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O livro-objeto de Laura Castro

Por Elizangela Santos

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Vários textos publicados nesse blog, ainda que sob enfoques distintos, reiteram a questão de como a mudança da percepção do sujeito escritor sobre o mundo altera sua atuação no campo literário, atingindo também a forma de representação artística. Em se tratando das práticas literárias, a ideia de pulverização de vozes com a apropriação de materiais realizada por Verônica Stigger ou o foco na dimensão do sujeito, como as narrativas autoficcionais de Ricardo Lísias, ou mesmo os cruzamentos com outras linguagens em Laura Erber são procedimentos que vêm se acentuando no século XXI, sobretudo com as possibilidades oferecidas pelos recursos da internet.

Destaco nesse texto a ideia do livro como objeto maleável, da escritora baiana Laura Castro. Cabidela: bloco de máscaras, (2011), publicação contemplada pela Fundação Nacional de Arte (Funarte) por meio do edital de criação literária em parceria com a designer Cacá Fonseca, aponta para uma frequência cada vez maior de alterações impulsionadas pela era da internet, em que características do mundo digital têm sido a tônica das práticas artísticas. Reunindo textos de seu blog homônimo, mantido desde 2008, Castro estreita o diálogo entre a virtualidade da internet e o livro impresso, produzindo uma obra cujos elementos se aproximam do meio virtual. O livro-objeto é composto por quatro elementos: um romance, um bloco de notas, um baralho e duas máscaras.

O romance, com o título Breu, discute a questão do trânsito, expressa na mudança do foco narrativo, na narrativa oscilante de uma prosa-poética, numa personagem que se muda para outra cidade e na voz de uma escritora anônima perseguindo uma personagem Luíza Breu. A narrativa traz ainda dois começos e um final que converge no outro, cuja leitura pode ser iniciada por qualquer um dos lados do livro.

O Borratório é o bloco de notas. Neste, a autora revela pistas de seu processo criativo, como um laboratório de experimentação em que se esboça e borra a si mesma ao se autoficcionalizar. O baralho é constituído de cinco cartas: A decisão, O retorno, O velho marinheiro, O moço das cartas e O círculo. Embaralhadas ao acaso no interior do livro, as cartas funcionam como uma espécie de convite para o leitor complementar os sentidos da narrativa, a partir das escolhas que realiza. O último elemento, As máscaras, funciona como artifício de leitura com o qual é possível fragmentar o texto impresso e criar novas narrativas.

Para ler o livro, o leitor é praticamente “obrigado” a abandonar a relação linear, tradicional da leitura, uma vez que tem à mão os elementos que o conduzem a diferentes e outras vias de leitura. O leitor precisa interagir com a obra, ser ativo, disposto a se confrontar com as possíveis reviravoltas que sua intervenção na leitura pode ocasionar. Se a forma linear da leitura é comprometida, também há sobreposições no interior da linguagem, na exploração de recursos gráficos e na exibição da variedade de gêneros. A disposição das letras nas páginas, as lâminas, folhas em branco, a inversão do texto, os desenhos à mão sobrepostos ao trabalho computadorizado, tudo nesse objeto-livro, ou livro-objeto corrobora uma proposta de saída dos parâmetros tradicionais literários.

Assim, o leitor é envolvido pela hibridação da linguagem e das formas, articulando as partes de acordo com sua opção de leitura. Imerso nas diferentes possibilidades de ler, o leitor transforma-se em co-autor da obra, uma vez que ele é responsável pelos links realizados no texto, pelas articulações do objeto literário. Convidado à imersão, o receptor precisa interagir com a obra, que só se completa por meio de sua manipulação, o que implica sua responsabilidade pelas escolhas de leitura e amplia seu envolvimento com o produto.

No artigo Entre materialidade e imaginário: atualidade do livro-objeto, D’Angelo tece considerações acerca da transformação da narrativa, apostando nas interseções abertas pelo livro-objeto. Segundo o autor, “estamos frente a uma reconfiguração que é preciso saber reconhecer”. (D’ANGELO, 2013, p. 42) A hibridação do livro expande os cruzamentos para além das linguagens, suportes e materiais, uma vez que a manipulação do objeto e essas interrelações colocam o leitor como sujeito responsável pela narrativa. Do mesmo modo, o leitor de Cabidela: bloco de máscaras é obrigado a dar conta do objeto que tem em mãos, desde a escolha que precisa fazer para ler o Breu, até a opção por jogar O baralho e decidir por aceitar ou não o convite para utilizar esse elemento como alternativa à narrativa, ou mesmo criar outras narrativas a partir da utilização das máscaras.

O livro-objeto de Laura Castro é um dos exemplos que traduzem a abertura para uma (nova) estética literária promovida pela era da internet. Desde que algumas práticas e técnicas surgiram a partir dos novos mecanismos tecnológicos, aliadas à intensificação de outros elementos comuns às artes, como o hibridismo e as mudanças na relação do receptor com a obra, assiste-se a uma profusão de modificações que alteram sobremaneira os critérios empregados para se pensar o literário. Sejam práticas literárias em meio digital ou o emprego de recursos dos dispositivos digitais fora das telas ou ainda apenas o emprego do computador como suporte para o literário, o fato é que modificações estéticas na literatura são uma realidade do presente. Essas manifestações artísticas ou experimentalismos resultam sobretudo do diálogo estabelecido entre o sujeito, a tecnologia e a cultura na sociedade.