Atrás da assinatura: Elena Ferrante

Por Fernanda Vasconcelos

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Crédito da imagem: Katia Wille

Elena Ferrante é um nome de peso no campo literário contemporâneo. A autora, que conquistou a cena internacional, começou a escrever no início dos anos 90 e ampliou seu público para outros países com a publicação do primeiro livro da quadrilogia napolitana, A amiga genial (2011).  A venda dos seus romances atingiu a casa dos milhões de exemplares e, contra a vontade de críticos que não abrem margem para a literatura vinculada ao mercado mais explicitamente, seus romances também conquistaram a crítica especializada devido à qualidade de sua escrita. Qual seria o segredo de Elena Ferrante?

A narrativa captura o leitor pela exímia capacidade de construir seus personagens. Os romances, escritos em primeira pessoa, são narrados por Elena Greco, que conta sua vida em uma atmosfera intimista, marcada pela amizade com Lila: “E em seu aspecto não havia nada que agisse como corretivo. Estava sempre desgrenhada, suja, com cascas de ferida nos joelhos e cotovelos que nunca saravam”, é assim que ficamos conhecendo um pouco da “amiga genial” da narradora.  Segundo Wood, seus personagens são construídos como se estivessem sempre “à beira de um colapso”, caracterizados por relatos de vivências intensas e profundas.

O estrondo sucesso dos romances convivia, até pouco tempo, com o anonimato da identidade da autora. Em plena era da “sociedade do espetáculo”, como diria Guy Debord, Ferrante escolhe ocultar-se por trás de um pseudônimo que assina sua obra. E, o que parece inviável em nosso contexto midiático, se mostrou eficaz. Durante um bom tempo, o público não teve acesso a outras informações da autora além da assinatura e do conteúdo dos livros.

O embate entre o sucesso e a postura discreta em torno da assinatura de autora despertou um rebuliço no campo literário. Por vezes, ela é comparada a J. D. Salinger e Thomas Phynton por críticos, devido ao comportamento recluso e à grande repercussão pela postura assumida, bem como pelo lugar que vai conquistando no campo literário.

Mas o sucesso não deu trégua para o recolhimento: uma pesquisa na universidade La Sapienza de Roma que buscou investigar, por meio de algoritmos, o estilo das obras da autora, comparando-o com estilos de outros escritores, a fim de identificar possíveis autores para as obras assinadas por Ferrante, na tentativa de desvendar sua “verdadeira” autoria, apontou como um dos prováveis autores para os livros o escritor Domenico Startone, que, em outubro de 2016, a partir de uma investigação feita pelo jornalista Claudio Gatti, foi identificado como o marido de Anita Raja, a “verdadeira” Ferrante.

Alegando agir em nome do direito legítimo de os leitores conhecerem a identidade da autora, o jornalista italiano investigou e cruzou as transações bancárias da editora Edizione E/O com as do casal Anita Raja, tradutora italiana, e a do marido escritor, apostando em uma resposta para as evidências encontradas. Os argumentos que sustentam sua hipótese de que Raja é Ferrante baseiam-se na exposição de altos valores depositados na conta de Raja pela pequena editora italiana, bem como ao considerável aumento do patrimônio do casal de escritores nos últimos anos.

A descoberta de quem está por trás do pseudônimo Ferrante, cria alguns constrangimentos aos críticos que, como James Wood apostaram na literatura “fortemente pessoal” de Ferrante (http://www.newyorker.com/magazine/2013/01/21/women-on-the-verge ), pois Raja, diferentemente das protagonistas, foi morar em Roma aos três anos de idade.

Como se os bastidores da autoria não fossem já aventurescos o suficiente, cabe observar que o pseudônimo escolhido para assinar os romances, Elena, é o mesmo da protagonista, o que não deixa de ser interessante, pois mostra uma perspicácia da autora em captar no espírito do tempo uma sede pelos perfis biográficos, um desejo de complicar ainda mais o jogo entre a ficção e a realidade, como fazem as chamadas autoficcções.

Mas descobrindo-se a “verdadeira” identidade autoral e as não correspondências entre a vida de Raja e a dos personagens, nos perguntamos, então, se o uso de um pseudônimo não resguarda uma potência ficcional, uma opção que reafirma o distanciamento entre o narrador e o autor e dá prioridade à “pura imaginação criativa” na elaboração do universo narrado.

Ao jogar com a semelhança dos nomes entre autor e personagem, mas optar por pseudônimo, Ferrante dá mais uma volta no parafuso da intrincada engrenagem da produção contemporânea e colabora para as discussões sobre a condição do autor no cenário literário contemporâneo.

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4 Respostas para “Atrás da assinatura: Elena Ferrante

  1. Fernanda, gostei muito de ler seu texto. Em literatura, parece haver sempre um jogo de pique esconde, quando tudo parece apontar para um lado, eis que surge uma nova obra e desmonta o que parecia já estar instituído. Diante de uma tendência à prática de uma narrativa quase não-ficcional, que flerta constantemente com não-literário, penso ser consequente o surgimento de novas obras que venham a reafirmar a ficção, relacionando o literário novamente à imaginação. Pelo que disse, parece que Raja (?) realiza esse movimento com muita consciência. Essa dinâmica é muito proveitosa por tirar a crítica da zona de conforto, trazendo novos elementos a serem considerados. O seu texto prova que você está atenta a isso. Aguardo o próximo.

  2. O mais interessante no post da Fernanda é o comentário que ela faz a respeito do fato de que a narradora compartilha seu nome com o pseudônimo autoral: Elena. Não me parece inocente esse gesto. Muito pelo contrário.
    Pra quem ficou curioso sobre a autora e sua estratégia: Ferrante acaba de lançar uma espécie de biografia literária, Fantrumaglia, pouco antes do suposto desvendamento de sua identidade. O formato é provocador e pode render bom diálogo com o sucesso da quadrilogia: https://www.nytimes.com/2016/11/06/books/review/elena-ferrante-frantumaglia.html?_r=0

  3. Fernanda Vasconcelos

    Agradeço os comentários. Nívia, o caso da Elena Ferrante é bem intrigante para pensarmos na autoria e nos seus efeitos sobre a obra. Frequentemente, observamos a autoficção na ficção contemporânea apontando para uma figura de autor que extrapola o texto. Mas, nesse caso, o pseudônimo complica o direcionamento para a figura da autora extratextual. Mesmo assim, ao escolher o nome da narradora, Elena, que coincide com o pseudônimo, ela indica jogar com essa possibilidade. Inclusive, o livro indicado por Luciene parece servir como uma peça-chave para Ferrante na construção de uma figura autoral. Espero desenvolver melhor isso em um post posteriormente. Abraços!

  4. Pingback: Quem é Elena Ferrante? | Leituras contemporâneas - Narrativas do Século XXI

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