Arquivo da categoria: Ricardo Lísias

A literatura contemporânea e seus pactos

Nivana  Silva

Equilibrium-Under The Dust Studios - Londres 2011

Créditos da Imagem: Equilibrium – Under the Dust Studios (Londres, 2011)

No processo de pesquisa e de escrita sobre o contemporâneo, frequentemente estamos diante das consequências relacionadas à análise de objetos literários, os quais, a despeito da denominação, ultrapassam os contornos daquilo que, na modernidade, se convencionou a ser chamado de literatura. Uma das consequências está relacionada à sensação de insuficiência que certas noções e terminologias nos trazem para lermos, teoricamente, esses objetos, pois eles mobilizam questões que indicam a improdutividade de impor um arcabouço moderno para pensar tais “frutos estranhos” – usando a expressão de Florencia Garramuño – e, ao mesmo tempo, sinalizam a impossibilidade de prescindirmos de uma tradição que está bastante consolidada.

De modo específico, me chamam a atenção dois pontos que tocam na inserção do não literário na literatura e que não deixam de estar conectados. Primeiro, o questionamento do estatuto ficcional de muitas obras (substantivo que também acaba sendo posto em xeque nesse contexto) e, em segundo, a necessidade de problematização das implicações éticas que emergem de algumas manifestações do contemporâneo.

Tenho pensado que as interpretações e apropriações críticas de diversos desses textos requisitam um exercício de leitura que parece extrapolar os limites do pacto ficcional e colocar em cena elementos que, além de muitas vezes encontrarem-se exteriores ao universo literário, estão fundidos à própria figura autoral, não somente àquela que atua no campo e performa máscaras e posições de sujeito, mas também ao que poderia ser chamado de autor empírico, que arrasta de roldão para dentro da obra os supostos fatos sobre sua vida.

E é aí que a questão ética pode ser alvo de reflexão, principalmente quando essas menções biográficas se capilarizam da instância do “eu” para a do “outro” e põem em tensão as fronteiras entre o público e o privado, revelando pessoas e situações, ligadas a referências rastreáveis fora do literário, no interior de histórias recorrentemente chanceladas como (auto)ficção. A título de exemplo, basta lembrarmos de alguns casos envolvendo a exposição da intimidade alheia na literatura e que têm final trágico, como a acusação pública feita a Serge Doubrovsky de que a morte de Ilse Doubrovsky, com quem era casado à época, teria sido provocada pela leitura da narrativa de cunho autoficcional – Le Livre Brisé – que trazia detalhes do alcoolismo da mulher.

No Brasil, Ricardo Lísias não apenas foi intimado judicialmente por Ana Paula Sousa, em decorrência da publicação dos contos que relatavam detalhes do fim do casamento com o autor, como ele e a obra são questionados eticamente pela exposição da intimidade que pertence também à outra pessoa envolvida. Divórcio, publicado depois da circulação dos contos, está calcado em um fato supostamente privado, do qual o autor fez ampla divulgação, e que não pode ser lido separadamente do livro. Um dos elementos que atravessa esses exemplos e tantos outros da literatura contemporânea parece ser o mecanismo da referencialidade, o que reverbera nos protocolos de leitura das obras.

Nesse cenário, talvez seja possível levantar a hipótese de que tais expressões literárias têm colocado em conflito a história contada com a ideia de verdade, o que vai de encontro à definição do ficcional como entendida na modernidade, em que a “pretensão de verdade e uso da ficção não estavam em contraste: os escritores descobriram que a validade geral do romance dependia da natureza explicitamente fictícia de seus detalhes”, como afirma a crítica inglesa Catherine Gallagher no ensaio intitulado “Ficção”.

O que estou tentando dizer nessa breve reflexão é que a natureza de muito do que ainda é chamado de ficção hoje tem requerido do leitor um exercício que frequentemente faz minar o conhecido pacto ficcional – que nos faz aceitar o texto literário como internamente coerente e verossímil, independente de uma referencialidade externa – já que traz à tona elementos que forçam o textual na direção de um “fora” do texto.

No entanto, por mais que o referido pacto se apresente de outra maneira (ou até inexista do modo como tradicionalmente o conhecemos) em um bom número de exemplos da literatura contemporânea, ainda nos falta uma ancoragem teórica consolidada para analisarmos o fenômeno, e nesse lugar reside a sensação de insuficiência à qual me referi no início do post. Usar o termo ficção para obras que fraturam o perímetro da autonomia estética ainda é uma confortável saída, embora saibamos que é menos frutífero nos debruçarmos sobre a aplicação da terminologia, do que problematizar a questão e tentar renovar as chaves de leitura.

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Nome próprio, nome de autor

Nivana Silva

Equilibrium - Tim Head - 1975

Créditos da imagem: Tim Head – Equilibrium (1975)

Nomear, conferir um nome a alguém ou a algo, é uma forma de identificação e de referência, sobretudo no caso dos nomes próprios dos seres humanos, que designam e particularizam quem é nomeado, estabelecendo um vínculo específico entre o nome e seu portador. No âmbito da literatura, lidamos, constantemente, com o surgimento, a propagação, a repetição e até mesmo o apagamento de muitos nomes próprios associados a obras literárias, caso em que, para além de um nome próprio, somos colocados diante de um nome de autor.

Em sua famosa conferência “O que é um autor?”, Michel Foucault afirma, a título de exemplo, que uma carta privada possui um signatário, mas não um autor, isso porque pondera que um nome de autor não é um nome próprio como os outros, ou seja, seu funcionamento está imbricado a discursos (não se tratando de um discurso cotidiano, como ressalta o francês), que detêm certo estatuto e devem ser recebidos de determinada maneira em uma sociedade. Sendo assim, poderíamos dizer que um nome de autor estaria entrelaçado a certos tipos discursivos de caráter singular, remetendo, na literatura, a traços de identificação, presentes na obra, que contribuem para construir uma assinatura.

Comumente, esses traços que permitem identificar uma assinatura literária são relacionados a procedimentos de escrita, que estão disseminados, de modo particular, nos textos atrelados a nomes de autores, quer dizer, configuram marcas que se referem a um sujeito autoral, permitindo identificá-lo, especificamente, e distingui-lo em meio a outros nomes. De certa forma, é desse entendimento que parte a reflexão do crítico português Abel Barros Baptista em A formação do nome (2003), quando advoga que na inscrição de um nome de autor ocorre, simultaneamente, a alusão àquele que assina e à sua obra, fazendo emergir o que nela se repete e/ou o que a torna única, ou ainda, em outras palavras, o que nela faz apontar para um determinado autor e não para qualquer outro.

Vale ressaltar que a argumentação de Baptista se desenha de maneira a restringir a obra (e a formação do nome) ao texto literário, isto é, às manifestações escritas assinadas por um autor, questão que parece ser revista na literatura contemporânea. Nesse sentido, tenho apostado na hipótese de que a construção de uma assinatura, dizendo respeito a um nome próprio e, mais do que isso, a um conjunto de marcas identificatórias atinentes à autoria, transpõe os limites do “dentro” do material textual.

O que quero afirmar é que em um contexto no qual o autor está propenso a se envolver com a mídia e manter uma comunicação pública, como um modo de se engajar na “vida real” e de seduzir uma audiência maior (como trouxe em outro post), temos um sujeito que se dispõe, intencionalmente, a atuar não só no texto – quando, por exemplo, cria personagens homônimos, ou fragmenta sua voz autoral em múltiplas personas– mas também no engendramento de um eu, que transita também fora do material textual,  que cria e influencia as interpretações e especulações críticas vindas do público leitor (abarcando também uma parcela ampla e indistinta oriunda da Internet), cujo papel pode ser determinante para a formação do nome de autor e de sua obra.

Não posso deixar de mencionar, nesse cenário, o nome de Ricardo Lísias, que remete não somente ao sujeito que assina os romances (?), mas à performance do autor nas redes sociais, à sua atuação marcante como divulgador do próprio trabalho e, é claro, aos imbróglios jurídicos e políticos, que atravessam a sua literatura. Esse conjunto de traços que ultrapassam o texto, amalgamados ao próprio material textual (que, de maneira recorrente, lança mão do “fora”), é relacionado, quase de imediato, ao nome de Lísias, permitindo que identifiquemos e façamos referência ao seu nome de autor para além dos limites das manifestações escritas e da assinatura impressa na capa dos livros.

 

 

 

Uma questão “político-literária”

Por Nivana Silva

Raumzeichnung (outside-inside) - Monika Grzymala

Créditos da imagem: “Raumzeichnung (outside/inside)” – Monika Grzymala (2016).

O site da Revista Piauí, no início deste mês, publicou uma interessante matéria sobre Ricardo Lísias e as últimas polêmicas envolvendo seu nome de autor. O texto foi escrito a partir de uma conversa do escritor paulistano com Mateus Baldi, que, não por acaso, assina a publicação sob a tag “questões político-literárias”. A questão político-literária a qual Baldi se refere diz respeito ao mais recente trabalho de Lísias: Diário da Cadeia – com trechos da obra inédita Impeachment (Record, 2017) de autoria de Eduardo Cunha (pseudônimo).

Conforme mencionado em meu último post, o livro vinculado ao ex-presidente da câmara dos deputados, após ser publicado, provocou um imbróglio que ultrapassou as fronteiras da literatura. Diário da cadeia teve sua venda suspensa, como resultado de uma ação movida por Cunha, que foi acatada em primeira instância e, assim, a verdadeira identidade do autor, até então mantida em segredo, deveria ser revelada. O que se deu em seguida foi a decisão em segunda instância – após a editora Record recorrer – de que o sigilo da autoria deveria ser mantido, mas, àquela altura, a mídia já teria divulgado que se tratava de mais um empreendimento (para além do) literário de Ricardo Lísias, segundo o qual “fazia parte de um projeto artístico, de uma interferência da literatura na realidade”.

Não deixa de ser curiosa a narrativa acima, afinal de contas, revisitamos um conjunto de acontecimentos do universo jurídico para falar de um produto da literatura. Também não é à toa que, além de ser chamado para falar em eventos de faculdades de direito, como o próprio Lísias afirma para a Piauí, seu próximo projeto carregue o título de A Literatura no Banco dos Réus, livro que, consoante à matéria, reforçará o “discurso de defesa” do autor, já conhecido por situações jurídico-literárias, como no caso envolvendo a série Delegado Tobias (2014).

Efetivamente, o futuro trabalho do escritor paulista parece mesmo projetar-se como uma resposta, não só pelo “discurso de defesa” que fará parte de seu conteúdo, mas porque sinaliza um deslocamento atinente ao gesto signatário do autor, que não depende apenas dos modos como ele firma seu nome no campo literário, mas está relacionado ao papel da crítica, do público leitor, em reconhecer e legitimar esse nome. A partir da reflexão sobre assinatura que fiz no já mencionando post anterior, estou sugerindo aqui que A Literatura no Banco dos réus, ainda que projeto, pode ser tomada como parte de um movimento, calculado ou não, resultado do reconhecimento e construção do nome de Lísias pela recepção (que tem como ingrediente as atuações do autor de dentro e de fora da literatura e, nesse caso, as últimas polêmicas que o envolvem), o que, acredito, reverbera, de volta, nas performances autorais e na própria obra.

É possível desdobrar essa hipótese mais um pouco, mesmo que preliminarmente, se levarmos em conta a existência de outros dois projetos “que prometem aumentar o burburinho e as polêmicas”, de acordo com o texto de Baldi. Seriam eles: “Minhas Dívidas, criticando a indústria dos bancos, e o que seria a continuação de Diário da Cadeia, caso o pseudônimo não tivesse sido revelado: as cartas de José Dirceu a Fidel Castro”. O livro assinado por Eduardo Cunha (pseudônimo) estaria, desse modo, “inserido num contexto ainda maior, uma série de livros cujo nome seria Pseudoliteratura”. Ao que parece, portanto, se a verdadeira identidade autoral não se tornasse pública (e, por conseguinte, a crítica – e a justiça – recebessem a obra de outra maneira), os movimentos do autor, nesse percurso de criação de assinatura – ainda que velada por um pseudônimo – poderiam ser outros.

Nesse sentido, o que estou querendo reafirmar, a partir das menções feitas na matéria, é que a inscrição e a legitimação do gesto signatário estão relacionadas aos modos como a obra é elaborada e recebida. A recepção crítica, com papel fundamental para “criar” essa assinatura, tem nos trânsitos autorais um elemento importante nesse processo, que parece rebater, novamente, na própria obra. Essa, por sua vez, disposta num cenário de “questões político-literárias”, nos faz atentar para as complexas e intricadas relações entre o dentro e o fora da literatura –  as apropriações do real pelo literário e as reapropriações do ficcional pela própria realidade – o que, além de relativizar a moderna autonomia da ficção e da literatura, tem demandado outros protocolos de leitura e até mesmo de recepção, apontando para novas formas de fazer arte na contemporaneidade.

 

 

Literatura e performance: um “dentro-fora”¹ do texto

Por Nivana Silva

Bound Figures - Daniel Arsham

Créditos da imagem: Daniel Arsham – Bound Figure

Pauta recorrente na literatura contemporânea, o tratamento da performance autoral, muito mencionada aqui no blog, costuma estar imbricado às “atuações” midiáticas dos autores, como a participação em eventos literários, as entrevistas concedidas para canais televisivos e Web, o uso expressivo de redes sociais como meios de divulgação do trabalho e/ou como suporte ficcional para as obras, para citar alguns exemplos. Ao que parece, esses deslocamentos autorais tendem, dentre outras coisas, a indicar um trânsito entre literatura e vida “real”, configurando uma lógica de agenciamento do nome de autor, que circula por diferentes espaços do campo literário e torna notável o seu diálogo com o público leitor.

A chamada performance autoral, nesse caso, estaria relacionada a um movimento que vai além da obra literária e aponta para um “fora” dela – se é que podemos falar assim – mas o que acontece quando a performance se desdobra na perspectiva do próprio texto, do seu “dentro”, como uma espécie de estratégia narrativa/estratégia representacional? É diante desse questionamento que gostaria de arriscar algumas considerações sobre o tema.

Quando Wolfgang Iser (1996) observa o conceito de performance sob a ótica do “fim da representação”, na compreensão moderna da literatura, seu argumento aponta para a não restrição do modelo representacional a simples cópia de um real antecedente e empírico, o que coloca em suspensão o paradigma clássico da verossimilhança. Sendo assim, na lógica da performance, há uma outra configuração para a problemática da representação que se desenrola no texto, pois não se trata, por exemplo, de representar o outro, presentificando a ausência de uma voz que não pode falar, ou de mimetizar uma pretensa autoridade/autenticidade autoral, mas de trabalhar, engenhosamente, a linguagem, de modo a repeti-la com uma margem de diferença transgressora, que dissimula vozes, escancara a realidade e, simultaneamente, reitera e ironiza as suas normas.

No caso dos empreendimentos literários do contemporâneo, os gestos performáticos que compõem o material textual, o “dentro” do texto, abalam qualquer ideia de autenticidade autoral, principalmente se consideramos as atuações performáticas de “fora”, empreendidas por quem assina a obra. Quero dizer com isso que a fragmentação da voz autoral em múltiplas subjetividades, engendrando personas – uma delas sendo a própria “voz” do autor por trás das máscaras – e a reconfiguração das (re)apresentações/representações do vivido parecem estar ligadas às atuações midiáticas do autor , à sua atuação marcante como divulgador da própria produção. O que quero afirmar é que a performance não se desenha apenas no nível do texto, mas ensaia um “dentro-fora” , numa sobreposição muitas vezes difícil de ser separada.

Nesse cenário, A vista particular, de Ricardo Lísias (Alfaguara, 2016), pode ser emblemática para pensarmos a questão. Nela, o autor apresenta uma experiência literária que, via performance, instaura desvios no texto e abre espaço para a ruptura com um discurso apenas representativo, ruptura essa que transborda da obra. Em um post publicado aqui, antes do lançamento oficial do livro, eu dizia que, mais do que trazer um jogo sutil entre ficção e realidade, o livro, nos dois capítulos iniciais (lembro que Lísias fez a divulgação do pré-lançamento da obra, o que considero um investimento massivo no “fora”), tratava da espetacularização do sujeito, da superexposição às câmeras, dos seguidores desconhecidos, dos vídeos que viralizam em um curto espaço de tempo, em suma, do cruzamento do público com o privado.

Ao promover um desvio em relação ao caráter representacional da narrativa e forjar encenações, o autor se vale da própria lógica na qual está imerso para fazer sua crítica à “sociedade do espetáculo”, apostando no exagero, na caricatura e na “avacalhação”, repetindo estereótipos e delineando sua sátira. Essa “encenação autoral”, que se desdobra em vozes e máscaras – uma delas a própria voz ferinamente crítica do autor, Lísias, sobre o panorama contemporâneo das artes – transita entre a exposição/reiteração e a dissimulação/satirização de discursos e imagens do presente, uma zona precária que contamina a performance textual. Creio, portanto, que o desvio no caráter representacional instaurado pelo jogo performático no texto está indissociavelmente vinculado aos trânsitos do autor, aos seus posicionamentos nas mídias sociais e aos acontecimentos “reais” da contemporaneidade, vide, na obra, as asserções sobre o caráter confiável da história, as alfinetadas à alienação e aos fatos cotidianos, a crítica ao estatuto da arte na contemporaneidade, para me limitar a alguns exemplos que aparecem na narrativa e estão amalgamados à performance de Lísias para além do texto literário.

Na oscilação entre a reiteração e a crítica da realidade, na dinâmica da performance, o texto estabelece a possibilidade da transgressão discursiva por meio da ficcionalização, da pulverização de vozes, encenando e, ao mesmo tempo, satirizando o real e o presente. Esse movimento “de dentro”, conectado aos gestos performáticos “de fora”, não só em Lísias, mas em outras expressões literárias da contemporaneidade, culminam em um funcionamento específico da noção de autor e influenciam sua relação com o leitor, abrindo espaço para pensarmos a performance autoral sob a perspectiva do “dentro-fora” do texto.

 

[1] Ao se referir às chamadas “literaturas pós-autônomas”, Josefina Ludmer (2007) utiliza a expressão “dentro-fora” para caracterizar textos nos quais as fronteiras entre a realidade e a ficção não estão mais tão claras/definidas como costumavam estar.

 

 

 

Novas e velhas formas de narrar

Por Nivana Silva

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“Favela”, por Rodrigo Guimarães

No próximo mês de outubro, Ricardo Lísias lança pela editora Alfaguara seu mais novo livro, A vista particular e, mais uma vez, o autor aposta na ampla divulgação do trabalho nas redes sociais, aferindo a recepção de leitura de sua obra e dando novo espaço a algumas marcas pioneiras do seu estilo autoral. Para além de posts no facebook e no instagram sobre a pré-venda e o lançamento do livro, Lísias também divulgou, estrategicamente, os dois capítulos iniciais da narrativa em outros meios de comunicação: na Revista Piauí, na qual o paulistano atua como colaborador, temos o primeiro capítulo e parte do segundo. Já no Suplemento Pernambuco, encontramos a continuação do capítulo dois de A vista particular.

O leitor que puder ler as páginas iniciais da história antes do seu lançamento oficial, será ouvinte de uma narrativa, que se passa na cidade do Rio de Janeiro, cujo protagonista é um introspectivo artista plástico de trinta e cinco anos, que retrata em suas telas o urbano e a natureza carioca “sem deixar as fronteiras entre esses dois elementos muito claras” (LÍSIAS, 2016). Além de trazer detalhes sobre a temática e os traços dos quadros desse jovem pintor contemporâneo, temos algumas referências interessantes que se destacam no primeiro capítulo, como uma incipiente exposição do artista no Museu de Arte do Rio, no mesmo dia da conferência proferida pelo filósofo e crítico de arte francês Georges Didi-Huberman, e uma resenha do também crítico de arte e artista plástico Rodrigo Naves, com nota direta a uma matéria publicada no caderno cultural “Ilustríssima”, do jornal Folha de São Paulo em outubro de 2015.

Ademais do jogo sutil entre ficção e realidade, o que também chama atenção nas primeiras páginas de A vista Particular diz respeito à possibilidade de se pensar o contemporâneo a partir dele próprio. Após as descrições citadinas e cotidianas (sobretudo relacionadas ao personagem principal e à repercussão de seu trabalho) tomarem conta dos parágrafos iniciais do livro, há, no segundo capítulo, uma espécie de reviravolta, pois o protagonista, José de Arariboia, “é visto subindo a favela do Pavão-Pavãozinho. Ninguém sabe o que acontece por lá. Na volta, uma inesperada performance deixa as pessoas em delírio” (conforme o trecho da sinopse do livro). De uma personalidade naturalmente distraída e até mesmo distante, somos conduzidos à performática cena da espetacularização do sujeito, das câmeras, dos seguidores desconhecidos e dos vídeos que viralizam no YouTube em um curto espaço de tempo. Ao passar de um capítulo a outro, a sensação que impera é de descontinuidade, ou algo como uma suspensão em que emergem alguns questionamentos sobre a contemporaneidade e sobre a própria forma narrativa que se inscreve nesse novo romance de Lísias.

O desvelamento repentino do artista plástico, “que poderia ter sido uma catástrofe [e que] se transforma em sensação” (idem), ao que parece, sinaliza o ponto de partida para uma análise à exposição exacerbada da intimidade e, nesse sentido, há uma retomada, na obra de Lísias, de um comprometimento/crítica social que se delineava nos romances iniciais, como a posição quanto aos moradores de rua em Cobertor de estrelas (1999) e em Duas Praças (2005), e à competição entre executivos d’O Livro dos Mandarins (2009), para citar apenas alguns exemplos. Também encontramos em A vista particular – com foco narrativo em terceira pessoa e com um narrador onisciente nos dois primeiros capítulos – marcas biográficas sutilmente mencionadas de forma ficcional, o que também esteve impresso na consolidação do estilo (antes da fase autoficcional, se é que podemos falar assim) de Ricardo Lísias.

Dessa maneira, é possível ver, de um lado, a (re)inscrição  de uma assinatura acompanhando uma forma de narrar que marcou o estilo inaugural-experimental de Lísias e, do outro, uma nova (e já recorrente) estratégia narrativa associada à divulgação, à performance autoral e aos termômetros de recepção do trabalho por meio das mídias sociais, especialmente. Ressalto, no entanto, que não há uma delimitação precisa, ou claramente definida, entre essas novas/velhas formas (tal como o não limite de fronteiras entre o urbano e a natureza nas telas de Arariboia), mas uma mescla profícua que contribui, sobremaneira, para reafirmar o acolhimento do nome do autor pela cena contemporânea brasileira.

“Meu, é um livro. Meu, é só um livro.”

Capa_Inquérito Policial_Lísias

Por Nivana Silva

Contrariando o título-citação do post e, mais uma vez, levando às últimas consequências a fronteira entre o real e a ficção, além de desordenar qualquer expectativa que o leitor tenha previamente, Ricardo Lísias divulgou no primeiro semestre deste ano seu mais novo empreendimento Inquérito Policial: Família Tobias através do booktrailer disponível no site da editora Lote 42 e em sua página no facebook. Longe de ser só um livro, trata-se de um projeto pós-polêmica Delegado Tobias, ou seja, uma resposta bastante criativa e sagaz aos desdobramentos jurídicos que a série de e-books trouxe para a vida (real) de Lísias.

Para quem não se recorda, após a publicação do quinto livro da série que entrelaçava o assassinato de Ricardo Lísias, a chantagem feita por seu homônimo e a investigação encabeçada pelo agente Paulo Tobias – não esqueçamos também das colagens, documentos e até comentários dos leitores nas redes sociais que compunham a obra – o Ministério Público Federal de São Paulo abriu um inquérito contra o autor, alegando “falsificação de documentos”. O processo foi arquivado e, buscando dar uma continuidade ficcional ao verdadeiro inquérito, o escritor paulistano nos presenteia com mais uma experiência literária inventiva e que coloca sob rasura qualquer tentativa de harmonização entre a suposta verdade e a ficção.

A começar pela própria performance do autor-personagem no booktrailer, ouvimos, de alguma forma, o desabafo do Lísias acusado na vida real “É um texto de ficção […]. Meu, é literatura policial, eu inventei tudo, não é verdade!”. Todavia, ao final do vídeo – embalado por uma trilha sonora próxima a de um crime thriller – nos deparamos, ao que parece, com o protagonista fictício denunciante da Editora Lote 42, que pega do chão o inquérito/livro. Esse, por sua vez, traz pistas, provas, textos jurídicos, a árvore genealógica da família Tobias, em suma, um legítimo dossiê, organizado, inclusive, como uma pasta reunindo documentos de uma investigação. Nesse cenário interessante, contornado por uma linha difusa, as vozes do autor imprimem uma assinatura e levam o leitor a montar a verdadeira história da família Tobias e do processo impetrado por Lísias contra a Lote 42.

Outro ponto de destaque relacionado ao alcance de Inquérito Policial: Família Tobias e às consequências do imbróglio, nada literário, é a peça intitulada “Vou com meu advogado depor sobre o Delegado Tobias”, na qual o autor de um livro é chamado a prestar esclarecimentos por falsificação de documentos, ou, leia-se, Ricardo Lísias é intimado pela justiça para depor a respeito de falaciosos textos jurídicos forjados por ele em uma obra literária (a qual, no processo real, passou despercebida, segundo o próprio afirma). Além do protagonista-autor-personagem-vítima no elenco, atuam também Eduardo Climachauska e Clayton Mariano, sob direção de Alexandre dal Farra e Janaina Leite.

Diante desse livro-objeto (“livro como objeto maleável”, conforme bem colocou Elizângela em seu último post sobre Laura Castro), esbarramos com a engenhosidade transbordante de um escritor de literatura contemporânea que, cada vez mais, firma seu nome próprio no seu campo de atuação e vai nos mostrando como se faz um autor. Parece-me que o mais instigante e desconcertante em Inquérito Policial: Família Tobias é a zona limítrofe onde termina a realidade e começa a ficção, ou onde a cena literária é tão vicejante a ponto de pedir prosseguimento na vida real, ou onde, simplesmente, não sabemos onde termina, tampouco onde começa nada disso. A impressão é que não há lugar de partida, nem zona de parada, afinal de contas, “é só um livro […]. Só na literatura é verdade”. Até que passemos para a próxima página e comece uma nova história.

A primeira pessoa do autor-personagem Ricardo Lísias

Por Marília Costa

Concentração e outros contos

Ricardo Lísias Objetiva, 2015.

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O livro Concentração e outros contos de Ricardo Lísias pode funcionar como uma espécie de antologia que permite ao leitor perceber nitidamente o projeto literário do autor. Nessa reunião dos principais textos há apenas um inédito “autoficção”, pois os demais já tinham sido publicados em livros, revistas literárias ou suplementos.

A maioria dos contos são narrados em primeira pessoa e o rico trabalho com a linguagem fortifica a prosa. Os principais temas são recorrentes também em outros livros do autor: a solidão, a memória, o xadrez, a insanidade, as pressões da vida acadêmica, o deslocamento da zona de conforto, a carreira de escritor, a morte do amigo André e a política latino-americana.

O conto inédito “Autoficção” estabelece uma dura crítica ao trabalho da imprensa brasileira que seria, na visão do narrador, altamente parcial e mentirosa. Essa forma irônica como Lísias se refere aos jornalistas funciona também como uma resposta aos ataques que sofreu após a publicação de seu romance, Divórcio. No conto, Ricardo Lísias, o personagem, desiste da carreira de escritor para dedicar-se às artes plásticas e,  depois de vender dez quadros por um valor milionário, decide ir viver na Suíça. Uma renomada jornalista brasileira viaja para entrevistá-lo e, contrariando todas as críticas que o autor-personagem tinha recebido da imprensa,  desmancha-se em elogios a ele. No final do conto é revelado que a jornalista envolve-se sexualmente com seu entrevistado:

“Foi fácil constatar, porém, que as acusações de arrogância, solipsismo e comportamento destrambelhado que recaem sobre Lísias no Brasil são absurdas. O que as pessoas queriam? Depois de um manifesto que lembra os melhores textos modernistas e uma exposição que chamou a atenção do mundo inteiro, que Lísias ficasse com uma parcela tão pequena do dinheiro das vendas que mal conseguiria comprar um apartamento?! Um absurdo. Na Suíça, ele pode continuar criando com mais conforto. Essas fontes são todas invejosas, a reportagem teve certeza ainda nessa terceira visita, quando Lísias  a currou pela primeira vez com toda força. Seu pau imenso e poderoso entrava e saía da reportagem sem dó.” (LÍSIAS, 2015, p. 88 e 89)

Ainda sobre esse mesmo conto vale a pena comentar como Ricardo Lísias-autor investe no projeto literário de misturar os fatos e a ficção, característica cada vez mais presente na produção contemporânea, e que nesse conto mitiga uma crítica ao embaralhamento das fronteiras entre o público e o privado.

Em Concentração e outros contos aparecem também sete fisiologias: da memória, do medo, da dor, da solidão, da amizade, da infância e da família. Nesses contos é feito uma espécie de estudo do funcionamento desses sentimentos presentes nos títulos. São todos textos escritos em primeira pessoa que revelam uma subjetividade intensa e um Lísias-personagem político, sentimental, problematizador da vida e da profissão de escritor, que invoca as muitas temáticas também presentes no livro O céu dos suicidas, como a morte do amigo André e a impossibilidade de salvá-lo do suicídio. Essa série  narrativa pode ser considerada autoficcional, embora o autor repudie a ideia e defenda que toda sua obra é só ficção que parte de acontecimentos e figuras reais.

A principal característica do projeto literário recente de Lísias é o uso frequente da narração em primeira pessoa, na qual o narrador se confunde com o próprio autor, resultando na figura do “escritor-personagem”. Concentração e outros contos pode, então, ser lido como uma produção importante do projeto literário de Lísias, pois refere-se tanto à exposição formal de intenções de trabalho, quanto ao caráter estético da produção ficcional, e pode servir como um farol para orientar seus leitores e críticos na compreensão de sua trajetória como escritor.