Arquivo do mês: fevereiro 2016

Autofiguração: uma chave possível

CAPA DAS BOOTY

Por Nívia Maria Santos Silva

Na cena da contemporaneidade, surgem diversos termos que se apresentam resistentes a uma catalogação taxonômica rígida, escapando dos limites que a classificação de gênero impõe. É assim, por exemplo, com a autoficção e com a noção de antibiografia, criada pela teórica argentina Leonor Arfuch. Dentre as várias possibilidades investigativas para pensar as narrativas de si, a autofiguração emerge como uma modalidade de autorrepresentação.

A autofiguração, no entanto, não é um gênero, mas uma estratégia textual presente nas narrativas de si. Vale salientar que existem formas de autofiguração que fogem ao gênero das autobiografias e se apresentam em outros “momentos autobiográficos”. Nesses momentos, as ideias do autor sobre ato poético, suas leituras, seus juízos sobre outros escritores, a forma de assumir sua prática literária são elementos que servem para a construção das imagens de autor e devem ser considerados tanto como uma “apresentação muito cuidadosa de si”, que se vale da proeminência do espaço biográfico na cena contemporânea conforme o analisa Arfuch, quanto como uma estratégia de ataque e defesa, que, uma vez problematizada, pode oferecer rendimentos críticos.

Esses “momentos biográficos” estão cada vez mais dispersos em entrevistas, depoimentos, sites e blogs. São neles que as marcas da autofiguração mais são evidenciadas, por serem um espaço de presença e autorreferencialidade, demarcando posições, ideologias e deixando manifestas informações biográficas, pelo menos aquelas que o autor deliberadamente deixa saber.

A entrevista é um dos gêneros que mais vem atribuindo autenticidade à autorrepresentação. Ela se tornou um eficaz veículo da autofiguração porque a imprensa é um agente de consagração e um gerador de capital simbólico (prestígio), o que legitima os ditos sobre si. Nessas instâncias da enunciação sobre si, o entrevistado, entre o que anuncia e o que omite, entre o que esquece e o que lhe escapa, vai inventando vidas que passarão a ser vistas como sua vida.

Por isso tudo, a autofiguração é uma chave possível de estudo do poeta Bruno Tolentino. Sua autofiguração de polemista, tão escrachada quanto presumida, deixava perceber de forma subjacente, um intelectual de amplas leituras e de postura crítica bem definida. Ela foi, sobretudo, uma tomada de posição já que cada entrevista representava também uma reivindicação, um manifesto, uma crítica a determinados grupos e posturas

literárias. Na entrevista, encontrava sua tribuna, um meio de fazer-se ouvir e difundir suas ideias sobre a filosofia da forma, sobre o ofício de poeta e sobre aquilo que dizia ser a luta da sua vida inteira: separar a realidade da ideia que se tem sobre ela.

Nesta época em que o sujeito tem um lugar de enunciação privilegiado, como chama a atenção a critica argentina Beatriz Sarlo a respeito da guinada subjetiva contemporânea, Tolentino soube chamar atenção para si, e, nessa preocupação por forjar a si próprio, tomou a posição do poeta escolhido e incompreendido. Para nós, a elaboração dessa figura autoral é ferramenta indispensável para efetivação de seu projeto literário, por esse motivo seu estudo se torna produtivo.

Anúncios

ADRIANA LISBOA E OS ESPAÇOS DE PROFISSIONALIZAÇÃO

imagen

Por Neila Brasil

Neste post, eu gostaria de comentar brevemente a trajetória da escritora brasileira Adriana Lisboa considerando a internacionalização de sua carreira. Em entrevista concedida ao site da Saraiva/conteúdo, a autora afirmou: “Pensar em ser escritora era como pensar em ser astronauta, uma coisa assim um pouco fora da realidade. Eu não sabia que era uma profissão viável, possível. Fui fazer uma outra coisa também não muito viável, que é trabalhar com música”. Com formação nessa área, a autora viu na pós-graduação em Letras na UERJ a possibilidade de enveredar pela carreira de escritora. O romance Um beijo de colombina é apresentado como uma dissertação de mestrado. Visto em perspectiva, essa escolha parece indicar o reconhecimento da academia como um caminho possível de abertura para a afirmação de uma carreira como escritor.

Hoje, os livros de Adriana Lisboa encontram tradução em dezessete países, sendo uma das poucas autoras brasileiras traduzidas nos Estados Unidos, onde a autora vive atualmente. O fato de ser uma escritora contemporânea que alcança a internacionalização de seu nome pode estar relacionado à questão de ser representada por agências literárias como as de Lucia Riff (Agência Riff) e pela agente Nicole Witt (Mertin Literary Agency). Vale lembrar que nos Estados Unidos, por exemplo, a maior parte das editoras não recebe originais diretamente dos autores, que precisam ser representados por agentes literários.

Também é possível arriscar que o recebimento de prêmios literários seja um incremento importante de consolidação do nome da autora, já que Lisboa foi premiada com bolsas da Fundação Japão e da Fundação Biblioteca Nacional do Livro, para criação dos romances Rakushisha e Um beijo de colombina.

Entrevistas, resenhas, fotografias e artigos sobre Adriana Lisboa e sua obra são encontrados facilmente em materiais virtuais disponíveis na internet. A autora ainda conta com o site, atualizado recentemente, em que o leitor poderá encontrar informações sobre seus livros, biografia e contato. A obra de Lisboa vem recebendo maior atenção de estudiosos e críticos literários que desejam conhecer a literatura contemporânea. Sua obra tem sido alvo de diversos artigos, críticas e resenhas, sendo estudada em universidades brasileiras e algumas universidades nos Estados Unidos. Partindo dessa constatação, podemos afirmar que os caminhos trilhados por Adriana Lisboa, quer seja na construção da sua literatura, quer seja na recepção crítica de seus textos, têm contribuído para a consolidação da sua carreira tanto no Brasil quanto no exterior.