O romance, o diário em “Algum lugar”

Carolina Coutinho

Sally Mann (American, born 1951), Semaphore, 2003, gelatin silver print.

Minha investigação atual está interessada em refletir sobre o número cada vez maior de obras que se aproximam do que poderia chamar de uma “dicção diarística”, ou seja, de ficções que se parecem com um diário, cujas características poderiam ser o fluxo e o ritmo de anotações que acompanham a rotina cotidiana, a dicção pessoal, a atenção ao banal.

Foi assim que comecei a ler Algum lugar, romance escrito por Paloma Vidal em 2009. A narradora, que não recebe um nome, muda-se para Los Angeles para escrever sua tese de doutorado. Esse mote fornece também uma estrutura para o romance que parece se aproximar do ritmo da escrita de um diário, pois vamos acompanhando o dia a dia da personagem, suas impressões, suas frustrações, pequenas alegrias e descobertas: “Nossa vizinha colombiana comprou uma gata, apesar da proibição de ter animais no prédio”; “M trocou o dia pela noite: janta diariamente às 3 da manhã”.

Muitos pequenos fragmentos separados graficamente por espaços vazios na página podem funcionar como entradas, à maneira de um diário, pois ainda que não datadas, deixam perceber uma cronologia bem marcada.

Embora esteja tentando justificar porque li a narrativa de Vidal aproximando-a à forma do diário, não é exatamente a simulação de um diário que busco identificar, mas sim o aproveitamento da forma desse gênero biográfico como porta de entrada de algumas ficções produzidas no presente para explorar uma intimidade vacilante, não investida puramente de uma subjetividade narcisista.

Um romance que se aproxima da maneira de escrever um diário não se esgota apenas na anotação de contingências e pode ser um bom artifício para investigar um modo de dizer o eu frente ao mundo e à vida, um método de escrita que se dá a ver em processo: “ o movimento da caneta sobre o papel me guia por um circuito que assim deixa de ser totalmente estranho para mim”, como diz a narradora.

Me arriscaria a dizer que é possível ler na própria construção da narrativa um investimento na escrita íntima nos moldes em que Barthes a desejou. O procedimento narrativo de alternância entre a primeira, a segunda e a terceira pessoas que permeia e molda todo o romance poderia ser interpretado como um deslocamento para uma multiplicidade de eus, assumindo uma forma de contar de si como algo mais que mero umbiguismo, abrindo a possibilidade de se estar “contando a história como se não fosse dela”, como lemos em um dado momento da narrativa.

Uma outra pista para essa leitura poderia ser a diversidade de temas abordados nas anotações que compõem o romance. Mais do que apenas idiossincrasias e um fluxo de acontecimentos do que poderia ser um diário pessoal, privado, a narradora está ligada ao mundo e ao seu entorno, buscando se relacionar com o território e seu contexto político, como na única entrada datada do romance sobre uma matéria do jornal sobre a guerra do Iraque.

Lendo as entrevistas concedidas pela autora, sabemos que Vidal também esteve em Los Angeles durante o período em que escrevia sua tese de doutorado. Essa convergência entre vida e ficção também poderia referendar a aproximação entre o gênero diário e a forma romance. Esse embaralhamento das fronteiras, cada vez mais presente hoje, e não apenas na literatura, também é um problema para a narradora que não sabe como responder à pergunta que lhe parece uma charada sem resposta: “por que você mistura tudo?”

Assim seria possível pensar que apelar a um gênero biográfico como o diário, por exemplo, para provocar uma fricção com o literário, pode significar uma vontade de experimentar contar em primeira pessoa sem voltar às armadilhas do século XIX.

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