Arquivo do mês: agosto 2018

Machado: a convulsão como forma de resistência

Marília Costa

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Créditos da Imagem:  Stephen Gill, Untitled (Matt), from the series ‘Talking to Ants’, 2009-2012

No romance Machado de Silviano Santiago, publicado em 2016, o narrador-personagem tece a narrativa de modo que a epilepsia de Machado de Assis é a engrenagem que movimenta a escrita. Segundo a voz narrativa, a doença é uma força motriz diretamente relacionada à força artística do grande escritor, que “não se contenta com as meias medidas em arte. Estabelece metas cada vez mais inalcançáveis que restabelecem no homem o estímulo indispensável para que o trabalho artístico seja levado a cabo de modo a não deixar coração insatisfeito entre os futuros espectadores”, lemos no romance. Assim, a doença, que poderia ser entendida como uma maldição, ressalta e define não só a personalidade do escritor, mas é um divisor de águas de todo seu processo criativo.

Carlos Laet, um dos personagens do romance, ao refletir sobre o mal que acomete o fundador da Academia Brasileira de Letras, reforça o mote da doença como uma espécie de metáfora para a criação artística: “A beleza artística é uma forma arrogante e salutar da doença que devasta o ser humano. O corpo enfermo sobre-excede a si pelo objeto que ele modela de modo insano e torna sublime”.

Sílvio Romero foi um dos primeiros leitores de Machado de Assis no século XIX e um dos principais críticos da produção literária do proeminente escritor brasileiro, e por muitos anos dedicou-se a explicar sua repulsa às obras machadianas e a engrandecer a suposta extraordinariedade de Tobias Barreto, valendo-se do biografismo para caracterizar a epilepsia de Machado como uma falha no sistema nervoso que afetava a produção literária do autor, o que, na versão do crítico, justificava o caráter digressivo, as pausas, os capítulos curtos do estilo do bruxo do Cosme Velho, associados por Romero a soluços, espasmos que aludiam às crises convulsivas como sintomas da doença.

Antonio Negri, no livro Os rastros da multidão, traça um panorama sobre os modos de resistência na sociedade pós-moderna e constrói o conceito de monstruosidade – tudo aquilo que é instável, singular, incompreensível, que perturbe a ordem é ameaçador, portanto, monstruoso.

Podemos estabelecer uma relação entre a noção de monstruosidade em Negri e a doença de Machado compreendida como uma resistência. Silviano Santiago chama as crises epiléticas de Machado de “mortes passageiras”, penso que tais episódios abrigam a propensão natural do autor de Dom Casmurro para a desconstrução social e literária que ele empreendia ainda nos últimos anos de vida, devido a insatisfação com o suposto progresso alavancado pelos republicanos no Rio de Janeiro.

Por fim, a qualidade convulsiva revelada pela narrativa talvez seja a maneira que Silviano Santiago escolheu para fazer menção ao modo como Machado de Assis escreveu, indo e voltando, com muitas digressões, mas numa tentativa de se aproximar e também homenagear o mestre, falando dele mesmo, Silviano Santiago, e do modo anômalo como construiu o romance. No romance Machado, Silviano Santiago parece tentar dar uma outra volta ao parafuso da crítica biográfica, reapropriando-se da relação entre vida e obra para reinventá-la.

Pensando assim, talvez seja possível considerar Machado, o livro de Silviano Santiago, como um romance de resistência, resistência do nome de Machado e de sua magnífica obra, da própria crítica e da ficção, pois, ao reelaborar as relações entre vida e obra, Santiago resiste ao tão alardeado fim do romance e compondo uma forma híbrida faz a literatura resistir.

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Uma experiência de leitura: Zanga, de Davi Nunes

Milena Tanure

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Capa do livro. Imagem cedida pela editora.

Se no texto anterior esbocei um desejo de apresentar o tema ou os interesses da minha pesquisa, agora desejo deixar mais nítidos os caminhos para os quais se direcionam minhas inquietações de pesquisadora.

Como talvez já tenha sinalizado, minhas inclinações têm se voltado para as discussões sobre espaço urbano e espaço editorial a partir do cenário de uma literatura baiana contemporânea. É nesse sentido que meu interesse tem se voltado para as ocupações espaciais, físicas e simbólicas desses campos. Me interessa pensar de que forma o corpo urbano e o corpo humano se interligam nas narrativas contemporâneas, dando a ver, talvez, novas espacialidades da cidade de Salvador e práticas outras de sociabilidade no universo da representação. Da mesma forma, passa a me interessar como esse corpo que ginga no espaço urbano também faz transitar seus discursos na busca de uma produção de sentido e na tentativa de forjar um espaço dentro do cenário de publicações baianas para romper fronteiras e alcançar maior projeção.

Para esse texto havia pensado em encarar, ainda que de modo muito incipiente, o que chamo de literatura baiana, já pensando a razão dessa adjetivação na minha pesquisa e a sua relação com o mercado editorial. No entanto, tomando alguns termos de experimentação emprestados da pesquisadora e professora Paola Berenstein Jacques, em minhas deambulações e errâncias pelos caminhos da pesquisa e pelos espaços urbanos, fui atravessada por um recente lançamento que muito provavelmente fará parte do corpus da minha pesquisa. Trata-se do livro de contos Zanga, de Davi Nunes, lançado pela editora Segundo Selo no último dia 19.

Poeta, contista e escritor de literatura infantojuvenil, Davi Nunes, apesar de fazer parte de uma cena mais contemporânea e jovem da produção literária baiana, já acumula em seu currículo, além da graduação em letras e mestrado em andamento também nessa área, a edição da revista artística-acadêmica Cinzas no Café (2011), a participação em antologias e sites de cultura negra, e o aclamado livro de literatura infantojuvenil Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula (2016). O escritor também mantém o blog Duque dos banzos que “versa sobre a cultura afro-brasileira: prosas, poesias e ensaios [que] buscam dar conta da memória, da humanidade, da ancestralidade, da polifonia verbal, rítmica e corpórea que circundam o universo do negro brasileiro”.

Aqui, pretendo apenas ensaiar uma fala sobre minha experiência de leitura, tematizando o modo como as narrativas dialogam com o que desejo inventariar com a minha pesquisa. Zanga nos fala de ancestralidades africanas, da tensão racial brasileira, das potências e agruras de se viver na cidade contemporânea e de relações interpessoais, deslizando por vários polos enunciativos. Todas essas questões se interligam em uma espacialidade urbana múltipla, ainda que a periferia seja predominante.

Nas dezenove narrativas que compõem a obra vai se delineando para o leitor um sentimento de angústia por uma cidade que seduz, mas sobre a qual paira o medo experimentado, sobretudo, pelos corpos periféricos. Como afirmado pelo próprio escritor no lançamento do livro, a presença da morte nos contos que compõem a obra se justifica porque a cidade de Salvador é marcada pela morte. Em entrevista cedida ao Portal Soteropreta, acrescenta: “Sou de Salvador e, para as pessoas negras, esta cidade é um verdadeiro campo de morte. O corpo negro é um corpo sitiado, um corpo sem status político, um corpo nu, um corpo inimigo, um corpo em constante injúria pelas instituições de poder, um corpo do genocídio, da cesura biológica, do racismo. Um corpo cuja política de estado é a morte, um corpo que está localizado onde o estado é sempre de exceção, a periferia”. Muito embora as narrativas se desenvolvam quase sempre a partir de uma tensão, calcada no necropoder, para lembrar a expressão de Achille Mbambe, nos “necrocontos”, não há repulsa pelo espaço urbano.

Uma leitura menos cuidadosa ou apressada poderia levar a supor que zanga é raiva ou que a periferia é meramente marcada pelo medo ou pela dor, mas a escrita de Davi é sofisticada e potente. Compondo uma cartografia afetiva dos bairros, em especial o Cabula e seu entorno, região periférica de Salvador, o escritor tece um diálogo com um passado ancestral que rompe com as visões tradicionais ou reducionistas da presença negra na formação do país e, sobretudo, da cidade de Salvador. Por tal motivo, em seu blog, o autor afirma que, etimologicamente, zanga não se resume ou equivale à raiva, relacionando-se muito mais com rebeldia, bravura, coragem e combatividade. Para ele, zanga é “super poder, é ancestral e por isso contemporâneo, é luz que desponta do cosmo do buraco negro e irradia o terceiro olho do faraó que está adormecido em nós. É o momento áureo da autoconsciência negra, é a negritude como força intempestiva, como ação – zangar.”

As narrativas não nos falam só da potência e das ocupações dos corpos negros numa perspectiva física, nos falam também de ocupação no campo do simbólico. Talvez não seja por outra razão que sujeitos negros e periféricos se apresentam como personagens que ocupam os espaços universitários, forjando novas epistemes e falando de autores e pensamentos não hegemônicos. Além disso, em algumas narrativas, há também os espaços da escrita, que tematizam as agruras da profissionalização do escritor como no conto O enterro: “sou alcóolatra e um negro escritor posto de parte das estruturas editoriais, um gênio obliterado”.

Entre ruas, esquinas, becos, telhas e tijolos sem reboco, as narrativas de Zanga convidam a imagens de uma outra urbe que se misturam às centralidades de Salvador. As narrativas, se não romantizam uma imagem periférica, também não nos apresentam as vidas narradas como facilmente explicáveis. A realidade periférica, com suas vivências e potências, torna perturbadora a experiência de leitura, pois os contos convidam o leitor, que “vai se aquilombando”, como disse o próprio Davi Nunes no lançamento do livro, a percorrer a cidade e o próprio processo de escrita do autor, de seus personagens e dos narradores escritores. E é bom lembrarmos que o quilombo não é lugar de fuga, é lugar de vida, potência, resistência, ocupação e zanga.