Arquivo do mês: julho 2017

Quem é Elena Ferrante?

Por Sérgio Santos

lygia clark

Créditos da imagem: Lygia Clark com a máscara Abismo. Foto Assoc. Cultural o Mundo de Lygia Clark, 1986. 

Retomando o post de Fernanda Vasconcelos sobre a escritora Elena Ferrante, gostaria de lançar ainda alguma luz de candeeiro sobre a questão da identidade da autora de A amiga genial e Dias de abandono. Como quem acompanha um folhetim, ou como quem se interessa pelos caminhos que a figura do escritor pode seguir,  o leitor entra em um jogo dentro e fora do texto.

Fernanda observa muito bem a “exímia capacidade” que a escritora  tem “de construir seus personagens” e também o fato de uma delas se chamar Elena, na “Série Napolitana”. À proporção que foram sendo lançados os livros da escritora no Brasil, vimos que o nome “Elena” aparece também em outro de seus livros, A filha perdida. Ela é a criança que tem sua boneca furtada por Leda, a narradora que assiste ao sofrimento da pequena Lenù com a ausência de seu brinquedo predileto. Elena passa dias e noites chorando em A filha perdida. Elena é estuprada “deliberadamente” e segue a vida, em História do novo sobrenome. Elena é o elo de Leda com aquela família observada de forma tão minuciosa, em A filha perdida. O macrocosmo de Elena são as famílias na Nápoles da série narrativa. Elena é Anita Raja. Não, Elena Ferrante é mais uma “jogada de marketing”. Sim, Elena exerce o direito inalienável de não aparecer etc. et ceteras.

Sabemos que dentro do mundo veloz, as inferências acerca desse jogo ferrante ou serão desveladas ou sobrepujadas por um outro acontecimento de vária ordem. No entanto, a proposta de imbricar de forma tão contundente os espelhos autor/autoria/personagens/pseudônimo/investigação coaduna-se à perspectiva de Vasconcelos de que “Ferrante dá mais uma volta no parafuso da intrincada engrenagem da produção contemporânea e colabora para as discussões sobre a condição do autor no cenário literário contemporâneo”. Discutamos brevemente, pois.

As fusões do caso Ferrante citadas acima (autor/autoria/personagens etc.) seriam muito semelhantes às experimentadas pelo indivíduo contemporâneo no que tange às imbricações quanto ao espaço fronteiriço entre as ficções e as realidades.

Se na série há a forma do Bildungsroman (Bild tem, também, o sentido de imagem) que aposta numa espécie de suspensão da moral em que as maldades, as disputas, as invejas e as cumplicidades das duas amigas malogram o maniqueísmo, a “volta no parafuso” aperta (ou folga)  uma “vertigem de nomes, artifício que embaralha realidade e fantasia” mas que nos permitiria entender “porque as escritoras em questão procuram obstinadamente um ponto onde verdade e mentira possam se encontrar – e, talvez, se apagar mutuamente”, como comenta Eliane Robert Moraes sobre Ferrante, Lenù e Anita Raja.

As histórias de e acerca de Elena Ferrante, a escolha desse  pseudônimo para ser a “autora” da quadrilogia ensejam quase um roman à clef, pois o nome na capa sugere uma identificação entre autor e personagem, mas no entanto, não dispensa a certeza da ficção pactuada entre autor e leitor. Assim, a atribuição de autoria tensiona a recepção da obra, não a pacifica.

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Uma questão “político-literária”

Por Nivana Silva

Raumzeichnung (outside-inside) - Monika Grzymala

Créditos da imagem: “Raumzeichnung (outside/inside)” – Monika Grzymala (2016).

O site da Revista Piauí, no início deste mês, publicou uma interessante matéria sobre Ricardo Lísias e as últimas polêmicas envolvendo seu nome de autor. O texto foi escrito a partir de uma conversa do escritor paulistano com Mateus Baldi, que, não por acaso, assina a publicação sob a tag “questões político-literárias”. A questão político-literária a qual Baldi se refere diz respeito ao mais recente trabalho de Lísias: Diário da Cadeia – com trechos da obra inédita Impeachment (Record, 2017) de autoria de Eduardo Cunha (pseudônimo).

Conforme mencionado em meu último post, o livro vinculado ao ex-presidente da câmara dos deputados, após ser publicado, provocou um imbróglio que ultrapassou as fronteiras da literatura. Diário da cadeia teve sua venda suspensa, como resultado de uma ação movida por Cunha, que foi acatada em primeira instância e, assim, a verdadeira identidade do autor, até então mantida em segredo, deveria ser revelada. O que se deu em seguida foi a decisão em segunda instância – após a editora Record recorrer – de que o sigilo da autoria deveria ser mantido, mas, àquela altura, a mídia já teria divulgado que se tratava de mais um empreendimento (para além do) literário de Ricardo Lísias, segundo o qual “fazia parte de um projeto artístico, de uma interferência da literatura na realidade”.

Não deixa de ser curiosa a narrativa acima, afinal de contas, revisitamos um conjunto de acontecimentos do universo jurídico para falar de um produto da literatura. Também não é à toa que, além de ser chamado para falar em eventos de faculdades de direito, como o próprio Lísias afirma para a Piauí, seu próximo projeto carregue o título de A Literatura no Banco dos Réus, livro que, consoante à matéria, reforçará o “discurso de defesa” do autor, já conhecido por situações jurídico-literárias, como no caso envolvendo a série Delegado Tobias (2014).

Efetivamente, o futuro trabalho do escritor paulista parece mesmo projetar-se como uma resposta, não só pelo “discurso de defesa” que fará parte de seu conteúdo, mas porque sinaliza um deslocamento atinente ao gesto signatário do autor, que não depende apenas dos modos como ele firma seu nome no campo literário, mas está relacionado ao papel da crítica, do público leitor, em reconhecer e legitimar esse nome. A partir da reflexão sobre assinatura que fiz no já mencionando post anterior, estou sugerindo aqui que A Literatura no Banco dos réus, ainda que projeto, pode ser tomada como parte de um movimento, calculado ou não, resultado do reconhecimento e construção do nome de Lísias pela recepção (que tem como ingrediente as atuações do autor de dentro e de fora da literatura e, nesse caso, as últimas polêmicas que o envolvem), o que, acredito, reverbera, de volta, nas performances autorais e na própria obra.

É possível desdobrar essa hipótese mais um pouco, mesmo que preliminarmente, se levarmos em conta a existência de outros dois projetos “que prometem aumentar o burburinho e as polêmicas”, de acordo com o texto de Baldi. Seriam eles: “Minhas Dívidas, criticando a indústria dos bancos, e o que seria a continuação de Diário da Cadeia, caso o pseudônimo não tivesse sido revelado: as cartas de José Dirceu a Fidel Castro”. O livro assinado por Eduardo Cunha (pseudônimo) estaria, desse modo, “inserido num contexto ainda maior, uma série de livros cujo nome seria Pseudoliteratura”. Ao que parece, portanto, se a verdadeira identidade autoral não se tornasse pública (e, por conseguinte, a crítica – e a justiça – recebessem a obra de outra maneira), os movimentos do autor, nesse percurso de criação de assinatura – ainda que velada por um pseudônimo – poderiam ser outros.

Nesse sentido, o que estou querendo reafirmar, a partir das menções feitas na matéria, é que a inscrição e a legitimação do gesto signatário estão relacionadas aos modos como a obra é elaborada e recebida. A recepção crítica, com papel fundamental para “criar” essa assinatura, tem nos trânsitos autorais um elemento importante nesse processo, que parece rebater, novamente, na própria obra. Essa, por sua vez, disposta num cenário de “questões político-literárias”, nos faz atentar para as complexas e intricadas relações entre o dentro e o fora da literatura –  as apropriações do real pelo literário e as reapropriações do ficcional pela própria realidade – o que, além de relativizar a moderna autonomia da ficção e da literatura, tem demandado outros protocolos de leitura e até mesmo de recepção, apontando para novas formas de fazer arte na contemporaneidade.

 

 

No Xangrilá das abstrações

Por Nívia Maria Santos Silva

 

tolentino livro

Xangrilá, ou Shangri-la, é uma cidade fictícia criada por James Hilton em seu livro “Horizonte perdido” (1933), uma espécie de paraíso perdido, inspirado em Shambhala. Situada entre muitos desfiladeiros do Tibet, a bela cidade é um local de difícil acesso, poucas pessoas conhecem o caminho entre as montanhas, o que significa que aqueles que são levados até lá não possuem a possibilidade de sair de lá, a não ser que sejam guiados. No romance de Hilton, as personagens que fugiam da guerra tiveram a rota de seu avião alterada até caírem, sendo socorridos por lamas que os levam para Xangrilá. Todos são muito bem recebidos, mas a recepção amistosa e benevolente não os tira da condição de “prisioneiros” daquela terra oculta, sedutora e, sobretudo, repleta de promessas.

Bruno Tolentino se remete a essa cidade acolhedora, mas ao mesmo tempo ilusória, ao se utilizar da expressão “Xangrilá das abstrações”, em seu texto-ensaio-prefácio “O cego nu: um exórdio”. Para ele, é nesse lugar de encantos e ilusão que vai parar tudo o que se “propõe a traduzir o mundo numa exatidão de teorema que termina por conceitualizá-lo […] esvaziando-o de todo sentido”. Inspirado principalmente no pensamento de Ives Bonnefoy, a quem chama de mestre, os dez textos distribuídos nas mais de 70 páginas que formam o prefácio do livro O mundo como ideia (2002) se esforçam na defesa do que Tolentino chama de “mundo-como-tal”, ou seja, o acesso ao mundo sem a interferência das “muralhas de conceitos”, que insistem em intermediar nosso contato com “os dados brutos do real”, desfigurando-o. Estar no “Xangrilá das abstrações” seria, então, nem perceber que se está trocando o mundo-como-tal pelo mundo-como-ideia, um mundo limitado e reduzido, mediado por conceitos que “paralisam o prazer”.

Partindo desse pensamento, Tolentino se coloca contrário às teorias que tentam mediar a experiência do ser-no-mundo, assim como aquelas que se interpõem entre o sujeito e a experiência estética, trocando-a por um “jogo de conceitos” que leva “A notória embriaguez formal da arte pura” e a consequente substituição da “intuição do ser pelo número” e da substância pela ideia. O pensamento que atravessa os textos preliminares de O mundo como ideia retoma e adensa o discurso crítico de Tolentino, divulgado antes em sua atuação polêmica no campo literário brasileiro, tanto por meio de suas intervenções no jornalismo cultural quanto por meio do híbrido e satírico Os sapos de ontem. Escrito ao longo de 40 anos, o livro se apresenta como o zênite do programa poético tolentiniano, que o poeta qualifica como um “projeto em mim”, uma ars poetica, um “arrazoado em defesa do real”.

Na prática, esses ensaios fundamentam especulativamente sua postura antiformalista, antimarxista, antiestruturalista, antivanguardista, antidesconstrutivista, mesmo sem citar diretamente nenhum desses “ismos”, como faz de forma reiterada e explícita em sua produção polêmica. Juntando o quebra cabeças, todos os “ismos” para Tolentino são formas de ceder “a tirania tentadora do conceito”, como a que ele chama de “utopia formalista”. As teorias seduzem e aprisionam agindo de forma totalitarista, uma vez que funcionam como uma patrulha, como se a arte tivesse que ser realizada de determinada maneira para atender anseios que nem sempre são os anseios de seu produtor, provocando uma indesejada inversão entre os fins e os meios.

A postura tolentiniana pode ser facilmente classificada como antiacadêmica e conservadora, no entanto, há de se levar em consideração suas colocações principalmente quando percebemos que seu movimento não é uma reação isolada nem apenas vinda de fora da academia, mas um comportamento que vem tendo adesão de nomes consolidados do campo acadêmico. É inescapável não relacionar o ponto de vista tolentiniano com livros como os de Todorov, A literatura em perigo (2007), e Gumbrecht, Atmosfera, ambiência, Stimmung: sobre o potencial oculto da literatura (2011).

Depois de se tornar um dos nomes de referência do Estruturalismo, Todorov passou a defender a ideia de que a imanência estruturalista e outras teorias fizeram com que triunfasse “uma concepção absurdamente reduzida do literário”, colaborando para o afastamento entre a obra literária e o mundo. Para ele, “Todos os ‘métodos’ são bons, desde que continuem a ser meios, em vez de se tornarem fins em si mesmos”. Em seu livro, essa postura se soma a afirmações do tipo: “A função da literatura é criar, a partir do material bruto da existência real, um mundo […] mais verdadeiro” e “Ela nos proporciona sensações insubstituíveis que fazem o mundo real se tornar mais pleno de sentido e mais belo.”.

Gumbrecht, por sua vez, supera, sobretudo, o desconstrutivismo e os estudos culturais, e parte do pressuposto de que “Em termos conceituais, tudo fica mais complicado”. Ele nos propõe uma terceira via: ler em busca do Stimmung, grosso modo, da sensação. Sobrepor a sensação à interpretação seria valorizar a experiência imediata da obra literária. Ou seja, uma experiência de leitura deve se dar sem a mediação dos conceitos/teorias que leem as obras “como se elas se propusessem enquanto alegorias de argumentos ou agendas filosóficas.” Sua particularidade é que para ele a arte não busca a verdade, a arte existe enquanto presença e não representação.

Dentro das peculiaridades de cada um, os três apresentam como ponto em comum o colocar-se contra a substituição da literatura/arte pelas teorias/conceitos. O que leva então a essa interseção? Esse cruzamento de posturas entre o poeta brasileiro, o filósofo búlgaro e o crítico alemão se retroalimenta apenas do repetitivo discurso da crise ou registra certo cansaço e/ou insuficiência da teoria? Tolentino se reconheceu como um dos “prisioneiros” seduzidos no “Xangrilá das abstrações” em busca de sua “filosofia da forma” e se colocou como aquele que, estando lá, procura apontar a saída, a “diagnose e cura”. O tom de Todorov e de Gumbrecht também parece ser daquele que aponta uma solução. Enquanto não conseguimos perceber direito para onde eles apontam, as teorias vão nos auxiliando a entender melhor suas proposições.

Ensaiando o romance

Por Fernanda Vasconcelos

Robert Morris Observatory 1971

Créditos da Imagem: Observatory (1971), de Robert Morris.

            Aqui América Latina: Uma especulação (2013), escrito por Josefina Ludmer, é um instigante livro crítico-teórico sobre a literatura contemporânea. Como o título aponta, se propõe a especular sobre as mudanças encontradas no contexto contemporâneo que atravessam a ficção atual. Em seu livro, Ludmer aposta em uma tentativa de aproximação aos “gêneros do presente” selecionando duas categorias gerais para serem exploradas: o tempo e o território. O formato do diário lhe serviu para organizar as impressões e reflexões sobre “Temporalidades” diversas experimentadas em seu cotidiano de leituras em Buenos Aires ao longo de um ano. Ludmer comenta que lia jornais e assistia à televisão (outros “gêneros do presente”) como um exercício diário que lhe serviu como meio para captar, nessas linguagens, as ânsias de um imaginário público que parece indicar, ainda que difusos, mecanismos de ordenações outras para a relação realidade/ficção no seu cotidiano.

Na parte intitulada “Territórios” encontramos proposições de leitura do que a crítica denomina de “literatura pós-autônoma”, colocando em xeque características fundamentais do que entendemos por literário desde o século XVIII, ao apostar que estamos vivendo transformações na esfera do que chama de “imaginação pública”, que afetam o lugar e o valor da literatura no presente.

Partindo destas reflexões, acreditamos que a maneira como Ludmer caracteriza a literatura pós-autônoma (redefinição das fronteiras entre ficção e realidade,  questionamento da autonomia e da ideia de campo literário) é pertinente para pensar a condição do romance contemporâneo, seu vigor.

A tão mencionada “instabilidade” do gênero, que pode ser percebida desde o seu surgimento, é radicalizada quando seus limites são colocados em questão atualmente. E essa característica flexível parece ser bem-vinda, se aceitamos com Ludmer que as possibilidades narrativas estão em aberto, gerando um deslizamento de fronteiras que permite um trânsito entre o dentro e o fora da literatura, redirecionando a atenção crítica para uma zona porosa, para além do entorno formal do gênero.

Comentei em meu último post sobre o livro de Karl Ove Knausgård, A morte do pai (2015), como a obra poderia ser tomada como um exemplo, entre tantos do contemporâneo, em que o romance “conversa” com as artes. Aí, em momentos reflexivos do narrador, quase ensaísticos, encontramos a problematização da própria escrita e um direcionamento estético: a banalidade do cotidiano protagonizada pelo narrador poderia ser tomada como resposta a uma longa história do próprio novel, que já dura, pelo menos,  três séculos. Acreditamos, assim, que o narrador usufrui do tom ensaístico em suas reflexões oferecendo dicas e negociando trajetórias de leituras com o leitor.

O que queremos dizer é que, em alguns momentos, essas reflexões parecem adquirir densidade textual enquanto procedimento, sobressaindo-se no corpo do romance, induzindo o leitor a notar certas características do romance, inclusive a clave tateante que provoca a percepção do leitor, assegurando-lhe uma fruição ao longo da leitura, como observamos no post anterior. Desse modo, o romance se aproxima de gêneros não ficcionais de maneira produtiva, apostando em uma estética que se direciona à tensão/fusão de materiais e conceitos heterogêneos e improváveis de serem agrupados. E, muitas vezes, esses imprevistos são “extraídos” do cotidiano mais comezinho.

Portanto, encontramos uma “estética da anotação” e uma apropriação do gênero do ensaio (não ficcional) pelo romance enquanto procedimento reflexivo, tateante Teríamos, então, o inacabado auxiliando na materialização de um esvaziamento de elementos estruturais da narrativa, embrulhados pela narrativa da banalidade cotidiana.

A pergunta que fica é: até que ponto essa marca ensaística interfere na forma da narrativa romanesca e no jogo com a expectativa do leitor por veracidade, estando, esta, relacionada com a inserção de um eu na banalidade de um cotidiano?