Arquivo da categoria: Ensaio

A Literatura e o Ensaio

Por Allana Emilia

o filosofo lendo 02-11

Créditos da Imagem: O filósofo lendo – Chardin

 

Abel Baptista, em O desparecimento do ensaio, afirma que, do ponto de vista da teoria, a literatura é uma forma de conhecimento que possui alguma relação com a verdade, mas de uma maneira muito particular, que está relacionada com sua capacidade de refletir sobre si mesma. Uma maneira que a literatura possui de conhecer a si mesma é a partir da teoria, que, ao pensar os gêneros, as estruturas, a crítica, pensa a maneira de a literatura pensar sobre si mesma. Uma outra maneira, segundo a sugestão de Baptista, seria através do gênero ensaio. Daí para Abel, a “pouca importância” dada ao ensaio pela teoria, pois ambos viveriam em competição. E qual a importância de se pensar essa relação entre o ensaio, a teoria e a capacidade de autorreflexão da literatura?

Tomemos o panorama apresentado por Leyla Perrone-Moisés em O “fim” da literatura, um dos ensaios de seu último livro. Aí, a crítica elenca uma série de nomes e obras teóricas, produzidas no final do século XX, marcadas por um tom apocalíptico: A literatura em perigo, de T. Todorov; Os fins da literatura, de B. Levinson; O adeus à literatura, de W. Marx, entre outros.

Segundo Perrone-Moisés havia um pressentimento de que a literatura estava estagnada, de que existia “esse sentimento de que a literatura, como força ativa, Mito vivo, está, não em crise, mas talvez em vias de morrer…”, conforme o prognóstico de Roland Barthes. Mas segundo Perrone-Moisés, os “fins”, na verdade, são indícios de mutações, que permeiam a literatura no presente. As noções que foram construídas historicamente acerca da ideia de literatura foram mudando paulatinamente, o que pode significar para muitos críticos um declínio, mas diz respeito apenas à transformação de uma certa ideia de literatura: a ideia de literatura moderna, afirma a autora de Altas Literaturas.

Creditava-se esse suposto fim da literatura ao impacto das mutações tecnológicas, apontadas como responsáveis pelo cultivo das leituras apressadas. Entretanto, de acordo com Perrone-Moisés, “Nunca se publicou tanta ficção e tanta poesia quanto agora. Nunca houve tantas feiras de livros, tantos prêmios, tantos eventos literários. Nunca os escritores foram tão mediatizados, tão internacionalmente conhecidos e festejados.” Resta-nos um desafio: como ler e comentar a literatura produzida hoje, já que ela não é mais a mesma literatura produzida na modernidade?

O questionamento de Abel parece indicar uma alternativa possível. Talvez a investigação sobre a presença da dicção ensaística na ficção contemporânea, uma marca também das produções do alto modernismo, possa oferecer à teoria uma “maneira de proceder com argúcia e com imaginação” diante das produções literárias do presente.

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Adorno e o Ensaio

Por Allana Emilia

adorno

Créditos da Imagem: Disponível em <http://cultura.culturamix.com/personalidades/filosofos/adorno-theodor&gt;. Acesso em: 06.09.2017

 

No post anterior, comentei o clássico ensaio “Sobre a forma e a essência do ensaio: Carta a Leo Popper” de Georg Lukács. Dando continuidade à minha pesquisa sobre ensaio como gênero, neste post eu me volto para outro ensaio clássico, “O ensaio como forma” de Theodor W. Adorno. Adorno inicia o ensaio se opondo à visão preconceituosa com que o ensaio era visto na Alemanha. De acordo com o paradigma epistemológico dominante, acreditava-se que existe apenas um tipo de saber válido, o saber metódico e organizado. Assim, como o ensaio não apresenta o mesmo caráter que a ciência e a filosofia, ele seria enquadrado como “irracional” e não como forma de conhecimento válido.

A partir de uma crítica ao positivismo, Adorno ressalta a liberdade de expressão permitida pelo ensaio, ocupando “um lugar entre os despropósitos”. O gênero ensaístico se caracteriza pela liberdade sem método com a qual maneja seus temas, sem se submeter a uma ordem pré-estabelecida. Ao invés disso, se baseia em um objeto transitório e reflete sobre questões que o transpassam, sem a pretensão de ser universal ou “originário”. O ensaio não apenas “registra e classifica” o objeto; vai além e o interpreta, não se atendo apenas ao que é dito no texto. Assim, opondo-se à polarização na qual o ensaio era visto na Alemanha, o filósofo alemão elogia a liberdade interpretativa como uma característica válida do pensamento.

Para expandir os sentidos e fazer sua interpretação, o ensaísta se permite uma deriva no olhar, que vem a moldar a leitura do objeto. Esse procedimento passa a impressão de ter sido emprestado da arte. Porém, o ensaio tem a pretensão de verdade e um meio de investigação específico (os conceitos), que a arte não tem. Portanto, Adorno critica Lukács em seu posicionamento de aproximar o ensaio da arte. Afirma que, quando Lukács os aproxima, reforça o preconceito e o estereótipo de que o ensaio não seria uma forma válida de conhecimento. Com essa crítica, subentende-se que Adorno propõe a legitimação do ensaio como uma forma de conhecimento, tão válido quanto os conhecimentos sistemáticos.

Adorno ressalta que também é válida a transmissão de conhecimento a partir da experiência. Como ele afirma, embora a ciência rejeite a experiência como critério válido do conhecimento, houve um tempo em que: “não passaria pela cabeça de ninguém, entretanto, dispensar como irrelevante, arbitrário e irracional o que um homem experiente tem a dizer (…)”. Assim, o ensaio recupera essa confiança na experiência dos indivíduos que a ciência ofuscou.

A abordagem “não-exaustiva” do ensaio sobre os conceitos visa a um estudo do objeto em toda a sua complexidade, ao invés de fragmentá-lo em partes compreensíveis. Depreende-se, então, que o ensaio anuncia o questionamento à completude e continuidade pretendidas pelo pensamento científico tradicional; propõe um pensar fragmentado, que se aproxime da realidade, também fragmentada. Desse modo, ao abordar a realidade de um ponto experimental, questionando conceitos e teorias sem a pretensão de chegar a uma conclusão, o ensaio se torna a “forma crítica par excellence”, sendo uma crítica da ideologia.

A partir do mergulho nos fenômenos culturais, o ensaio constrói relações entre imagens e conceitos, evidenciando questões ideológicas. A evidenciação das questões ideológicas se dá justamente a partir das observações do transitório, situando os conhecimentos no tempo e evidenciando “pontos cegos” nos conhecimentos legitimados.

Lukács e o ensaio

Por Allana Emília

Créditos da imagem: Grande Núcleo – Hélio Oiticica (1966)

Como já tematizado em alguns dos posts anteriores, pode-se perceber em parte da ficção contemporânea uma certa dicção ensaística. Essa sobreposição entre ficção e ensaio parece ser mais presente em obras consideradas autoficcionais, em que o eu narrador, muito próximo ao autor do texto, comenta sua condição como escritor e a elaboração do próprio texto que lemos. Partindo, então, dessa observação, minha pesquisa de iniciação científica quer compreender melhor as características do ensaio como gênero e sua emergência em meio a tramas ficcionais. 

O primeiro passo, então, foi ler o clássico ensaio de Georg Lukács, Sobre a forma e a essência do ensaio: Carta a Leo Popper. O objetivo principal do texto-ensaio-carta é averiguar se existe uma forma própria para o ensaio, se existe uma unidade para essa forma e se ela é possível. O autor também se pergunta se os escritos dessa categoria vão apresentar essa forma como autônoma – isto significa, nos termos de Lukács, – entender o ensaio não como uma forma científica, mas como forma artística, sem que, no entanto, seja uma forma de arte propriamente dita. Partindo dessa especulação, o autor defende o ensaio como gênero e elogia sua forma única. 

A princípio, o filósofo húngaro toma o ensaio e a crítica como sinônimos, aproximando-os à arte.  Frisa também que essa discussão não reflete o que, para ele, é primordial: “O que é o ensaio, que expressão almeja e de quais meios e caminhos se serve”, são as perguntas que gostaria de responder. Assim, Lukács chega à conclusão de que a aproximação do ensaio à arte nada diz sobre o questionamento acerca de sua essência, a não ser que haja um esclarecimento sobre o que significa distanciar o ensaio da ciência e aproximá-lo à arte. O ensaio é um gênero artístico, que não se limita apenas a “ser bem escrito”, como é também algo que causa um efeito indelével, “algo que é novo por princípio e não mudaria em virtude de uma conquista total ou aproximada de objetivos científicos.”. Para o autor, o ensaio almeja expressar uma perspectiva, um ponto de vista sobre a vida e o faz ao escrever sobre a arte, utilizando-a como instrumento de mediação. Porque o que é expresso pelo ensaio é a vivência intelectual que emerge por meio de uma escrita tateante, questionadora e reflexiva sobre um determinado tema, disparada pelo comentário sobre uma obra artística. 

Lucáks afirma que o começo do desenvolvimento do ensaio foi grandioso, pois Sócrates refletia sobre a vida vivente e vivia baseado no que pensava. Para o autor, o ensaio não visa a uma conclusão, não se prende a desfechos, apenas suscita reflexões sobre um determinado tema. Lukács, então, encontra um paralelo entre o que era feito nos ensaios modernos e nos ensaios de Platão – “Que seja dito para a nossa felicidade: também o ensaio moderno não fala de poetas e livros – mas essa salvação o torna ainda mais problemático”.  O problema está no fato de que, ao abordar diversos temas, o ensaio como gênero não está associado a nenhum em especial e essa multiplicidade no tratamento de assuntos dificulta a percepção de uma forma, sua caracterização como gênero. 

Talvez o ensaio e sua dicção tateante, escrutinadora e sua forma in-forme ajude-nos a pensar algumas formas da ficção contemporânea. 

O ensaio e o romance

Por Luciene Azevedo

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Daido Moriyama- “Autorretrato”

É curioso pensar que a ficção contemporânea foi invadida por uma dicção ensaística. Se a observação tiver algum fundamento, a discussão proposta por Abel Barros Baptista, crítico português, professor da universidade Nova de Lisboa, em seu  “O desaparecimento do ensaio” pode ser profícua para pensar a imbricação entre a ficção e o ensaio. Baptista afirma que, não está bem certo do que queria sugerir quando propôs o resumo e o tonitruante título do texto, no entanto, propõe ao leitor refletir sobre o esquecimento a que a teoria literária relegou o gênero, que, se conta com textos clássicos como os de Adorno e Lukács, é objeto de pouca especulação pelos estudos teóricos. A hipótese do crítico é de que o pouco caso com que o ensaio é tratado deriva de uma rivalidade entre a teoria literária e o próprio gênero. Tal rivalidade teria a ver com a alta capacidade especulativa própria do ensaio, característica essencial da própria teoria. Essa semelhança de método no modo como ambos relacionam-se com a literatura, segundo o crítico português, é a causa principal da resistência ao comentário do gênero pela teoria, que identifica no ensaio um adversário capaz de realizar a tarefa que lhe caberia por direito: ensinar a literatura a conhecer os modos como se conhece a si mesma, especula Baptista.

Para desenvolver melhor o argumento, o crítico português avança em uma direção que é a que mais me interessa agora. Defendendo a ideia de que o literatura moderna “tem reputação de se distinguir pela natureza ensaística”, o argumento caminha para constatar que inúmeras vezes a literatura, o romance, o conto, deixam-se contaminar pelo ensaio, deglutindo-o sem perder sua identidade, sem deixar de ser literatura, romance ou conto e que o inverso também deveria ser verdadeiro: o ensaio poderia incorporar a forma ficcional sem perder sua identidade. Mas a possibilidade dessa última premissa logo é descartada porque o crítico assevera que a própria concepção moderna de literatura é marcada pela possibilidade de imitação, de fingimento de qualquer outro gênero, já que o romance, o conto, as formas ficcionais incorporam qualquer outro gênero discursivo não ficcional como dispositivo da própria ficção. Afinal, desde Robinson Crusoé estamos lidando com a possibilidade de o literário fingir-se de diário, de biografia, de livro de memórias, reconhecendo nesse ato de fingir sua lei de identidade.

Mesmo considerando esse pressuposto que inviabilizaria a possibilidade de pensar o ensaio autonomamente dentro do texto ficcional, já que o próprio modo de reconhecimento de sua presença é marcado pela condição de simulacro, um falso ensaio, que atua dessa forma para nutrir a própria literatura, Baptista arrisca-se à pergunta sobre se é possível um ensaio ou um diário incorporar-se a um texto ficcional (conto ou romance) sem perder a sua identidade, isto é, sem deixar de ser ensaio ou diário.  O dilema que se estabelece procura problematizar o lugar comum das análises literárias e desrecalcar a secundarização das formas não ficcionais no regime de funcionamento da própria ficção.

Interrompo aqui a paráfrase da argumentação desenvolvida pelo crítico português para capturar a provocação que me interessa: a hibridização dos gêneros como geradora de um conflito para o  reconhecimento do estatuto epistemológico do próprio texto ficcional. Pois se é verdade que o ensaio se vê incorporado à ficção, deixando-se contaminar por ela, também é possível identificar momentos em que o “ensaio…fragmenta, interrompe, rompe o tecido do conto, analisa Baptista, já que em algumas ficções os próprios elementos do arcabouço ficcional parecem apontar para a presença de uma dicção ensaística que é indispensável para o texto.

Na ficção atual, a dicção ensaística mantém-se viva principalmente pela incidência da autoficcionalização da figura autoral no texto. Recorrendo à origem tateante do gênero ensaio, à sua propensão ao experimentalismo, a autoficção, levada a cabo por muitos experimentos romanescos atualmente, constitui-se como um exercício de figuração autoral. Tal exercício pode ser chamado de auto-ensaio e pode valer-se da ficção, da forma do romance, para experimentar a construção não apenas de um mero retrato narcísico, mas para elaborar uma voz autoral, construir uma obra.