Arquivo da categoria: HIV

Diários da AIDS (e do HIV)

Ramom Amorim

Créditos da imagem: Robert Mapplethorpe, Watermelon with Knife, 1985.

Apesar de não ser meu interesse imediato de pesquisa e de não dominar o vasto referencial teórico que trata sobre o assunto, tem me interessado perceber a presença de narrativas (auto)ficcionais em formato de diários, principalmente quando estas tematizam a questão do HIV/AIDS na literatura brasileira. Já falei aqui sobre a produção de Gabriel de Souza Abreu (pseudônimo de Salvador Correa), autor de O segundo armário: diário de um jovem soropositivo (2014). Porém, além dessa narrativa, é preciso destacar ainda Depois daquela viagem (2005), de Valéria Piassa Polizzi; Uma vida positiva (2012), de Rafael Bolacha; e A doença, uma experiência (1996), de Jean-Claude Bernardet, mesmo essa última se assumindo como romance (em forma de carta), apesar de uma estrutura interna que pode ser lida como diário.

Unidas pela mesma temática, as obras chamam a atenção pela diversidade em relação às trajetórias autorais. Na sua maioria, os autores se lançam pela primeira vez na escrita de um livro e não têm sequer qualquer experiência com uma produção escrita de maior fôlego. Por outro lado, mesmo depois de 24 anos de lançamento de Depois daquela viagem, Valéria Polizzi continua como a única autora a lançar um livro de relevo sobre a temática do HIV/AIDS, assim como Jean-Claude Bernardet cuja obra ainda é referência para se pensar o tema em relação a pessoas na terceira idade.

Como disse, mesmo que algumas narrativas possam não assumir o gênero diário, é possível identificar nelas as marcas desse gênero autobiográfico: a simplicidade, a liberdade na forma de expressar, a informalidade, o caráter confessional. Para Philippe Lejeune, principal referência no estudo das produções autobiográficas, um diário é formado basicamente, além das características indicadas acima, por um texto com indicativo de data, que registra o que a pessoa que escreve está fazendo, sentindo e/ou pensando. 

Se a produção ficcional sobre HIV/AIDS não oferece tanta diversidade quanto se deseja e espera da exploração do tema, o investimento em uma dicção autobiográfica por parte de alguns autores pode ser uma forma de observar o tratamento pessoal, quase íntimo, sem ser confessional, de expor-se por escrito de uma maneira muito próxima a anotações em um diário. 

Sobre armários e soropositividade

Ramon Amorim

Créditos da imagem: Keith Haring, sem título, 1983.

O livro O segundo armário: diário de um jovem soropositivo, de Gabriel de Souza Abreu (pseudônimo de Salvador Correa), lançado na versão e-book no ano de 2014 e na versão impressa em 2016, busca se apresentar como uma espécie de diário dos primeiros anos após a descoberta da sorologia positiva para HIV do autor. A coletânea dos textos que formam o livro foi extraída do blog criado e mantido por Abreu depois da confirmação da sua sorologia positiva. Os relatos datam de abril de 2011 a dezembro de 2013 e falam sobre as questões médicas, emocionais, profissionais e familiares vivenciadas pelo autor durante esse período. Além disso, a discussão sobre a revelação de seu estado sorológico ganha protagonismo na narrativa.

Considerado como uma produção autobiográfica, pois a obra cumpre o estabelecido no “pacto autobiográfico”, o livro de Gabriel de Souza Abreu aposta em relatos dispersos (apesar de seguirem uma ordem cronológica) a fim de construir uma narrativa mais ou menos uniforme dos primeiros anos da sua convivência com o HIV. Por se tratar de produção feita originalmente para funcionar como um diário on-line, o conjunto de textos apresenta pouca profundidade e reflete alguns dos preconceitos que o autor possuía a respeito da comunidade LGBTQIA+ e das pessoas que vivem com HIV. Esses preconceitos podem ser vistos, por exemplo, quando o narrador associa a possível descoberta da infecção pelo vírus como uma espécie de castigo pelo comportamento sexual, dado que ser “não reagente” indica que não há “nenhuma penitência a ser paga” (p. 12). Além disso, é recorrente o medo do autor de ter sua imagem associada à de um sujeito soropositivo: “não seria identificado como portador de HIV (esse é, agora, meu maior medo…)”.

O título escolhido para o livro, apesar de assertivo, retoma algumas ideias já superadas a respeito da vida com HIV. Estabelecer a sorologia positiva como uma espécie de armário, é o principal problema da obra, principalmente quando o autor afirma que “o ‘segundo armário’ é aquele para onde são obrigados a entrar os jovens gays quando descobrem que são portadores de HIV”.

Essa posição é duplamente problemática, por fazer uma associação apressada entre os “jovens gays” e o HIV (mesmo que em outros momentos critique essa associação), assim como por inferir que a homossexualidade em si aprisiona sujeitos em um “[primeiro] armário”. O autor parece não pressupor que há sujeitos gays (ou LGBTQIA+) que nunca estiveram em “armários” e que podem viver sua orientação sexual de forma pública, sem a esconder de quem quer que seja. Abreu não conseguiu apontar para uma experiência com HIV que não fosse envolta em segredos, em silêncios.

Essas problemáticas presentes na narrativa apontam para uma dificuldade vivida por muitas pessoas quando descobrem que têm diagnóstico positivo para HIV. Mesmo as mais informadas, escolarizadas e independentes financeiramente ainda sofrem com o medo do estigma que a soropositividade pode acarretar. Esse receio está relacionado ainda a uma crença de que o HIV leva automaticamente à AIDS e a doença, à morte precoce. É nessa relação direta entre vírus e doença que o autor acha que sua família vai se prender caso descubra sua condição sorológica.

Ao narrar suas experiências, crenças e limites no enfrentamento de sua condição sorológica, Abreu cede a estigmas sociais e mantém muitos preconceitos relacionados ao vírus e à doença, perdendo uma oportunidade de problematizar essas formas de representação estereotipada. Isto talvez indique que vale a pena explorar a obra para perguntar o que ela “representa” no universo de produções sobre o tema.

Pandemia, epidemias e produção discursiva

Ramon Amorim

Créditos da imagem: © REUTERS/Borut Zivulovic

Diante de uma pandemia, podemos perceber que alguns elementos presentes em outras epidemias que assolaram o mundo se repetem. Do ponto de vista da linguagem, podemos ver que determinados discursos e comportamentos são reiterados sempre que uma doença se espalha de forma irrefreada.  Considerando a polarização política que o mundo observa, eles tendem a ficar mais latentes e agressivos, principalmente se considerarmos as redes sociais, esse universo quase ilimitado de produção discursiva.

O primeiro desses elementos é a epidemia discursiva* que corre em paralelo à doença e diz respeito à produção discursiva que aparece como reação a um problema sanitário emergente. Para se ter uma ideia do poder de repercussão, principalmente nesse universo digital social no qual vivemos, ao pesquisar o termo “coronavírus” no principal site de busca, o Google, são encontrados quase 2 bilhões e meio de resultados. Se a mesma experiência for feita utilizando termos como “AIDS”, “gripe” ou “dengue”, alcançamos algo próximo a 1 bilhão de resultados.

Essa experiência nos dá margem para comprovar a existência de uma epidemia discursiva sobre coronavírus, tal qual como houve em relação a HIV/AIDS no início da década de 1980. O que difere as duas é que a primeira tem na cultura digital sua principal alavanca de discussão, o que não ocorreu com a segunda, que teve nas mídias “analógicas” seu principal meio de difusão. Esses números sugerem ainda que a produção discursiva sobre a atual pandemia cresce junto à polarização política, visto que os principais líderes mundiais a utilizam para capitalizar atenção midiática, principalmente os que relativizam sua gravidade, buscando assim construir narrativas alternativas às mais ponderadas e previsíveis.

O outro elemento que destaco faz parte do que aqui é chamado de epidemia discursiva, porém opera de forma mais específica e diz respeito à produção discursiva sobre a gênese da doença. O dramaturgo francês Antonin Artaud (1896-1948), em O Teatro e seu duplo, aponta que é um comportamento recorrente durante uma epidemia buscar uma origem para o infortúnio. O que também ocorre quase sempre é atribuir essa origem a um país/território considerado, pelos países ocidentais com economia mais desenvolvida, excêntrico e/ou pouco desenvolvido. Assim, o imaginário colonizador/capitalista sempre que possível aponta o mundo oriental e o continente africano como responsáveis pelas doenças que atingem o planeta. Por isso, apontar a China como o “berço” do coronavírus é apenas mais uma faceta habitual da epidemia discursiva em curso.

Diante disso, chamo atenção para o fato de mesmo diante de tantas menções à pandemia em curso, a produção ficcional sobre o tema ainda ser incipiente. Se considerarmos, por exemplo, o que foi produzido sobre HIV/AIDS, Caio Fernando Abreu escreveu uma novela meses antes do primeiro caso de HIV ser confirmado no Brasil. Afora o “Diário do isolamento”, do qual Marília Costa falou aqui neste blog, e de uma parca produção de cordéis, não se tem notícias de contos, novelas, romances ou mesmo biografias sobre o período em que estamos mergulhados. Milton Hatoum, em matéria da Folha escrita por Walter Porto no caderno Ilustrada de 03/04/2020, aponta que “a ameaça é real e palpável”, por isso a dificuldade em dar tratamento literário à pandemia em curso e produzir ficção de uma forma geral.

A conclusão a que se chega diante desses tempos e da falta de material ficcional sobre o tema sobre o qual estamos tanto falando, escrevendo, postando e “ twittando”, é que ou a velocidade de propagação do Covid-19 não tem concedido tempo para essa produção, ou a gravidade da situação não favorece a elaboração de subjetividades.

* O termo é utilizado por Marcelo Secron Bessa ao tratar da produção discursiva sobre HIV/AIDS no Brasil