Arquivo da categoria: Escrita da aids

Representação social e literária sobre HIV/aids e as minorias de direito

Ramon Amorim

Créditos da imagem: Camila Alvite (Janus, 2019)

Ao longo de minha investigação sobre a representação do HIV/aids na literatura brasileira, é notável a ausência de produções de autoria feminina sobre o tema, bem como a limitada presença de personagens femininos nas narrativas literárias sobre HIV/aids. Esse é um reflexo do ainda pouco expressivo número de obras, lançadas por editoras de relevo e assinadas por minorias de direitos, como mulheres, pessoas negras etc. Quando me questiono sobre o modo que o tema da minha pesquisa aparece nas narrativas, surge ainda um outro problema que diz respeito a como a literatura pode também confirmar uma certa representação social do vírus e da doença, já que a maioria das narrativas sobre essa temática tem como personagens homens gays brancos jovens.

As pesquisas, porém, mostram outros dados. Nas primeiras décadas dos anos 2000, a Agência AIDS identificou que pelo menos 25% do total de casos notificados são de pacientes mulheres e, segundo dados do Boletim Epidemiológico de 2020, em 2009, a cada 15 homens diagnosticados com HIV, 10 mulheres recebiam o mesmo diagnóstico. Também a partir dos primeiros anos deste século, ainda segundo esse documento, a epidemia de HIV/aids tem alcançado um contingente de pessoas cada vez mais pobres. Essa dinâmica aponta, pela história da organização social do Brasil, de forma paralela, para o aumento do número de diagnósticos na população preta e parda, principalmente, feminina.

Diante desse cenário, é preciso questionar os motivos pelos quais a literatura ainda não se afastou daquela identidade social plasmada sobre os sujeitos com HIV/aids. Será que a conhecida desproporção histórica no número de produções literárias de autoria feminina em relação às de autoria masculina é suficiente para explicar a manutenção de um viés representacional para HIV/aids nas narrativas que reiteram preconceitos surgidos no momento da descoberta do vírus e da doença? Dizendo de outra forma: seria possível pensar que a reiterada representação literária de personagens homens brancos jovens gays com HIV e/ou aids é apenas uma consequência da forma como nosso campo literário está estruturado? Embora essa possa ser uma possibilidade concreta, acredito que é possível investir em outra hipótese.

Apesar de a investigação científica ter avançado sobre o conhecimento do vírus, proporcionando tratamentos mais efetivos para o mesmo e verificando mudanças nos perfis dos sujeitos afetados, a representação social avançou pouco, pois ainda é muito comum no imaginário social a associação entre HIV/aids e homens gays. A literatura, como parte da cultura, também produz, reitera ou cria representações sociais. Se em narrativas de autoria masculina que abordam o tema, ainda é muito comum encontrar homens gays como protagonistas, narrativas brasileiras que tematizam o HIV/aids escritas por mulheres como Depois daquela viagem, de Valéria Polizzi, e O voo da guará vermelha, de Maria Valéria Rezende, ainda associam o vírus e a doença à infelicidade, à decadência física dos portadores e à morte iminente.

A literatura brasileira e as mudanças nas narrativas sobre HIV/AIDS

Ramon Amorim

Créditos da imagem: Dis-placement (1996/97), Paulo Lima Buenoz.  Foto: João Paulo Machado.

Como se dão as representações da Aids em textos da literatura brasileira? A heterogeneidade em relação a como o tema tem sido tratado pelos mais variados autores faz pensar que as respostas são muitas. Desde o lançamento, em 1993, da novela Pela noite de Caio Fernando Abreu, publicada no livro Triângulo das águas, a produção narrativa sobre HIV/AIDS, ou “escrita da Aids”, como prefere Ítalo Moriconi, ganhou várias nuances.

No início, a representação da Aids na literatura, assim como nos discursos biomédicos e midiáticos, foi marcada pela confusão em torno das informações sobre a epidemia e pela profusão de imagens que reforçavam o estigma em relação aos soropositivos. Não eram incomuns representações de corpos deteriorados ou da abordagem da epidemia como uma peste, um flagelo. Este momento inicial das representações da doença na literatura no Brasil teve como produções mais relevantes, narrativas de autores como Caio Fernando Abreu, Herbert Daniel, Jean-Claude Bernardet, entre outros.

O segundo momento da literatura brasileira sobre HIV/AIDS é marcada pelo aparecimento do coquetel de medicamentos antirretrovirais que possibilitavam, para muitos sujeitos, uma melhor qualidade de vida e o controle de diversos sintomas da presença do vírus/doença no organismo. Esse avanço biomédico possibilitou o aparecimento de uma produção literária em que a morte e as restrições causadas pelo medo do contágio deixassem de ser centrais nas narrativas. O principal texto que marca essa mudança é o conto Depois de agosto, presente no livro Ovelhas negras (2002), de Caio Fernando Abreu. É possível reconhecer ainda a “narrativa pós-coquetel”, como Alexandre Nunes de Sousa nomeia esse momento, em contos de Bernardo Carvalho, por exemplo.

Por último, há uma representação mais recente em que a presença do humor e a exposição da vida íntima nas redes sociais acrescentam novos ingredientes ao modo de falar da doença, como, por exemplo, podemos ler no romance O tribunal da quinta-feira de Michel Laub.

É curioso perceber o deslocamento em relação à representação da doença. O diagnóstico positivo para a presença do vírus aparece como elemento narrativo entre tantos outros que podem ajudar a caracterizar o personagem e sua subjetividade e não mais como elemento central, estruturante da atuação do personagem na narrativa. A partir dessa observação, seria possível afirmar que o tema perdeu centralidade nas narrativas atuais?