Arquivo do mês: junho 2016

O princípio de ver histórias em todo Lugar – Leonardo Villa-Forte

Por Débora Molina

O princípio de ver histórias em todo Lugar

Leonardo Villa-Forte

Ed. Oito e meio

2015

villa

Primeiro romance do carioca Leonardo Villa-Forte (o autor já tinha lançado em 2014 um livro de contos, O explicador), O princípio de ver histórias em todo lugar, lançado em 2015 pela editora Oito e Meio, traz uma instigante e divertida história acerca do processo de escrita no contexto contemporâneo. Conhecido por suas investidas na escrita não-criativa, Villa-Forte, já apresentado aqui no blog, escreve uma narrativa que propõe um desvio, sem se esquivar desse projeto, apresentando uma reflexão sobre a escrita literária e os impasses vividos por quem quer tornar-se autor hoje.

O primeiro romance do autor é narrado em primeira pessoa e dividido em 34 capítulos, quase todos intitulados pelos seus respectivos números. O livro conta a história de um jovem publicitário que após a viagem a trabalho de sua esposa Cecília, sente-se solitário e entediado. Mas é justamente a ausência de sua cônjuge que o move a especular sobre o verdadeiro objetivo desta viagem: teria Cecília ido à Alemanha atrás de seu antigo namorado?

Em meio a especulação, inúmeras histórias sobre Cecília surgem e o protagonista decide remediar a tensão e a solidão, oferecendo durante os meses da ausência de Cecília, uma oficina de escrita criativa em sua própria casa. O mais irônico nessa proposta é a motivação do narrador que não é um autor profissional, mas quer oferecer uma oficina de criação literária por acreditar que é um bom escritor. A ideia surge devido à lembrança de quando mais jovem ter frequentado uma oficina de escrita criativa de um famoso escritor. Embora não tenha se dedicado à carreira autoral e de não ter um livro publicado, acredita em seu potencial pelo fato de alguns colegas de sala terem dispensado elogios a seu texto. De modo bastante irônico, Villa-Forte parece dizer algo: o que define um autor ou um texto literário?

Naquela oficina que fiz com ele, eu era o mais jovem do grupo. Quando os outros alunos falavam de mim, usavam expressões como “promissor” e jovem talento. […] Quando lia meus contos, achava-os parecido demais com os de outros autores, como se meus contos tivessem que ser ainda melhores para que pudesse reconhecê-los como meus […] Esse grau de exigência às vezes até me levava a não assinar os contos, como se faltasse algo para que chegasse à altura do meu carimbo, à altura da minha marca. (VILLA-FORTE, p 37, 2015)

Começa então um jogo autoral, que torna mais instigante o livro, pois todos os contos criados pelos alunos personagens são inseridos integralmente na narrativa, o que demonstra grande habilidade do autor em criar perfis de escrita diferentes na mesma narrativa, já que cada personagem tem sua própria voz autoral.  É divertido ler a reação do narrador que após a leitura dos contos indaga sobre o caráter de cada personagem. Lendo o texto produzido por Thomas, personagem que pode ser descrito como um suicida em potencial, o narrador se dá conta de como os alunos projetam na escrita uma espécie de fuga da vida:

Os costumes e os valores que recebera de herança não serviam mais às suas motivações. Num de seus contos ficava clara a opção radical pela fuga, precisamente o conto do suicídio, o pulo através da janela, eu devia ser a janela da casa de seus pais na Bélgica. (VILLA-FORTE, p 175, 2015)

Mas o que chama a atenção no livro é a trama que atravessa a narrativa: as maneiras sobre como elaborar um bom conto e quais as técnicas necessárias para atingir algo digno de ser tratado como literário. O narrador protagonista, que já podemos perceber é dono de um enorme ego e não é nem um pouco confiável, demonstra certa cretinice ao mostrar que mesmo não se considerando autor, vê a si mesmo como um ótimo professor, já que estudou os recursos através de uma bibliografia que roubou da oficina que cursou.

Com um final inusitado, Villa-Forte faz uma crítica mordaz ao modo como o processo de criação literária e o próprio conceito de autoria são tratados hoje por meio de seu narrador personagem. O princípio de ver histórias em todo Lugar questiona com ironia a noção de originalidade e de criatividade ainda tão presentes quando se trata de avaliar a qualidade dos textos literários contemporâneos.

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Diego Moraes: uma carreira construída à margem

Por Marília Costa

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A internet é na contemporaneidade um veículo fundamental para a transmissão de informação e os escritores do século XXI têm utilizado essa ferramenta para divulgar os textos e também como suporte literário. Desse modo, as redes sociais servem como arquivos on-line para as produções literárias atuais e como mecanismo publicitário. Por conta disso, tornou-se possível conhecer novos autores e mergulhar em suas obras virtualmente.

É o caso, por exemplo, do autor que gostaria de comentar hoje. Diego Moraes, nascido e crescido no Amazonas, resolveu tentar a vida em São Paulo para viver uma história de amor que não deu certo. O romance acabou e o escritor passou a morar nas ruas, mais especificamente na Praça da Sé, pedindo esmolas e usando crack até ter coragem de entrar em contato com a mãe e voltar para sua terra natal. Moraes estudou apenas até a sexta série do ensino fundamental, concluiu o ensino médio através do supletivo e não teve acesso à universidade.

Ao retornar para o Amazonas, Diego Moraes publicou o seu primeiro livro “Fotografia do meu antigo amor dançando tango”, escrito no período em que viveu nas ruas de São Paulo e impresso em casa na gráfica do próprio pai. A carreira de escritor começou de maneira marginal e clandestina e foi ganhando espaço na cena literária por meio das redes sociais alimentadas pelo autor (Facebook e Twitter).

Atualmente, o autor mantém o blog Urso Congelado com textos em verso e prosa. Em 2015 foi um dos escritores convidados a participar da Balada Literária em São Paulo e retornou para a metrópole como uma promessa da nova literatura. Entretanto, busca assumir a postura de quem prefere estar à margem dos grandes centros literários, publicando seus livros (cujos títulos mereceriam um post à parte) por editoras independentes:  “A solidão é um Deus bêbado dando ré num trator” (Ed. Bartlebee); “Um bar fecha dentro da gente” (Ed. Douda Correria); “Eu já fui aquele cara que comprava vinte fichas e falava eu te amo no orelhão” (Ed. Corsário Satã); “Meu coração é um bar vazio tocando Belchior” (Ed. Penalux). Além disso, Diego Moraes idealizou e organizou a primeira Feira Literária Virtual pela Flipobre – a Flica dos escritores pobres, demonstrando disposição para criar um circuito diferenciado em relação ao mainstream literário.

Leitor ávido de Charles Bukowski, Pedro Juan Gutiérrez, John Fante e Plínio Marcos, o pujante escritor Diego Moraes é influenciado pela cultura pop, sem medo de escrever o que pensa e sente, tem um estilo literário intenso e feroz, um lirismo marcante e uma escrita prosaica em ritmo poético ou vice versa. O autor acredita que a solidão e infelicidade servem como material literário para produzir bons textos. Em um viés autoficcional as temáticas das suas obras passeiam pelas decepções amorosas, drogas e solidão: “Se você não melhorar sua literatura com um chifre, não é com oficina literária do SESC que aprenderá a escrever.”, afirma de forma polêmica e divertida.

Delírio de Damasco e a arqueologia do presente de Verônica Stigger

Por Débora Molina

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Verônica Stigger, que além de escritora também é professora e crítica de arte, investiu em um projeto que ela mesma denomina arqueologia do presente e que consiste na apropriação de fragmentos de conversas ouvidas de estranhos na rua, frases postadas no Facebook e no Twitter, enfim frases que a autora roubava e anotava em um caderninho de apropriações.

No ano de 2010, Stigger, foi convidada a expor no SESC de São Paulo. A autora aproveitou o fato de que na época o prédio estava em reforma e expos suas apropriações nos tapumes da construção que cercavam o prédio, devolvendo às ruas o que havia roubado delas.

A exposição ampliou-se e deu origem ao livro Delírio de Damasco tem um tratamento estético diferente. Costurado à mão, o pequeno livro (cabe na palma de uma mão) é vendido embalado por um saco de papel – como um pedaço de torta – contém em cada página apenas uma frase, que desprendida do contexto leva o leitor a imaginar a trama por trás de cada uma delas.

 

Minha mãe rezava

Para que eu não

Namorasse uma negra (p34)

 

Minha maior alegria

É ir ao Supermercado

nas férias (p 47)

 

Um cara bacana.

Mas ele não é normal.

Se fosse, não dava o cu. (p 59)

A ‘literatura’ de Stigger parece apontar para um texto com o mínimo trabalho com a linguagem, já que a operação fundamental realizada pela autora parece ser a recontextualização das falas apropriadas, ouvidas ‘por aí’, por isso o trabalho autoral parece mínimo ou nulo.

Neste processo o que importa mais é a criação a partir da curadoria e seleção e montagem destes materiais do que a invenção dada por uma gênio criador. O que parece bastante curioso é que a atuação do autor de escrita não-criativa coloca em xeque a condição da autoria entendida como gênio ao brincar com as palavras dos outros e criar uma nova forma de produzir literatura.

Dois sites de poesia

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Por Davi Lara

Quem circula em meios literários já deve ter ouvido inúmeras vezes que a internet é um grande facilitador na hora de um escritor divulgar sua obra e que esta ferramenta é ainda mais valiosa para os escritores iniciantes. O escritor que está iniciando a carreira tem hoje na era digital um poderoso suporte para circulação e publicação de sua obra. Mas o que é mais difícil de ouvir é que, se hoje as oportunidades para um escritor publicar e divulgar a sua obra usando o espaço virtual aumentaram, também aumentaram as chances de que ele fique perdido no oceano de novos autores que, como ele, estão lançando suas obras na rede. Assim, além de publicar e de divulgar, o escritor que queira se utilizar dessa ferramenta fascinante que é a internet precisa achar os meios para que sua obra chegue ao leitor. É nesse contexto que surgem, hoje, espaços virtuais que acabam ocupando esse papel, como uma espécie de vetor aonde o leitor pode ir em busca de novidades. É nesse sentido que eu gostaria de destacar, no post de hoje, dois blogs que serviram para mim, em meados de 2013, quando os conheci, como uma ponte com o que estava se passando atualmente, com o que os escritores pensavam sobre assuntos diversos, quais questões os inquietavam e, sobretudo, o que eles estavam produzindo. São estes blogs: o Escamandro e a revista Modo de Usar & Co. Ambos dedicados à tradução, crítica e divulgação de poesia.

O Escamandro está na rede desde 2011, é editado por Adriano Scandolara, Bernardo Lins Brandão e Guilherme Gontijo Flores, os três poetas e tradutores, os dois últimos professores universitários (Vinicius Ferreira Barth atuou no blog de 2011 a 2013). Já a Modo de usar & Co. é mais antiga, iniciou seus trabalhos em 2007. É editada, em sua versão digital, por Angélica Freitas, Marília Garcia e Ricardo Domeneck, todos poetas e tradutores. Desde o inicio de suas atividades, o site esteve relacionado à revista impressa, que tem, além dos nomes já mencionados, o poeta Fabiano Calixto na edição, e já está no quarto número. O que já é uma coisa que a diferencia do Escamandro, que nasceu exclusivamente como um blog e só publicou uma versão impressa em 2014, tendo o número dois sido publicado neste ano. Essa diferença se acentua ainda mais quando percebemos que a Modo de Usar & Co., mesmo na versão digital, se autodenomina revista e não blog. Isso se deve, ao que me parece, à intenção dos editores de dar à Modo… ares de “manifesto”, como fica claro desde o texto de divulgação do número de estreia, onde termos como “assume sua posição”, “intervenção” ao lado de menções ao “cenário contemporâneo” e aos “parâmetros críticos vigentes” ocupam um lugar de destaque. A Escamandro, ao seu turno, possui um discurso menos intervencionista, por assim dizer, assumindo o formato blog com tudo o que ele traz junto.

Salvaguardadas as diferenças, gosto de pensar os dois espaços como portais onde se pode entrar em contato com uma gama variadíssima de ideias e informações sobre a poesia. Um dos grandes atrativos que esses endereços eletrônicos trazem para o leitor curioso do que está sendo feito agora é servir como um espaço de reunião de diversos escritores que estão começando. Gosto em especial de acompanhar os poetas da minha geração ou de uma geração próxima, nascidos na transição democrática na década de 1980, nos quais é possível ver a construção de uma poética relacionada às questões históricas que todos nós compartilhamos, sob diferentes perspectivas. Além disso, tanto o Escamandro como a Modo de Usar & Co. são grandes  portais de poesia em geral, com autores de todos os tempos, do Brasil ou do estrangeiro, abrangendo um leque amplo de poéticas, de modo a atender a orientações e gostos igualmente diversificados. Eu mesmo descobri algumas pérolas nestes espaços. É interessante ressaltar também o trabalho de comentário e crítica, bastante intenso no Escamandro, bem como no Modo de Usar & Co.

O fato de ambos os sítios se concentrarem na poesia me parece de grande importância. Ainda que a internet mimetize o ritmo da sociedade capitalista com o qual a poesia se incompatibiliza, é no espaço da rede que podemos encontrar espaços de divulgação como os aqui em questão e que podem ser lidos como polos de resistência ao sistema de subvalorização da poesia no mercado contemporâneo.

Por ora, isso é o que o que tenho para dizer sobre esses dois sítios. Agora é hora de deixar que eles falem por si mesmos:

https://escamandro.wordpress.com/

http://revistamododeusar.blogspot.com.br/