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O escritor e o mercado: algumas reflexões

Davi Lara

Créditos da imagem: André, Derain. Portrait of a Man with a Newspaper (Chevalier X).

Não faz muito tempo, conversando com uma jovem escritora amiga minha, lhe falei de Ben Lerner, um dos meus autores contemporâneos favoritos, mais ou menos com essas palavras: “Ben Lerner é um escritor americano que iniciou sua carreira publicando livros de poesia, que se declara poeta, que se vê como um poeta, mas escreve romances para poder ganhar dinheiro. Já escreveu dois até agora e, para seu infortúnio, são romances admiráveis, o que o tornou muito mais conhecido como romancista do que como poeta.” Talvez seja importante dizer que esta minha amiga nutre um ódio perfeitamente irracional pela poesia. E eu, que acho esse ódio divertidíssimo, sempre que posso, toco no assunto para ver sua reação. Assim, mal terminei de falar, a jovem prosadora fez uma careta de desaprovação e perguntou como isso poderia ser interessante. Acontece que, nesse caso, o desapontamento dela com minha apresentação tendenciosa de Ben Lerner não se devia ao fato de ele valorizar a poesia acima da prosa, mas ao fato de ele escrever por dinheiro, e ainda por cima admitir isso. 

Esse episódio me fez pensar no imaginário que se construiu em torno do escritor como uma figura quase sacerdotal que precisa abdicar das distrações mundanas, como a fama e o dinheiro, para poder consagrar sua vida à literatura. É o que se vê, por exemplo, em Ilusões Perdidas, esse grande clássico do século XIX de Honoré de Balzac, no qual conhecemos a história de Lucien Chardon, um jovem poeta provinciano que se muda para a capital em busca do sonho de ganhar a vida como escritor. Na capital, Lucien, que era extremamente talentoso, se vê entre dois grupos distintos: de lado, os jornalistas, que lhe oferecem uma forma rápida de ascender socialmente, mas que o obrigam a usar sua pena para um tipo de escrita mercenária que estava aquém do seu potencial literário; e, de outro, o Cenáculo, um grupo de escritores talentosos e austeros liderado por Daniel d’Arthez, que acreditavam no potencial de Lucien, mas tinham a desvantagem de serem extremamente pobres.

Já faz muito tempo que li esse livro, logo, muita coisa de suas quase 800 páginas se perdeu. Mas ainda tenho vívida na memória a desolação que senti ao ler a descrição das condições de vida precárias de Daniel d’Arthez, que mal tinha dinheiro para comprar lenha para se aquecer no inverno. Lembro, também, que fiquei bastante impressionado com a força moral deste escritor que não se deixa corromper pela via fácil da literatura de aluguel do jornalismo e condenei Lucien quando se afastou do Cenáculo para se tornar um jornalista. Hoje, mais de dez anos depois, não me sinto mais tão confortável para condenar o jovem Lucien por escolher uma profissão que lhe garantisse o básico para sua sobrevivência. Seja como for, o próprio romance induz o leitor a condenar a escolha de Lucien ao tomar partido de uma visão de mundo romântica de acordo com a qual o mercado é um grande vilão que impede o florescimento da boa literatura.

É interessante notar que o caso do próprio Balzac testemunha contra essa tese, posto que ele foi um dos primeiros escritores profissionais, isto é, que recebia por livro escrito, e ainda assim conseguiu escrever obras-primas como esse Ilusões Perdidas. De qualquer modo, o que me interessa pontuar é que, hoje, apesar de essa visão sacerdotal do escritor ainda ter bastante força, ela convive com a constatação de que o escritor, como um profissional qualquer, precisa de dinheiro para sobreviver. Prova disso é a maior abertura com que os escritores falam desse tema em seus romances. Um bom exemplo é o próprio Ben Lerner, que no seu último romance, o ótimo 10:04, fala abertamente que, depois do sucesso de seu primeiro romance, só voltou a este gênero por causa do cheque de seis dígitos que lhe foi oferecido por uma importante casa editorial americana.

Poderíamos citar, também, o escritor catalão Enrique Vila-Matas, que, sempre que pode, se queixa da vida do escritor contemporâneo. É o que acontece em Doutor Pasavento, por exemplo, romance no qual o protagonista é um escritor catalão de êxito que, cansado da rotina de palestras, entrevistas e autógrafos, decide desaparecer, arrumar as malas e fugir para um lugar onde ninguém o conhece para poder escrever em paz. “Los escritores de antes”, um texto já comentado aqui no blog em que o escritor espanhol homenageia Roberto Bolaño, segue a mesma linha. Nele, o autor espanhol descreve Bolaño como a encarnação daquele que, para Vila-Matas, é o ideal de escritor, isto é, um escritor como aqueles de antigamente, que escreviam “com a única finalidade de comunicar-se com os mortos e não haviam ouvido falar do mercado”.

O que acho mais interessante deste texto é que, diferentemente destes “escritores de antes” de que Vila-Matas fala, Bolaño viveu numa época onde não só se ouve falar do mercado, como o mercado parece ter se imposto a todos os setores da vida humana, inclusive a literatura. Curiosamente, apesar do mito que se criou em torno de seu nome, a trajetória de Bolaño não passa incólume aos tentáculos onipresentes do mercado, como mostra o episódio da publicação póstuma de 2666.

Como se sabe, este romance é composto de cinco partes, que Bolaño queria que fossem publicados separadamente, visando assegurar a situação econômica de seus filhos. Acontece que, depois de sua morte, instruídos por Ignacio Echevarría, amigo indicado pelo próprio Bolaño para aconselhar seus herdeiros em assuntos literários, decidiu-se publicar os cinco livros em um só volume. É verdade que esse caso não está totalmente alheio ao mito-Bolaño, posto que reforça a ideia de um escritor abnegado, que dedicou os últimos dias de sua vida para compor uma obra que garantisse o conforto financeiro de seus filhos. No entanto, junto a tudo isto, sobressai a figura de um escritor que não só é bastante consciente do funcionamento do mercado, como está disposto a sacrificar seu projeto literário em prol de uma estratégia mercadológica. O que vai de encontro à imagem de Bolaño (que, diga-se de passagem, assim como Lerner, era um poeta que migrou para a prosa por questões financeiras) como o ideal de autor romântico.

Seja como for, todos esses exemplos são bastante ambíguos no que diz respeito à relação dos escritores com o mercado. No entanto, o fato de existir, hoje, um espaço crescente dentro dos romances dedicado aos meandros práticos da profissão da escrita pode indicar uma mudança da figura do escritor no nosso imaginário.

Uma reflexão sobre a pesquisa

Larissa Nakamura

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Crédito da Imagem: Grant Snider

No final do mês passado, defendi meu trabalho intitulado “A profissionalização do escritor entre a literatura e o mercado”, uma reflexão que teve início ainda nos tempos de graduação. Fazer uma análise do caminho percorrido até aqui me traz a sensação de dever cumprido por ter escolhido um tema que, muitas vezes, parecia fugidio demais para mim e para a própria comunidade acadêmica. Mas voltemos ao começo.

Ainda na graduação, momento em que realizava minha iniciação científica, o tema da profissionalização foi sugerido pela orientadora. Meu projeto se resumia a tentar montar um perfil do autor Luiz Ruffato a partir da leitura e análise da recepção crítica de suas obras (resenhas em cadernos literários e revistas acadêmicas, trabalhos acadêmicos, divulgação na grande imprensa, entrevistas) e de dois livros ficcionais do escritor. Com o desenvolvimento da pesquisa, em uma segunda etapa, a sugestão para considerar a profissionalização como um veio de pesquisa me instigou a ampliar meu olhar sobre o campo literário brasileiro. A partir de então, dei início às primeiras leituras, que me acompanhariam até o mestrado. Mas havia ainda problemas que não pude resolver em tempos de graduação: foram insuficientes as referências bibliográficas coletadas e lidas, e eu ainda lutava para entender exatamente o que era a profissionalização do escritor.

Passado o processo de seleção, já como aluna do programa de pós-graduação, teria tempo para me dedicar inteiramente ao meu tema escolhido. O projeto inicial passou por mudanças necessárias para fugir da minha zona de conforto e enfrentar desafios maiores: ao invés de investir minhas energias na investigação da carreira profissional de um autor específico (Milton Hatoum e Luiz Ruffato, que eu já conhecia bem), me voltaria à investigação das condições de profissionalização do escritor brasileiro nas últimas décadas, tentando traçar um breve panorama histórico da profissionalização no Brasil, para discutir a intrincada relação entre a arte e o mercado.

Com um assunto tão atual, mas ao mesmo tempo, tão pouco discutido, comecei a encarar alguns dos empecilhos que viriam à frente. Como afirmo na dissertação, o próprio termo “escritor profissional” constitui um problema e definir a profissionalização, é um obstáculo tanto para os teóricos que se debruçam sobre o assunto quanto para os produtores culturais que movimentam a vida literária. São diversas as razões para essa dificuldade, como, por exemplo, o limitado número de referências bibliográficas que se detêm especificamente no tema, além do fato de a discussão sobre a profissionalização dos escritores ser, de modo geral, ainda controversa e pouco tratada no espaço acadêmico devido ao envolvimento da arte com a lógica econômica.

Diante desse problema, busquei auxílio teórico também em outras áreas, me esforçando para dar conta da complexidade da profissionalização, como a sociologia e as ciências políticas. As reflexões que propus nos posts do blog foram também de imensa ajuda, serviram como necessário exercício de escrita e para ir “tateando” os assuntos afins à pesquisa, as maiores inquietações do momento e que poderiam reverberar no momento da escrita da dissertação. Em especial, os posts “ Literatura e vida literária: censura, cultura e profissionalização ”, “ O ano em que vivi de literatura, de Paulo Scott ”, “ Literatura e profissionalização ”, “ As agruras de um poderoso editor ” e “As oficinas literárias e a profissionalização do autor” foram posteriormente expandidos e incorporados ao meu texto final por tratarem de questões imprescindíveis à pesquisa, além de tocarem na problemática central sob óticas diferentes, tornando-a mais complexa, mais ramificada.

Os desafios foram inúmeros e montar o quebra-cabeça, ou seja, escrever a dissertação, o que envolve não apenas a problematização das referências bibliográficas selecionadas para discussão, mas sobretudo a maturação e exposição das minhas próprias ideias em relação ao tema, foi apenas mais uma peça no grande processo da pesquisa. Sobre a dissertação, cada capítulo e subcapítulo do trabalho final foi pensado de modo a guiar o leitor pelas múltiplas facetas que a profissionalização guarda, respeitando a complexidade que o tema possui. O primeiro capítulo, separado em dois subcapítulos, buscou discutir em que consiste a profissionalização literária, considerando a abordagem de diferentes teóricos, além de apresentar uma breve trajetória da profissionalização literária no Brasil. O segundo capítulo, também dividido em dois subcapítulos, baseou-se na coleta de entrevistas de escritores, na tentativa de apresentar as posições/concepções de diferentes agentes do campo literário sobre a profissionalização, discutir as instâncias responsáveis por sua promoção (a participação em diversos eventos literários, as oficinas de escrita criativa, os prêmios literários etc.), enfim, as dinâmicas do próprio campo literário. Por fim, no terceiro capítulo, a partir da
análise das obras O ano em que vivi de literatura (2015), de Paulo Scott, e Ninguém (2016), de Ieda Magri, promovi uma discussão sobre como o tema da profissionalização
é abordado dentro da literatura em relação às questões discutidas em capítulos anteriores.

Passado um mês desde a defesa, o sentimento de que a tarefa foi cumprida torna-se cada vez mais sólido e também a esperança de que o trabalho (em breve disponível no repositório institucional da UFBA) poderá ser útil para outros pesquisadores que queiram dialogar e que se disponham a enfrentar os desafios colocados pelo passado, os que permanecem no presente e os que surgirão aos estudiosos futuros que continuarem acreditando que o estudo e a investigação valem  a pena.

O papel da crítica na profissionalização do escritor

Neila Brasil

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Créditos da imagem: http://alertabolivia.blogspot.com/search/label/COMUNICACI%C3%93

 

Sabemos que a arte é afetada pelos meios de produção e que o funcionamento do campo literário está ligado a causalidades históricas, econômicas e sociais. Com as mudanças no campo social e os avanços da tecnologia, a forma como artista, público e crítica se inter-relacionam também sofreu profundas transformações. O escritor contemporâneo está necessariamente inserido no mercado e o modo de produzir e difundir suas obras confere a ele um lugar no campo literário.

A crítica literária pode ser considerada uma importante instância de legitimação na profissionalização do escritor. O debate que divide a crítica em dois campos, um “especializado” e outro “não-especializado”, pode ser um indicativo de como é possível ler as relações entre crítica e profissionalização, partindo do pressuposto de que a recepção crítica, seja ela especializada ou não, contribui para a formação da imagem do autor e para a valoração de suas obras.

Se a crítica especializada é atribuída aos professores e pesquisadores universitários, a crítica não-especializada está relacionada ao jornalismo cultural e também com os leitores que estão na internet e que ao comentarem obras e autores em blogs, vloggs e redes sociais, criam um espaço de circulação para suas produções.

Embora a crítica especializada seja tida como relevante, não é incomum encontrarmos posições que comentam a presença de um jargão tão específico à teoria utilizado nas resenhas e comentários sobre a produção literária que acaba contribuindo para certo isolamento da própria literatura. Ainda assim, é possível afirmar que a produção analítica produzida nas universidades é uma instância de legitimação, para utilizarmos o conceito de Pierre Bourdieu, ainda fundamental, na profissionalização do autor, na medida em que promove e avalia a produção artística.

No entanto, se a crítica não-especializada parece mais próxima do leitor que está fora da universidade, mas se interessa pela literatura, muitas vezes o que encontramos no jornalismo cultural (que cada vez mais tem reduzido o espaço dedicado à literatura, ao comentário crítico sobre arte de um modo geral) ou na internet, destina-se apenas à divulgação e não à análise das obras, constituindo apenas um release do lançamento do momento.

Com o reconhecimento da internet como uma instância de legitimação, quero sugerir que a separação entre a crítica especializada e a não-especializada pode não ser assim tão evidente. Já que uma instituição cultural não acadêmica pode promover eventos, debates e mostras com a participação de especialistas e estimular o diálogo com jornalistas e críticos não especializados.

Assim, seria possível considerar que as condições de recepção e difusão da literatura na contemporaneidade transgridem, até certo ponto, os limites que separam a crítica especializada daquela produzida pelos demais agentes da indústria cultural.

Um autor que atrai a atenção da crítica, seja por se tornar objeto de estudo de uma tese universitária, seja por ter sua obra resenhada em jornais de grande circulação, encontra na recepção à sua obra um caminho para a conquista da legitimação de seu nome. Quando um autor conquista capital simbólico, consegue usá-lo a seu favor, conquistando também uma posição no campo literário.

Dessa forma, poderíamos arriscar dizer que a recepção crítica de um autor é um elemento fundamental para a aquisição do capital simbólico, outra noção de Bourdieu, e que a crítica tanto especializada quanto não especializada por auxiliar a construção da imagem do autor perante o público e demais agentes do campo literário, constitui-se um importante elemento de profissionalização do escritor.

Literatura e vida literária: censura, cultura e profissionalização

Por Larissa Nakamura

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Se a profissionalização do escritor nos dias atuais incorpora novas discussões e é permeada por adversidades encontradas no campo literário, não menos relevante é apresentar seu desenvolvimento no Brasil. Se consideramos um breve panorama do contexto cultural dos anos 70/80, encontraremos aí, nesse momento, algumas mudanças responsáveis pelo início da institucionalização de um espaço para as artes no país. É disso que se encarrega a obra Literatura e vida literária, publicada em 1985 e escrita por Flora Süssekind.

A censura é um ponto crucial discutido pela autora que a problematiza ao longo da primeira parte do livro, entendendo que não se deve analisá-la sob uma perspectiva unilateral e segundo os preceitos do senso comum, principalmente porque geralmente ela é pensada como um bloco rígido e altamente polarizado; dessa forma, segundo Süssekind, é importante observar que:

“[…] a censura não foi nem a única, nem a mais eficiente estratégia adotada pelos governos militares no campo da cultura depois de 1964. Assim como no plano estritamente político não se pode falar destas duas décadas como um todo monolítico, também a estratégia cultural não se manteve idêntica.” (SÜSSEKIND, 1985, p.12)

As decisões tomadas durante os governos militares relativas à cultura serão periodizadas em três momentos particulares. O primeiro período – de 1964 a 1968- permitia uma produção cultural engajada das esquerdas, desde que não incitasse as camadas populares e realizasse uma espécie de protesto “espelho”, cuja recepção eram as próprias esquerdas politizadas. As redes de comunicação de massa foram aprimoradas e incorporadas ao cotidiano popular, como o rádio e, principalmente, a televisão. A estética do espetáculo, consequentemente, ganhava força enquanto estratégia ditatorial de controle social, em que volumosos incentivos às indústrias culturais propiciavam uma vasta produção, caso inédito no país até então.

O segundo momento ocorre a partir da instauração do AI-5, em 1968, anos marcados por uma estratégia altamente coercitiva e de virada política de parte da população contestadora: a partir de um coeso movimento de pressão governamental, são agora os universitários que lançam mão do grito insubmisso juntamente aos artistas e intelectuais. Educada e politizada a camada populacional estudantil pela rica produção cultural incentivada até o AI-5, mudam-se as estratégias governamentais. A política nacional da ditadura, então, toma contornos repressores mais extremos, a exemplo da demissão e perseguição de professores, editores, funcionários públicos, produtores culturais e da presença de censores à espreita das produções culturais e mass media.

Com a Política Nacional de Cultura (PNC), instaurada em 1975, novos posicionamentos governamentais tomam forma no país, caracterizando o terceiro período de transformações. Esse programa político validou oficialmente a intervenção estatal no setor cultural, fixando esta instância como estandarte para o progresso e desenvolvimento da nação. Mediante severo controle e orientação dos desejáveis percursos culturais a serem seguidos, múltiplos dispositivos de intervenção, vigilância e punição foram estabelecidos pelos militares a fim de adequar as produções artísticas realizadas aos ditames do governo. Curioso é o dado que nos fornece Süssekind ao afirmar que:

“No que se refere aos livros, é interessante notar que foi sobretudo a partir de 1975 que as restrições se tornaram mais rigorosas. É possível apontar, ao menos, duas explicações para este súbito interesse da censura. Como assinalam em artigo de 1979 Marcos Augusto Gonçalves e Heloisa Buarque de Hollanda, data justamente de 1975 um certo boom editorial no país. Conquista de mercado, divulgação de novos autores, interesse pela produção nacional, lucros editoriais maiores: estas algumas características do boom. E ampliando-se o interesse pela literatura, amplia-se também a ação da cultura.”

Como se nota, é principalmente a partir de meados dos anos 70 que começa a se delinear o processo de industrialização da cultura e o fortalecimento do mercado editorial interno brasileiro em concomitância com o momento mais duro da censura ditatorial. Seja de modo a desarmar a arte de protesto da resistência, adequar os trabalhos ao que se entendia como “cultura oficial” ou mesmo, e não menos relevante, conformar a criação artístico-cultural aos moldes do capitalismo, o Estado assumiu o papel de mecenas da cultura nacional.

O Estado também atuou promovendo “[…] incentivo, via concursos, prêmios ou co-edições, à produção literária. E neste caso não se trata de retirar textos do mercado, mas até de facilitar sua edição e circulação”, observa Süssekind, assegurando a relação com a lógica mercadológica numa tentativa de controle político, social, ideológico do imaginário nacional. Tais dispositivos políticos acabaram por promover o fortalecimento dos mecanismos de industrialização no âmbito do mercado de bens culturais, fomentando o parque editorial brasileiro. De modo geral, o que se nota a partir da introdução da PNC é que esta: “[…] incentiva[va] por meio de subvenções, ao mesmo tempo que coibia com a censura, reforça[ndo] a necessidade de organização da cultura em moldes empresariais, em que a profissionalização e a conquista do mercado são pontos cruciais.”, como afirma outra estudiosa do período, Tânia Pellegrini.

Ainda que seja possível notar que em Literatura e vida literária a autora começava a dar conta dos efeitos de um passado recente que, aos poucos, modificava a condição de escritor brasileiro nas últimas décadas do século XX, o livro não esmiuça a ideia de escritor profissional, mas acaba por proporcionar um painel político, histórico e cultural sobre as condições que oportunizaram o surgimento de tal figura.

 

 

Viver (d)a literatura

Por Neila Bruno

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Crédito da imagem: Peter Ticien. Disponível em: <http://ronyblat.blogspot.com.br/2012/11/e-se-hoje-fosse-seu-ultimo-dia.html&gt;.

Segundo o sociólogo francês Pierre Bourdieu, a autonomização do campo literário está sujeita a três condições: a emergência de um corpo de produtores especializados, a existência de instâncias de consagrações específicas e a existência de um mercado.

Pierre Bourdieu sugere ainda que um campo é um espaço constituído de posições sociais, que podem ser ocupadas por diversos agentes e no qual a posição de qualquer ator envolvido implica em diferentes tipos de capital: econômico, cultural e social.

O capital econômico corresponde a rendas, proventos, recursos; o capital cultural refere-se aos saberes e competências, abrangendo também títulos e premiações; já o capital social estende-se às redes de relações e contatos que um agente forjou ao longo do tempo.

Elegemos esse conceito de campo como uma espécie de estratégia para entender as posições tomadas pelos autores que têm a literatura como atividade profissional.

Com o advento da internet e das redes sociais houve uma transformação radical na forma de circulação, divulgação e até de comercialização dos textos literários. Apostando na publicação em blogues e em outras plataformas eletrônicas, muitos autores encontram mecanismos alternativos ao mercado editorial tradicional.

O escritor Daniel Galera pode ser considerado um exemplo dessa nova geração de escritores no Brasil. Pioneiro no uso da internet, publicou textos de ficção na rede entre 1996 e 2001. Em seu site http://ranchocarne.org/ oferece obras para download gratuito, mas podemos dizer que Galera é um escritor consagrado, afinal, publicou obras por uma grande editora, a Companhia das Letras, e seus romances ganharam prêmios de prestígio: Barba ensopada de sangue (2012) foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura e finalista do Prêmio Jabuti e Cordilheira (2008) foi vencedor do Prêmio Machado de Assis e também finalista do Jabuti.

Os sinais de que é possível viver de literatura no Brasil estão visíveis ainda em outro exemplo quase antípoda ao de Galera: trata-se do escritor Luiz Ruffato. Para dedicar-se à literatura em tempo integral, Ruffato desligou-se do jornalismo em 2003: “Minha decisão se baseava numa intuição: se me mantivesse disponível para viajar e divulgar meus livros, talvez conseguisse uma maior repercussão do meu trabalho”.  O que importa ressaltar são as diferentes tomadas de posição dos dois autores mencionados em relação à construção de suas carreiras. Com a publicação do romance Eles eram muito cavalos (2001), Ruffato também ganhou prêmios importantes como o da Biblioteca Nacional e da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

Para Ruffato “já não causa tanta comoção quando alguém demonstra interesse em dedicar-se à carreira literária – isso por que, além do dado simbólico (a aura de prestígio que envolve o autor na sociedade), há efetiva possibilidade de viver de literatura no Brasil”.

A figura pública do escritor também mudou de estatuto. O campo literário se expandiu: os prêmios literários, financiados por instituições públicas ou privadas, abarcam valores consideráveis. Os lançamentos das obras também envolvem uma estratégia profissional e de marketing, participação em eventos literários, lançamentos em grandes livrarias e aparições na imprensa. Essa interação com o público leitor cria uma estratégia eficiente de promoção do livro.

Um outro exemplo que poderia ser mencionado, é o do ex-professor universitário Cristovão Tezza. Com 15 livros de ficção publicados, além de algumas publicações acadêmicas, o autor preferiu abandonar as aulas que ministrava na Universidade Federal do Paraná depois de vinte anos, para dedicar-se exclusivamente ao ofício de escritor. Essa decisão foi tomada em virtude do enorme sucesso de público e de critica que o autor alcançou com a publicação do romance O filho eterno, lançado em 2007.

Embora a antiga imagem do escritor como um artista por vocação ou talento, totalmente desvinculado do mercado, já tenha perdido terreno, sabemos que o processo de profissionalização ainda está em curso oferecendo grandes desafios aos escritores.

Acreditamos, assim, que uma questão como “quem é escritor profissional?” fica menos obscura quando lançamos um olhar sobre escritores que deixaram seus ofícios para viver de literatura.

A arte da palavra e da profissionalização

por Larissa Nakamura

Aproveitando o post da semana anterior, hoje trouxe um exemplo de uma iniciativa promovida por uma empresa privada, que busca a promoção da literatura no país e que também pode contribuir para a profissionalização do escritor. No mês passado, o Serviço Social do Comércio (SESC) deu início a um projeto chamado Arte da Palavra – Rede Sesc de Leituras que ao longo deste ano promoverá uma série de atividades em vários estados do país: bate-papos; oficinas literárias; slam poetry; saraus; performances; contação de histórias etc., contando com a participação de 91 escritores do todo o Brasil.
O SESC afirmou que a curadoria ocorreu de forma independente em cada unidade regional, embora os critérios precisos para a escolha não tenham sido divulgados. Nas lista, figuram nomes mais conhecidos como Rafael Gallo, Cintia Moscovich e Bráulio Tavares, vencedores de prêmios literários de grande renome nos últimos anos.
No rol de atividades, é possível notar uma preocupação com a formação de um público leitor e com o papel do escritor como agente cultural, pois a programação contempla diferentes formas de produção e atuação no campo da literatura. Uma delas envolve a leitura e discussão das obras dos autores convidados nas escolas antes das sessões de bate-papos com o público estudantil.
Talvez iniciativas como essa amenizem o que João Cezar de Castro Rocha considera como atitudes puramente performáticas dos autores, que deixam em segundo plano a discussão de suas próprias obras nos eventos literários de que participam. Castro aponta a necessidade de “criação e multiplicação não mais de ouvintes, porém de leitores […] Leitores críticos”. Parece-nos, então, que o crítico propõe uma reflexão sobre o significado da profissionalização do autor de literatura.
Acreditamos que o escritor, que atua também como um agente cultural, lançando mão de uma série de intervenções e estratégias, vem renovar, refazer e/ou a reafirmar constantemente as posições que ocupa no sistema literário, redimensionando-o, e incrementando também, por tabela, as possibilidades de sustento financeiro garantidas pelo ofício da escrita.
Henrique Rodrigues, técnico de literatura do departamento nacional do Sesc, afirmou recentemente em reportagem de O Globo:

“Temos um vício no meio literário de achar que, ao convidar um artista da palavra para participar de um evento ou publicar um livro, estamos fazendo um favor para ele. Essa é uma prestação de serviço que precisa ser remunerada. O autor está ali cedendo o seu tempo e reconhecimento. É preciso valorizar e remunerar. O artista é parte da cadeia produtiva.”

A declaração revela-se interessante por apontar um vínculo que é considerado um tabu no debate sobre profissionalização: o que envolve cifras. O campo literário sempre tratou como problemática a associação entre dinheiro e arte.
Tal rejeição ainda pode ser detectada no contemporâneo e sua persistência pode ser fruto da manutenção de uma imagem do escritor impregnada de um ideal romântico: o do escritor diletante que, por amor puro e desinteressado à arte, rejeita, às vezes apenas simbolicamente, os bens materiais que poderiam advir de sua produção, afirmando trabalhar por vocação ou por pura necessidade visceral. A persistência desse imaginário, inclusive entre os próprios autores, constitui um entrave para o pesquisador que quer analisar as condições da profissionalização do escritor nacional, principalmente porque julga-se de mau gosto tratar das condições de contratação de um agente literário ou tematizar os termos de contrato com uma editora. Embora saibamos que muitos autores hoje já conseguem “viver de sua pena”, ainda é muito difícil tematizar as condições concretas que permitem aos escritores usufruírem da sua condição de profissional das letras.

Para mais informações sobre o projeto, clique aqui: http://www.sesc.com.br/portal/noticias/cultura/literatura+por+toda+parte

A profissionalização do escritor brasileiro no século XXI

Por Neila Bruno

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Crédito da imagem:  Aart-Jan Venema

A fundação de academias, agregando grupos de intelectuais, foi a forma de escritores obterem um primeiro reconhecimento do público. Porém, hoje, o escritor poderá tornar-se independente por meio de uma série de ações no sentido de se inserir numa profissionalização do ofício.
Para alguns, não é de bom tom associar dinheiro com literatura, preferindo apagar o caráter econômico das atividades culturais. Para outros,os planos financeiros  e artísticos, dos quais advém o controle sobre a difusão das obras, permitem através dos lucros a subsistência do escritor.
O fato de que o livro é, atualmente, um produto consolidado no mercado favoreceu o desenvolvimento do ofício do escritor. Paralelo a isso, as mudanças ocorridas no campo literário nas últimas décadas vêm produzindo uma expectativa de melhoria na vida financeira dos autores. Atividades das mais diversas estão aí disponíveis para manter e auxiliar o trabalho de quem escreve: cursos, oficinas de escrita, eventos e festas literárias, feiras do livro nas quais os escritores recebem um cachê para proferirem palestras ou fazerem apresentações. Dessa maneira, muitos escritores pensam em viver de literatura, somando aos direitos autorais, essas atividades ao exercício profissional da escrita.
Quanto à busca da profissionalização, os próprios escritores se veem divididos entre a expectativa de viver exclusivamente da literatura e a aceitação das regras ditadas pelo mercado editorial. Ora, quando um autor resolve publicar seu original, ele deve buscar uma editora (excetuando-se os casos daqueles que preferem custear uma edição independente). Tendo o seu original aceito, a editora se responsabilizará pela leitura, revisão, edição e o projeto gráfico, antes de encaminhar o copião final à gráfica, que imprime e encaderna os livros e os despacha para a distribuidora, que, por sua vez,pode pertencer à própria editora ou não. Na etapa final desse ciclo, o livro é comercializado nas livrarias, físicas ou virtuais. Ou seja, publicar um livro é lançar um produto no mercado, ainda que um produto que não pode se igualar a venda de um sabonete, por
exemplo.
O século XXI viu surgir uma multiplicação de instâncias profissionais ligadas à literatura (sociedades de autores, oficinas para escritores), bem como instâncias de difusão das obras (festas e feiras literárias, imprensa, programas na tv, sites, blogs, redes sociais, entre outros) e de consagração literária (revistas, concursos, prêmios literários). Nesse contexto, a ideia de profissionalização está diretamente ligada à atuação do autor como um agente do mercado. E quanto mais marcante for a sua performance, mais condições ele terá de conquistar um público potencial para seus livros. Entrevistas em programas de televisão, reportagens de jornal, declarações em eventos, resenhas, biografias, fotos em revistas, tudo isso compõe a trajetória do autor.
Por esse motivo, poderíamos dizer que para exercerem o ofício de modo a conquistar a profissionalização, os escritores precisam do respaldo dessas instâncias para garantir a construção de uma carreira literária bem-sucedida.

Tornar-se escritor: a profissionalização possível

Por Neila Brasil Bruno

“Escrever, compor, pintar, nada disso é trabalho, é o exercício lúdico, revigorante, glamouroso e sublime de um dom artístico”. O depoimento, concedido ao jornal O Estado de São Paulo, é do escritor João Ubaldo Ribeiro e contraria ironicamente o lugar que transforma a arte em mercadoria. Tal reflexão sustenta-se entre os artistas que não estão preocupados com a expressão comercial do que realizam. O escritor ainda acrescenta: “por conseguinte o artista não pode pensar em dinheiro” (RIBEIRO, 2002). Ora, o status do artista vem se alterando muito nos últimos anos, não mais caracterizado como um pobre excluído, tentando ganhar a vida. Atualmente, o artista percebe a arte como uma vertente profissional. Por sua habilidade em conquistar mercados para suas obras, inspira empreendedores, inovadores e agentes de todos os tipos. A partir dessa habilidade, o artista busca profissionalizar-se no exercício da atividade artística ou literária.

Neste post, eu gostaria de aproveitar essa discussão para refletir sobre a seguinte questão: “É possível viver sendo escritor no Brasil?” Nas últimas décadas, é visível que os escritores vêm experimentando um processo gradativo de profissionalização. Começam “a viver de literatura”, coisa reservada há algum tempo atrás a um número reduzido de escritores, e a se relacionar com a ideia de que o livro, mais do que objeto cultural, é uma mercadoria vendável e lucrativa. Há uma expectativa de melhoria de vida financeira, atividades, as mais diversas, podem estar aí presentes para manter e auxiliar o trabalho de quem escreve:  cursos; oficina de escrita; eventos e festas literárias, feiras do livro na qual os escritores recebem um cachê para fazerem palestras ou apresentações. Dessa maneira, muitos escritores pensam em viver de literatura, não apenas de direitos autorais, mas somando essas atividades ao exercício profissional da escrita.

Ser “escritor”, enquanto projeto de vida, é passar, necessariamente, por várias paradas obrigatórias: o autor precisa saber quem são seus pares – conhecer a obra de outros escritores; estudar técnicas literárias, história da literatura; ler literatura brasileira, crítica literária, ou seja, encarar a atividade de escrita como um trabalho. Há também o surgimento de cursos de formação do escritor e oficina literária que tem como objetivo favorecer a profissão de autoria, ao explorar técnicas ficcionais e suposições sobre escrita. Outra perspectiva interessante é considerar a posição da qual um autor fala, uma combinação de suas credenciais, sua visibilidade e sua capacidade promocional através da mídia. Com isso, se um autor aparece com regularidade nos meios de comunicação, ou assina uma coluna no jornal ou uma revista, isso dá a ele uma imagem de alto perfil que cria um mercado potencial preexistente para seus livros.

Finalizando, poderíamos então arriscar dizer que é possível que um autor consiga viver do mercado literário, trabalhando em toda a cadeia do livro, mas no que diz respeito a viver de direitos autorais ainda é um desafio para qualquer escritor brasileiro.

O ano em que vivi de literatura, de Paulo Scott

Por Larissa Nakamura

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Ilustração: Fabio Zimbres (capa do livro)

Não é novidade vermos escritores se autorretratando ou ficcionalizando suas carreiras nas obras literárias: a lista vai de Enrique Vila-Matas (Paris não tem fim) a J.P Cuenca (Descobri que estava morto), entre muitos outros. Trazendo mais um exemplo brasileiro sobre personagens escritores, temos O ano em que vivi de literatura (2015), de Paulo Scott, que traz uma mordaz sátira ao mundo literário. E para quem inicia a leitura esperando encontrar no personagem principal, Graciliano, um escritor sério e dedicado ao seu labor, saiba que o engano já se inicia pelo título: afinal, nada mais frustrante que um autor que nada escreve justamente no ano em que passa a viver de literatura!

Dividido em quatro partes, acompanhamos o cotidiano de pouco mais de um ano na vida de Graciliano, jovem autor gaúcho que após se mudar para o Rio de Janeiro ganha um dos mais importantes prêmios literários do país (vitória, aliás, questionável), assim embolsando vultosa quantia em dinheiro, e é visto como grande promessa no ambiente artístico.

A partir de então, ele passa a ser considerada figura VIP no circuito das letras e relata aos leitores as intrincadas relações e agruras do meio em que passa a circular com mais intensidade: encontros e conversas com editores, outros artistas, jornalistas, produtores culturais etc. A narrativa torna possível especularmos que representações da profissionalização do escritor de literatura está em jogo no relato que envolve premiações e holofotes, escolhas pensadas ou intempestivas que vão traçando a trajetória de Graciliano.

O background da carreira de Graciliano aparece aos poucos na trama. Sabemos que antes de ser escritor trabalhava como professor universitário na área de História, sua primeira obra literária já havia sido adaptada ao cinema, participou de uma antologia de contos, e que o livro premiado era produto de uma encomenda que acabou publicada por uma pequena editora de Porto Alegre ao invés da sua prestigiada editora do Rio de Janeiro (fato que irrita terrivelmente seu editor). Todos esses elementos parecem dar indícios de que a personagem dava significativos passos na profissão. No entanto, a partir do momento em que recebe o prêmio e é pressionado a escrever imediatamente um novo livro, Graciliano recua e não consegue escrever uma linha sequer. Mais que isso: assistimos a um espetáculo sofrível que passeia entre a solidão no campo social e certa – quando não total – inadequação moral e ética do escritor profissionalmente.

Não deixa de ser risível que muitos dos excessos e maneirismos nas situações vividas pelo narrador e seus pares podem mesmo surpreender o leitor – seja pela ponta de veracidade (ainda que por vezes soe absurda) ou completa imprecisão. Algumas dessas circunstâncias estão presentes nos capítulos em que aparece o editor, cruel figura empresarial que, como reconhece o narrador, é um ótimo homem de negócios. Ao final do livro, Graciliano recebe uma proposta que reafirma sua visão crítica à prevalência do caráter econômico nas negociações do mercado editorial na contemporaneidade:

[…] Berardi, o chefão da editora mais agressiva daquele ano no mercado naquele ano, cria do mundo financeiro, das bolsas de ações, alguém que lá pelas tantas resolveu botar suas fichas no mercado editorial de livros técnicos e livros de autoajuda e seu deu bem, uma alma generosa que, nos dois últimos anos, talvez pelo simples prazer de exercitar seu talento predatório, tinha resolvido apostar em literatura, em ficção brasileira e bagunçar geral o campinho da concorrência […] (SCOTT, 2015, p. 248)

Somada aos cenários inusitados, também é interessante a interação promovida por Graciliano nas redes sociais: desde propostas absurdas (“Deposite cinco mil reais a título de doação na minha conta do Banco do Brasil e seja um dos três protagonistas do meu novo romance.” (p.111), uma “brincadeira” levada a sério por alguns seguidores; sem contar o uso da internet para marcar encontros sexuais com fãs leitoras) às mais comuns (publicação de pequenos poemas, trechos de histórias que não consegue levar adiante).

Em suma, mais que celebrar ou mesmo romantizar a vida de escritor, Paulo Scott nos traz uma representação irônica de Graciliano que mesmo diante das facilidades ofertadas e “[…] [d]a possibilidade de realizar o sonho de muitos escritores brasileiros: ficar um ano livre de pressões econômicas e disponível para se dedicar a seu ofício” (ALVES-BEZERRA, 2016) se depara com um misto de rejeição e desejo de viver de literatura, de alcançar a profissionalização no campo literário.

Literatura e profissionalização

Por Larissa Nakamura

“profissionalizar-se antes de se tornar um profissional das letras” – Silviano Santiago

Aconteceu em outubro nossa Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), que a cada ano cresce e atrai mais visitantes (quem quiser saber mais, pode acessar a recente entrevista que o organizador do evento, Emmanuel Mirdad, concedeu ao blog). Aproveitamos a oportunidade para assistir às mesas literárias, conhecer os escritores e também entrevistá-los sobre um assunto que muito nos interessa: a profissionalização do autor.

A participação dos autores revela como cada escritor reflete sobre sua carreira, sobre a interação com a mídia, o mercado e os leitores.  João Filho cita a importância de travar parcerias com editores competentes e pequenas editoras locais, que pouco a pouco fortalecem seus catálogos e têm uma preocupação com a qualidade editorial, tornando os livros atrativos e comerciáveis o suficiente para concorrer com as demais publicações do mercado. Além disso, há também o interesse em atingir o grande público, vender e popularizar suas histórias. Notamos que longe de rejeitar os possíveis ganhos econômicos advindos da produção artística, João Filho os compreende como necessários para o escritor, para a construção de uma carreira no campo das letras.

João Filho: […] no Brasil, tem que divulgar a obra. O que é ser escritor profissional no Brasil hoje? Hatoum tava falando mais cedo que os Dois irmãos, que eu considero a obra-prima dele vendeu um negócio absurdo, não foi? Um negócio assim, uma coisa linda, uma cifra maravilhosa, é muito bom acontecer isso. Isso é profissionalização? Eu não sei, até chegar direito autoral, livro que não chega, livro que você tem que ir atrás e a editora é pequena. […] O Gustavo Felicíssimo é o editor da Mondrongo, que publicou A dimensão necessária, ele me convidou em 2013, o livro foi publicado em 2014 e ganhou prêmio em 2015 da Biblioteca Nacional, então pra mim é tudo parceria, porque nesse sentido eu sou profissional. […] eu ganho dinheiro com a literatura e eu quero ganhar dinheiro, eu faço minhas palavras com as de Aurélio Schommer que é quando ele diz “Quero ficar rico”. Eu também quero, entendeu? Eu quero ganhar dinheiro, é claro. Você vê o seu livro adaptado (aponta para Milton Hatoum) pra tevê e eu falei para ele, para Milton, […] ele vai ser o novo Jorge Amado […] eu falo em questões de venda, isso vai ser ótimo para você, é claro. E Jorge Amado deu um conselho para João Ubaldo no seguinte: João Ubaldo reclamando da adaptação que fizeram de O sorriso do lagarto e aí Jorge falou assim: “Cobre o máximo que você puder e não veja.”. É claro que você quer fazer sucesso com o que você produz e eu produzo literatura, então nesse sentido sou profissional. Agora, essa pergunta sempre me deixa sem muita opção de resposta, porque eu só consigo responder assim: eu me empenho no que faço e tento fazer uma parceria com pequenos editores, que eu publico que é o Gustavo Felicíssimo, da Mondrongo, a P55, do Cláudio Portugal. O primeiro (livro), na verdade, foi quase um presente pra mim e todos são quase presentes pra mim, […] e tudo em edições pequenas, bonitas, edições benfeitas, e você trabalha como um mercador, como eu passei minha vida inteira dentro de um comércio, de uma venda no interior, eu continuo mercando, entendeu? Com os meus livros agora.

Eduardo Spohr destaca a pertinência de uma sólida rotina de trabalho que envolve tanto a escrita como o diálogo com os leitores, seja em um evento ou na interação proporcionada pelas mídias sociais.

Eduardo Spohr: Eu acho que o escritor profissional não é só aquele que ganha dinheiro com isso, eu já me considerava escritor profissional desde muito antes. Eu acho que, isso na minha visão, é aquele que leva a profissão a sério: escreve sempre que pode, persiste e tem uma rotina de trabalho. Acho que não só eu, como muitos que aí que não vivem de escrever, eu considero como escritor profissional, que tem essa seriedade na literatura. As feiras literárias fomentam a profissionalização no fato que levam mais gente a se interessar em ler e escrever, e isso que é excelente, a gente precisa de mais gente lendo e escrevendo, alguns vão se tornar escritores, outros não. Tem dois lados no espaço para se divulgar enquanto autor e ter contato com os leitores. O autor fica muito solitário e não vê muito o rosto de leitores, e quando ele vem a esses festivais, feiras, esse encontro é maravilhoso. E para o leitor também é legal, falando enquanto leitor, quando eu vou a feiras e vejo os autores que eu gosto, é o maior barato, porque você vai lá e conhece aquela figura que escreveu aquele texto, o contato é muito importante. Eu uso tudo que posso nas redes sociais para ter contato com os leitores, tenho o Twitter, Facebook, Snapchat, tô um pouco velho, mas, às vezes, eu uso também o Instagram.

Dois tabus são desconstruídos pelos comentários dos autores: o primeiro,  presente na fala de Spohr, diz respeito à ideia de que todo autor de best-seller, sem exceção, vive confortavelmente das cifras de suas vendas sem se importar com a fatura de composição do texto; o segundo,  é desmistificado pela preocupação trazida à tona por João Filho com a questão da sobrevivência financeira do autor, o que abala o culto ao artista amador, sem plano de trabalho ou projetos futuros.

Acompanhe no link a seguir a mesa literária de João Filho na Flica: Flica 2016 Ao Vivo | Mesa 4 | A voz do autor.

2016-10-28

João Filho é baiano, mestrando em literatura portuguesa, tem cinco obras lançadas e também traduzidas no exterior, participou de diversas antologias, e em 2015 ganhou o prêmio Alphonsus de Guimaraens pelo livro de poesia A dimensão necessária.

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Eduardo Spohr é carioca, jornalista de formação, publicou cinco livros que são sucesso comercial no país e que agradam ao público jovem por conta das temáticas ligadas ao universo fantástico.

Imagens: Instagram da Flica