Arquivo do mês: agosto 2016

O crescimento das feiras literárias

Por Neila Bruno

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A feira literária é um fenômeno novo no Brasil: as primeiras festas surgiram em Porto Alegre, em 1955 (http://www.feiradolivro-poa.com.br/). Atualmente, diversos eventos literários começaram a aparecer apostando em repercussões de longo prazo na cultura e na economia do livro. Entre as festas mais importantes está a Flip (criada em 2003) que neste ano chegou a sua 14ª edição. O evento contou com nomes importantes como o norueguês Karl Ove Knausgaard e a bielorrussa Svetlana Aleksiévitvh, e teve como autora homenageada a poeta Ana Cristina Cesar (1952-1983). À medida que a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) foi se tornando um exemplo de evento bem sucedido, foram surgindo outras feiras espalhadas pelo país, como a Fliporto, em Olinda, Pernambuco; a Flimar, em Marechal Deodoro, Alagoas; a Flica, em Cachoeira, Bahia; a Flivima, em Visconde de Mauá, Rio de Janeiro, entre tantas outras.

Em termos de marketing, grande parte desses eventos concentram suas programações em sites e redes sociais como facebook, twitter, instagram e o You Tube. Também são criados aplicativos que mantêm os leitores atualizados a respeito da programação, autores, ingressos e oficinas, além de contar muitas vezes com transmissão on-line da programação. Toda essa publicidade permite que os autores convidados tornem-se ainda mais conhecidos pelo público leitor. Certamente, esses eventos colaboram para a divulgação do nome do autor, já que é instigante para o leitor esse contato direto com escritores. Assim, nos dias atuais, o crescimento das feiras e festas literárias pode ser entendido como um sinal da mudança do campo literário contemporâneo.

Embora haja muita discussão sobre a finalidade desses eventos, podemos compreendê-los como um canal de promoção de muitos escritores e um incentivo à profissionalização da condição do autor de literatura. Associado ao caráter comercial do evento, é válido considerar que esses espaços aproximam leitor, escritores e livros. Nesse sentido, o escritor e curador de uma das edições da Festa Literária Internacional da Bahia, Aurélio Schommer, realça o valor positivo das feiras: 

“Escrever é um ato geralmente solitário. Escritores tendem a ser solitários. Mas não o são por vocação íntima, pelo contrário. A ninguém fascina o contato com cada indivíduo tanto quanto ao escritor. Nas festas literárias, o contato direto, não tanto na mesa, em que as pessoas são plateia, mas nos bastidores e andanças pela cidade que abriga o evento, é para o escritor uma revelação, certamente inspiração para escrever ainda melhor. Assim tenho observado na Flica, por onde já passou mais de uma centena de escritores.”

Há ainda outra razão para o interesse dos autores em participar dessas feiras e festas literárias: elas se tornaram cada vez mais importantes porque atualmente o escritor não veicula apenas os textos que escreve. Construir uma performance é essencial: conseguir fazer as pessoas falarem sobre seus livros, contarem a amigos ou colegas que acabaram de conhecer um escritor em um evento, tende a assumir uma importância fundamental na luta pela visibilidade da obra e do autor.

Por esse motivo, esses eventos costumam dividir as opiniões da crítica que acredita que as feiras se converteram em megaeventos que estimulam a superexposição dos autores, enquanto as obras literárias perdem visivelmente  prioridade, mas tal crítica é rebatida por aqueles escritores que acreditam que as feiras são investimentos ligados à cultura e à promoção de livros, contribuindo para dinamizar o mercado editorial.

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Sobre a escrita na pesquisa acadêmica

Por Davi Lara

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Crédito da foto: Maria Dolores Rodriguez.

O momento crucial de uma pesquisa, o seu coroamento, é a escrita. E é por isso mesmo o momento de maior hesitação, o que envolve mais dúvidas. Sobretudo se não se pensar a escrita de modo automático, como algo neutro, mas como um componente ativo no processo de pesquisa. Muito mais do que um meio para a transmissão da carga acumulada ao longo das horas de leituras, conversas e reflexões solitárias, a escrita é mais uma etapa da construção do conhecimento. Uma vez entendida assim, a reflexão sobre a linguagem ganha uma importância imprevista, pois diz respeito à própria natureza do conhecimento. De modo que pensar sobre a escrita no processo de pesquisa é um modo de se pensar a própria natureza do conhecimento e suas possibilidades de existência dentro de uma comunidade. Um exemplo pode ajudar a esclarecer o que eu estou querendo dizer.

A princípio, uma escolha, antes de tantas outras, se impõe ao pesquisador: escrever na primeira pessoa do plural ou no singular? Os simpáticos ao “nós” argumentam que, ao diluir-se o indivíduo numa coletividade, o pesquisador assume uma postura mais humilde por reconhecer, implicitamente, que o seu trabalho não foi construído sozinho, mas dentro de uma instituição legitimada socialmente. Sem entrar na questão do discurso de autoridade que permeia esta linha de raciocínio, fica claro aí o flerte com uma concepção de conhecimento objetivo, que se baseia em critérios impessoais e imparciais. Tanto que, em alguns cursos (e mesmo em certos nichos do curso de letras), se desestimula até mesmo o uso do nós majestático, forçando os pobres dos alunos a fazerem uma série de malabarismos sintáticos, em que sobejam os pronomes apassivadores (diz-se que, conforme se afirmou) e formas esquizofrênicas de referência a si mesmo em terceira pessoa (os dados foram coletados pelo pesquisador), caindo assim numa ginástica verbal que mais evita o problema do que o soluciona.

De outro lado, os partidários do “eu” argumentam que nenhum conhecimento é imparcial e, por isso, deve-se marcar desde o registro linguístico esse envolvimento inevitável entre o sujeito e o objeto (se é que essa dicotomia faz sentido ainda). Uma professora querida do doutorado sempre pontuava a importância de se pensar (com) o corpo no fazer intelectual. Lembro-me de uma aula sua, feita a céu aberto e aberta com uma prática de yoga (que eu perdi, porque cheguei atrasado), em que ela sugeriu que fizéssemos o exercício de escrever a partir das indicações que o corpo dava (alegrias, melancolias, relaxamentos, dores etc.), que trouxéssemos para o palco da escrita nossas afecções.

É óbvio que os argumentos a favor de uma ou de outra opção são mais densos e complexos do que eu, caricaturalmente, reproduzi acima. Seja como for, apesar de existirem ótimas reflexões disponíveis sobre a matéria, não me parece que, do modo como a discussão é feita dentro dos espaços competentes, salvo raras exceções, ela entre nos méritos principais da questão, qual seja, a de que o modo que você vai escrever interfere diretamente no que você diz. Não se trata de se encolher entre observar o mesmo objeto de uma perspectiva ou de outra, mas de se entender que ao mudar-se a perspectiva de observação, o objeto também muda (bem como nós também mudamos: o lugar que ocupamos, a postura que mantemos em relação às estruturas de poder etc.). A escolha do registro linguístico é uma escolha metodológica, que pressupõe um posicionamento teórico. E quanto mais isso ficar claro para o pesquisador, melhor será a sua performance na hora da escrita e mais consistente o seu trabalho final.

Também é preciso levar em conta que a escrita, se a entendermos como uma espécie de performance, é um acontecimento. E por mais que possamos revisar e reescrever, o tempo exíguo de que dispomos no regime de produtividade que rege a pesquisa acadêmica hoje em dia não permite que esse processo de revisão seja tão intenso quanto por ventura alguns desejariam. O próprio sistema de produção acadêmico nos empurra para uma construção de conhecimento mais como processo, menos como produto –, embora haja uma sufocante lógica produtivista por trás deste regime… Seja como for, disso resulta que, por mais que insistamos na separação entre a reflexão sobre o que escrever, de um lado, e a prática da escrita, do outro, o palco principal da reflexão é o próprio fazer crítico. Em outras palavras: quando sentamos para escrever, muito mais do que pôr no papel uma reflexão, o que vai definir o estilo de escrita (e, por conseguinte, da linha de pensamento) é a própria prática. Ter isso em mente é importante não apenas para que se possa levar adiante o trabalho sem maiores travas, bem como para construir uma prática de pesquisa verdadeiramente reflexiva, que leve em consideração nossa condição não apenas de pesquisadores, mas de escritores, de sujeitos.

As agruras de um poderoso editor

2016-08-08

Por Larissa Nakamura

http://www.blogdacompanhia.com.br/

Pode um “simples” blog de uma famosa editora brasileira trazer, além de elementos vários à discussão literária, uma interessante perspectiva sobre quem está do lado de lá – quem edita livros?

A meu ver, parece uma boa ideia dar continuidade ao compartilhamento de sites que interessem àqueles que acompanham o que anda acontecendo com a literatura contemporânea na internet (ver texto de Davi Lara, em junho). Neste post, quero explorar o blog da Companhia das Letras, uma das editoras mais prestigiadas do país.

Desempenhando o papel de plataforma de divulgação dos discursos dos escritores e funcionários da empresa, e também de estratégia de marketing, a presença de editoras no espaço digital, independente do formato sob os quais se introduzem (redes sociais, blogs, sites etc.), revela algo das novas dinâmicas do campo literário contemporâneo.

Diante das tantas seções que compõem o blog da Companhia, destaco a denominada “Da casa”, que se subdivide em: “Palavra do autor” e “Companhia apresenta”, nos quais os próprios autores podem escrever ou deixar a cargo da editoria a promoção de sua obra. Além disso, os escritores da editora também podem atuar como colunistas no blog. Sob esse aspecto, Milton Colonetti (2014, p. 75) assinala a importância de tal atividade para a carreira do escritor, já que: “O espaço no blog da editora, além de ser um local de acúmulo de capital simbólico, garante ao produtor uma exposição contínua e um meio de captação de recursos monetários que vincula seu trabalho à produção editorial, tornando o escritor um verdadeiro produtor assalariado da editora.”

Voltando então à minha pergunta inicial, creio que a voz do Luiz Schwarcz, editor­-chefe da Companhia das Letras, presente nesse espaço virtual dá aos leitores a oportunidade de conhecer um pouco melhor a atuação de uma figura tão intrigante quanto a do editor, acostumado ao backstage da vida literária, mas que, aqui, aparece tentando estabelecer algum contato com os leitores.

Basta uma primeira leitura dos posts publicados por Schwarcz para adentrarmos no complexo universo do editor – suas preocupações enquanto profissional no mercado das letras, o(s) processo(s) de edição, as relações com escritores/clientes, as intuições que as primeiras páginas da leitura dos manuscritos despertam nele, a importância das capas, o papel dos agentes literários, etc.

Destaco dois posts do Schwarcz que podem resumir a autorreflexão proposta em seus textos e que trazem à tona questões que estão no âmago do ofício: Detalhes tão pequenos de nós dois são coisas muito grandes pra esquecer — ou um tempo à toa na estação de trem e O mundo assombrado pelos best­sellers — ou me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios. De modo geral, o que se nota são as falas representativas acerca da velha dicotomia arte vs. mercado. Sendo assim, qual o posicionamento do editor sobre o tema?

“[…] o clamor contra o aspecto comercial do livro é ingênuo, não só nos dias de hoje, mas mesmo se pensado historicamente. Ainda assim, os leitores deste blog veem que, vez ou outra, mantenho vivo certo idealismo, presente desde o dia em que optei por trabalhar com livros. Justifico assim, relativizando logo de cara, o meu clamor ou angústia intermitentes pela comercialização exacerbada do ambiente cultural em que vivo. Sei que tenho alguma razão e muita ingenuidade. O mercado editorial sempre foi mercado, e sempre será.”

É interessar ressaltar que, mesmo adotando uma atitude que deseja aberta e não conservadora, ainda existe alguma hesitação, resistência; transparece uma espécie de ambiguidade intrínseca no trabalho do editor de livros. Entre a defesa do caráter artístico ou mercadológico, Luiz Schwarcz enfrenta o dilema apontando para a necessidade de existir um equilíbrio entre ambos que garanta que seus empreendimentos editoriais e todo o sistema artístico que os envolve continuem a existir.

Voltando aos posts, é possível que o grande público se interesse por temas que estejam diretamente relacionados aos números, contratos e negociações por trás das obras lançadas, mas não é ainda nesse espaço que tais questões serão expostas ou discutidas. No blog, o que prevalece é a face artística do processo de produção da obra de arte. Assim concluo que falar de cifras ainda causa desconforto, ao menos é o que sua omissão parece nos indicar.

Fatos, anedotas histórias, erudição, engajamento político é o que podemos ler na coluna assinada por Luiz Schwarcz no blog da Companhia. E, você, conhece blogs de outros editores? Se sim, compartilha aqui com a gente nos comentários.

“Meu, é um livro. Meu, é só um livro.”

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Por Nivana Silva

Contrariando o título-citação do post e, mais uma vez, levando às últimas consequências a fronteira entre o real e a ficção, além de desordenar qualquer expectativa que o leitor tenha previamente, Ricardo Lísias divulgou no primeiro semestre deste ano seu mais novo empreendimento Inquérito Policial: Família Tobias através do booktrailer disponível no site da editora Lote 42 e em sua página no facebook. Longe de ser só um livro, trata-se de um projeto pós-polêmica Delegado Tobias, ou seja, uma resposta bastante criativa e sagaz aos desdobramentos jurídicos que a série de e-books trouxe para a vida (real) de Lísias.

Para quem não se recorda, após a publicação do quinto livro da série que entrelaçava o assassinato de Ricardo Lísias, a chantagem feita por seu homônimo e a investigação encabeçada pelo agente Paulo Tobias – não esqueçamos também das colagens, documentos e até comentários dos leitores nas redes sociais que compunham a obra – o Ministério Público Federal de São Paulo abriu um inquérito contra o autor, alegando “falsificação de documentos”. O processo foi arquivado e, buscando dar uma continuidade ficcional ao verdadeiro inquérito, o escritor paulistano nos presenteia com mais uma experiência literária inventiva e que coloca sob rasura qualquer tentativa de harmonização entre a suposta verdade e a ficção.

A começar pela própria performance do autor-personagem no booktrailer, ouvimos, de alguma forma, o desabafo do Lísias acusado na vida real “É um texto de ficção […]. Meu, é literatura policial, eu inventei tudo, não é verdade!”. Todavia, ao final do vídeo – embalado por uma trilha sonora próxima a de um crime thriller – nos deparamos, ao que parece, com o protagonista fictício denunciante da Editora Lote 42, que pega do chão o inquérito/livro. Esse, por sua vez, traz pistas, provas, textos jurídicos, a árvore genealógica da família Tobias, em suma, um legítimo dossiê, organizado, inclusive, como uma pasta reunindo documentos de uma investigação. Nesse cenário interessante, contornado por uma linha difusa, as vozes do autor imprimem uma assinatura e levam o leitor a montar a verdadeira história da família Tobias e do processo impetrado por Lísias contra a Lote 42.

Outro ponto de destaque relacionado ao alcance de Inquérito Policial: Família Tobias e às consequências do imbróglio, nada literário, é a peça intitulada “Vou com meu advogado depor sobre o Delegado Tobias”, na qual o autor de um livro é chamado a prestar esclarecimentos por falsificação de documentos, ou, leia-se, Ricardo Lísias é intimado pela justiça para depor a respeito de falaciosos textos jurídicos forjados por ele em uma obra literária (a qual, no processo real, passou despercebida, segundo o próprio afirma). Além do protagonista-autor-personagem-vítima no elenco, atuam também Eduardo Climachauska e Clayton Mariano, sob direção de Alexandre dal Farra e Janaina Leite.

Diante desse livro-objeto (“livro como objeto maleável”, conforme bem colocou Elizângela em seu último post sobre Laura Castro), esbarramos com a engenhosidade transbordante de um escritor de literatura contemporânea que, cada vez mais, firma seu nome próprio no seu campo de atuação e vai nos mostrando como se faz um autor. Parece-me que o mais instigante e desconcertante em Inquérito Policial: Família Tobias é a zona limítrofe onde termina a realidade e começa a ficção, ou onde a cena literária é tão vicejante a ponto de pedir prosseguimento na vida real, ou onde, simplesmente, não sabemos onde termina, tampouco onde começa nada disso. A impressão é que não há lugar de partida, nem zona de parada, afinal de contas, “é só um livro […]. Só na literatura é verdade”. Até que passemos para a próxima página e comece uma nova história.