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Uma experiência de leitura: Zanga, de Davi Nunes

Milena Tanure

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Capa do livro. Imagem cedida pela editora.

Se no texto anterior esbocei um desejo de apresentar o tema ou os interesses da minha pesquisa, agora desejo deixar mais nítidos os caminhos para os quais se direcionam minhas inquietações de pesquisadora.

Como talvez já tenha sinalizado, minhas inclinações têm se voltado para as discussões sobre espaço urbano e espaço editorial a partir do cenário de uma literatura baiana contemporânea. É nesse sentido que meu interesse tem se voltado para as ocupações espaciais, físicas e simbólicas desses campos. Me interessa pensar de que forma o corpo urbano e o corpo humano se interligam nas narrativas contemporâneas, dando a ver, talvez, novas espacialidades da cidade de Salvador e práticas outras de sociabilidade no universo da representação. Da mesma forma, passa a me interessar como esse corpo que ginga no espaço urbano também faz transitar seus discursos na busca de uma produção de sentido e na tentativa de forjar um espaço dentro do cenário de publicações baianas para romper fronteiras e alcançar maior projeção.

Para esse texto havia pensado em encarar, ainda que de modo muito incipiente, o que chamo de literatura baiana, já pensando a razão dessa adjetivação na minha pesquisa e a sua relação com o mercado editorial. No entanto, tomando alguns termos de experimentação emprestados da pesquisadora e professora Paola Berenstein Jacques, em minhas deambulações e errâncias pelos caminhos da pesquisa e pelos espaços urbanos, fui atravessada por um recente lançamento que muito provavelmente fará parte do corpus da minha pesquisa. Trata-se do livro de contos Zanga, de Davi Nunes, lançado pela editora Segundo Selo no último dia 19.

Poeta, contista e escritor de literatura infantojuvenil, Davi Nunes, apesar de fazer parte de uma cena mais contemporânea e jovem da produção literária baiana, já acumula em seu currículo, além da graduação em letras e mestrado em andamento também nessa área, a edição da revista artística-acadêmica Cinzas no Café (2011), a participação em antologias e sites de cultura negra, e o aclamado livro de literatura infantojuvenil Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula (2016). O escritor também mantém o blog Duque dos banzos que “versa sobre a cultura afro-brasileira: prosas, poesias e ensaios [que] buscam dar conta da memória, da humanidade, da ancestralidade, da polifonia verbal, rítmica e corpórea que circundam o universo do negro brasileiro”.

Aqui, pretendo apenas ensaiar uma fala sobre minha experiência de leitura, tematizando o modo como as narrativas dialogam com o que desejo inventariar com a minha pesquisa. Zanga nos fala de ancestralidades africanas, da tensão racial brasileira, das potências e agruras de se viver na cidade contemporânea e de relações interpessoais, deslizando por vários polos enunciativos. Todas essas questões se interligam em uma espacialidade urbana múltipla, ainda que a periferia seja predominante.

Nas dezenove narrativas que compõem a obra vai se delineando para o leitor um sentimento de angústia por uma cidade que seduz, mas sobre a qual paira o medo experimentado, sobretudo, pelos corpos periféricos. Como afirmado pelo próprio escritor no lançamento do livro, a presença da morte nos contos que compõem a obra se justifica porque a cidade de Salvador é marcada pela morte. Em entrevista cedida ao Portal Soteropreta, acrescenta: “Sou de Salvador e, para as pessoas negras, esta cidade é um verdadeiro campo de morte. O corpo negro é um corpo sitiado, um corpo sem status político, um corpo nu, um corpo inimigo, um corpo em constante injúria pelas instituições de poder, um corpo do genocídio, da cesura biológica, do racismo. Um corpo cuja política de estado é a morte, um corpo que está localizado onde o estado é sempre de exceção, a periferia”. Muito embora as narrativas se desenvolvam quase sempre a partir de uma tensão, calcada no necropoder, para lembrar a expressão de Achille Mbambe, nos “necrocontos”, não há repulsa pelo espaço urbano.

Uma leitura menos cuidadosa ou apressada poderia levar a supor que zanga é raiva ou que a periferia é meramente marcada pelo medo ou pela dor, mas a escrita de Davi é sofisticada e potente. Compondo uma cartografia afetiva dos bairros, em especial o Cabula e seu entorno, região periférica de Salvador, o escritor tece um diálogo com um passado ancestral que rompe com as visões tradicionais ou reducionistas da presença negra na formação do país e, sobretudo, da cidade de Salvador. Por tal motivo, em seu blog, o autor afirma que, etimologicamente, zanga não se resume ou equivale à raiva, relacionando-se muito mais com rebeldia, bravura, coragem e combatividade. Para ele, zanga é “super poder, é ancestral e por isso contemporâneo, é luz que desponta do cosmo do buraco negro e irradia o terceiro olho do faraó que está adormecido em nós. É o momento áureo da autoconsciência negra, é a negritude como força intempestiva, como ação – zangar.”

As narrativas não nos falam só da potência e das ocupações dos corpos negros numa perspectiva física, nos falam também de ocupação no campo do simbólico. Talvez não seja por outra razão que sujeitos negros e periféricos se apresentam como personagens que ocupam os espaços universitários, forjando novas epistemes e falando de autores e pensamentos não hegemônicos. Além disso, em algumas narrativas, há também os espaços da escrita, que tematizam as agruras da profissionalização do escritor como no conto O enterro: “sou alcóolatra e um negro escritor posto de parte das estruturas editoriais, um gênio obliterado”.

Entre ruas, esquinas, becos, telhas e tijolos sem reboco, as narrativas de Zanga convidam a imagens de uma outra urbe que se misturam às centralidades de Salvador. As narrativas, se não romantizam uma imagem periférica, também não nos apresentam as vidas narradas como facilmente explicáveis. A realidade periférica, com suas vivências e potências, torna perturbadora a experiência de leitura, pois os contos convidam o leitor, que “vai se aquilombando”, como disse o próprio Davi Nunes no lançamento do livro, a percorrer a cidade e o próprio processo de escrita do autor, de seus personagens e dos narradores escritores. E é bom lembrarmos que o quilombo não é lugar de fuga, é lugar de vida, potência, resistência, ocupação e zanga.

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Ruína de anjos: formas de experimentação urbanas e artísticas

Milena Tanure

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Créditos: Diney Araújo

Para uma primeira experimentação nesse formato de escrita, proponho-me a dar breves notícias sobre as minhas inclinações de pesquisa. As pesquisas, como a vida, são feitas de atravessamentos, talvez por isso, não só os objetos literários interessam como vias de inquietação e de repensar os aparatos teóricos (e vice-versa), mas também as próprias vias de encontros e desencontros acabam auxiliando no processo de dar forma a um corpus/corpo.

Nesse processo de encontros e desencontros, na busca pelas produções literárias contemporâneas que se projetam a partir da Bahia e que colocam em cena formas de experimentação e representação do urbano, discussão que começo a forjar como pesquisa, deparei-me com a peça teatral Ruína de Anjos.

A montagem do grupo A outra companhia de teatro rompe os extremos do espaço teatral e nos leva para a rua. A experiência urbana tem o poder de surpreender os espectadores que experimentam as espacialidades e trafegam pelas narrativas que se desenrolam na rua ao longo da peça. As cenas, personagens e leitores se entrelaçam entre os carros, lojas e transeuntes que povoam as ruas do Politeama, bairro do centro antigo de Salvador.

Mas um aviso prévio é dado por uma das personagens antes que se comece o trânsito: “Fiquem atentos. Não há a nada a assistir. A palavra de ordem é ENXERGAR”.

Ruína de Anjos, criação de Vinícius Lírio e Luiz Antônio Sena Jr, desenvolve-se a partir da possibilidade da reabertura de um antigo cinema de rua e a esperança de retorno a um passado de efervescência do centro antigo. Nesse cenário, as personagens vão saindo de suas sombras por entre os transeuntes/espectadores ao longo do trajeto que faz um percurso pelas ruas do bairro. Ou, em sentido contrário, os transeuntes/espectadores adentram as sombras para acessar aquilo que não era visto com atenção. Em um jogo entre realidade e ficção, nos deparamos com figuras muito possíveis nos centros antigos das cidades: uma artista de rua que solta fogo nas sinaleiras, uma velha moradora de rua, um cadeirante vendedor de “cafezinho”, um jovem homofóbico opressor que impõe um discurso burguês, uma travesti que faz ponto nas esquinas e um jovem pastor que, com sagacidade, prega e trafica drogas.

As cenas se desenvolvem na possibilidade de se pensar o abandono dos espaços públicos, a mendicância, a gentrificação, as violências urbanas, a ausência de acessibilidade e os atos de homofobia. No caminhar, quase que não há cenas prontas ou estanques, uma vez que não há a alteração do cenário urbano para a realização da produção cênica, assim, é preciso esperar o sinal fechar para seguir o trajeto e a encenação, do mesmo modo, algum dos materiais usados pode cair pelo chão e ser pego por um dos espectadores, sendo ele próprio chamado a atuar/experimentar a errância urbana que é ali teatralizada. O espectador é convidado a partilhar e testemunhar a intervenção desses personagens que passam por um processo de invisibilidade no dia-a-dia, mas que, dentro da obra, extrapolam suas barreiras e se mostram a um leitor/espectador que não sabe o que esperar ao se deparar com aquilo que sempre vê ao transitar pela cidade, mas, por vezes, não enxerga. Entra em cena a produção de sentidos de alteridade na trama da encenação e a própria ideia de experiências contemporâneas.

Contrapondo-se à ideia proposta por Agamben de estarmos vivendo a expropriação da experiência na contemporaneidade, Paola Berenstein Jacques problematiza que talvez estejamos vivenciando um processo de esterilização da experiência, e, em especial, da experiência da alteridade na cidade. Tal processo de esterilização não geraria a total destruição da experiência, mas a domesticação, o anestesiamento oriundo, sobretudo, de uma espetacularização da cidade e pacificação do espaço público por meio de falsos consensos que escamoteiam as tensões inerentes a esses cenários. É nesse contexto que se torna mais relevante a valorização da alteridade urbana e desse Outro urbano que resiste à construção dos “pseudoconsensos publicitários”. Segundo Jacques, “são sobretudo os habitantes das zonas opacas da cidade, dos ‘espaços do aproximativo e da criatividade’, como dizia Milton Santos, das zonas escondidas, ocultadas, apagadas, que se opõem às zonas luminosas, espetaculares, gentrificadas. Uma outra cidade, opaca, intensa e viva se insinua assim nas brechas, margens e desvios do espetáculo urbano pacificado. O Outro urbano é o homem ordinário que escapa – resiste e sobrevive – no cotidiano, da anestesia pacificadora. Como bem mostra Michel de Certeau, ele inventa seu cotidiano, reinventa modos de fazer, astúcias sutis e criativas, táticas de resistência e de sobrevivência pelas quais se apropria do espaço urbano e assim ocupa o espaço público de forma anônima e dissensual.”

Extrapolando bordas de representação, a peça teatral nos fala de degradação social, espacial e humana, mas nos leva a pensar, ainda, o trânsito urbano e as formas de experimentação urbanas e artísticas. É pelas vielas, esquinas e paralelepípedos, no meio do que vive ou agoniza, que experienciamos, pela arte, a vida urbana. Nesse sentido, a experiência estética com a narrativa cênica-dramaturgica coloca-me diante do fato de que, para pensar o urbano no literário, preciso experimentar linguagens e, mais do que isso, tal como um cartógrafo, ser, antes de tudo, uma antropófaga, que a tudo devora pela potência e os atravessamentos que tais experiências podem gerar no meu corpo, e consequentemente, no corpo da pesquisa que proponho.