Arquivo do mês: novembro 2015

Retrato de Época: um caminho possível

Por Nívia Maria Santos Silva

No livro Retrato de época: poesia marginal anos 70, Carlos Alberto Messeder aponta que a divulgação de sua pesquisa poderá resultar em certo constrangimento para ele mesmo, pois prevê que as pessoas entrevistadas ao longo do trabalho reajam de maneiras muito diferentes à interpretação que faz de seus depoimentos e também da leitura que realiza da produção poética brasileira desse período. “Algumas considerações sobre o processo de pesquisa” são feitas logo no capítulo de abertura do volume e me levaram a pensar em alguns dos impasses próprios à prática de todo pesquisador, em especial daqueles que resolvem realizar entrevistas com seus informantes, como também é o meu caso, na investigação que realizo sobre a obra de Bruno Tolentino.

Messeder entende a entrevista como instrumento basilar e cria critérios específicos para escolha de seus informantes, selecionando as informações que desejava conhecer sobre a produção, a trajetória e localização social dos autores, procedimento que está se mostrando frutífero para meus propósitos.

Por inscrever-se em uma perspectiva antropológico-social ao visar a produção literária, o autor afirma cuidar para não recair em uma visão mecanicista ou determinista, o que também foi algo que no início do meu próprio processo de pesquisa, me afligia, pois  esse parece ser um desafio que se tem de enfrentar quando se opta por ler “a literatura como faceta do fenômeno cultural”.

A investigação das relações sociais, com autores disputando a legitimidade cultural de seus respectivos produtos, é outro ponto de convergência do desenvolvimento de minha pesquisa com as práticas aplicadas por Messeder na análise de seu objeto. Entretanto o seu “interesse não era a literatura ou a arte, mas a produção intelectual como um todo”, mesmo que tivesse “preocupado, ao mesmo tempo, com os produtos – os livros de poemas e os poemas – e com a própria organização da produção”. Isso fez com que sua abordagem escapasse do campo da literatura e deslizasse para  o campo mais amplo da produção cultural.

Não posso perder de vista, por exemplo, que Tolentino protagonizou polêmicas por meio do jornalismo cultural e atuou também como editor e ensaísta de revistas literárias, ou seja, a imprensa é tão importante para mim quanto foi para Messeder “Não apenas pela presença do meu objeto empírico, como pelo debate ali constituído”.

Não pretendo deixar meu trabalho “escapar da literatura”, e embora me debruce sobre o campo e seus aspectos relacionais e objetive situar Bruno Tolentino num campo literário maior, por meio do estudo de sua emergência no campo cultural e do universo no qual atuava, minha tese pretende pensar sua produção, sem abrir mão da leitura e análise do texto poético tolentiano e de seu trabalho crítico, perscrutando sua ideia de poesia e suas particularidades. Por isso, são interessantes, para meu projeto, as perscrutações que Messeder realiza sobre as produções, temas, ideias a respeito do que seja o poeta, a própria poesia, sua ideologia estética.

Sem dúvida nenhuma, entretanto, penso que o ponto principal, entre todos os apontados por Messeder, foi a necessidade da criação de uma pergunta norteadora: “Qual o dado unificador destas experiências literárias e sociais até certo ponto tão diferentes?” Em meu processo de pesquisa, entre uma angústia e outra, estou em busca da minha “pergunta norteadora”, uma pergunta que me ajude a dar corpo a todo material que já coletei e selecionei e a traçar a linha que permeará toda a redação da minha tese.

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AGENTES LITERÁRIOS: O TRABALHO ALÉM DO PONTO FINAL

agente literario

Por Neila Brasil

“Lucia Riff – Agência Riff” é nome da agência que representa a escritora Adriana Lisboa no cenário nacional. Nos Estados Unidos, Jonah Straus/Straus Literary é o responsável por cuidar da carreira da autora, que também é representada pela agente literária Nicole Witt segundo o site. Ainda não há muitos agentes literários no Brasil, mas alguns escritores contemporâneos já contam com a assessoria desses profissionais. Neste post, eu gostaria de comentar qual a importância do agente literário na carreira de um escritor, trazendo para o centro da nossa discussão a carreira literária de Lisboa.

As reflexões sobre o agente literário no Brasil constituem um tema muito novo. Em termos gerais, podemos definir o agente ou a agência literária como um profissional ou empresa que atende os escritores apresentando os textos destes a outros editores, fazendo a “propaganda” de sua produção. Uma grande parte dos agentes considera a própria função como uma espécie de administrador da carreira de seus escritores. Preparar propostas e originais para avaliação, divulgar, vender, administrar direitos e carreiras são atividades desempenhadas por agentes – Trata-se de auxiliar a construção de uma carreira. Na maioria das vezes, agentes experientes e com bons antecedentes tendem a ser ouvidos com mais entusiasmo pelos editores do que agentes com pouca experiência, que estão batalhando para consolidar seu nome.

Para falar como John Thompson, autor de Mercadores da Cultura, “o agente é aquele que conhece as regras do jogo”. E conhecendo as regras do jogo, ele cuida melhor do interesse dos autores que representa. Podemos pensar que a contratação de um agente literário é um passo importante para a profissionalização do escritor. No caso de Adriana Lisboa é possível relacionar a relativa internacionalização de seu nome, garantida por meio das traduções de seus livros, e a boa recepção a sua obra no contexto nacional com a atuação de seus agentes literários. Os agentes bem conhecidos podem ajudar seus autores na construção de uma carreira literária de sucesso e, ao mesmo tempo, ampliar seus contatos, que são fortalecidos quando se trata de “vender” as propostas para as editoras.

O jeito como se apresenta um autor pode ser tão importante quanto o jeito como se apresenta um texto – o que esse escritor tem a dizer. Assim, entrevistas em programas de televisão, reportagens de jornal, declarações em festas e eventos literários, resenhas, biografias, fotos em revistas, tudo isso compõe a plataforma do autor, que também se amplia com sua participação/atuação em sites, blogs e redes sociais.

No Brasil, agentes literárias como Lucia Riff pretendem agenciar autores a longo prazo, esperando que a relação entre ambos, agente e autor, possa render bons resultados. Já para os autores, lidar com agentes facilita o processo de negociação, porque estes sabem como negociar com as editoras e, ao mesmo tempo, promover os escritores.

Encontrar um bom agente é algo traiçoeiro e com frequência depende de uma indefinível mistura de boas relações, boa química e boa sorte“, afirma Thompson.

Podemos, então, arriscar dizer que a emergência da figura do agente literário é uma evidência da era da profissionalização do escritor.

(uma entrevista com Lucia Riff pode ser conferida aqui: http://www.agenciariff.com.br/site/videos)

A performance em uma crônica de Lemebel

blog

Por Eder Porto

Relendo o ensaio de José Miguel Wisnik – Algumas Questões de Música e Política no Brasil. In: Sem Receita, ensaios e canções (2004)-, pude reavivar algumas ideias acerca de linguagens do performativo, através do corpo e da musicalidade na representação literária. O ensaio me interessa, particularmente, para pensar a literatura como Performance (e suas maneiras de desentranhar as linguagem do corpo).

O que sugere Wisnik é que, em se tratando de linguagem musical haverá sempre um caráter cívico-disciplinador, uma standardização em favor de pequenas ilhas de “bom gosto” musical e, em consequência, uma negativa à divergência, à “poluição” sonora, à apropriação e degeneração dos ritmos “puros”. Mas, para o crítico, por trás, por exemplo, da orquestração do ufanista samba-enredo de Ary Barroso, vem a malandragem carioca e a negação cívica do brasileiro bom trabalhador.  Enfim, pode haver em música um intento de uma “desrecalcante afirmação de uma rítmica sincopada a anunciar um corpo que se insinua com jogo de cintura e consegue abrir flancos para sua presença, irradiando diferença e buscando identidade no quadro da sociedade de classes.” (WISNIK, 2004, p. 206)

 Pensei nesses paradigmas para ler o autor que pesquiso, Pedro Lemebel, e a tessitura de sua performance artística.

 Veja-se, por exemplo, a crônica Chile Mar y Cueca (o arréglate Juana Rosa). Nesse texto, Lemebel desentranha a insurgência da carnavalização popular frente ao civilismo de fachada do 18 de Septiembre, a maior festa patriótica chilena. De um lado, o  ethos, o discurso nacionalista, o som reto das marchas militares, e uma participação “popular” cheia de ufanismo e conformidade plastificada. Do outro, o pathos, as adulterações e descompassos à chilenidad  cocoroca, quando as massas saem para as ruas e impõem uma inflexão sobre a representação harmônica da propaganda da “doce pátria”:

A Cueca Chilena,  como gênero musical, é o instrumento da narrativa do qual Lemebel se vale para descrever uma coreografia regrada da sociedade chilena e criticá-la:  “uma aeróbica-cueca que multiplica em giros e assédios corteses o gesto macho de dominância sobre a mulher”.  A Cueca, diz Lemebel, “é uma dança que encena a conquista espanhola para o criollo latifundiário, amariconado em sua roupinha flamenca”, a fim de levar “a indiazinha ali atrás do poleiro”. Tratando dessa forma o gênero musical, a crônica  parodia a emulação do modelo colonizador de opressão e  provoca o desmascaramento da maquiagem cívica e das simbologias recalcadas por trás dela.

 No texto, o corpo proletário em dia de farra, se esquiva, se contorce, se rebate à revelia desse modelo ético-cívico. O corpo, envolto nessa redoma músico-social, é interpelado a enfrentar e conter a imitação ideal desses modelos cívicos, revelando as suas descontinuidades (ou síncopes) sociais.

E entre “com licencinha” e “com licencinha” sai pela intempérie fria da madrugada e detrás das tábuas das barracas de comida solta o seu jorro espumante que faz coro junto à fileira de pintos inchados de tanto festejo […] E enquanto isso ressoa a cumbia e o folio começa a puxar o “mira como va negrito” e as pontas de cigarro são tragadas com pressa em um deslizamento de brasa que ilumina fugaz o rosto dos jovens, ele cai rodando pela elipse do parque em uma pirueta de balizas, churrasquinhos no espeto, posters do Papa, da Veronica Castro, o Colo-Colo, Santa Teresa e tudo quanto é santo canonizado pelo tráfico mercante dos acostamentos. E ali fica estirado no pasto, com a braguilha aberta que deixa ver o membro murcho e enrolado como uma serpentina ébria. Sem um tostão porque um moleque lhe roubou todo o salário do mês. (LEMEBEL, 2012)

Tal como emerge na crônica, o corpo, em seu transe alcoólico, em sua emergência cambaleante, em seu delírio sexual, dança outra música, mostra outra realidade, é interpelado a enfrentar a imitação ideal dos modelos cívicos.

 

Relendo Hemingway

Ernest-Hemingway1

Por Davi Lara

Em um post publicado recentemente aqui no blog, em que faço uma breve resenha de Paris não tem fim, de Enrique Vila-Matas, chamo atenção para a forte presença do escritor Ernest Hemingway neste romance, com destaque para o intertexto com o livro tardio do autor norte-americano, Paris é uma festa. Com isso em vista, gostaria de compartilhar algumas breves impressões da minha recente releitura deste importante livro de memórias.

Paris é uma festa (1964) foi publicado postumamente, três anos após a trágica morte de Hemingway, por suicídio. Ele foi escrito numa fase conturbada da vida do autor, alguns anos depois de ganhar o Nobel (1954) e em meio a uma violenta crise criativa. O livro abarca o período em que Hemingway e sua primeira esposa, Hadley, viveram em Paris, em meados dos anos 20. Como em muitos dos seus livros, nos quais a figura do herói e os atos heroicos ocupam um lugar central, também aqui, em Paris é uma festa, percebe-se a mesma tendência. Mas, neste caso, o herói é ele mesmo.

Tendo acabado de abandonar o seu emprego num jornal a fim de se dedicar integralmente à literatura, o jovem Tatie (como ele é chamado por Hadley) é descrito, por ele mesmo, como um jovem vivaz, obstinado, espirituoso e, dentro das suas limitações financeiras, um bon vivant. Enfim, um jovem admirável. E é, de fato, com admiração que acompanhamos o empenho de Hemingway em construir sua obra, mesmo com todas as privações e incertezas, advindas do fato de o escritor que seria premiado com o Nobel de literatura ter abandonado sua carreira como jornalista. Em outros momentos, no entanto, o afã de auto-engrandecimento de Hemingway soa um pouco forçado, como no longo capítulo em ele narra o seu encontro com Scott Fitzgerald e expõe certos momentos de ridículo do autor de O grande Gatsby, então já um romancista renomado, reservando para si próprio, apenas um iniciante, uma postura inabalável de altivez.

Seja como for, Paris é uma festa adiciona, dentro da tradição do romance moderno, um tipo poderoso na galeria dos personagens-escritores, no caso, um tipo heroico e melancólico, que consegue superar as adversidades com muito trabalho e uma crença inabalável na força da literatura; sobretudo naquela produzida por ele mesmo. É esse perfil romântico que inspira o protagonista de Paris não tem fim, de Vila-Matas, a ir viver miseravelmente numa água furtada em Paris e – como ele mesmo dizia, com pompa – se tornar um escritor. No entanto, a experiência vivida por esse personagem, conforme é contada a nós por ele mesmo, anos depois, não corresponde à experiência narrada por Hemingway.

Longe disso. Ao tentar encarnar essa figura autocentrada de escritor hemingwayniano, o jovem aspirante a literato do romance de Vila-Matas transforma-se numa caricatura ridícula de escritor. O confuso autor de A assassina ilustrada (romance que tem como objetivo matar os seus leitores, escrito pelo protagonista de Paris não tem fim ao longo do relato; e que também é o título do primeiro romance de Vila-Matas) é mais propriamente um anti-herói.

Esse deslocamento revela uma característica cara a Vila-Matas (tratada brevemente no meu último post daqui do blog), que consiste numa inquietação no que concerne ao lugar da literatura dentro do mercado editorial. Mas também revela um traço mais profundo da ficção de Vila-Matas: seu impulso, ora desesperado, ora bem humorado, de explorar os abismos da alma, de caminhar num espaço de indeterminação, de evitar os caminhos seguros e pré-determinados da grandeza humana.