Arquivo do mês: abril 2018

Knausgaard. O ensaio e o romance

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Créditos da imagem: Francesca Woodman – Providence, Rhode Island, 1976.

Por Fernanda Vasconcelos

Não é novidade que a série Minha Luta escrita por Karl Ove Knausgaard adquiriu relevância internacional. Apesar disso, ainda há pouco desdobramento crítico sobre a obra. James Wood, crítico britânico que escreve para a revista The New Yorker, atribuiu à obra um caráter de vanguarda. Mas por que será que o crítico a entende assim?

Para Wood, a opção de Karl Ove pela autobiografia representa uma vontade de sair da ficção. Essa escolha, segundo a leitura do crítico, demonstraria um cansaço das formas ficcionais tradicionais. Trazendo “personagens e acontecimento reais” para a narrativa, Karl Ove faz com que repensemos também as relações entre ficção e realismo.

Nos volumes nos deparamos com a escrita em primeira pessoa que narra seu modo de vida. As relações entre vida e obra, um tópico comum às vanguardas, aí aparece de forma quase indecantável. Assumindo uma dicção ensaística, o autor consegue operacionalizar o que James Wood chama de “aventura do banal”. Assim, Knausgaard opera não apenas sobre as miudezas e baixezas do cotidiano, mas busca moldá-las por meio da flexibilidade oferecida pela forma do ensaio.

Mais do que mostrar sua habilidade de escrita ao alcançar outros “tons” de escrita realista (teríamos um eu escritor exibicionista?), Knausgaard conquista os leitores mais afeiçoados à tradição logo no início do seu romance. E, então, os conduz delicadamente aos interiores de sua vida privada, para apresentar-lhes uma emocionante “aventura do banal”.

A presença da dicção ensaística coloca a própria forma do romance em questão. Lendo-a assim, como um longo texto autobiográfico em que o autor ensaia a si mesmo narrativamente, emerge um problema de caracterização de forma, do gênero na qual o texto se apresenta.

Considerando que alguns textos críticos consideram que as produções contemporâneas forçam os limites da especificidade que marcou a modernidade, podemos considerar que a mescla autobiografia-ensaio-romance(?) na hexalogia pode ser lida como um investimento de literatura expandida, problematizando a expansão dos limites literários via utilização de outros materiais não ficcionais expandindo os limites daquilo que até pouco tempo chamávamos de literatura.

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Sobre Fanfictions e as linhas sem palavras

Por André Neves

Em janeiro desse ano postei um texto com o título de Fanfiction e autorias fluidas, cuja escrita discutia o descentramento da autoria e a possibilidade de emergência de uma obra criada coletivamente nas redes sociais.
No processo de busca e de compreensão das formas, da estética e das narrativas contemporâneas existem possibilidades diversas de nos depararmos e nos surpreendermos com múltiplos deslocamentos estéticos que nos interpelam e apelam para outra reflexão. Deparei-me, por acaso, com uma forma de construção de narrativas e de apropriação que não diverge (ou pouco diverge) das fanfictions e causa certo desassossego no campo teórico e epistemológico.
Compro livros de forma instintiva e, por acaso, adquiri um exemplar de Sujeito oculto, de Cristiane Costa, um livro que me surpreendeu por ser uma escrita que atravessa a fronteira da teoria da “literatura”, da estética e da própria “ficção”, descentrando e reformulando a própria estética e a forma de narrar.
Minhas primeiras leituras do livro foram sobre o próprio objeto livro, iniciei uma leitura táctil e imagética (capa, figuras fontes de letras, etc.), deslizei os dedos e os olhos sobre as páginas e ao me deparar com o segundo capítulo em que as palavras, ao longo de muitas páginas, aparecem cobertar por traços pretos, questionei: “Onde está a segunda parte do livro?”, “O que houve com essa impressão?”, “o que significam essas linhas escuras?”.
O texto de Cristiane Costa induz à reflexão sobre uma questão que se encontra na orelha do livro: “é possível ser, ao mesmo tempo original e cópia?”. Parte de seu texto foi construído utilizando as teclas CTRL+ C e CTRL+V do computador, ou seja, a partir do recorta e cola de palavras e frases retiradas de outros livros, num processo de montagem.
A resenha apresentada na orelha do livro explicita que “Sujeito Oculto cria um jogo de espelhos infinitamente recuado em que o narrador nunca é quem parece ser” e afirma que “A trama tem todos os elementos de um romance clássico: amor, ódio, traição, ambição, personagens marcantes […] com o tempo, percebe-se que o enredo tradicional e a forma inovadora tratam de temas correlatos: filiação, herança e apropriação”.
O texto de Cristiane nos faz pensar sobre “o que é narrar” e sobre como as formas de narrativas podem deslocar conceitos. Sua forma de escrita aposta em um método consciente que traça uma curva sinuosa nos “caminhos retos” do modo de se fazer literatura.
Retomo aqui o parágrafo inicial e reafirmo que em meu primeiro encontro com Sujeito Oculto fui tentado a comparar sua estrutura narrativa e sua estética com outras formas do fazer literário e percebi que é possível aproximar a obra das fanfictions por colocar em crise a autoria como uma “instituição” e suscitar o questionamento sobre o estatuto do direito do autor.
As narrativas contemporâneas, portanto, surgem num contexto de apropriação da multicultura e apontam para um deslocamento e ressignificação de conteúdo narrado por um indivíduo para um conteúdo compartilhado ou de autoria partilhada. Tanto nas fics, quanto em Sujeito Oculto é possível notar esse deslocamento.
Heloisa Buarque de Holanda comentando a obra, em especial o segundo capítulo que apresenta para o leitor várias páginas em que as palavras aparecem cobertas por tarjas pretas, coloca a seguinte provocação: “Resta uma dúvida: o que estaria escrito no segundo capítulo que foi indevidamente roubado do leitor?”.
É possível que essas narrativas estejam “roubando” também as certezas da crítica e da literatura como instituições. Será que poderíamos falar então em uma literatura pós-autônoma, nos termos da crítica argentina Josefina Ludmer? . Ela tem definido a literatura pós-autônoma como aquela que sai do cerco literário, onde estava encerrada a princípios literários, como os do modernismo. A literatura trata de ser outra coisa e pode ser também uma investigação histórica, uma biografia, uma crônica, um testemunho. Ou talvez apenas brincar com a noção de texto original e desconstrui-lo, desmontá-lo. Nesse sentido, os traços que cobrem as palavras do capitulo 2 do livro de Cristiane Costa têm muito mais a dizer e pouco a ocultar.

Crítica e literatura

Por Davi Lara

Boa parte da narrativa produzida hoje desafia nosso entendimento do que consideramos literatura. Em contrapartida, existe um movimento forte, por parte da crítica, no sentido de renovar o instrumental teórico/analítico com vistas a explicitar os impasses de leitura provocados por esses objetos. Um exemplo mais concreto pode ser útil para explicar o que estou querendo dizer. Retiro-o do debate em torno da autoficção, que é meu objeto de pesquisa. Num estudo de referência sobre o assunto, a crítica argentina Diana Irene Klinger circunscreve a literatura autoficcional contemporânea dentro da longa tradição das escritas de si. Assim, ela chega à sua principal contribuição para a discussão sobre o tema, que é a ideia da autoficção como performance.

Dentre os muitos desdobramentos desta definição, destaco articulação entre “a escrita com uma noção contemporânea de subjetividade, isto é, um sujeito não essencial, incompleto e suscetível de auto-criação”. Isso significa que, na leitura da obra, os dados intrínsecos perdem a primazia que tinham na perspectiva da crítica representativa (veja-se “Crítica e sociologia”, de Antonio Candido, por exemplo). Em pé de igualdade com os dados intrínsecos, os críticos têm que lidar com o elemento ingovernável da vida, que invade o texto ao mesmo tempo em que cria uma série de rotas de fuga para fora dele. Criando, assim, um novo locus da literatura, agora expandida. Nem dentro e fora do texto, mas dentro-fora.

O problema começa quando nos confrontamos com os problemas concretos propostos pelas obras e pelas possibilidades de leituras. Explico-me: julgo acertado afirmar que, no que diz respeito à escrita de si, a autoficção ofereça uma forma de expressão performática da subjetividade individual. Porém, na autoficção, a escrita de si é fundida à literatura, de modo que, ao lado do caráter performativo, há sempre uma força normativa, própria do literário, conforme ele tem sido pensado pela teoria literária. Literatura é forma, é texto, e o crítico literário inevitavelmente pensa de acordo com essas categorias (também). Assim, quando menos esperamos, estamos avaliando o elemento vital, que conforma a autoficção como uma performance, como um dado textual, algo que, mesmo sendo extrínseco ao texto, se soma ao material intrínseco da obra em prol da criação de um objeto coerente, passível de análise.

Será que, ao transformar os dados da vida em objeto textual, simulacro passível de analise, não estamos obedecendo à cartilha crítica da representação? Se sim, como fugir desse gesto vicioso da atividade crítica? O que significa fazer crítica sem reduzir o elemento vivo a simulacro? Significa agir diretamente no real, por meio de posicionamentos éticos e ativismos políticos? Mas a crítica representativa já não fazia isso? E que é isso que chamamos de “real”, afinal de contas?

É claro que eu não tenho uma resposta a essas perguntas. Mas me parece que o próprio trabalho de formulá-las, corrigi-las e aperfeiçoá-las é inevitável para a crítica interessada em compreender seu lugar dentro da configuração das artes do presente.

À espera da defesa

Por Nívia Maria

CARTAZ DEFESA (1)

 

No dia 29 de agosto de 2014, publiquei neste blog meu primeiro texto sobre Bruno Tolentino: “Bruno Tolentino: o ilustre desconhecido”. De lá para cá, muitos outros textos foram postados, traçando minha trajetória de pesquisa. “Um sítio para chamar de seu”, “Um projeto editorial para Bruno Tolentino”, “O eu lírico e os outros eus”, “Um jogo complexo de figurações”, as postagens seguiam ao sabor das descobertas e constituíram um verdadeiro passo a passo das minhas investigações, agindo diretamente sobre a redação de minha tese.

Meu processo de aprendizado e de produção foi marcado pela minha participação no Grupo de Pesquisa Leituras Contemporâneas. Por meio de abordagens teóricas e críticas, o Grupo de Pesquisa fomentou leituras e discussões indispensáveis e, incitando diferentes formas de pensar a literatura, me proporcionou ocasiões nas quais pude apresentar meu trabalho acadêmico ainda em andamento e realizar trocas com meus colegas pesquisadores, compartilhando as alegrias e as angústias com as quais me deparei durante o percurso.

Além disso, no itinerário percorrido ao longo desses quatro anos, novos fatos foram se impondo e, durante a execução das etapas, novas reflexões foram sendo realizadas. Muitas experiências, como a participação em eventos científicos e a consulta ao CEDAE, acabaram ditando alterações de rotas. Fui percebendo o quanto é importante possuir um planejamento, pois, por mais que haja mudanças, ter uma estruturação do trabalho pode potencializar o aproveitamento de novos achados.

Mesmo reconhecendo a importância do planejar, fui percebendo que a pesquisa é, sobretudo, aventura. Quando publiquei em 2015 o texto “Pesquisa: uma aventura autorreflexiva” já tinha consciência de que as curvas no caminho fazem parte do processo de investigação que vai sendo realizado. Hoje, compreendo que o reexame dos rumos são efeitos desse próprio processo. Aprendi que produzir uma tese é mais construir um caminho do que seguir um caminho. No fundo, o “saber fazer” vai sendo conquistado no próprio processo de feitura. O exame de qualificação foi a etapa que mais me deu a certeza disso.

Meu anteprojeto chamava-se “O Poeta sob o Polemista: um estudo lítero-biográfico sobre Bruno Tolentino”. Logo após as primeiras disciplinas cursadas, os primeiros encontros de orientação e o avanço mais científico da pesquisa, o anteprojeto virou projeto sob o título de “O poeta sob o polemista: um estudo de trajetória do poeta Bruno Tolentino”. Com a função de especificar o caminho que o trabalho acadêmico foi tomando, esclarecendo-o, o subtítulo foi sendo alterado à medida que a pesquisa evoluía e a fundamentação teórica ia se estabelecendo. Quando submeti parte da tese ao exame de qualificação, o projeto tinha saído do papel com o título “O poeta sob o polemista: um estudo sobre a autofiguração em Bruno Tolentino”. Apesar de ter resistido por um bom tempo, esse título acabou sucumbindo nos últimos instantes e, para abarcar de forma mais abrangente o todo do trabalho, foi entregue à banca da defesa a tese intitulada “Eu, modelo, martelo e monumento: um estudo sobre a autofiguração em Bruno Tolentino”.

Os títulos e subtítulos supracitados mapearam a direção que a pesquisa foi tomando: do Tolentino polemista ao Tolentino poeta, da crítica biográfica ao estudo de trajetória, do estudo de trajetória ao estudo sobre autofiguração. Levantei informações, selecionei, filtrei, relacionei, reelaborei, gerei um corpo de conhecimentos que me levou a conciliar os estudos sobre autofiguração com a teoria dos campos de Bourdieu na tentativa de provar que a mitificação da biografia pelo próprio Tolentino, a instauração de antagonismos com outros agentes do campo e a presença de rastros autobiográficos em sua produção poética e ensaística constituíam um empenho para demarcar sua diferença no campo literário brasileiro.

Daqui a pouco mais de dez dias, vou me apresentar diante de uma banca de doutores para realizar a defesa de minha tese. Mais um ritual de passagem que a jornada acadêmica vai determinando. Sei que não será um momento fácil, mas um doutorado não é para ser fácil, talvez por isso mesmo seja tão instigante e producente. Com as contribuições ainda por vir dos integrantes da banca, a defesa ainda não será o fim da travessia, mas, como os melhores ritos, será, com certeza, uma celebração.