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Sobre armários e soropositividade

Ramon Amorim

Créditos da imagem: Keith Haring, sem título, 1983.

O livro O segundo armário: diário de um jovem soropositivo, de Gabriel de Souza Abreu (pseudônimo de Salvador Correa), lançado na versão e-book no ano de 2014 e na versão impressa em 2016, busca se apresentar como uma espécie de diário dos primeiros anos após a descoberta da sorologia positiva para HIV do autor. A coletânea dos textos que formam o livro foi extraída do blog criado e mantido por Abreu depois da confirmação da sua sorologia positiva. Os relatos datam de abril de 2011 a dezembro de 2013 e falam sobre as questões médicas, emocionais, profissionais e familiares vivenciadas pelo autor durante esse período. Além disso, a discussão sobre a revelação de seu estado sorológico ganha protagonismo na narrativa.

Considerado como uma produção autobiográfica, pois a obra cumpre o estabelecido no “pacto autobiográfico”, o livro de Gabriel de Souza Abreu aposta em relatos dispersos (apesar de seguirem uma ordem cronológica) a fim de construir uma narrativa mais ou menos uniforme dos primeiros anos da sua convivência com o HIV. Por se tratar de produção feita originalmente para funcionar como um diário on-line, o conjunto de textos apresenta pouca profundidade e reflete alguns dos preconceitos que o autor possuía a respeito da comunidade LGBTQIA+ e das pessoas que vivem com HIV. Esses preconceitos podem ser vistos, por exemplo, quando o narrador associa a possível descoberta da infecção pelo vírus como uma espécie de castigo pelo comportamento sexual, dado que ser “não reagente” indica que não há “nenhuma penitência a ser paga” (p. 12). Além disso, é recorrente o medo do autor de ter sua imagem associada à de um sujeito soropositivo: “não seria identificado como portador de HIV (esse é, agora, meu maior medo…)”.

O título escolhido para o livro, apesar de assertivo, retoma algumas ideias já superadas a respeito da vida com HIV. Estabelecer a sorologia positiva como uma espécie de armário, é o principal problema da obra, principalmente quando o autor afirma que “o ‘segundo armário’ é aquele para onde são obrigados a entrar os jovens gays quando descobrem que são portadores de HIV”.

Essa posição é duplamente problemática, por fazer uma associação apressada entre os “jovens gays” e o HIV (mesmo que em outros momentos critique essa associação), assim como por inferir que a homossexualidade em si aprisiona sujeitos em um “[primeiro] armário”. O autor parece não pressupor que há sujeitos gays (ou LGBTQIA+) que nunca estiveram em “armários” e que podem viver sua orientação sexual de forma pública, sem a esconder de quem quer que seja. Abreu não conseguiu apontar para uma experiência com HIV que não fosse envolta em segredos, em silêncios.

Essas problemáticas presentes na narrativa apontam para uma dificuldade vivida por muitas pessoas quando descobrem que têm diagnóstico positivo para HIV. Mesmo as mais informadas, escolarizadas e independentes financeiramente ainda sofrem com o medo do estigma que a soropositividade pode acarretar. Esse receio está relacionado ainda a uma crença de que o HIV leva automaticamente à AIDS e a doença, à morte precoce. É nessa relação direta entre vírus e doença que o autor acha que sua família vai se prender caso descubra sua condição sorológica.

Ao narrar suas experiências, crenças e limites no enfrentamento de sua condição sorológica, Abreu cede a estigmas sociais e mantém muitos preconceitos relacionados ao vírus e à doença, perdendo uma oportunidade de problematizar essas formas de representação estereotipada. Isto talvez indique que vale a pena explorar a obra para perguntar o que ela “representa” no universo de produções sobre o tema.