos que consulta para constituir uma obra ficcional que re(a)presenta uma outra possibilidade de percepção acerca do Brasil colonial e da história dos negros africanos. Representando de forma secundária figuras e eventos tidos como importantes pela história oficial e pelas narrativas canônicas, destacando eventos, costumes, cultura e personagens que sofreram com o apagamento e a impossibilidade de narrar a própria história.

Vamos citar um exemplo: a Revolta dos Malês, episódio em que Luiza Mahin se destaca como uma das heroínas sobreviventes e é comumente lembrado nos livros de história do ensino básico junto a outras revoltas que surgiram na Bahia e no Brasil ao longo do século XIX, o que é – muitas vezes –  feito de forma genérica e pouco desenvolvida. Em Um Defeito de cor a autora realiza muito mais do que uma citação ao evento, ela o ambientaliza a partir da ótica de uma revoltosa que acompanha diariamente os planejamentos para o levante, as reuniões e as complexidades que atravessavam os principais nomes ligados ao movimento, tais como Manuel Calafate e Alufá Licutan, lideranças muçulmanas que foram fundamentais para a rebelião.

Uma outra operação que poderia ser aproximada ao trabalho de curadoria diz respeito à figura de Francisco Félix de Souza, apelidado como Chachá de Souza, o traficante de escravos que é pouco mencionado pela história oficial brasileira, mas que ganha importância e destaque na narrativa de Gonçalves.  Ele foi um brasileiro mestiço que retornou à Uidá na África e cresceu economicamente com  o tráfico transatlântico de africanos de diferentes partes do continente para serem escravizados nas Américas. Chegou a ser um dos maiores traficantes do mundo, tornou-se dono de uma frota imensa de tumbeiros. Na história de Kehinde ela menciona o Chachá de Souza não necessariamente se posicionando com revolta sobre o que ele fazia, mas tampouco concordando com sua estratégia para enriquecer. Ela se relaciona profissionalmente com o personagem por conta de seus projetos de investimentos em Uidá, já que ele era responsável por tudo que entrava e saía dos portos de Uidá e dos comércios que tentavam se expandir por lá.

Ao longo da narrativa, então, são apresentadas outras personagens e episódios que encontram referência histórica, mas que também foram “esquecidos” historicamente. Explorando esses arquivos não explorados pela história, romanescamente, Gonçalves efetua um procedimento de recorte e reorganização desses arquivos, e talvez isso possa ser caracterizado como um trabalho de curadoria.

“A fotografia é um instrumento perfeito para duvidar”

Samara Lima

Créditos da imagem: “Caderno de memórias coloniais” de Isabela Figueiredo

Em outro post, comentei sobre como a fotografia, desde o seu surgimento, esteve atrelada ao uso documental devido à pretensa ideia de que tal reprodução constituía uma representação objetiva e fidedigna da realidade. Por outro lado, também assinalei que cada vez mais a prática fotográfica e a teoria da fotografia, através de diversos usos e experiências conceituais, vêm almejando outras relações e significações para a imagem.

Nesse sentido, talvez seja interessante resgatar a discussão de Adolfo Montejo Navas, em seu livro Fotografia e poesia (afinidades eletivas). Aí, o autor reflete sobre como as fotografias contemporâneas saltam “a cerca do seu território” e se abrem para “outros meios, contextos, e outro discurso além do meramente fotográfico”. É pensando nessa questão que ele propõe a noção de fotografia transversa. O conceito está baseado na ideia de que as imagens atuais transitam por vias que não são as mesmas que predominam em boa parte da teoria sobre a fotografia. Durante muito tempo, uma foto foi tomada como mero registro, mas, segundo Navas é possível que, explorada junto dos textos, as fotos possam “abrigar experiências perceptivas que podem estar além da planaridade”.

A presença da fotografia nas narrativas não é novidade, mas é certo que ela não aparecia com tanta frequência, devido ao alto custo de impressão e também pela predominância da concepção de que a literatura era um objeto autônomo, separado das outras esferas artísticas. É importante ressaltar que nesses casos a imagem ainda estava presa ao seu caráter documental, tendo os seus significados guiados pelo texto e servindo como mero acessório. A grande diferença da presença de imagens nas produções contemporâneas é que a foto é vista como uma possibilidade de expansão do relato. Considerando essas provocações, gostaria de comentar brevemente umas das fotografias presentes no livro Cadernos de memórias coloniais de Isabela Figueiredo e seu modo de relação com o que é narrado.

A narrativa é escrita em primeira pessoa e abarca as memórias de infância da narradora-personagem-autora Isabela Figueiredo, durante o período de colonização e descolonização portuguesa em Moçambique. Aqui, o corpo da personagem e o seu relato se entrelaçam com a própria experiência do país. Por isso, entre as nove fotografias presentes na edição brasileira do romance, é interessante perceber que a foto que abre o texto é justamente o plano da cidade de Lourenço Marques, cidade natal de Figueiredo. À primeira vista, a imagem nos leva a pensar que ela atua segundo uma mera necessidade documental, de uma atestação da existência de uma realidade. Mas, no decorrer da narrativa, nos deparamos com uma tensão constante entre o que é tido como documento e o relato que reconstrói a memória.

Se prestarmos bastante atenção na imagem da cidade, que introduz este post, é possível perceber uma propaganda na lateral de um dos prédios: “Beba Fanta”. Essa propaganda que facilmente passaria despercebida me chamou atenção e já digo o porquê. Em outro momento do livro, a narradora comenta sobre um passeio na companhia do pai “a caminho de Lourenço Marques”. Nesse passeio, repentinamente, a narradora descobre que aprendera a ler e intuitivamente passa a decodificar as propagandas que atravessam o seu caminho: “sem explicação, li alto, e de uma só vez, a publicidade pintada nas laterais dos prédios, ‘Singer, a sua máquina de costura; beba Coca-Cola; pilhas Tudor; com Luz cabe sempre mais um; cerveja 2M, tudo o que a gente quer’.”

A partir do momento em que lemos o relato “Beba Coca”, mas nos deparamos com a propaganda “Beba Fanta” na fotografia, é instigante notar que há um jogo com a ideia da imagem como prova, pois o leitor não encontra evidências entre a descrição e a imagem. Sem pretensão de instaurar-se como documento, a fotografia nos instiga à dúvida. Da mesma forma, os aspectos autobiográficos também são postos sob suspeita, mostrando que é um
livro de memórias “que ficciona para dizer a verdade” e que, principalmente, reconhece que a memória é falha.

O processo de costura da materialidade do relato, que sugere uma relação intrínseca entre texto e imagem, exige um considerável esforço especulativo por parte do leitor. Mas, uma vez que deixamos pra trás a ideia da imagem como mera confirmação para encará-la como “um instrumento perfeito para duvidar”, como afirmou Navas, percebemos que a foto realça e reforça o jogo entre a ficção e realidade.

Frankenstein e a Teoria da Narrativa

Allana Santana

Créditos da imagem: ‘Space², Providence, Rhode Island’, Francesca Woodman.

Meu atual projeto de pesquisa é sobre a narrativa e sobre a maneira como a teoria entende e reconta a longa história dos estudos sobre esse gênero. Lendo o crítico americano Brian McHale, algo me intrigou bastante.

McHale afirma que a teoria da narrativa geralmente é apresentada sob dois olhares: o primeiro se coloca sob um ponto de vista histórico, algo como uma “história das ideias”, em que o foco da abordagem é a exposição de conceitos básicos, seus refinamentos e complexidades a partir do olhar de teóricos diferentes e a “justaposição de diferentes linhas teóricas”. O segundo, por sua vez, avalia a teoria por sua existência institucional, considerando todo o aspecto social das ideias –  desde sua presença na academia, os circuitos curriculares, passando pelas condições de publicação e as relações informais entre os teóricos, o que o autor acredita se assemelhar a uma perspectiva genealógica.

Entretanto, o crítico afirma que a maioria dos artigos (em especial aqueles presentes no Companion to Narrative Theory, o livro em que o artigo de McHale pode ser encontrado) oscila entre uma e outra abordagem, o que parece sugerir a existência de uma disputa entre os dois modos de se avaliar a teoria da narrativa. Isso significa, em outras palavras, que a tendência é de uma perspectiva tentar se sobrepor à outra, o que não impede que a perspectiva subjugada apareça por entre as frestas.

Essa tensão se manifesta, por exemplo, na figura do crítico russo Mikhail Bakhtin, cujo “fantasma” assombra ambas as abordagens comentadas sobre a teoria da narrativa justamente por não se encaixar bem em nenhuma delas. Sua presença acaba sendo reduzida ou à figura de “pai do dialogismo” ou passa a ser contemporânea (no sentido literal da palavra) de diferentes estudos sobre a narrativa, passando por múltiplas apropriações e interpretações distintas. Nas palavras de McHale, Bakhtin “atravessa paredes” porque lê as obras que analisa em perspectiva histórica, aspecto que atrai muitas correntes teóricas distintas. Isso resulta numa “legião de Bakhtins espectrais”, nas palavras do crítico americano.

Essa espectralidade sugere uma impossibilidade de contar a história da teoria sobre a narrativa sob apenas uma perspectiva. No entanto, o autor se questiona se existe uma alternativa ao que chama de um cenário “monstruoso” de patchwork.

Se essa perspectiva monstruosa for considerada negativa, uma história sobre a teoria da narrativa seria talvez um projeto similar ao Frankenstein, construída a partir de pedaços incongruentes costurados grosseiramente. Por outro lado, talvez uma outra perspectiva  revele um Frankenstein não tão monstruoso, mas sim com múltiplas facetas de interpretação que não se cancelam, mas que produzem interpretações das mais diversas e contribuem para tornar a narrativa como gênero uma verdadeira aventura.

Sobre armários e soropositividade

Ramon Amorim

Créditos da imagem: Keith Haring, sem título, 1983.

O livro O segundo armário: diário de um jovem soropositivo, de Gabriel de Souza Abreu (pseudônimo de Salvador Correa), lançado na versão e-book no ano de 2014 e na versão impressa em 2016, busca se apresentar como uma espécie de diário dos primeiros anos após a descoberta da sorologia positiva para HIV do autor. A coletânea dos textos que formam o livro foi extraída do blog criado e mantido por Abreu depois da confirmação da sua sorologia positiva. Os relatos datam de abril de 2011 a dezembro de 2013 e falam sobre as questões médicas, emocionais, profissionais e familiares vivenciadas pelo autor durante esse período. Além disso, a discussão sobre a revelação de seu estado sorológico ganha protagonismo na narrativa.

Considerado como uma produção autobiográfica, pois a obra cumpre o estabelecido no “pacto autobiográfico”, o livro de Gabriel de Souza Abreu aposta em relatos dispersos (apesar de seguirem uma ordem cronológica) a fim de construir uma narrativa mais ou menos uniforme dos primeiros anos da sua convivência com o HIV. Por se tratar de produção feita originalmente para funcionar como um diário on-line, o conjunto de textos apresenta pouca profundidade e reflete alguns dos preconceitos que o autor possuía a respeito da comunidade LGBTQIA+ e das pessoas que vivem com HIV. Esses preconceitos podem ser vistos, por exemplo, quando o narrador associa a possível descoberta da infecção pelo vírus como uma espécie de castigo pelo comportamento sexual, dado que ser “não reagente” indica que não há “nenhuma penitência a ser paga” (p. 12). Além disso, é recorrente o medo do autor de ter sua imagem associada à de um sujeito soropositivo: “não seria identificado como portador de HIV (esse é, agora, meu maior medo…)”.

O título escolhido para o livro, apesar de assertivo, retoma algumas ideias já superadas a respeito da vida com HIV. Estabelecer a sorologia positiva como uma espécie de armário, é o principal problema da obra, principalmente quando o autor afirma que “o ‘segundo armário’ é aquele para onde são obrigados a entrar os jovens gays quando descobrem que são portadores de HIV”.

Essa posição é duplamente problemática, por fazer uma associação apressada entre os “jovens gays” e o HIV (mesmo que em outros momentos critique essa associação), assim como por inferir que a homossexualidade em si aprisiona sujeitos em um “[primeiro] armário”. O autor parece não pressupor que há sujeitos gays (ou LGBTQIA+) que nunca estiveram em “armários” e que podem viver sua orientação sexual de forma pública, sem a esconder de quem quer que seja. Abreu não conseguiu apontar para uma experiência com HIV que não fosse envolta em segredos, em silêncios.

Essas problemáticas presentes na narrativa apontam para uma dificuldade vivida por muitas pessoas quando descobrem que têm diagnóstico positivo para HIV. Mesmo as mais informadas, escolarizadas e independentes financeiramente ainda sofrem com o medo do estigma que a soropositividade pode acarretar. Esse receio está relacionado ainda a uma crença de que o HIV leva automaticamente à AIDS e a doença, à morte precoce. É nessa relação direta entre vírus e doença que o autor acha que sua família vai se prender caso descubra sua condição sorológica.

Ao narrar suas experiências, crenças e limites no enfrentamento de sua condição sorológica, Abreu cede a estigmas sociais e mantém muitos preconceitos relacionados ao vírus e à doença, perdendo uma oportunidade de problematizar essas formas de representação estereotipada. Isto talvez indique que vale a pena explorar a obra para perguntar o que ela “representa” no universo de produções sobre o tema.

Representar o desejo

Nilo Caciel

Créditos da imagem: Hudinilson Jr, “Performance Narcisse,” Exercício de Me Ver II (Exercise in Looking at Me II) series, 1982. Courtesy of Galeria Jaqueline Martins, São Paulo.

Depois do lançamento de O que te pertence, em 2016, o escritor americano Garth Greenwell publicou em 2020 seu segundo romance, Cleanness (ainda sem tradução). A obra funciona como uma sequência de seu primeiro romance. Acompanhamos o narrador, um professor americano morando na Bulgária, no momento em que está prestes a voltar para os Estados Unidos, ocasião em que  reflete sobre sua experiência no país balcânico.

Orbitando os dilemas relacionados a sua sexualidade na maior parte do tempo, a obra é formada por situações e momentos desconectados, sem um plot central: um romance com outro estrangeiro, sua relação com a mãe, inquietações políticas em Sofia e um encontro casual que envolve sadomasoquismo.

Joshua Barone, crítico do New York Times, apontou que ‘‘apesar de [as situações narradas] não aparecerem em ordem cronológica, há uma simetria em sua organização’’. Acredito que Barone se refere à forma como a experiência do narrador com seus dilemas relacionados a sua homossexualidade irradia por toda a composição dos capítulos: sua sensibilidade que capta o modo como a circulação de poder funciona nas diferentes relações, seu anseio por laços afetivos profundos ao mesmo tempo em que leva uma existência solitária, em constante auto-análise. Estas são algumas questões recorrentes em obras de autores gays, incluindo James Baldwin, cujo romance O quarto de Giovanni foi apresentado aqui.

      Um outro elemento que se intensifica neste romance é a vividez com o qual atos sexuais são retratados. Em um dos capítulos do livro, de forma particularmente ‘‘suja’’ (em contraste com o título, cuja tradução literal é limpeza), testemunhamos um encontro no qual a linha entre consentimento e abuso é borrada. Greenwell é um grande defensor da presença do sexo em obras de arte. Sobre seu próprio livro, ele declarou querer fazer algo ‘‘100% pornografia e 100% arte’’. Sobre a forma explícita com a qual retrata atos sexuais, afirma:

Não é que eu ache que explicitação seja algo intrinsecamente interessante. Nossa cultura está afogada em coisas explícitas, graças à internet. No entanto, sofremos de uma escassez de representações de encorporamento, que quer dizer corpos imbuídos de consciência.

O romance de Greenwell me interessa porque investe na especulação sobre o desejo, explorando os afetos, o corpo e o sexo de uma maneira que cria um desdobramento na representação da subjetividade queer. A “saída de armário” ou a auto-aceitação de sua opção sexual, não estão mais no centro das preocupações das narrativas de Greenwell. Apesar de não ser possível afirmar que estas são questões totalmente superadas pela comunidade LGBTQ, os direitos dos LGBTQ têm avançado grandemente nas últimas décadas (pelo menos no Ocidente), abrindo um amplo espaço para o aprofundamento de discussões sobre sexualidade nas diferentes instituições sociais.   Como parte desta geração, Greenwell explora as nuances dos reflexos de ter crescido em uma sociedade que ainda se esforça para entender seu lugar no mundo, sem se preocupar em se afirmar ‘‘igual’’ nem se moldar a ideais heteronormativos de realização amorosa ou sexual.

A lógica de Kassel são as experiências que a arte proporciona

Allana Santana

Créditos da imagem: William Kentridge: The Refusal of Time, 2012.

Vila-Matas é um escritor conhecido por produzir “textos híbridos que mesclam diferentes gêneros”. Em Não há lugar para a lógica em Kassel, Vila-Matas escreve sobre sua visita à Documenta 13, considerada um dos maiores eventos de arte contemporânea do mundo sediado em Kassel, na Alemanha. O livro parece uma mescla de ficção, ensaio e relato de experiência e apresenta muitas imagens que parecem sugerir maneiras de interpretar a obra. Esse experimento parece similar ao que Sussekind chama de OVNI, ou objetos verbais não identificados, expressão que é empregada por Christophe Hanna ao tratar “dos processos, dos contextos, e do funcionamento crítico de certos experimentos literários de difícil classificação”.

Sob uma ótica similar, outro termo interessante é cunhado por Florência Garramuño ao comentar que obras com esse padrão promovem “desenquadramentos (…) e parecem compartilhar um mesmo desconforto em face de qualquer definição específica ou categoria de pertencimento em que instalar-se”.

Descrito a partir dessas categorias, o livro de Vila-Matas pode parecer que impõe um obstáculo à leitura. Entretanto, sua escrita é simples, se assemelhando a uma conversa ou à leitura de um relato facilmente encontrado nas redes sociais. Mas essa mesma fluidez da leitura pode caracterizar um obstáculo, pode constituir uma estranheza e desestabilizar a maneira como estamos acostumados a ler o que se entende como literatura, desde a modernidade.

O livro parte do convite de Carolyn Christov-Bakargiev e Chus Martínez, organizadoras da documenta 13, para a participação de Vila-Matas em uma intervenção no evento. O convite é para que ele se coloque à disposição por algumas horas em um restaurante chinês, nas cercanias do parque Karlsaue. Esse seria mais um dos muitos eventos simultâneos que aconteceriam durante a Documenta 13.

O comentário sobre a arte contemporânea, a menção a muitas das obras, como The Invisible Pull, de Ryan Gander e This Variation, de Tino Sehgal, e a reflexão sobre o que é visto na exposição são o principal ponto que reforça a inespecificidade da obra, como já mencionado. Muito da obra comenta as próprias impressões que o escritor tem ao se deparar com as instalações, como no comentário sobre a obra Untilled, de Pierre Huyghe:

A fumaça foi a primeira coisa que vi quando, em um caminho enlameado, começamos a nos aproximar da curva do parque onde se encontrava untilled, a incrível e inesquecível instalação de Huyghe. Terras a serem aradas, lavradas, sulcadas? O que mais pude apreciar, nessa minha primeira de muitas visitas a esse espaço que tanto me perturbou, foi a profunda estranheza do lugar. Era impossível ficar indiferente ali. […] O artista francês tinha conseguido transformar uma zona de jardim francês, ou seja, uma zona da ordenada natureza do parque, em uma espécie de espaço em processo de construção/desconstrução; um processo paralisado no tempo, com elementos vivos e inanimados.

Esse comentário também é uma posição de Vila-Matas sobre a arte contemporânea, pois segundo o narrador o público deve experimentar a “lucidez de assumir que quando menos entende tudo [o que acontece], melhor entende”. Vila-Matas sugere, então, que não é recomendável se aproximar da produção contemporânea com uma lógica pré-definida.

Outro aspecto importante é a presença de um jogo entre personagem e autor, um procedimento associado à autoficção, pois autor e personagem partilham o mesmo nome e a ida a Kassel aconteceu de fato e é matéria da narrativa:

“Dado o meu hábito inveterado de escrever crônicas sempre que me convidam para ir a algum lugar estranho para que lá eu faça algo de singular (com o tempo, me dei conta de que, na verdade, todos os lugares me parecem estranhos), tive a impressão de estar vivendo mais uma vez o começo de uma viagem que poderia acabar transformando-se em um relato escrito no qual, como era comum, mesclaria a perplexidade e a vida em suspenso para descrever o mundo como um lugar absurdo aonde se chegava através de um convite muito extravagante.”

Dessa forma, Não há lugar para a lógica em Kassel apresenta eixos de compreensão que configuram a obra como um exemplo de múltiplos procedimentos da literatura recente e que podem orientar a leitura. O comentário sobre a arte, a forma estranha de sua composição e o jogo autoral parecem dar uma marca particular à narrativa, cativando e intrigando o leitor.

O ritual da crítica de Ana Cristina Cesar

Raquel Galvão

Resenha sobre “Um rito de passagem”, crítica inédita de Ana Cristina Cesar em livros, publicada no jornal Opinião em 1975

Créditos da imagem: Hugo Simberg

A primeira colaboração de Ana Cristina Cesar para o jornal Opinião, “Um rito de passagem”(1975), curiosamente, não debate o campo literário, a literatura, os escritores e as obras, como a maior parte do seu corpus jornalístico. Neste texto, ela explora o vetor interdisciplinar das artes, música e teatro, descrevendo a experiência de espectadora e crítica frente à performance de Vera Terra, musicista carioca, que se propunha a interpretar um concerto do compositor e pianista francês Erik Satie (1866 – 1925) no espetáculo Fragmentos – roteiro de uma solidão, apresentado durante o mês de outubro do ano de 1975 na Sala Corpo e Som do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro.

Como uma forma de reparação ao fato de o espetáculo ter passado praticamente despercebido na imprensa e de ter uma reduzida presença de público por conta da discreta distribuição de cartazes em bares e livrarias do Rio (prática também similar à de difusão de publicações independentes nos anos 1970), a escritora propõe uma reflexão sobre a produção de Terra, expondo o que, como testemunha da apresentação, lhe chega em sensações. Assim, na abertura da crítica, mediante a apresentação do “olhar do público” que percorre todo o texto, Cesar qualifica o espetáculo como belo, forte e radical: “para o público que compareceu ao concerto esperando a execução de peças musicais de Satie, com ou sem a presença de instrumentos e recursos da vanguarda, o espetáculo foi, no mínimo, desconcertante”.

O movimento crítico do texto valoriza a performance da pianista, cuja proposta se alicerça em uma ruptura com a noção tradicional de concerto e de concertista. Cesar nota que a apresentação, que conta com lances cômicos e críticos a um só tempo, tem como alvo os rituais burgueses ligados à música e à condição da mulher artista: a melodia brinca com acordes grandiloquentes e o espetáculo incorpora palmas gravadas que deixam em evidência a atmosfera de concertos familiares;  slides são projetados como recurso visual para “mostrar imagens de meninas em plena exibição pianística para os zelos paternos, entre flores e sorrisos” e, na última parte do concerto-performance, Cesar observa que a apresentação rompe com a ideia do concerto como ritual e expõe o corpo da pianista como experimento: “Os sons agora são produzidos por seus pés contra os solos, por seus gritos de cansaço, pelo seu ofegar cada vez mais forte”.

Quebrar, de alguma forma, com os ritos impostos pelo exercício cotidiano da arte, como aponta Cesar sobre Vera Terra, configura um locus de ruptura. Para Cesar, a proposta artística de Vera não se esgota em uma discussão conceitual sobre Satie: “mas ao romper com a ‘moldura’ do concerto, assinala o aparecimento do artista com sua força e seu suor”.

Marcos Siscar, em “A paixão ingrata: pequena história autobiográfica da aporia”, ao abordar a conjunção entre vida e pensamento na obra de Jacques Derrida, destaca que o testemunho (e a crítica pode ser entendida assim) é um ato performático, um reconhecimento afetivo.

Elaborando o que poderíamos chamar de uma “escrita performativa” diante de uma performance, Ana Cristina Cesar estabelece com sua crítica uma espécie de documentação da performance. Em “um rito de passagem”, Cesar coloca seu corpo crítico à escuta diante da atmosfera musical do espetáculo- performance executado por Terra para evidenciar os estereótipos sobre a arte, sobre o recital de música, mas também para propor reflexões sobre os lugares do feminino, sobre o “lugar da mulher” no campo artístico.

Autoficção especular: o autor como personagem

Marília Costa

Créditos da imagem: Las Meninas. Diego Velásquez. 1656.

Nesta semana participei do XIII Seminário de Pesquisa Estudantil em Letras, no qual falei sobre a autoficção especular, um tipo de autoficção criado por Vincent Colonna e discutido em sua tese de doutorado, orientada por Gérard Genette. Em uma postagem anterior, Caroline Conceição comentou sobre as tipologias elaboradas por Colonna, apresentando a autoficção fantástica, biográfica e intrusiva. Hoje, gostaria de comentar a autoficção especular.

A autoficção especular é caracterizada por Colonna como a imagem do autor ou do livro dentro do próprio livro, remetendo à metáfora do espelho. O autor não vai assumir necessariamente o papel de protagonista da narrativa, pode aparecer apenas como uma sombra, um contorno, mas precisa aparecer de alguma forma. Assim, segundo Colonna, “A ficção literária se mostra então não como espaço de ilusão, mas como laboratório onde os mecanismos são desmontados e apresentados aos leitores”.

Para Colonna, a imagem do espelho para caracterizar este tipo de autoficção funciona como metáfora da escrita em ação, oferecendo ao leitor seu modo de constituição técnica e subjetiva. Se traçarmos um paralelo com o mundo das artes visuais, mais especificamente a pintura, temos a mesma postura refletora que funciona a partir do procedimento do “quadro dentro do quadro”, em que o artista representa a si mesmo em algum lugar na tela, na maioria das vezes segurando um pincel como se estivesse pintando o quadro que estamos admirando. Um exemplo repetidamente comentado pela crítica especializada dessa prática pictórica é a obra “Las meninas” (1656) do espanhol Diego Velásquez. No quadro, sob o pretexto de pintar a nobreza espanhola, Velásquez não só se autorrepresenta, como também cria uma operação de reversibilidade ao inserir na tela o reflexo do Rei Filipe e da Rainha Mariana no espelho posicionado no fundo do quadro. Entendemos, então, que os modelos estão fora da representação, mas aparecem especularmente dentro da tela.

Também poderíamos pensar esse movimento em relação à literatura, considerando a categoria de autoficção especular, tal como Colonna a descreve? Vamos pensar no romance Machado de Silviano Santiago. O mote do romance é uma espécie de leitura comentada, refletida, do quinto volume da correspondência de Machado de Assis, que reúne as cartas trocadas por Machado e seus interlocutores durante os quatro últimos anos de sua vida. O narrador personagem Silviano Santiago não apenas comenta episódios famosos envolvendo a vida de Machado, mas também tece comentários críticos sobre seus livros, como Esaú e Jacó e Memorial de Aires. O livro traz fotografias, recortes de jornais, charges, quadros e tem como cenário a cidade do Rio de Janeiro, envolta nas questões políticas e sociais do período.

À medida que o narrador personagem se apropria da correspondência de Machado de Assis, reelaborando-a a partir da sua imaginação, é que ocorre o que o narrador denomina de transfiguração e nós podemos pensar em uma operação especular, na qual Silviano, o autor, que também é personagem e narrador,  apodera-se da vida do Bruxo do Cosme Velho para reconstruí-la, misturando-a com a sua própria vida:

No troca-troca, consolo-me com o pouco que toca a mim, que já é excessivo. Sirvo de contrapeso ao filé-mignon Machado de Assis. As cartas agem como age o açougueiro quando economiza na balança a carne cara de primeira. Substitui um bom pedaço dela por carne de segunda, cheia de nervos. Lucra ele com o contrapeso; lucro eu sendo o contrapeso de Machado de Assis; lucrará algo o freguês?

O protagonista do romance é Machado de Assis, mas Silviano Santiago também aparece na narrativa exibindo-se em “troca-troca”, pois ora é Machado quem ocupa o primeiro plano, ora é o próprio narrador, homônimo do autor, que se projeta na imagem, na vida do grande escritor. Ou como afirma o próprio narrador: na condição de “açougueiro” das Letras, promete uma coisa e entrega outra, está vendendo carne de segunda (suas próprias reflexões que se transformam no “romance” que lemos) como carne de primeira (a vida que transborda das cartas de Machado de Assis).

E os leitores irão lucrar algo com esse projeto literário? O narrador-personagem entrega aí o procedimento que foi utilizado para conceber essa criação artística que é o romance. Silviano Santiago, o autor, que é um elemento do lado de fora da ficção (é o signatário do livro) está espelhado do lado de dentro, provocando um fenômeno de duplicação, um reflexo do livro sobre ele mesmo e a demonstração do ato criativo que o fez nascer.

HIV/AIDS nas narrativas literárias: como nomear a doença?

Ramon Amorim

Créditos da imagem: Leonilson, 34 com scars, 1991(bordado e tinta acrílica sobre voile).

Peste gay, câncer rosa, doença dos 5H, GRID (imunodeficiência relacionada aos gays, sigla em inglês) eram registros utilizados para se referir à AIDS. Assim, desde sempre, houve uma complexa problemática no registro das terminologias sobre o tema. A “epidemia discursiva” (em especial nos textos literários) que se estabeleceu em relação à questão deixou mais evidente essa problemática, levantando discussões importantes sobre a AIDS e o HIV.

Diante dos avanços nas pesquisas no campo biomédico, a AIDS (doença/síndrome) foi “separada” do seu agente infeccioso, o  (vírus) HIV. Desde então as siglas passaram a ser mais (e acertadamente) utilizadas para falar sobre esses dois elementos da epidemia, a doença em si e a infecção viral que pode levar a ela.

Os termos AIDS e HIV (que superaram a condição de meras siglas há tempos) tendem a aparecer pouco nas narrativas ficcionais. Não é incomum que, em textos que falem dessa temática, haja a ausência quase total desses registros. É mais corriqueira a representação de algum elemento da sintomatologia da AIDS, como os gânglios linfáticos (a inflamação deles), a febre, o cansaço, a fraqueza, a magreza, a tosse, o sarcoma de Kaposi, entre outros. Essas referências, que aparecem muitas vezes em conjunto, tendem a ser o ponto perceptível sobre a tema em vários autores, como, por exemplo, em Caio Fernando Abreu e Bernardo Carvalho.

Também a palavra “doença”, registro mais genérico, é muito utilizada como substituta do termo AIDS. Isso pode ser visto, por exemplo, no título do livro do Jean-Claude Bernardet, A doença: uma experiência e ou na enfermidade misteriosa que acomete o protagonista de Vinho da noite, de Caique Ferreira. Referências aos medicamentos também aparecem com alguma frequência nos textos literários sobre o tema. É comum vermos menções ao AZT (azidotimidina), à zidovudina ou aos hiperônimos. Esses últimos são muito comuns na “literatura pós-coquetel, sobre a qual escrevi em post anterior.

Embora seja comum a associação entre os dois termos,  HIV/AIDS, com o desenvolvimento de tratamentos mais efetivos, a infecção não necessariamente leva à doença. Mas nas formas ficcionais, o diagnóstico positivo para a presença de HIV costuma ser o ponto de partida para desdobramentos da trama e mais especificamente para a identidade do personagem portador do vírus.

Já a doença, grafada muitas vezes como Aids ou aids, foi a forma primeira como o tema efetivamente apareceu na literatura. Por que me interessa tanto observar essas pequenas nuances no modo de nomear a doença? Mesmo que seja possível constatar nas produções literárias um certo arrefecimento das representações da doença desde a descoberta de um tratamento eficaz pela biomedicina, vale a pena explorar o próprio uso das formas de nomear a AIDS como uma espécie de metáfora para representá-la.