Arquivo do mês: setembro 2017

Literatura e vida literária: censura, cultura e profissionalização

Por Larissa Nakamura

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Se a profissionalização do escritor nos dias atuais incorpora novas discussões e é permeada por adversidades encontradas no campo literário, não menos relevante é apresentar seu desenvolvimento no Brasil. Se consideramos um breve panorama do contexto cultural dos anos 70/80, encontraremos aí, nesse momento, algumas mudanças responsáveis pelo início da institucionalização de um espaço para as artes no país. É disso que se encarrega a obra Literatura e vida literária, publicada em 1985 e escrita por Flora Süssekind.

A censura é um ponto crucial discutido pela autora que a problematiza ao longo da primeira parte do livro, entendendo que não se deve analisá-la sob uma perspectiva unilateral e segundo os preceitos do senso comum, principalmente porque geralmente ela é pensada como um bloco rígido e altamente polarizado; dessa forma, segundo Süssekind, é importante observar que:

“[…] a censura não foi nem a única, nem a mais eficiente estratégia adotada pelos governos militares no campo da cultura depois de 1964. Assim como no plano estritamente político não se pode falar destas duas décadas como um todo monolítico, também a estratégia cultural não se manteve idêntica.” (SÜSSEKIND, 1985, p.12)

As decisões tomadas durante os governos militares relativas à cultura serão periodizadas em três momentos particulares. O primeiro período – de 1964 a 1968- permitia uma produção cultural engajada das esquerdas, desde que não incitasse as camadas populares e realizasse uma espécie de protesto “espelho”, cuja recepção eram as próprias esquerdas politizadas. As redes de comunicação de massa foram aprimoradas e incorporadas ao cotidiano popular, como o rádio e, principalmente, a televisão. A estética do espetáculo, consequentemente, ganhava força enquanto estratégia ditatorial de controle social, em que volumosos incentivos às indústrias culturais propiciavam uma vasta produção, caso inédito no país até então.

O segundo momento ocorre a partir da instauração do AI-5, em 1968, anos marcados por uma estratégia altamente coercitiva e de virada política de parte da população contestadora: a partir de um coeso movimento de pressão governamental, são agora os universitários que lançam mão do grito insubmisso juntamente aos artistas e intelectuais. Educada e politizada a camada populacional estudantil pela rica produção cultural incentivada até o AI-5, mudam-se as estratégias governamentais. A política nacional da ditadura, então, toma contornos repressores mais extremos, a exemplo da demissão e perseguição de professores, editores, funcionários públicos, produtores culturais e da presença de censores à espreita das produções culturais e mass media.

Com a Política Nacional de Cultura (PNC), instaurada em 1975, novos posicionamentos governamentais tomam forma no país, caracterizando o terceiro período de transformações. Esse programa político validou oficialmente a intervenção estatal no setor cultural, fixando esta instância como estandarte para o progresso e desenvolvimento da nação. Mediante severo controle e orientação dos desejáveis percursos culturais a serem seguidos, múltiplos dispositivos de intervenção, vigilância e punição foram estabelecidos pelos militares a fim de adequar as produções artísticas realizadas aos ditames do governo. Curioso é o dado que nos fornece Süssekind ao afirmar que:

“No que se refere aos livros, é interessante notar que foi sobretudo a partir de 1975 que as restrições se tornaram mais rigorosas. É possível apontar, ao menos, duas explicações para este súbito interesse da censura. Como assinalam em artigo de 1979 Marcos Augusto Gonçalves e Heloisa Buarque de Hollanda, data justamente de 1975 um certo boom editorial no país. Conquista de mercado, divulgação de novos autores, interesse pela produção nacional, lucros editoriais maiores: estas algumas características do boom. E ampliando-se o interesse pela literatura, amplia-se também a ação da cultura.”

Como se nota, é principalmente a partir de meados dos anos 70 que começa a se delinear o processo de industrialização da cultura e o fortalecimento do mercado editorial interno brasileiro em concomitância com o momento mais duro da censura ditatorial. Seja de modo a desarmar a arte de protesto da resistência, adequar os trabalhos ao que se entendia como “cultura oficial” ou mesmo, e não menos relevante, conformar a criação artístico-cultural aos moldes do capitalismo, o Estado assumiu o papel de mecenas da cultura nacional.

O Estado também atuou promovendo “[…] incentivo, via concursos, prêmios ou co-edições, à produção literária. E neste caso não se trata de retirar textos do mercado, mas até de facilitar sua edição e circulação”, observa Süssekind, assegurando a relação com a lógica mercadológica numa tentativa de controle político, social, ideológico do imaginário nacional. Tais dispositivos políticos acabaram por promover o fortalecimento dos mecanismos de industrialização no âmbito do mercado de bens culturais, fomentando o parque editorial brasileiro. De modo geral, o que se nota a partir da introdução da PNC é que esta: “[…] incentiva[va] por meio de subvenções, ao mesmo tempo que coibia com a censura, reforça[ndo] a necessidade de organização da cultura em moldes empresariais, em que a profissionalização e a conquista do mercado são pontos cruciais.”, como afirma outra estudiosa do período, Tânia Pellegrini.

Ainda que seja possível notar que em Literatura e vida literária a autora começava a dar conta dos efeitos de um passado recente que, aos poucos, modificava a condição de escritor brasileiro nas últimas décadas do século XX, o livro não esmiuça a ideia de escritor profissional, mas acaba por proporcionar um painel político, histórico e cultural sobre as condições que oportunizaram o surgimento de tal figura.

 

 

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Um jogo complexo de figurações

Por Nívia Maria Santos Silva

distorção e aquarela henrieta harris

Créditos da imagem: The Greatest – Henrietta Harris

[…] a inconsentida/figuração do uno pelo vário.

(BRUNO TOLENTINO, O mundo como ideia)

Um dos investimentos teóricos realizados por minha tese é a ideia de autofiguração. Partindo do trabalho dos críticos argentinos de Sylvia Molloy, José Amícola e Julio Premat, defendo a autofiguração autoral como uma estratégia discursiva de produção de uma imagem de si que abrange tanto a inclusão e manipulação de rastros autobiográficos em textos literários e críticos quanto a ficcionalização da biografia e a atuação pública do autor em prol de sua legitimação no campo literário.

No estudo em que venho me empenhando, observei o processo pelo qual passou Bruno Tolentino enquanto poeta recém-chegado (investindo em suas primeiras publicações após quase três décadas fora do Brasil), poeta polemista (estabelecendo seus antagonistas) e poeta pensador (se inscrevendo numa filosofia da forma). Até o momento, minhas investigações apontaram que todas essas imagens investidas por ele convergem em prol da construção da imagem de poeta maior. Nas próprias palavras de Tolentino: “Sou um dos nossos poetas maiores”.

Toda autofiguração, no entanto, implica uma recepção, a qual acaba por instituir também um jogo complexo de figurações. Em outras palavras, para que autofiguração se concretize, não basta a ação do autor, uma vez que a autofiguração, ainda que incitada por ele, dependerá das escolhas da recepção para se realizar assim como do conceito de literatura que lhe serve de lastro. Isso se dá porque figurações diversas são realizadas por uma recepção igualmente diversa.

Tolentino já foi julgado positivamente por Arnaldo Jabor como aquele que trouxe de volta “a peste clássica” e teve sua poesia qualificada negativamente por Manoel Ricardo de Lima como “recheada de idiotices repetitivas e neoparnasianas”. Sua recepção crítica foi constantemente marcada por esses sentimentos díspares de admiração e de repulsa, sendo alvo de textos de importantes nomes da crítica literária brasileira, como: José Castelo, “Bruno Tolentino faz versos contra a hipocrisia”; Ivan Junqueira, “Bruno Tolentino: imitação e criação”; Célia Pedrosa, “A estranha caçada de um polemista”, e Marcos Siscar, “A história como múmia: sobre a poesia de Bruno Tolentino”.

Entre julgamentos antagônicos incitados por Tolentino e suas produções podem ser encontradas tanto a sentença de Alcir Pécora, “Bruno Tolentino é seguramente um dos maiores poetas da língua portuguesa, na era pós-João Cabral”, quanto a análise de Domeneck, que encontra na produção poética de Tolentino “as rimas convencionais, a linguagem frouxa e a imagética kitsch”. Essas posturas não são apenas diferentes, mas muitas vezes antitéticas e se repetem em outros textos críticos. Em “Escrito nas estrelas”, Érico Nogueira, por exemplo, classifica a poética de Tolentino como classicizante, sem ver nisso nada de depreciador, enquanto que Eduardo Levy o situa como um poeta que “parou no tempo”, taxando-o de retrógrado. Enquanto alguns críticos o alçam à categoria de poeta modelar, para outros Tolentino seria um poeta obsoleto.

Assim, a recepção crítica ora reforça ora contesta o investimento de Tolentino como poeta maior, formando figurações outras que apontam para a impossibilidade de controle da autoimagem e até mesmo promovem distorções da figuração pretendida. Tantos julgamentos controversos exigem a problematização do suposto controle estratégico da formação da imagem de si pelo poeta e as possíveis vantagens ou prejuízos para a posição do poeta no campo literário em que ele atuou.

 

O desenho de si

Por Luciene Azevedo

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Créditos da imagem: Nude with Skeleton- Marina Abramovic

 

“A arte contemporânea deve ser analisada, não em termos estéticos, mas em termos de poética. Não a partir da perspectiva do consumidor de arte, mas a partir da perspectiva do produtor”. Leio a defesa de Boris Groys a favor do que considera uma virada necessária nos estudos sobre a arte hoje. Na visão do filósofo alemão, parece mais contemporâneo pensar as “práticas artísticas como transformações radicais que vão da estética à poética, mas especificamente na direção de uma autopoética, na direção da produção do próprio Eu público”.

A colocação parece uma resposta implícita à ideia de estética relacional de Nicolás Bourriaud que defende uma “forma de arte cujo substrato é dado pela intersubjetividade” entre observador e quadro. Ao chamar a atenção para a “produção de um efeito de visibilidade” percebido no gesto de muitos artistas contemporâneos, Groys rejeita entender esse movimento como pura “mercantilização do Eu”, pois acredita que parte do interesse da produção artística contemporânea reside na possibilidade que nos oferece de observar o movimento realizado pelo artista que vai “do interesse pelo mundo externo na direção da construção autopoética de seu próprio Eu”.

Interessado em analisar como os artistas desenham-se artisticamente, Groys retoma brevemente a história do design para pensar o “desenho de si” no qual os artistas parecem investidos hoje. Segundo o filósofo, a grande diferença entre o que chama de “artes aplicadas tradicionais” e o design moderno, fruto das vanguardas do início do século XX, está fundada na “oposição metafísica entre aparência e essência”, pois enquanto as primeiras prezam o caráter meramente utilitário e mercadológico do objeto, o desenho moderno, ou antidesenho, como o trata Groys, “quer eliminar e purificar  tudo o que se acumulou na superfície” dos objetos a fim de permitir que o sujeito “seja capaz de descobrir as coisas por si mesmo”.

Groys reconhece aí uma dimensão ética na qual os “consumidores assumem a responsabilidade por sua própria aparência e pelo desenho de suas vidas cotidianas”. Ao constatar que nossa época nos impinge a “obrigação do desenho de si”, Groys quer superar a dicotomia moderna entre a “desinteressada contemplação estética” e o “uso das coisas guiado pelo interesse” e recuperar a aliança entre ética, estética e política, entendendo a manifestação do Eu, do autodesenho de si como uma disposição que faz pensar o mundo.

Assim, o que Groys chama de autodesenho é a possibilidade de o próprio artista transformar-se em obra, expondo-se de uma “maneira radical ao olhar do outro”.

Se olhamos para a cena literária atual, consideramos ainda mais instigantes as provocações do filósofo alemão, pois empreendimentos como os de Ricardo Lísias ou Karl Ove Knausgaard, cada um à sua maneira, indicam que na relevância do papel do autor junto à sua produção está uma das chaves para compreender a reelaboração crítica do papel das artes hoje.

 

Adorno e o Ensaio

Por Allana Emilia

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Créditos da Imagem: Disponível em <http://cultura.culturamix.com/personalidades/filosofos/adorno-theodor&gt;. Acesso em: 06.09.2017

 

No post anterior, comentei o clássico ensaio “Sobre a forma e a essência do ensaio: Carta a Leo Popper” de Georg Lukács. Dando continuidade à minha pesquisa sobre ensaio como gênero, neste post eu me volto para outro ensaio clássico, “O ensaio como forma” de Theodor W. Adorno. Adorno inicia o ensaio se opondo à visão preconceituosa com que o ensaio era visto na Alemanha. De acordo com o paradigma epistemológico dominante, acreditava-se que existe apenas um tipo de saber válido, o saber metódico e organizado. Assim, como o ensaio não apresenta o mesmo caráter que a ciência e a filosofia, ele seria enquadrado como “irracional” e não como forma de conhecimento válido.

A partir de uma crítica ao positivismo, Adorno ressalta a liberdade de expressão permitida pelo ensaio, ocupando “um lugar entre os despropósitos”. O gênero ensaístico se caracteriza pela liberdade sem método com a qual maneja seus temas, sem se submeter a uma ordem pré-estabelecida. Ao invés disso, se baseia em um objeto transitório e reflete sobre questões que o transpassam, sem a pretensão de ser universal ou “originário”. O ensaio não apenas “registra e classifica” o objeto; vai além e o interpreta, não se atendo apenas ao que é dito no texto. Assim, opondo-se à polarização na qual o ensaio era visto na Alemanha, o filósofo alemão elogia a liberdade interpretativa como uma característica válida do pensamento.

Para expandir os sentidos e fazer sua interpretação, o ensaísta se permite uma deriva no olhar, que vem a moldar a leitura do objeto. Esse procedimento passa a impressão de ter sido emprestado da arte. Porém, o ensaio tem a pretensão de verdade e um meio de investigação específico (os conceitos), que a arte não tem. Portanto, Adorno critica Lukács em seu posicionamento de aproximar o ensaio da arte. Afirma que, quando Lukács os aproxima, reforça o preconceito e o estereótipo de que o ensaio não seria uma forma válida de conhecimento. Com essa crítica, subentende-se que Adorno propõe a legitimação do ensaio como uma forma de conhecimento, tão válido quanto os conhecimentos sistemáticos.

Adorno ressalta que também é válida a transmissão de conhecimento a partir da experiência. Como ele afirma, embora a ciência rejeite a experiência como critério válido do conhecimento, houve um tempo em que: “não passaria pela cabeça de ninguém, entretanto, dispensar como irrelevante, arbitrário e irracional o que um homem experiente tem a dizer (…)”. Assim, o ensaio recupera essa confiança na experiência dos indivíduos que a ciência ofuscou.

A abordagem “não-exaustiva” do ensaio sobre os conceitos visa a um estudo do objeto em toda a sua complexidade, ao invés de fragmentá-lo em partes compreensíveis. Depreende-se, então, que o ensaio anuncia o questionamento à completude e continuidade pretendidas pelo pensamento científico tradicional; propõe um pensar fragmentado, que se aproxime da realidade, também fragmentada. Desse modo, ao abordar a realidade de um ponto experimental, questionando conceitos e teorias sem a pretensão de chegar a uma conclusão, o ensaio se torna a “forma crítica par excellence”, sendo uma crítica da ideologia.

A partir do mergulho nos fenômenos culturais, o ensaio constrói relações entre imagens e conceitos, evidenciando questões ideológicas. A evidenciação das questões ideológicas se dá justamente a partir das observações do transitório, situando os conhecimentos no tempo e evidenciando “pontos cegos” nos conhecimentos legitimados.