Arquivo do mês: junho 2017

A biblioteca dentro do livro

Por Davi Lara

Math Monahan - Bookmark

Créditos da imagem: Math Mohanan, instalação Book(mark), disponível em: http://www.mathmonahan.com/bookmark.html 

Boa parte do interesse em torno da obra de Vila-Matas tem a ver com sua preferência pelos temas literários e seu pendor para retratar o universo dos livros, característica que lhe valeu o epiteto de “escritor de escritores”. Para o escritor argentino Rodrigo Fresán – autor de um artigo sobre o escritor espanhol intitulado justamente “El escritor de escritores” –, o epiteto não se limita a indicar a admiração que os colegas têm por ele: “en el caso de Vila-Matas, semejante definición, –que va anexando la de ‘escritor de lectores’– se hace todavía más justa y apropiada, porque Vila-Matas ha convertido literal y literariamente a los escritores (escritores verdaderos o falsos) en materia y material narrativo.De fato, os escritores, sejam eles reais ou fictícios, são figuras centrais no universo vilamatiano.

Basta lembrarmos algumas de suas obras para atestar isso. Em Histótria abreviada da literatura portátil (1985) conhecemos os bastidores de uma curiosa sociedade secreta de escritores da qual eram membros Tzara, Céline, Duchamp, Fitzgerald, dentre outros.  Doutor Pasavento (2005) conta a história de um escritor que se cansa da vida de entrevistas e conferências e decide desaparecer e assumir outra identidade. Já em Paris não tem fim (2003), a autobiografia inventada do autor, é a história do próprio Vila-Matas, ou melhor, do seu duplo autoficcional, que é contada. Em todos esses exemplos, o escritor está presente, mas não somente o escritor, como a própria literatura. Pois, se é verdade que Vila-Matas pode ser considerado um escritor de escritores, no sentido de que os escritores integram seu universo ficcional, me parece mais exato aquela outra expressão sugerida por Fresán, “escritor de leitores” ou, mais precisamente, “escritor de leitores literários”.

Sei que a expressão pode parecer redundante, já que todo escritor só é escritor em relação aos leitores de literatura. Talvez a redundância se resolva, ou pelo menos se torne mais inteligível, se circunscrevermos os leitores de Vila-Matas de acordo com a descrição que César Aira faz dos leitores de literatura, em oposição aos leitores de best-sellers, como aqueles que não se interessam por apenas um livro isolado, senão por toda uma biblioteca. Uma biblioteca composta por uma rede invisível que liga livros e autores da tradição da literatura mundial por meio de tramas imprevisíveis e sempre em movimento. Escreve Aira: “Se alguém lê, digamos, As asas da pomba, e gosta, o mais provável é que leia outros livros de Henry James, e quando terminar lerá suas cartas, prefácios, conferências, uma biografia, a de Leon Edel, por exemplo, daí passando aos contemporâneos de James, seus discípulos ou mestres, Flaubert, Turguéniev, The Ring and the Book, Proust … em círculos concêntricos que terminarão por abarcar a literatura toda.”

Outro autor argentino (já é o terceiro que eu cito nesse post), Jorge Luis Borges, já havia tratado dessa teia invisível que une os livros por meio da imagem da biblioteca de Babel. A biblioteca de Babel é um símbolo dessa abstração ou dessa quimera que é a literatura mundial, na qual todos os livros, reunidos por laços imprevisíveis, estão contidos. Creio que boa parte do encanto da literatura de Vila-Matas está no fato de ele ter trazido a biblioteca para dentro de seus livros. Em livros como Bartleby e companhia (2001) ou O Mal de Montano (2002) o escritor ocupa o centro, apenas como um dos componentes dessa biblioteca de autores e obras. O prazer que encontramos em ler a sucessão de impressões de leituras, perfis e comentários às obras e aos autores é correlato ao prazer do leitor perante a sua biblioteca pessoal, à soma de todos os livros que leu e os que ainda quer ler.

É por isso que, na estilização da biblioteca feita por Vila-Matas, a forma tradicional do romance é forçada a se modificar. Quando falamos sobre livros, não falamos em formas de narrativa, mas em textos dissertativos. Assim, muitos dos romances de Vila-Matas parece assimilar o ensaio como uma força motriz que se mistura e se confunde com a narrativa propriamente dita. E esse é uma das grandes ironias do procedimento vilamatiano: a partir da estilização da biblioteca ele faz um movimento duplo, que de um lado reifica a ideia de literatura, enquanto que, de outro, parece conduzi-la a seus limites.

 

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Possíveis lugares da assinatura

Por Nivana Silva

Trace of existence_Mateo López

Créditos da imagem: “Trace of existence” – Mateo López

Ao tratar da performance autoral na literatura contemporânea em meu último post, considerei que os gestos performáticos que compõem o material textual, o seu “dentro” – fragmentando uma suposta autenticidade autoral e fabricando personas, incluindo a própria voz do autor – parecem estar relacionados às atuações performáticas de “fora”, empreendidas por quem assina a obra, conexão que “ensaia um ‘dentro-fora’, numa sobreposição muitas vezes difícil de ser separada”. Creio que uma das consequências disso pode ser um funcionamento específico da noção de autor, influenciando a sua relação com o leitor e os modos como sua assinatura é forjada.

Para desdobrar a questão, é importante mencionar que a contemporaneidade vem catalisando o enveredar-se da literatura em direção a outras formas e a outras artes, proporcionando encontros que ultrapassam o contexto apenas literário e nos fazendo questionar qual o lugar da assinatura de autores que, não só transitam entre texto e exposição midiática, mas se deslocam nas fronteiras difusas entre a realidade e a ficção, trazendo à tona na obra, por exemplo, a apropriação do real, a ficcionalização do verídico e, até mesmo, uma disseminação e reapropriação dessa ficção pela própria realidade. Diante desse “dentro-fora”, que fratura e faz transbordar os limites da literatura e de seu entorno, é possível arriscar a hipótese de que o gesto signatário se inscreve numa espécie de zona movediça, percorrida por quem assina, e que, acredito, interfere no papel que o leitor assume em relação ao reconhecimento, à legitimação de um nome de autor.

Estou sugerindo que a inscrição de uma assinatura e seu consequente reconhecimento estão indissociavelmente conectados aos modos como a obra é elaborada e recebida, se levarmos em conta que a assinatura é firmada como resultado da relação instituída entre o texto literário, quem o assina e quem o “recebe”. Em outras palavras, não seria o autor, ele mesmo, que forjaria o seu nome no campo literário, mas o próprio texto e a crítica teriam papel decisivo para “criar” uma assinatura.

Nesse sentido, cabe considerar que, na literatura contemporânea, a crítica e o público leitor também são impactados pelas intervenções do autor – comumente marcadas pelo jogo do “fora” – e, muitas vezes, decisivas para a exposição e circulação de sua obra, que, por seu turno, também reverbera o que vem da recepção. Ao que parece, portanto, a recepção crítica, a mesma que contribui, sobremaneira, para a construção e reconhecimento da assinatura, é marcada pelos movimentos de “dentro-fora”, que têm caracterizado muitas atuações performáticas do contemporâneo.

Um caso emblemático para o que estou tentando problematizar diz respeito ao livro Diário da Cadeia (Record, 2017), de autoria de Eduardo Cunha (pseudônimo), cuja publicação causou diversas polêmicas e inquietações que ultrapassaram o circuito literário. Com a suspensão da venda – resultado de uma ação movida pelo ex-deputado Eduardo Cunha – o jornal Correio Brasiliense trouxe uma matéria em que o editor da Record, Carlos Andreazza (um dos nomes que, no início do imbróglio, conhecia a verdadeira identidade do autor), afirma que “a estratégia deste livro sempre foi construída como resposta às reações, em tempo real, mesmo. Sabíamos que seria assim, que dependeríamos de movimentos alheios para definir os nossos”. Esses movimentos alheios estão ligados também aos trânsitos autorais (e, nesse caso, também aos editoriais) e é esse emaranhado de pequenos lances, calculados ou não, que são um ingrediente a ser considerado na recepção crítica da obra e na construção da assinatura do autor.

Ainda que o livro em questão oculte o legítimo nome do autor e traga um pseudônimo, a polêmica não deixou de suscitar a curiosidade sobre a identidade autoral por trás de Diário da Cadeia. Uma vez revelado o autor-signatário, o texto escrito por Eduardo Cunha (pseudônimo), ao lado da sua recepção – e, eu diria mais, ao lado das polêmicas e performances do “dentro-fora”, que já fazem parte da vida real e literária do verdadeiro autor – contribuem para a construção de uma assinatura e para seu reconhecimento. Conforme já dito, esse fluxo tende a reverberar na própria obra e nos gestos performáticos daquele que assina, o que, de maneira geral, parece ser uma tendência da literatura contemporânea e, particularmente, uma grande marca do autor que emula o ex-congressista, mas isso é pauta para uma outra discussão.

Financiamento coletivo: novas perspectivas para o mercado de livros?

Por Larissa Nakamura

Créditos das imagens: Carlo Giovanni

A partir dos anos 2000, presenciamos a criação de diversas plataformas de financiamento coletivo presentes na internet. Desde então, é possível notar o espraiamento e a transformação dessa prática que se torna cada vez mais comum. Para participar, basta oferecer um produto (livros, cds, linha de roupas, HQs, projetos científicos etc.) ou mesmo especificar um objetivo (como, por exemplo, um auxílio para angariar fundos para instituições não governamentais ou pessoas) e estipular um valor a ser arrecadado, ficando a cargo do público o acolhimento à solicitação.

O crowdfunding, como é mais conhecida essa prática, também é utilizado por aqueles que desejam publicar seus livros. A pergunta que surge, então, é se tais iniciativas podem representar uma concorrência às editoras ou mesmo alguma desestabilização, ainda que pontual, do circuito livreiro tradicional. Quais as desvantagens e vantagens que tais plataformas oferecem aos escritores?

A autopublicação – inteiramente paga com os recursos do autor– não é novidade entre os artistas que desejam ver suas obras tomarem vida. Ainda nos anos 60, Sérgio Sant’anna se utilizou de tal estratégia como o pontapé inicial de sua carreira, segundo relata em entrevista: “Fui juntando os textos, levei os originais à gráfica e paguei de meu bolso. Minha mulher, que era artista plástica, criou a capa. Fizemos mil exemplares, que eu próprio distribuí. Enviei metade da tiragem pelo correio a escritores e críticos que poderiam me dar algum retorno. Como naquela época não havia tanta gente escrevendo, recebi muitas respostas.”

Considerando o depoimento do autor, acreditamos que há uma semelhança com os empreendimentos de autopublicação. Muitos autores no contemporâneo  administram as etapas de produção de seu livro, encarregando-se de sair a campo em busca de profissionais (revisor, diagramador) que o produzam, quando eles mesmos não assumem essas várias tarefas.

Neste último caso, a disponibilidade na internet de instrumentos de edição e divulgação de uma publicação dá ao artista autonomia suficiente para manejar toda a cadeia de produção do livro por meio de networking (de um trabalho feito na e por meio da rede) que pode inclusive contar com uma fan-base, com um conjunto de admiradores que ajudam a divulgação da publicação.

Assim, para os autores iniciantes que ainda têm pouca ou nenhuma visibilidade no campo literário e que encontram dificuldades para conseguir publicação em uma editora comercial, a autopublicação por crowdfunding representa também a oportunidade de conseguir, a uma só vez, investidores e admiradores da produção do autor.

Tais iniciativas e ferramentas criam um circuito próprio e não há garantia de que a publicação que circula na rede alcance inserção no mercado mais tradicional do livro, como livrarias, feiras e premiações literárias. Mas em casos de notável sucesso, com boa repercussão on-line, é possível despertar o interesse de editores ou casas editoriais consagradas que entendem a repercussão virtual do livro e do autor como um filtro de seleção, de passagem para o circuito mais tradicional de circulação do livro (impressão, distribuição pelas livrarias).

No exterior (em especial, nos EUA e a Europa) vêm surgindo plataformas de financiamento coletivo exclusivas para a publicação de livros, como Inkshares e Publishizer, que se apresentam como alternativas mais abertas, democráticas e lucrativas para o autor em relação às editoras mais tradicionais. É interessante notar que essas empresas, a partir do momento em que os escritores atingem a meta programada, se dispõem a atuar de maneira semelhante a uma casa editorial tradicional, já que se propõem a realizar todo o processo de produção e distribuição do livro. Nessa lógica, importa sinalizar a conveniência para autores e editoras, ainda que não possamos nos certificar da qualidade das publicações, da representatividade e do impacto editorial no campo literário.

Acreditamos que a iniciativas como o crowdfunding revelam um cenário incerto, mas que vale a pena ser observado, pois vem transformando as relações entre autores, editores e público, por isso concordamos com o professor da PUC do Rio de Janeiro Karl Erik Schollhammer quando afirma que “ é notório que a internet tem propiciado rotas alternativas e eficazes de atuação, conferindo novos contornos para os capitais simbólicos firmados em torno da literatura.”

Das Booty: Se non è vero, è ben trovato

Por Nívia Maria Santos Silva

Um, professor e intelectual. Outro, aluno e esportista. Um, carioca. Outro, londrino. Um, com a cabeça nos astros. Outro, com os pés no chão. Um, verborrágico e eloquente. Outro, calado e ponderado. Um, erudito. Outro, pop. Ambos amantes e poetas. Diferentes e complementares, mas, sobretudo, imprevisíveis. Lúcio e Shyno são duas personagens improváveis do livro Das Booty, que, companheiros e amantes por mais de uma década, lançaram-se numa aventura marítima na qual parecem ser mais críveis as licenças poéticas do que aquilo que pretende ser a “recriação imaginativa de fatos reais”.

 

A própria capa do livro traz o aviso: “Um verdadeiro conto de contrabando, vudu e poesia”. Um exercício de ambiguidades que é intensificado ainda mais na versão brasileira, na qual encontramos o nome “Bruno Tolentino” estampado e o destaque da informação: “Uma história real”. O autor problematiza mais a questão quando faz a ressalva: “mas não uma reportagem”. Mais do que de Pringle, é de Tolentino essa história, é ele o homenageado do livro e muitas das situações vividas pelos personagens fazem parte da biografia do poeta.  Inclusive, é dele a fotografia da capa.

 

O autor, Simon Pringle, britânico, formado em Letras, poeta não praticante, ex-vendedor, publicitário etc., tem em Das Booty o seu primeiro romance, gerado justamente porque tinha uma grande história para contar. E a história é a seguinte: indivíduos cheios de trejeitos, que são verdadeiras caricaturas de si mesmos, “Dois ex-presidiários, um aleijado, um par de sodomitas e um sujeito metido a californiano”, unem-se numa missão nem um pouco lícita: transportar haxixe de barco do Marrocos para a Espanha e seguir por terra até a Inglaterra. Já no primeiro capítulo, os integrantes dessa quadrilha são apresentados como “A turma da prensada”, para ser mais exata “uns 130 kilos, prensado de primeira”, numa referência à droga com a qual fariam o serviço de mula. Até o quinto capítulo, o plano de ação já estava todo bolado.

 

Tolentino-Lúcio é o mentor intelectual do crime. Além disso, foi apresentado no livro como gourmet, jogador de futebol, bailarino, boxeador, bruxo, poliglota, navegador, cantor, um homem de múltiplas habilidades, não só linguísticas ou intelectuais. Em meio a todas essas atividades/talentos, é apresentado como poeta: “Shyno sempre ficava perplexo por ele ser capaz de fazer poesias em meio a circunstâncias mais impropícias”.

 

A história é uma aventura marítima, mas a viagem era o modo de Lúcio “Restabelecer seu amor propre”, o que faz o relacionamento amoroso dos poetas, embora não explorado, ser um ponto nuclear da trama, pois foi pela necessidade de reaver o encanto entre eles, que Lúcio e Shyno se lançaram rumo ao desconhecido. Esse era “o único jogo que realmente era importante”.

 

Percebo outro jogo aí em exercício, um jogo de figurações. Vejo Das booty como um discurso que colabora para uma certa imagem do poeta, um retrato de Bruno Tolentino  em diálogo ambivalente com uma autofiguração laboriosamente trabalhada pelo próprio Tolentino. À sua imagem de poeta católico e conservador, são acrescidas a sua mitomania patológica, a sua “hipocondria cosmológica”, a sua paixão homoafetiva e aventureira. Paradoxalmente, saber que muito do mundo que ele nos apresenta não se realizou apenas textualmente torna a narrativa mais fantástica e sua figuração mais múltipla e complexa. Afinal, não é todo dia que se vê dois poetas, amantes, fazendo parte do “grupo mais improvável de traficantes internacionais”.

 

 

PRINGLE, Simon. Das Booty: candomblé, tráfico e poesia. Uma história real. Tradução Pedro Sette-Câmera. São Paulo: É Realizações, 2015.

 

​O romance e o comentário sobre as artes

Por Fernanda Vasconcelos

Créditos: Perimeters/Pavilions/Decoys(1978), de Mary Miss

Conforme afirmou Davi Lara em seu último post, uma aproximação entre a literatura e as artes plásticas/visuais tem se mostrado vigorosa em diversos romances publicados nos últimos anos. Trata-se de longos trechos, muitos deles escritos em primeira pessoa, nos quais o protagonista relata o contato com obras artísticas.

É interessante pensarmos nesse movimento, do literário rumo às artes, quase sempre presente em obras de caráter mais experimental, que é configurado na narrativa pelo amálgama de reflexão e fascínio do narrador diante das produções artísticas, muitas delas experimentais e com formas de difícil captura.

No caso do romance autobiográfico A morte do pai (2013), escrito por Karl Ove Knausgård, o contato do protagonista com as artes aparece em vários momentos ao longo do livro, seja via sua experiência como frequentador de museus evocando descrições e reflexões de alguns quadros específicos de Rembrandt, seja por meio da experiência mediada pela reprodução da obra em livros de arte, como ocorre quando entra em contato com as pinturas de Jonh Constable.

Comentando exemplos da arte no século XIX, fica explícito o arrebatamento de diante daquelas pinturas: “Tudo concentrado em instantes tão intensos que às vezes era difícil suportar”, afirma o narrador. Nesse trecho ensaístico, o protagonista lida com o indescritível de sua experiência com a arte em um âmbito íntimo sem parecer estar preocupado com fornecer esclarecimentos mais técnicos ou específicos para o leitor. É um relato pessoal, como uma conversa íntima consigo mesmo, uma reflexão do escritor com ele mesmo, na qual ele mostra estar lidando com o inexplicável da arte, mediado por suas impressões e sentimentos.

O escritor afirma que estava acostumado a estudar a história da arte e a analisar a arte, porém o mais importante seria escrever sobre a experiência de fruição da arte. O que em sua opinião representava um desafio, porque o forçaria a lidar com a impossibilidade de descrever ou narrar algo inexplicável. Evocando sua frequentação às galerias de arte, Knausgård parece querer reproduzir na escrita a liberdade experimental, reflexiva que desenvolveu como visitante dos espaços de exposição de arte, que, no entanto, nem de longe é caracterizada como uma atividade apaziguadora, já que esse exercício demandava “estar dentro da inexauribilidade” que aquelas obras lhe apresentavam.

Em seguida, o escritor tece um comentário sobre a arte contemporânea. Aí, o escritor ressalta que o que causara a experiência da inexauribilidade do estético diante de obras como as de Constable e Rembrandt, se esvaziou ou se torna irrelevante para os objetos artísticos enquadrados na categoria de arte contemporânea. Karl Ove reconhece que as representações naturalistas passaram a ser ingênuas e ultrapassadas, pois delas não restaram grande significados estéticos. Contudo, afirma não pode deixar de sentir nostalgia por aquelas pinturas, e que se é naquela direção que ele como escritor deveria ir, faltaria saber o caminho a tomar. Aí, a reflexão se interrompe e o romance volta ao relato das mais banais preocupações do cotidiano.

Acreditamos que essa reflexão pode servir para pensar a própria condição da narrativa de Karl Ove na literatura contemporânea. Pois ao se mostrar resistente à arte contemporânea e buscar abrir um caminho na direção de uma representação naturalista, tentando apreender um modo novo de contar dentro dessa representação, não poderíamos pensar que o autor ao voltar ao relato de suas trivialidades, não estaria já respondendo à nostalgia que diz sentir e, ao mesmo tempo,  tateando um outro caminho para sua narrativa?

O que quero sugerir que é talvez seja possível pensar o  próprio romance A morte do pai como a materialização do esvaziamento de uma certa concepção de arte literária, da forma do romance tal como o reconhecemos desde o século XVIII, em seu momento inaugural. E que essa transformação é dada a ver na narrativa de Karl Ove por meio da reflexão, quase ensaística, do autor sobre a própria arte e sua experiência de fruição.

O jogo que se estabelece, então, é o de uma aposta na experimentação que afeta a voz narrativa que pensa a arte e a literatura atuais e, simultaneamente, pensa a si próprio como autor, como fruidor e produtor, no movimento dessa reflexão, dando voz a um eu que volta a si mesmo, durante a escrita, convidando os leitores a se engajarem também nessa reflexão.