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Mercado editorial baiano: algumas inquietações iniciais

Milena Tanure

sergio rabinovitz

Créditos da imagem: Sergio Rabinovitz. A cidade acrílico s/papel 70X50cm, do livro Bahia (P55, 2002).

Na última semana, recebeu destaque na imprensa nacional a notícia de que o escritor brasileiro e baiano Itamar Vieira Junior foi o vencedor do Prêmio Leya de Literatura pelo romance Torto Arado, a ser publicado pelo grupo editorial português. Esse mesmo escritor, com o livro de contos A Oração do Carrasco, é um dos finalistas do Prêmio Jabuti de 2018. A projeção de Itamar no cenário literário nacional e internacional me leva a retomar questões que me inquietam: a produção e visibilidade de uma literatura produzida por autores e editoras baianas.

Em texto de 2007 no qual apresenta um panorama sobre a literatura baiana contemporânea, a crítica literária e acadêmica Gerana Damulaski indica que “embora se saiba que a literatura brasileira nasceu na Bahia com Gregório de Matos e os outros poetas da época, e se saiba igualmente de nomes famosos como Castro Alves, Adonias Filho, Jorge Amado, a verdade é que hoje não se tem conhecimento nos outros estados do que se vem fazendo de literatura da mais alta qualidade na Bahia”. Muito embora esse texto tenha pouco mais de 10 anos, o cenário apresentado pela acadêmica não parece ser muito diferente, apesar das feiras literárias nacionais e internacionais que têm se multiplicado em solo baiano e, em alguma medida, possibilitado alguma visibilidade a uma produção mais contemporânea. De algum modo, minhas colocações aqui buscam refletir sobre o modo pelo qual a produção literária baiana tem encontrado certos entraves para se fazer publicar, circular e ser lida, tanto em cenário local como em todo o país.

Para a discussão que pretendo empreender, é interessante pensar o modo pelo qual o Rio Grande do Sul constituiu um solo fértil para a produção literária brasileira contemporânea. Em 2013, por exemplo, autores como Luís Fernando Veríssimo, Cíntia Moscovich, Daniel Galera e Altair Martins venceram, respectivamente, os prêmios Jabuti, Portugal Telecom, Prêmio São Paulo de Literatura e o Prêmio Moacyr Scliar. Pensando esse protagonismo da produção gaúcha, é preciso reconhecer que Porto Alegre possui um tradicional circuito literário, movimentado por feiras e oficinas, além de um programa de pós-graduação em Escrita Criativa (PUC-RS).

Na Bahia, o cenário me parece outro. Apesar de acompanharmos novas vias de escoamento dos textos, como os saraus que têm crescido e ganhado força, sobretudo em Salvador, bem como a produção em blogues, as falas dos escritores contemporâneos, assim como as pesquisas que têm sido feitas, têm revelado o modo pelo qual a cena literária baiana tem dado a ver um contexto marcado pelas dificuldades relacionadas não apenas à publicação e circulação do livro, mas também à profissionalização do escritor.

Esse contexto não é recente. Em texto de 1986, o escritor Guido Guerra relacionou esse cenário com a ausência de uma política editorial no Estado. Segundo ele, “nosso movimento editorial sempre fracassou porque, estruturado em bases não empresariais, não resolveu o problema da distribuição a nível nacional. As obras em geral aqui editadas nunca tiveram tiragens superiores a mil exemplares, dos quais uma parcela irrisória é comprada pelos amigos no dia do lançamento (às vezes nem precisam comprar, são presenteados) e a maior parte, timidamente colocado no mercado livreiro local, sem outra chance senão a do encalhe”.

Revelando cenário não muito diferente no século XXI, em entrevista ao jornal A Tarde em 2002, alguns escritores baianos discutiram os novos rumos da literatura e apresentaram alguns entraves experimentados pela produção local. Nesse sentido, Aramis Ribeiro fez a seguinte colocação: “Os grandes problemas da Bahia nós já conhecemos, que são a distribuição, a vendagem, o isolamento, que na verdade não é só da Bahia, é do Brasil, que é um arquipélago de culturas, de literaturas. A literatura que se torna nacional, realmente, é aquela literatura que vem do Sul e que consegue a conexão nacional. As outras permanecem isoladas”.

Assim, se os prêmios recentemente conferidos a escritores baianos talvez ajudem a contornar certo isolamento regional originário de um mercado limitado, a ausência de espaço na imprensa e o quase inexistente investimento público, provocam um outro efeito colateral: estimulam o crítico a pensar a constituição do campo literário e suas implicações para a produção, circulação e divulgação da produção literária na Bahia, no Brasil.

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Uma experiência de leitura: Zanga, de Davi Nunes

Milena Tanure

livro_zanga_davi_nunes

Capa do livro. Imagem cedida pela editora.

Se no texto anterior esbocei um desejo de apresentar o tema ou os interesses da minha pesquisa, agora desejo deixar mais nítidos os caminhos para os quais se direcionam minhas inquietações de pesquisadora.

Como talvez já tenha sinalizado, minhas inclinações têm se voltado para as discussões sobre espaço urbano e espaço editorial a partir do cenário de uma literatura baiana contemporânea. É nesse sentido que meu interesse tem se voltado para as ocupações espaciais, físicas e simbólicas desses campos. Me interessa pensar de que forma o corpo urbano e o corpo humano se interligam nas narrativas contemporâneas, dando a ver, talvez, novas espacialidades da cidade de Salvador e práticas outras de sociabilidade no universo da representação. Da mesma forma, passa a me interessar como esse corpo que ginga no espaço urbano também faz transitar seus discursos na busca de uma produção de sentido e na tentativa de forjar um espaço dentro do cenário de publicações baianas para romper fronteiras e alcançar maior projeção.

Para esse texto havia pensado em encarar, ainda que de modo muito incipiente, o que chamo de literatura baiana, já pensando a razão dessa adjetivação na minha pesquisa e a sua relação com o mercado editorial. No entanto, tomando alguns termos de experimentação emprestados da pesquisadora e professora Paola Berenstein Jacques, em minhas deambulações e errâncias pelos caminhos da pesquisa e pelos espaços urbanos, fui atravessada por um recente lançamento que muito provavelmente fará parte do corpus da minha pesquisa. Trata-se do livro de contos Zanga, de Davi Nunes, lançado pela editora Segundo Selo no último dia 19.

Poeta, contista e escritor de literatura infantojuvenil, Davi Nunes, apesar de fazer parte de uma cena mais contemporânea e jovem da produção literária baiana, já acumula em seu currículo, além da graduação em letras e mestrado em andamento também nessa área, a edição da revista artística-acadêmica Cinzas no Café (2011), a participação em antologias e sites de cultura negra, e o aclamado livro de literatura infantojuvenil Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula (2016). O escritor também mantém o blog Duque dos banzos que “versa sobre a cultura afro-brasileira: prosas, poesias e ensaios [que] buscam dar conta da memória, da humanidade, da ancestralidade, da polifonia verbal, rítmica e corpórea que circundam o universo do negro brasileiro”.

Aqui, pretendo apenas ensaiar uma fala sobre minha experiência de leitura, tematizando o modo como as narrativas dialogam com o que desejo inventariar com a minha pesquisa. Zanga nos fala de ancestralidades africanas, da tensão racial brasileira, das potências e agruras de se viver na cidade contemporânea e de relações interpessoais, deslizando por vários polos enunciativos. Todas essas questões se interligam em uma espacialidade urbana múltipla, ainda que a periferia seja predominante.

Nas dezenove narrativas que compõem a obra vai se delineando para o leitor um sentimento de angústia por uma cidade que seduz, mas sobre a qual paira o medo experimentado, sobretudo, pelos corpos periféricos. Como afirmado pelo próprio escritor no lançamento do livro, a presença da morte nos contos que compõem a obra se justifica porque a cidade de Salvador é marcada pela morte. Em entrevista cedida ao Portal Soteropreta, acrescenta: “Sou de Salvador e, para as pessoas negras, esta cidade é um verdadeiro campo de morte. O corpo negro é um corpo sitiado, um corpo sem status político, um corpo nu, um corpo inimigo, um corpo em constante injúria pelas instituições de poder, um corpo do genocídio, da cesura biológica, do racismo. Um corpo cuja política de estado é a morte, um corpo que está localizado onde o estado é sempre de exceção, a periferia”. Muito embora as narrativas se desenvolvam quase sempre a partir de uma tensão, calcada no necropoder, para lembrar a expressão de Achille Mbambe, nos “necrocontos”, não há repulsa pelo espaço urbano.

Uma leitura menos cuidadosa ou apressada poderia levar a supor que zanga é raiva ou que a periferia é meramente marcada pelo medo ou pela dor, mas a escrita de Davi é sofisticada e potente. Compondo uma cartografia afetiva dos bairros, em especial o Cabula e seu entorno, região periférica de Salvador, o escritor tece um diálogo com um passado ancestral que rompe com as visões tradicionais ou reducionistas da presença negra na formação do país e, sobretudo, da cidade de Salvador. Por tal motivo, em seu blog, o autor afirma que, etimologicamente, zanga não se resume ou equivale à raiva, relacionando-se muito mais com rebeldia, bravura, coragem e combatividade. Para ele, zanga é “super poder, é ancestral e por isso contemporâneo, é luz que desponta do cosmo do buraco negro e irradia o terceiro olho do faraó que está adormecido em nós. É o momento áureo da autoconsciência negra, é a negritude como força intempestiva, como ação – zangar.”

As narrativas não nos falam só da potência e das ocupações dos corpos negros numa perspectiva física, nos falam também de ocupação no campo do simbólico. Talvez não seja por outra razão que sujeitos negros e periféricos se apresentam como personagens que ocupam os espaços universitários, forjando novas epistemes e falando de autores e pensamentos não hegemônicos. Além disso, em algumas narrativas, há também os espaços da escrita, que tematizam as agruras da profissionalização do escritor como no conto O enterro: “sou alcóolatra e um negro escritor posto de parte das estruturas editoriais, um gênio obliterado”.

Entre ruas, esquinas, becos, telhas e tijolos sem reboco, as narrativas de Zanga convidam a imagens de uma outra urbe que se misturam às centralidades de Salvador. As narrativas, se não romantizam uma imagem periférica, também não nos apresentam as vidas narradas como facilmente explicáveis. A realidade periférica, com suas vivências e potências, torna perturbadora a experiência de leitura, pois os contos convidam o leitor, que “vai se aquilombando”, como disse o próprio Davi Nunes no lançamento do livro, a percorrer a cidade e o próprio processo de escrita do autor, de seus personagens e dos narradores escritores. E é bom lembrarmos que o quilombo não é lugar de fuga, é lugar de vida, potência, resistência, ocupação e zanga.