Arquivo da categoria: Milena Tanure

A densidade do urbano em Pensamentos supérfluos, de Evanilton Gonçalves

Milena Tanure

Créditos da imagem: Pintura de Luís Rosa. Disponível em: https://www.hypeness.com.br/wp-content/uploads/2017/01/LuisRosa16.jpg

Pensamentos supérfluos: coisas que desaprendi com o mundo é o primeiro livro de Evanilton Gonçalves. Publicado pela ParaLeLo 13S em 2017, o livro compreende a primeira empreitada do autor no mercado editorial. Chama a atenção o estilo desse jovem autor baiano que, sendo formado em letras, ensaia uma dicção literária inicialmente no universo dos blogs e, em seguida, publica seus escritos no formato do livro impresso. Falar de um gênero específico para esses textos não é fácil, afinal, tratam-se de contos, microcontos, aforismas ou prosa poética? Também há muitos diálogos intertextuais implícitos ou explícitos a serem desvendados pelo leitor, pois o texto é montado com referências a Fernando Pessoa, Mario Benedetti, Jorge Luís Borges, Machado de Assis, Milton Hatoum e tantos outros.

O livro se estrutura por meio de duas partes: a primeira com 50 pensamentos supérfluos e a segunda denominada Coisas que desaprendi com o mundo. Na primeira parte do livro, somos apresentados a cinquenta desses pensamentos cuja superficialidade aparece apenas como título provocativo. Cada um desses textos nos coloca diante de inquietações que passeiam das questões existenciais da condição humana às reflexões contemporâneas dos sujeitos coletivos, como nos indica o pensamento supérfluo nº 23: “Enquanto assimilarmos apenas signos vazios, seremos tão somente corpos ocos, vagando pela opulência do mundo” (p. 51). A segunda parte, por sua vez, Coisas que desaprendi com o mundo, apresenta pequenos contos ou microcontos que também colocam em cena um certo gingar entre o urbano e as formas literárias.

Meu interesse maior pelo livro reside aí: na maneira pela qual o jovem escritor forja uma certa imagem de Salvador, cidade em que vive. Os textos, sobretudo os da primeira parte, surgem quase que como pequenas anotações que poderiam parecer rabiscadas em meio ao caos dos dias, Nesse sentido, muito precisa é a afirmação do professor Antônio Marcos Pereira, que prefacia o livro, no sentido de pensar o livro como uma atualização do olhar baudelairiano que nos coloca diante de um sujeito “proletário, afrodescendente, periférico, grafiteiro, pegador de buzu, erudito das ruas, mestre da faculdade, esse haveria de ser um Outro Baudelaire. Que bom que seja assim”.

É a partir da percepção de que as narrativas nos colocam diante de um “Outro Baudelaire” que vamos percebendo uma certa representação da cidade. As narrativas de Pensamentos Supérfluos nos levam a andar pelas ruas de Salvador. O ônibus pode ser considerado como uma espécie de laboratório social, pois é de dentro dele que, com ironia e crítica, o narrador nos apresenta uma espacialidade urbana e uma perspectiva particular da dinâmica do cenário soteropolitano. Assim, espreitando as esquinas e ocupando as praças, uma rotina inquietante de uma dada Salvador com suas desordens cotidianas vai se desvelando pela leitura. Tendo vivido em bairros como São Caetano e Liberdade, Evanilton convida o leitor a passear por uma cena periférica que revela a alteridade de uma cidade de cartão postal, subsumida na zona do centro cultural e econômico da cidade: “Perturbador e talvez humilhante foi descobrir que Salvador é flor com espinhos”.

Anúncios

Mapas e simulacros: representações do espaço urbano

Milena Tanure

Créditos da Imagen: Mapa de Lopo Homem II, Adriana Varejão

Como uma cidade pode caber em um mapa? Como uma fotografia do espaço urbano capta uma cidade? Ouso supor que embora tenhamos a tendência a considerar os modos de representação dos espaços de maneira realista, temos apenas acesso a simulacros, mas não me refiro aos simulacros platônicos, pois a narrativa literária, sobretudo após a crise da representação, não mais se equipara às idealizações platônicas de imitação do real, razão pela qual, falar das imagens do urbano nas literaturas contemporâneas impõe pensar para além da mera falsidade das representações.

Pensei nisso ao assistir ao curta “Nunca é noite no mapa“, de Ernesto de Carvalho. Nele, acompanhamos um deslocamento feito pelo mapa ali representado pelo carro da Google responsável pelas imagens do Google Maps. Construída a partir das imagens capturadas pelo automóvel, a narrativa fílmica problematiza o encontro frontal entre aquele que narra e o próprio mapa, bem como entre o mapa e as transformações das cidades.

Carvalho está interessado em Recife e em pensar questões como especulação imobiliária, desapropriação, violência, pobreza, o capitalismo na era digital e a própria constituição dos mapas. Por meio de frases curtas que duram o tempo da captura da imagem, como versos de um poema, o narrador desenha seu próprio mapa com palavras e imagens e possibilita a reflexão sobre seu próprio projeto cartográfico: “O mapa não anda, nem voa, nem corre, não sente desconforto, não tem opinião. Pro mapa não há governo, não há golpe de estado, não há revolução. Nunca é noite no mapa”. Por meio de uma crítica ao próprio ato de mapear a cidade vai se delineando no filme uma dimensão política e estética sobre o espaço urbano, simultaneamente uma crítica ao poder público e às representações da cidade.

O curta compõe também uma cartografia política à medida que revela cenas cotidianas da violência. É o caso das “batidas policiais” registradas e expostas no curta a partir das imagens captadas pelas câmeras do próprio Google e de sua viatura às quais se sobrepõe a voz narrativa: “Todos são iguais perante a lei. Todos são iguais perante o mapa”. Ou ainda quando assistimos ao aparato policial abrindo caminho para que o próprio carro da Google possa “fazer seu trabalho”: “cidade bem policiada. Cidade bem mapeada”.

Aí surge uma outra dimensão da representação: o que fica fora do quadro, pois qualquer um que já lançou mão de um aplicativo de localização digital por mapas para se deslocar na cidade tem a experiência concreta de que o mapa delimita um território. O curta explora essa dimensão ao expor as imagens de uma mesma rua que, por ser de barro, não é registrada pelo mapa da Google até que por ali passe o poder público com seus tratores, tornando-a acessível ao mapa.

O apagamento de determinados espaços e sujeitos associa-se a uma ideia de modernização que passa a ser reproduzida e capturada pelo mapa, que, simultaneamente, expõe e exclui. Na medida em que o carro passa várias vezes em um mesmo local, vão se projetando as imagens dos espaços, casas e um bar, que desaparecem com a passagem dos tratores e vias, expondo a exclusão e o desaparecimento de sujeitos, casas e espaços.

Se em Platão se tem uma rivalidade entre Real e Ideal, e em Aristóteles podemos pensar uma teatralização do real, para Deleuze, em Lógica do sentido, essa oposição não mais parece fazer sentido: o simulacro nos leva a pensar em gestos, movimentos que constroem representações, contribuindo, portanto, para uma certa ideia de cidade, de realidade

LIMIARES DA CRÍTICA: a construção de um discurso crítico-inventivo

Milena Tanure

Créditos da imagem: Antony Micallef, disponível em: https://inspi.com.br/2016/09/arte-contemporanea-de-antony-micallef/

Muitas das reflexões que têm sido aqui empreendidas têm nos levado a refletir sobre a multiplicidade de formas que o corpo contemporâneo assume no interior do campo literário. A instabilidade dos gêneros, a retomada ou consolidação de uma dicção ensaística, o lugar da autoria e as narrativas de si, de algum modo, vão sendo pensados ao longo dos textos e leituras aqui apresentados. Mantendo-me na linha de tais discussões, tenho refletido sobre o modo como a crítica literária tem sido afetada por esse cenário e por uma série de fatores que levam à reformulação não apenas dos seus objetos de análise, dos aparatos teóricos e críticos de que se vale, mas, em especial, da sua própria forma de feitura.

Se antes tínhamos uma exacerbada ânsia por um objetivismo na construção das ciências, sobretudo em função de um positivismo científico do século XIX que alcançou todos os campos do saber e de um estruturalismo que buscou construir bases para a análise literária, hoje, o reconhecimento da subjetividade como algo inapagável na construção textual tem sido um mote irrecusável. Dessa forma, se nas narrativas contemporâneas o lugar da autoria e os entrelaçamentos entre ficção e realidade têm sido repensados, por exemplo, no espaço da crítica, o mesmo tem se operado, seja pelo reconhecimento do crítico como leitor repleto de subjetividades ou pela constituição de um entre-lugar entre o campo da produção literária e da crítica a partir da presença de autores que se dividem entre o labor acadêmico no campo das letras e da produção ficcional.

O lugar da crítica tem sido constantemente questionado, sobretudo a partir das transformações nos distintos ramos da ciência gerados pelo declínio das ciências humanas. Nesse contexto, Eneida de Souza aponta que “o reconhecimento do estatuto ficcional das práticas discursivas e da força inventiva de toda teoria nos alerta para a íntima relação entre o artístico e o cultural no lugar da exclusão de um pelo outro”. Souza (1993) destaca, que, anteriormente, seguindo o que se tinha desde os formalistas russos, o new criticism e demais correntes da teoria literária, o destaque e maior relevância eram ofertados ao objeto de análise, sendo o sujeito, seja o autor ou ensaísta, colocado em segundo plano. O anseio da crítica de ser ciência dava origem a uma escrita que nem sempre se fazia agradável, uma vez sendo reprodução das terminologias técnicas, o que confluía para uma reprodução de enunciados e não mais uma escrita própria.

Nesse mesmo período, os paradigmas estruturalistas passaram a ser questionados, inclusive pelos seus representantes, como Roland Barthes. Questionando o discurso científico, sobretudo em seu caráter repressor do sujeito, Barthes colocou em cena o fato de “ser todo e qualquer saber indissociável de um trabalho de escrita e enunciação” (SOUZA, 1993, p.4). Nesse cenário de incertezas se apresenta uma nova roupagem à crítica ou, para melhor dizer, um novo questionamento sobre a própria literatura, o fazer ficcional e a crítica literária. Assim, pensando os processos de transmutação da crítica e da produção literária, é válido citar um discurso ambíguo e ambivalente da crítica a partir do que Leyla Perrone-Moisés (1978) denominou de Crítica-escritura. Uma vez que tal crítica interna tem sido perceptível em produções literárias contemporâneas, é possível compreender que a crítica-escritura pode ser entendida como a crítica da crítica, uma vez tendo a si mesma como objeto e sendo, ao mesmo tempo, comentário sobre a ficção e ficção. Findada a separação tradicional entre crítica e a obra literária, a escritura se mostra livre de várias formas, sendo a intertextualidade uma delas. É nesse cenário que a crítica literária se reinventa e “assistimos, então ao aparecimento de um novo tipo de discurso literário, aflorando no lugar anteriormente ocupado pelo discurso crítico: um discurso crítico-inventivo” (PERRONE-MOISÉS, 1978). Em “Notas sobre a crítica biográfica”, Eneida de Souza sinaliza o modo pelo qual, nesse cenário, a literatura deixa de ser objeto de análise e passa a também analisar e teorizar sobre si mesma. Dessa forma, “o próprio sujeito teórico se inscreve como ator no discurso e personagem de uma narrativa em construção”, cabendo citar, nesse ponto, Retrato desnatural (Diários – 2004-2007), de Evando Nascimento, com todas as suas dificuldades para a delimitação de gêneros dos seus textos e o constante trânsito entre literatura e a reflexão sobre o próprio fazer literário e a Teoria da Literatura. Diante de tais dificuldades, a epígrafe do primeiro capítulo do livro, intitulado Escrevendo no escuro, nos oferece a pista precisa dada pelo autor/narrador/crítico: “pois se tornou/imperativamente necessário/escrever na primeira pessoa, mas/sem ingenuidade, com todos os disfarces. o a(u)tor”.

Se a pesquisa na área da literatura tem revelado incertezas e imposto novos trânsitos, é preciso, com alguma coragem e opondo-se a lugares já conhecidos de conforto, reconhecer, conforme sinaliza Evelina Hoisel, que “a questão dos limiares críticos aponta para metodologias de leitura, de avaliação e de conhecimento […] [que] definem o movimento que transborda do fora para dentro, que ultrapassa fronteiras e que coloca também a necessidade metodológica, não hierarquizada e transitória de demarcar o ponto de abertura para a multiplicidade, a diversidade, a outridade, mas também de reconhecer as marcas de reconhecimento da especificidade, da particularidade e da singularidade”.

Outras experimentações do urbano: múltiplos espaços, diferentes suportes

Milena Tanure

Créditos das imagens: Imagem do livro “Territórios movediços”, de Felipe Rezende e Luma Flôres (Crédito: Caixa de Fósforo).

Iniciei as escritas neste blog falando sobre “Ruína de anjos”, uma peça teatral que, sendo encenada na rua, nos possibilita pensar uma outra experimentação da arte e da representação do urbano. O exemplo me interessa porque na minha pesquisa gostaria de empreender uma discussão sobre as representações contemporâneas da cidade de Salvador.

A princípio, as chaves de leitura eram as representações de cidade e de sua memória nas narrativas literárias baianas contemporâneas com foco na produção em prosa. No entanto, outros dispositivos têm se colocado como indispensáveis para pensar o literário e produzir uma crítica das imagens contemporâneas do urbano. Penso, por exemplo, no livro “Levante, o sistema caiu”, de Daniel Lisboa (Lambes do Mal): “é um manual de desobediência urbana. Nas páginas negras desse tratado pessimista encontramos o anti-fluxo, um atalho para lugar nenhum que pode nos leva a todos os lugares.”

Este livro consiste em uma das descobertas atuais de pesquisa. Ele faz parte do rol de livros de artista que compõe o resultado das atividades da Incubadora de Publicações Gráficas, iniciativa que buscou estimular a criação e desenvolvimento de livros de artista em Salvador e que encerrou suas atividades com a exposição coletiva realizada na RV Cultura e Arte para a divulgação das publicações oriundas do projeto. Colocando em cena algumas temáticas sobre o viver na urbe contemporânea, o projeto impõe a seus leitores questionamentos sobre a própria sacralização do suporte livro tal qual o conhecemos e tensiona as já problemáticas fronteiras entre o literário e não literário, bem como a expansão da literatura por diferentes caminhos do universo da arte.

Dentre os livros da Incubadora estão Multidão de Lucas Moreira e Gris que
inventaria um rol de sujeitos que caminham pelas ruas de Salvador e que são deslocadas para o interior do livro em processo de subjetivação; livro-objeto Marear de Taygoara Aguiar que propõe um trânsito marítimo por embarcações pesqueiras e de passeio dos portos da Baía de Todos os Santos através de uma cartografia afetiva e Territórios Movediços de Felipe Rezende e Luma Flôres que, como consta no release do evento, “aborda realidade, espaço e simulação a partir de mapas da cidade de Salvador. De caráter labiríntico, tal como a velha cidade, suas dobras e traçados urbanos são caminhos por onde se desenrolam um diálogo imaginário entre trechos de Jorge Luís Borges e Jean Baudrillard, protagonizado por personagens que transformam de maneira imediata o espaço […]Funciona simultaneamente como território, livro e objeto escultórico, proporcionando diferentes possibilidades de leitura”.

Diante dessas produções, me dou conta de que quero pensar o corpo que
cartografa, como ele lê/vive a cidade, que cidade é essa e que corpo é esse que se representa. O que procuro não está em estruturas sólidas como antigas construções, mas em processos de feitura, em busca de lugar ou, simplesmente, em trânsito.

A partir dos processos de errâncias urbanas que Paola Berenstein propõe a partir do entrelace entre as experiências urbanas e as narrativas contemporâneas, proponho pensar os processos de subjetivação a partir das experimentações urbanas e, dessa forma, perceber uma cartografia do simbólico em narrativas muito particulares. Vai se percebendo, assim, o modo pelo qual essa pesquisa, pensando imagens de Salvador que se presentificam pela via literária, reconhece a existência de múltiplas vozes que deixam ver representações capazes de revelar a heterogeneidade discursiva da cidade. O contato com os livros aqui citados possibilita pensar, assim, que a pesquisa vai tomando os seus rumos e permite entender, ainda, que, como um corpo errante, o diálogo se dará com representações múltiplas nas múltiplas linhas que entrecruzam a cidade.

Mercado editorial baiano: algumas inquietações iniciais

Milena Tanure

sergio rabinovitz

Créditos da imagem: Sergio Rabinovitz. A cidade acrílico s/papel 70X50cm, do livro Bahia (P55, 2002).

Na última semana, recebeu destaque na imprensa nacional a notícia de que o escritor brasileiro e baiano Itamar Vieira Junior foi o vencedor do Prêmio Leya de Literatura pelo romance Torto Arado, a ser publicado pelo grupo editorial português. Esse mesmo escritor, com o livro de contos A Oração do Carrasco, é um dos finalistas do Prêmio Jabuti de 2018. A projeção de Itamar no cenário literário nacional e internacional me leva a retomar questões que me inquietam: a produção e visibilidade de uma literatura produzida por autores e editoras baianas.

Em texto de 2007 no qual apresenta um panorama sobre a literatura baiana contemporânea, a crítica literária e acadêmica Gerana Damulaski indica que “embora se saiba que a literatura brasileira nasceu na Bahia com Gregório de Matos e os outros poetas da época, e se saiba igualmente de nomes famosos como Castro Alves, Adonias Filho, Jorge Amado, a verdade é que hoje não se tem conhecimento nos outros estados do que se vem fazendo de literatura da mais alta qualidade na Bahia”. Muito embora esse texto tenha pouco mais de 10 anos, o cenário apresentado pela acadêmica não parece ser muito diferente, apesar das feiras literárias nacionais e internacionais que têm se multiplicado em solo baiano e, em alguma medida, possibilitado alguma visibilidade a uma produção mais contemporânea. De algum modo, minhas colocações aqui buscam refletir sobre o modo pelo qual a produção literária baiana tem encontrado certos entraves para se fazer publicar, circular e ser lida, tanto em cenário local como em todo o país.

Para a discussão que pretendo empreender, é interessante pensar o modo pelo qual o Rio Grande do Sul constituiu um solo fértil para a produção literária brasileira contemporânea. Em 2013, por exemplo, autores como Luís Fernando Veríssimo, Cíntia Moscovich, Daniel Galera e Altair Martins venceram, respectivamente, os prêmios Jabuti, Portugal Telecom, Prêmio São Paulo de Literatura e o Prêmio Moacyr Scliar. Pensando esse protagonismo da produção gaúcha, é preciso reconhecer que Porto Alegre possui um tradicional circuito literário, movimentado por feiras e oficinas, além de um programa de pós-graduação em Escrita Criativa (PUC-RS).

Na Bahia, o cenário me parece outro. Apesar de acompanharmos novas vias de escoamento dos textos, como os saraus que têm crescido e ganhado força, sobretudo em Salvador, bem como a produção em blogues, as falas dos escritores contemporâneos, assim como as pesquisas que têm sido feitas, têm revelado o modo pelo qual a cena literária baiana tem dado a ver um contexto marcado pelas dificuldades relacionadas não apenas à publicação e circulação do livro, mas também à profissionalização do escritor.

Esse contexto não é recente. Em texto de 1986, o escritor Guido Guerra relacionou esse cenário com a ausência de uma política editorial no Estado. Segundo ele, “nosso movimento editorial sempre fracassou porque, estruturado em bases não empresariais, não resolveu o problema da distribuição a nível nacional. As obras em geral aqui editadas nunca tiveram tiragens superiores a mil exemplares, dos quais uma parcela irrisória é comprada pelos amigos no dia do lançamento (às vezes nem precisam comprar, são presenteados) e a maior parte, timidamente colocado no mercado livreiro local, sem outra chance senão a do encalhe”.

Revelando cenário não muito diferente no século XXI, em entrevista ao jornal A Tarde em 2002, alguns escritores baianos discutiram os novos rumos da literatura e apresentaram alguns entraves experimentados pela produção local. Nesse sentido, Aramis Ribeiro fez a seguinte colocação: “Os grandes problemas da Bahia nós já conhecemos, que são a distribuição, a vendagem, o isolamento, que na verdade não é só da Bahia, é do Brasil, que é um arquipélago de culturas, de literaturas. A literatura que se torna nacional, realmente, é aquela literatura que vem do Sul e que consegue a conexão nacional. As outras permanecem isoladas”.

Assim, se os prêmios recentemente conferidos a escritores baianos talvez ajudem a contornar certo isolamento regional originário de um mercado limitado, a ausência de espaço na imprensa e o quase inexistente investimento público, provocam um outro efeito colateral: estimulam o crítico a pensar a constituição do campo literário e suas implicações para a produção, circulação e divulgação da produção literária na Bahia, no Brasil.

Uma experiência de leitura: Zanga, de Davi Nunes

Milena Tanure

livro_zanga_davi_nunes

Capa do livro. Imagem cedida pela editora.

Se no texto anterior esbocei um desejo de apresentar o tema ou os interesses da minha pesquisa, agora desejo deixar mais nítidos os caminhos para os quais se direcionam minhas inquietações de pesquisadora.

Como talvez já tenha sinalizado, minhas inclinações têm se voltado para as discussões sobre espaço urbano e espaço editorial a partir do cenário de uma literatura baiana contemporânea. É nesse sentido que meu interesse tem se voltado para as ocupações espaciais, físicas e simbólicas desses campos. Me interessa pensar de que forma o corpo urbano e o corpo humano se interligam nas narrativas contemporâneas, dando a ver, talvez, novas espacialidades da cidade de Salvador e práticas outras de sociabilidade no universo da representação. Da mesma forma, passa a me interessar como esse corpo que ginga no espaço urbano também faz transitar seus discursos na busca de uma produção de sentido e na tentativa de forjar um espaço dentro do cenário de publicações baianas para romper fronteiras e alcançar maior projeção.

Para esse texto havia pensado em encarar, ainda que de modo muito incipiente, o que chamo de literatura baiana, já pensando a razão dessa adjetivação na minha pesquisa e a sua relação com o mercado editorial. No entanto, tomando alguns termos de experimentação emprestados da pesquisadora e professora Paola Berenstein Jacques, em minhas deambulações e errâncias pelos caminhos da pesquisa e pelos espaços urbanos, fui atravessada por um recente lançamento que muito provavelmente fará parte do corpus da minha pesquisa. Trata-se do livro de contos Zanga, de Davi Nunes, lançado pela editora Segundo Selo no último dia 19.

Poeta, contista e escritor de literatura infantojuvenil, Davi Nunes, apesar de fazer parte de uma cena mais contemporânea e jovem da produção literária baiana, já acumula em seu currículo, além da graduação em letras e mestrado em andamento também nessa área, a edição da revista artística-acadêmica Cinzas no Café (2011), a participação em antologias e sites de cultura negra, e o aclamado livro de literatura infantojuvenil Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula (2016). O escritor também mantém o blog Duque dos banzos que “versa sobre a cultura afro-brasileira: prosas, poesias e ensaios [que] buscam dar conta da memória, da humanidade, da ancestralidade, da polifonia verbal, rítmica e corpórea que circundam o universo do negro brasileiro”.

Aqui, pretendo apenas ensaiar uma fala sobre minha experiência de leitura, tematizando o modo como as narrativas dialogam com o que desejo inventariar com a minha pesquisa. Zanga nos fala de ancestralidades africanas, da tensão racial brasileira, das potências e agruras de se viver na cidade contemporânea e de relações interpessoais, deslizando por vários polos enunciativos. Todas essas questões se interligam em uma espacialidade urbana múltipla, ainda que a periferia seja predominante.

Nas dezenove narrativas que compõem a obra vai se delineando para o leitor um sentimento de angústia por uma cidade que seduz, mas sobre a qual paira o medo experimentado, sobretudo, pelos corpos periféricos. Como afirmado pelo próprio escritor no lançamento do livro, a presença da morte nos contos que compõem a obra se justifica porque a cidade de Salvador é marcada pela morte. Em entrevista cedida ao Portal Soteropreta, acrescenta: “Sou de Salvador e, para as pessoas negras, esta cidade é um verdadeiro campo de morte. O corpo negro é um corpo sitiado, um corpo sem status político, um corpo nu, um corpo inimigo, um corpo em constante injúria pelas instituições de poder, um corpo do genocídio, da cesura biológica, do racismo. Um corpo cuja política de estado é a morte, um corpo que está localizado onde o estado é sempre de exceção, a periferia”. Muito embora as narrativas se desenvolvam quase sempre a partir de uma tensão, calcada no necropoder, para lembrar a expressão de Achille Mbambe, nos “necrocontos”, não há repulsa pelo espaço urbano.

Uma leitura menos cuidadosa ou apressada poderia levar a supor que zanga é raiva ou que a periferia é meramente marcada pelo medo ou pela dor, mas a escrita de Davi é sofisticada e potente. Compondo uma cartografia afetiva dos bairros, em especial o Cabula e seu entorno, região periférica de Salvador, o escritor tece um diálogo com um passado ancestral que rompe com as visões tradicionais ou reducionistas da presença negra na formação do país e, sobretudo, da cidade de Salvador. Por tal motivo, em seu blog, o autor afirma que, etimologicamente, zanga não se resume ou equivale à raiva, relacionando-se muito mais com rebeldia, bravura, coragem e combatividade. Para ele, zanga é “super poder, é ancestral e por isso contemporâneo, é luz que desponta do cosmo do buraco negro e irradia o terceiro olho do faraó que está adormecido em nós. É o momento áureo da autoconsciência negra, é a negritude como força intempestiva, como ação – zangar.”

As narrativas não nos falam só da potência e das ocupações dos corpos negros numa perspectiva física, nos falam também de ocupação no campo do simbólico. Talvez não seja por outra razão que sujeitos negros e periféricos se apresentam como personagens que ocupam os espaços universitários, forjando novas epistemes e falando de autores e pensamentos não hegemônicos. Além disso, em algumas narrativas, há também os espaços da escrita, que tematizam as agruras da profissionalização do escritor como no conto O enterro: “sou alcóolatra e um negro escritor posto de parte das estruturas editoriais, um gênio obliterado”.

Entre ruas, esquinas, becos, telhas e tijolos sem reboco, as narrativas de Zanga convidam a imagens de uma outra urbe que se misturam às centralidades de Salvador. As narrativas, se não romantizam uma imagem periférica, também não nos apresentam as vidas narradas como facilmente explicáveis. A realidade periférica, com suas vivências e potências, torna perturbadora a experiência de leitura, pois os contos convidam o leitor, que “vai se aquilombando”, como disse o próprio Davi Nunes no lançamento do livro, a percorrer a cidade e o próprio processo de escrita do autor, de seus personagens e dos narradores escritores. E é bom lembrarmos que o quilombo não é lugar de fuga, é lugar de vida, potência, resistência, ocupação e zanga.

Ruína de anjos: formas de experimentação urbanas e artísticas

Milena Tanure

33355491_2208924899134630_8434981092607393792_n

Créditos: Diney Araújo

Para uma primeira experimentação nesse formato de escrita, proponho-me a dar breves notícias sobre as minhas inclinações de pesquisa. As pesquisas, como a vida, são feitas de atravessamentos, talvez por isso, não só os objetos literários interessam como vias de inquietação e de repensar os aparatos teóricos (e vice-versa), mas também as próprias vias de encontros e desencontros acabam auxiliando no processo de dar forma a um corpus/corpo.

Nesse processo de encontros e desencontros, na busca pelas produções literárias contemporâneas que se projetam a partir da Bahia e que colocam em cena formas de experimentação e representação do urbano, discussão que começo a forjar como pesquisa, deparei-me com a peça teatral Ruína de Anjos.

A montagem do grupo A outra companhia de teatro rompe os extremos do espaço teatral e nos leva para a rua. A experiência urbana tem o poder de surpreender os espectadores que experimentam as espacialidades e trafegam pelas narrativas que se desenrolam na rua ao longo da peça. As cenas, personagens e leitores se entrelaçam entre os carros, lojas e transeuntes que povoam as ruas do Politeama, bairro do centro antigo de Salvador.

Mas um aviso prévio é dado por uma das personagens antes que se comece o trânsito: “Fiquem atentos. Não há a nada a assistir. A palavra de ordem é ENXERGAR”.

Ruína de Anjos, criação de Vinícius Lírio e Luiz Antônio Sena Jr, desenvolve-se a partir da possibilidade da reabertura de um antigo cinema de rua e a esperança de retorno a um passado de efervescência do centro antigo. Nesse cenário, as personagens vão saindo de suas sombras por entre os transeuntes/espectadores ao longo do trajeto que faz um percurso pelas ruas do bairro. Ou, em sentido contrário, os transeuntes/espectadores adentram as sombras para acessar aquilo que não era visto com atenção. Em um jogo entre realidade e ficção, nos deparamos com figuras muito possíveis nos centros antigos das cidades: uma artista de rua que solta fogo nas sinaleiras, uma velha moradora de rua, um cadeirante vendedor de “cafezinho”, um jovem homofóbico opressor que impõe um discurso burguês, uma travesti que faz ponto nas esquinas e um jovem pastor que, com sagacidade, prega e trafica drogas.

As cenas se desenvolvem na possibilidade de se pensar o abandono dos espaços públicos, a mendicância, a gentrificação, as violências urbanas, a ausência de acessibilidade e os atos de homofobia. No caminhar, quase que não há cenas prontas ou estanques, uma vez que não há a alteração do cenário urbano para a realização da produção cênica, assim, é preciso esperar o sinal fechar para seguir o trajeto e a encenação, do mesmo modo, algum dos materiais usados pode cair pelo chão e ser pego por um dos espectadores, sendo ele próprio chamado a atuar/experimentar a errância urbana que é ali teatralizada. O espectador é convidado a partilhar e testemunhar a intervenção desses personagens que passam por um processo de invisibilidade no dia-a-dia, mas que, dentro da obra, extrapolam suas barreiras e se mostram a um leitor/espectador que não sabe o que esperar ao se deparar com aquilo que sempre vê ao transitar pela cidade, mas, por vezes, não enxerga. Entra em cena a produção de sentidos de alteridade na trama da encenação e a própria ideia de experiências contemporâneas.

Contrapondo-se à ideia proposta por Agamben de estarmos vivendo a expropriação da experiência na contemporaneidade, Paola Berenstein Jacques problematiza que talvez estejamos vivenciando um processo de esterilização da experiência, e, em especial, da experiência da alteridade na cidade. Tal processo de esterilização não geraria a total destruição da experiência, mas a domesticação, o anestesiamento oriundo, sobretudo, de uma espetacularização da cidade e pacificação do espaço público por meio de falsos consensos que escamoteiam as tensões inerentes a esses cenários. É nesse contexto que se torna mais relevante a valorização da alteridade urbana e desse Outro urbano que resiste à construção dos “pseudoconsensos publicitários”. Segundo Jacques, “são sobretudo os habitantes das zonas opacas da cidade, dos ‘espaços do aproximativo e da criatividade’, como dizia Milton Santos, das zonas escondidas, ocultadas, apagadas, que se opõem às zonas luminosas, espetaculares, gentrificadas. Uma outra cidade, opaca, intensa e viva se insinua assim nas brechas, margens e desvios do espetáculo urbano pacificado. O Outro urbano é o homem ordinário que escapa – resiste e sobrevive – no cotidiano, da anestesia pacificadora. Como bem mostra Michel de Certeau, ele inventa seu cotidiano, reinventa modos de fazer, astúcias sutis e criativas, táticas de resistência e de sobrevivência pelas quais se apropria do espaço urbano e assim ocupa o espaço público de forma anônima e dissensual.”

Extrapolando bordas de representação, a peça teatral nos fala de degradação social, espacial e humana, mas nos leva a pensar, ainda, o trânsito urbano e as formas de experimentação urbanas e artísticas. É pelas vielas, esquinas e paralelepípedos, no meio do que vive ou agoniza, que experienciamos, pela arte, a vida urbana. Nesse sentido, a experiência estética com a narrativa cênica-dramaturgica coloca-me diante do fato de que, para pensar o urbano no literário, preciso experimentar linguagens e, mais do que isso, tal como um cartógrafo, ser, antes de tudo, uma antropófaga, que a tudo devora pela potência e os atravessamentos que tais experiências podem gerar no meu corpo, e consequentemente, no corpo da pesquisa que proponho.