Arquivo da categoria: Ana Cristina Cesar

Revisões sobre a sereia

Raquel Galvão1

Créditos da imagem: Harry Callahan, untitled (Atlanta)

Uma coletânea de força intelectual, composta por formulações acadêmicas, rigorosas e eruditas a partir do contato com a produção de uma poeta-crítica: em 2015, a EdUERJ lança Sereia de Papel: Visões sobre Ana Cristina Cesar, com edição do professor, poeta, curador e crítico literário Ítalo Moriconi. Reconhecido interlocutor de Cesar desde a década de 1970 com quem chegou a escrever uma crítica jornalística publicada no jornal Opinião em 1977 sobre as relações entre o escritor e o mercado, e de quem se tornou biógrafo ao escrever O sangue de uma poeta (1996) , Moriconi convoca os professores e pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) Álvaro Faleiros, Roberto Zular e Viviana Bosi para organizar a publicação, um marco no campo da pesquisa pela reunião e exposição coletiva inédita dos traços teóricos que promovem revisões do inquieto e questionador projeto crítico e poético elaborado por Ana C.

Exímia pesquisadora da poesia brasileira dos anos 1970 e exploradora dos escritos de Ana Cristina Cesar, tendo organizado anteriormente a preciosa edição de originais da poeta em Antigos e Soltos: poemas e prosas da pasta rosa (2008), Bosi é responsável pelo texto de abertura do livro. Em “Ana Cristina Cesar: “Não, a poesia não pode esperar, analisa como as projeções do corpo percorrem a linguagem poética.

A coletânea reúne textos de Annita Costa Malufe (“Estratégias para uma escrita do segredo”), Roberto Zular (“Sereia de papel: algumas anotações sobre a escrita e a voz em Ana Cristina Cesar”), Maurício Salles Vasconcellos (“Ana C. – Extracampo”), Andréa Catrópa (“Quem fala nos textos críticos de Ana Cristina Cesar?”), Michel Riaudel (“O autor invisível: tradução e criação na obra de Ana Cristina Cesar”) e Álvaro Faleiros (“A poética multiposicional do traduzir em Ana C.”). As estratégias de elaboração dos ensaios envolvem tanto a apreciação da poética presente em A teus pés (1982), quanto a análise da vasta produção crítica e de tradução de Cesar.

Considerando os variados ângulos explorados pela leitura da produção de Ana Cesar chama a atenção certa homogeneidade crítica que associa, de diversas maneiras, a linguagem poética à paixão e à subversão. Como destaca Zular em suas reflexões: “o sujeito de invocado se torna invocante, isto é, desejante, instaura-se entre o reconhecimento do outro e sua falta eis o próprio desejo.

O gesto de organização da coletânea, os insights de leitura que as contribuições apresentam, podem ser tomados como um bom indício da maneira como o nome e a produção de Ana Cristina Cesar ainda estão abertos e expectantes por outras performances leitoras como destaca o professor Marcos Siscar na orelha do volume: “Se o livro que temos em mãos se apresenta, antes de mais nada, como manifestação de interesse por uma obra poética, teórica e tradutória, o movimento crítico que o constitui não deixa de apontar para uma reconfiguração histórica ampla e complexa, que ainda nos cabe empreender”. Quitar o crédito aberto pela poética de Ana C, é tarefa para o crítico que aceita o desafio de explorar o que ainda não se disse.

BOSI, Viviana; FALEIROS, Álvaro; ZULAR, Roberto (org.). Sereia de Papel: visões de Ana Cristina Cesar. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2015.

1Raquel Galvão, colaboradora mensal do blog Leituras contemporâneas, é doutoranda em Teoria e História Literária (Unicamp). Pesquisa “A crítica jornalística de Ana Cristina Cesar”, é bolsista FAPESP e realizou um sanduíche na Sorbonne Université em 2019.

“Tantas fiz”: os vários retratos de Ana Cristina Cesar

Raquel Galvão1

Créditos da imagem: The swan collective. O começo do fim do mundo (2007)

Eucanaã Ferraz, ao organizar Inconfissões: Fotobiografia de Ana Cristina Cesar (IMS, 2016), propõe a exposição de um álbum daquilo que não se revela (o íntimo), assumindo, previamente, a obra como “um documentário errático e parcial”. Trata-se de um teatro fotográfico extenso e imperfeito? Limitado, mas raro!

Para quem pesquisa Ana Cristina Cesar, a obra funciona como um acesso facilitado à parte do acervo pessoal da escritora, que sai dos arquivos do Instituto Moreira Salles para vir a público com um tratamento editorial sofisticado e uma tiragem inicial restrita a 3 mil exemplares. Como registro do percurso de uma poeta, tradutora, professora e pesquisadora, observando a relação com sua época (Brasil, décadas de 1970 e 1980) e classe (média, intelectual), a fotobiografia oferece, à primeira vista, o movimento de curiosidade em torno dos retratos de família e de viagem. Mas sua potência, para os estudos acadêmicos, está na presença de documentos históricos (publicações em jornais, edições da geração marginal, fotos de happenings e lançamentos de livros) e da cronologia sobre a formação e a atuação de Ana Cristina Cesar no campo da cultura, traçada por Elizama Almeida e Manoela Daudt.

Com a pretensão de gerar comentários sobre algumas fotografias de Cesar, a edição se coloca entre o pessoal e o artístico, publicando textos inéditos do círculo de amigos de sua convivência e de outros escritores e intelectuais contemporâneos. Marcos Siscar, respondendo à proposta do organizador, expõe uma descrição criativa e, ao mesmo tempo, filosófica sobre um dos retratos de Ana Cristina Cesar, uma espécie de perfil contraluz em relação à janela de um apartamento (Foto de Cecília Leal, 1979), a partir do qual reflete: “Se a nomeação do mundo se dá pelo contorno, o contorno de um sujeito é seu perfil. O perfil é a assinatura visível de um corpo. O sujeito perfilado não é aquele que abre mão do sujeito real, mas que coloca em primeiro plano a questão de uma possibilidade.”. Frequentamos, então, a escritora, cuja assinatura já é conhecida no campo literário brasileiro, amparados por retratos de diversos e novos ângulos. Variados corpos, em momentos distintos da infância até a fase adulta, fazem saltar na leitura a experiência literária e o sentido precoce da poesia na vida.

A edição da fotobiografia desemboca em uma exposição técnica da intimidade? Fora da academia, para os apreciadores e amantes da produção da escritora, a obra possibilita a entrada em um ambiente pessoal, em uma narrativa biográfica composta por fotogramas, mas, como sugere Siscar, a representação da autora dada pelos retratos também aponta para o desejo de se reinventar literariamente, sujeito real, sujeito inventado.

CESAR, Ana Cristina. Inconfissões: Fotobiografia de Ana Cristina Cesar. Organização e prefácio de Eucanãa Ferraz – São Paulo: IMS, 2016.

1 Raquel Galvão é doutoranda em Teoria e História Literária (Unicamp). Pesquisa “A crítica jornalística de Ana Cristina Cesar”, é bolsista FAPESP e realizou um sanduíche na Sorbonne Université em 2019.

Ana C. e suas tramas

Raquel Machado Galvão

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Um misto de ensaio e síntese de um estudo dissertativo, Ana C.: as tramas da consagração é um livro de autoria da pesquisadora argentina Luciana di Leone publicado em 2008 pela coleção papéis colados da editora 7Letras.

No livro, interessou a Luciana di Leone refletir sobre a construção de mitos no campo da literatura, a partir do estudo de caso de uma figura que ela considerou emblemática no contexto contemporâneo da literatura brasileira: a poeta paradoxal construída como uma espécie de “santa pós-moderna”.

O estudo concentra-se nas leituras, enunciações e intenções presentes nos documentos que compõem o arquivo de Ana Cesar, nas versões dos discursos que foram revelando a sua figura ao longo do tempo, e nas influências diretas que podem exercer no processo de consagração da escritora.

A primeira parte do livro, Aproximações ao nome Ana C., fica imersa na rede de textos publicados por e sobre Ana Cristina Cesar e reflete como as produções dialogam, provocam tensões e suplementam-se entre si. Além disso, Luciana di Leone aponta para uma análise das obras de Ana C. publicadas postumamente e da fortuna editorial publicada no exterior.

Em uma tentativa de ressignificar a obra e a figura de Ana C., di Leone percebe nos textos o reforço em torno da ideia da construção de um mito e aprofunda o debate na apresentação da fortuna crítica sobre Ana Cristina Cesar, analisando sua proliferação, os tipos de discursos envolvidos, a linguagem apresentada e a circulação do nome da autora no meio acadêmico e literário.

A maior qualidade do trabalho da pesquisadora argentina Luciana di Leone, ao tratar do arquivo e das tramas da consagração de Ana Cristina Cesar, é apontar para o processo de consagração literária como algo aberto. Não se trata de um processo natural, mas construído através de uma rede de discursos oficiais ou não. As ideias de di Leone são originais, críticas e objetivas, além de muito bem apuradas junto aos arquivos e à família da escritora. Desde que o livro foi publicado, em 2008, o processo de consagração de Ana Cristina Cesar passa por uma continuidade. Atualmente, a escritora é publicada por uma das maiores editoras do Brasil, a Cia das Letras, e em 2013 teve a sua obra compilada no livro Poética, o que a tornou ainda mais difundida entre os leitores brasileiros. Além disso, no ano corrente a escritora foi homenageada na Festa Literária de Paraty (Flip 2016), uma das mais importantes do mercado editorial nacional e internacional, e teve outros livros reeditados pela Cia das Letras.

Os discursos em torno da figura/obra de Ana Cristina Cesar continuam presentes e recorrentes na mídia e na crítica literária. Resta-nos, dentro das nossas possibilidades de pesquisa, remontá-los nesse movimento contemporâneo muitas vezes disperso, e apreciar a relevante colaboração que Ana Cristina Cesar deixou nas diversas cenas da literatura brasileira, tendo atuado como poeta, revisora, tradutora, pesquisadora e crítica cultural. Labores artísticos e intelectuais que geraram um impacto na cena cultural brasileira das décadas de 1970-1980 e que continuam ecoando até hoje.

Raquel é doutoranda em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e faz pesquisa sobre as relações entre a crítica, a biografia e a poesia de Ana Cristina César.