Arquivo do mês: abril 2016

A arte, a técnica e o sujeito

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Por Elizangela Maria dos Santos

As vertiginosas transformações decorrentes dos avanços tecnológicos, os quais se acentuaram no final do século XX e início do novo milênio, provocaram alterações em todos os aspectos da sociedade. Inexoravelmente, a internet tem significativo papel nas mudanças impostas ao mundo. Desde a velocidade das condições de comunicação e transmissão de informações à dissolução de fronteiras diversas, tais como espaço- tempo, e consumo-produção, entramos na era da informação da qual a internet constitui instrumento central.

Uma vez que os sistemas tecnológicos são produções sociais, as reconfigurações provocadas pela internet impactam também (ou essencialmente) as práticas culturais. E muitas das mudanças a que se assistem no campo literário (apenas) foram possíveis por causa do surgimento da internet e suas ferramentas, dos quais são exemplos a literatura eletrônica e as modificações no fazer artístico que “caracterizariam” a arte contemporânea.

Walter Benjamin (2010), em seu artigo intitulado A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica enfatiza as consequências advindas com a reprodução técnica da obra de arte, a partir da fotografia e do cinema.  Os escritos do alemão são sempre citados quando se trata de refletir sobre as relações entre a tecnologia e as práticas culturais e os processos de ressignificação da arte.

Centrando seu argumento no modo de olhar do sujeito, Jonathan Crary (2012) defende que as mudanças em relação aos modelos clássicos de visão, ocorridas no início do século XIX, aconteceram graças a redefinições de práticas sociais que “modificaram as capacidades produtivas, cognitivas e desejantes do sujeito humano”. Essa concepção coloca o sujeito, mais precisamente as transformações na sua forma de visão, como essenciais para que sejam discutidas a importância do espectador e as mudanças em sua maneira de ver, de sentir e de pensar para discutir a arte.

Considerar a internet como peça essencial nas redefinições artísticas é de fundamental importância quando se trata de pensar a relação entre técnica e arte. Contudo, é preciso levar em conta que o próprio surgimento de recursos tecnológicos é fruto de reconfigurações do sujeito, ou seja, das mudanças entre o sujeito-observador e a os modos de representação. Quando há mutação nas formas de visão do sujeito, há transformações que produzem um novo tipo de observador que, inserido em um contexto determinado, percebe possibilidades e pode empregar as capacidades desse sujeito-observador como forças para estar presente na sociedade e em meio às práticas culturais. Esse sujeito que se modifica para estar em contextos específicos explicaria as diferentes possibilidades literárias na contemporaneidade.

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As oficinas literárias e a profissionalização do autor

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Por Larissa Nakamura

Aproveitando a deixa do último post escrito por Neila, aqui, no blog, vale a pena comentar o artigo publicado recentemente pela Folha de S. Paulo, intitulado “Escritores consagrados ajudam novos talentos com oficinas”. O texto relata casos de bem sucedidos autores da literatura brasileira que ministram oficinas de criação literária para aspirantes a escritor ou mesmo artistas com experiência no mercado das letras. De modo geral, a razão que parece motivar essas pessoas a frequentar tais oficinas é uma busca por novas referências, ideias, temas, discussões sobre arte etc., o que deve variar de acordo com o método escolhido por cada palestrante.

As oficinas literárias apresentam-se como um cenário em plena expansão ao longo dos anos e funcionam não apenas como um ponto de partida para escritores iniciantes, mas também como atividade remunerada ligada à literatura para autores cada vez mais conhecidos pelo público em geral e pela crítica especializada, segundo a reportagem. Como o post de Neila apontava, há casos de sucesso de autores que frequentaram oficinas literárias e aos poucos consolidaram sua carreira e conquistaram prêmios literários. Apesar disso, é importante frisar que, de acordo com o que afirma Trevisan no artigo, “[…] o treinamento não visa, necessariamente, a profissionalização literária.”

Acreditamos que o tema trazido pelo artigo traz à tona alguns dos elementos mais frequentes na profissionalização do escritor e que garantem a manutenção de sua carreira. É possível afirmar que os escritores que ministram as oficinas já têm certa autoridade, reconhecimento e experiência, ao menos no que tange ao circuito das artes. Assim, osworkshops propiciam aos autores uma oportunidade para se articular e circular entre seus pares.

A participação cada vez maior em atividades diversas relacionadas à literatura (como, por exemplo, a oferta de oficinas literárias), incrementa a profissionalização do escritor e amplia sua circulação e atuação no campo literário, além de assegurar um retorno financeiro para além dos acordos contratuais com as editoras para publicação da obra literária.

Noemi Jaffe, Lourenço Mutarelli, Marcelino Freire e João Silvério Trevisan despontam como alguns dos nomes à frente das oficinas. Não deixa de ser curioso observar como muitas vezes o método adotado pelo autor ao ministrar a oficina pode revelar muito do próprio processo de escrita de cada um. Jaffe afirma que “[…] não conseguiria escrever sem elas [as aulas].”, já que, segundo ela: “Os cursos me obrigam a ler tempo todo e buscar fontes novas para os exercícios.”. Já no caso de Mutarelli, a parte inicial de pesquisa (recolhimento de recortes e panfletos, e posterior colagem dos mesmos de forma aleatória) e a consequente produção textual pelos alunos refletem o mesmo método de escrita do autor, que assim pretende montar parte de seu novo romance. Por fim, Trevisan deixa claro que deseja partilhar no seu próximo curso as etapas de criação do romance que está em andamento, fato que pode servir de inspiração para jovens estreantes na literatura.

Apostamos que os cursos de escrita criativa apresentam-se como um forte marcador de algumas das possibilidades existentes de atuação no campo literário para o escritor que deseja solidificar sua carreira. Por fim, pensamos que tais workshops, propiciam ao próprio ministrante e também aos seus alunos a criação de uma rede de sociabilidade, tão necessária para alimentar a cena literária.

Acesse aqui o link para o artigo.