Arquivo do mês: maio 2014

O que eu Diria: um breve relato sobre a inquieta produção contemporânea.

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Débora Molina

Nos dias atuais é quase impossível encontrarmos alguém que não use o computador, não tenha acesso à internet e não tenha uma conta em alguma rede social. É muito provável que ao encontrarmos alguém que há muito não víamos, nossa conversa seja encerrada com um: “Me adicione no facebook” ou “você tem Whatsapp?”.  Essas são só pequenas ilustrações sobre como a tecnologia mudou nossas vidas… há 10 anos atrás, a única opção de reatar alguns laços distantes eram os contatos marcados de canetas nas nossas agendas telefônicas.

Se a tecnologia parece ter mudado nossa concepção de tempo e de relação pessoal, entre tantas outras coisas, porque não levarmos em conta que esta mesma tecnologia possa estar modificando o campo das artes?

Pois bem, as veias cyber cinéticas pulsaram no campo literário brasileiro. No final de 2013 um curioso aplicativo chamado What would i say? Se popularizou no mundo das letras. O bot (robô) é um aplicativo que escreve frases a partir da escolha aletória de palavras retiradas do nosso histórico de conversas e postagens do facebook. Geralmente, a brincadeira com o bot gera frases bastante criativas, como no exemplo abaixo:

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E, justamente por essa criatividade acidental, o bot virou ferramenta de escrita de alguns poetas e escritores brasileiros. Como no caso de Ismar Tirelli Neto que declarou para o caderno literário do O globo Prosa & Verso que o bot era um eco distorcido de sua própria voz, já que tornou sua escrita algo mais inventivo do que a postagem original. Embora o bot demonstre ser um recurso interessante para novas perspectivas da literatura brasileira contemporânea, o aplicativo é visto como algo que soa como brincadeira, coisa que não deve se misturar com Literatura, que é coisa séria.

Em dezembro de 2013 o caderno Prosa & Verso do jornal O globo publicou um artigo chamado ‘literatura do acaso: as experiências com o bot What would i say’. Escrito pelo jornalista e também escritor de literatura brasileira contemporânea Bolívar Torres, o artigo traz a discussão sobre o uso do bot na produção literária contemporânea, e a reflexão sobre as concepções já inscritas no campo como identidade autoral e escrita literária.

Para o professor Frederic Coelho (PUC – Rio), o aplicativo causa o esvaziamento do autor, pois entende que o bot escreve novas sentenças a partir do que o autor já escreveu, o autor não é o escritor do discurso, isso é mérito do aplicativo. Argumenta ainda que o recurso é só um remix das palavras, o ‘recorta e cola’, parecido com o poema dadaísta do início do século XX.

Muitos autores utilizaram o aplicativo para fazer literatura, como no caso de Victor Heringer, que escreveu o poema “bot-macumba” que pode ser lido por meio do vídeo disponibilizado pelo site da Globo vídeos:

http://oglobo.globo.com/videos/v/victor-heringer-le-o-poema-bot-macumba/3015223/

Heringer defende que:

Cada geração tem seus meios de arejar a linguagem — diz Heringer. — Dispor palavras embaçadas de modo a ganharem vida nova. Ao misturar nossas próprias palavras, o bot coloca ainda outro problema: quão parecidos somos com o robô que fala? O quanto essas “nossas” palavras rearrumadas expressam o “nosso eu”? É uma questão esquisita para a literatura, até hoje considerada, em grande medida, expressão da alma. Dependendo das respostas dadas às perguntas acima, poderíamos muito bem concluir que a alma do homem é algorítmica. Ou, como Tzara e os dadaístas, melhor seria transitar nessa fronteira cada vez mais confusa entre

Heringuer apresenta uma discussão pertinente: Nossa subjetividade está cada vez mais entrelaçada ao mundo virtual, estamos conectados o tempo todo com nossos aplicativos para fotos, vídeos, características de humor, etc. Se o mundo e as relações estão mudando com a tecnologia, porque não pensar que a literatura também esteja caminhando para além do mundo do livro, do mundo impresso, para um mundo em expansão?

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Karl Ove e sua vida

Karl Over Knausgard- Revista Mapa ed. 1 – 2013

Marcos Torres

Recebi duas edições da Revista Mapa, de Curitiba(ed.nov/dez 2013 e ed. jan/fev 2014), uma revista bimestral, que pode ser enviada gratuitamente a todos que escreverem para os editores solicitando a publicação. A reportagem que mais me chamou atenção no primeiro número da revista diz respeito ao mais recente fenômeno mundial de vendas, o norueguês Karl Ove Knausgard.

Karl Ove já vendeu mais de meio milhão de livros, superando o volume de vendas de muitos escritores dentro do mercado americano, inglês ou alemão. Mas a que será que se deve tamanha repercussão? A publicação do primeiro volume, além de um mal-estar familiar generalizado, rendeu a Karl Ove um processo judicial pelo uso de detalhes biográficos expondo a família Knausgard aos holofotes da mídia que quis investigar as figuras de carne e osso por trás do relato.

Não deixa de ser surpreendente também o fato de que corre o boato que as empresas na Noruega foram obrigadas a instituir os chamados “dias sem Knausgard”, proibindo os funcionários de lerem ou comentarem durante a jornada de trabalho o livro de Karl Ove.

Mas o mais interessante é a tensão criada pela narrativa entre vida e ficção. Tematizando a saga autobiográfica do autor (seis volumes, um total de 3600 páginas, cujo primeiro volume intitulado A Morte do Pai já foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras, o texto de Irinêo Neto traz elementos importantes para pensar a produção literária contemporânea. Além de retomar as inquietações a respeito da noção de gênero literário e suas formas cambiantes, fala-se na imbricação entre vida e obra, entre realidade e ficção e aposta-se que Karl Ove propõe a inversão do paradigma do pacto autobiográfico conforme sustentado por Philippe Lejeune. Para Lejeune, o leitor deveria aceitar o pacto de leitura conforme o gênero literário apresentado pelo autor, mas Karl Ove parece inverter ou propor outro pacto e pede para o leitor decidir em qual gênero seus livros devem se encaixar: autobiografia ou ficção?

Vale a pena arriscar um palpite nessa discussão, pois depois da leitura da reportagem de Irinêo Netto e de A Morte do Pai de Karl Ove você vai se dar conta de que alguma coisa está mudando em relação àquilo que, até há bem pouco tempo, chamávamos de ficção.

NETTO, Irinêo Baptista. Ele confia em você. Revista Mapa, Curitiba, p.
4-9, nov/dez 2013.