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O desejo e o sexo

Nilo Caciel

Créditos da imagem: Alair Gomes, cobertura 2726, muito prazer.

O que te pertence é o romance de estreia do escritor americano Garth Greenwell lançado em 2016. O livro é narrado em primeira pessoa e acompanha o protagonista, um professor americano que mora na Bulgária, às voltas com seus dilemas, na maior parte do tempo relacionados a Mitko, um garoto de programa com quem ele tem um tórrido romance. A obra ganhou notoriedade e encontrou uma recepção muito positiva dos principais jornais e revistas norte-americanos. Aaron Hamburger do The New York Times usa adjetivos como ‘‘vívido’’, ‘‘envolvente’’ ao comentar algumas passagens do livro, chegando a se referir a outras como ‘‘tesouros fascinantes’’.

Em meio aos elogios, Hamburger comenta o caráter fragmentário do romance. Os capítulos retratam momentos distintos da vida do narrador, que aparentemente não têm ligação um com o outro . No primeiro capítulo, testemunhamos o momento em que o narrador conhece Mitko, único personagem nomeado, em um banheiro público no subsolo do Palácio Nacional de Cultura em Sofia. Ele é descrito como um jovem búlgaro atraente e carismático por quem o narrador se sente fortemente atraído. As cenas de sexo são descritas com grande minúcia e sem nenhum pudor, mas as descrições são entremeadas às reflexões do narrador sobre a performance do desejo:

Eu sabia que ele estava performando um desejo que não sentia, e verdadeiramente acho que ele estava muito bêbado para sentir desejo. No entanto, há algo de teatral em todos os beijos, eu acho, já que pesamos nossas respostas contra aquilo que percebemos e projetamos; sempre desejamos demais ou pouco demais, e compensamos de acordo. Eu estava performando também, fingindo acreditar que a demonstração de paixão dele era uma resposta genuína ao meu desejo, que não tinha nada de fingido.

Não se pode afirmar com segurança que haja uma trama linear na qual as relações de causa e efeito estejam aparentes para o leitor. Depois do seu primeiro encontro com Mitko, o narrador retrata pormenores de sua rotina como professor, peculiaridades de Sofia e da cultura local, e lembranças de sua infância no sul dos Estados Unidos. Porém, como nota Hamburger, Greenwell se destaca por nunca deixar que sua narrativa soe clichê ou insípida. Além desse arranjo fragmentário na forma de narrar, um tema atravessa a narrativa, como sugere o título: o pertencimento. Também não é difícil perceber que a interrogação sobre esse pertencimento estão relacionadas com a homossexualidade. Sua condição de expatriado (especialmente em um país onde a intolerância com as populações LGBTQ ainda é a norma), suas lembranças de infância no Kentucky (estado altamente conservador do sul dos Estados Unidos), seu anseio pelo afeto de Mitko estão conectados de alguma forma à sexualidade do narrador como parte de seu desejo e de sua identidade.

Greenwell assume estar interessado em explorar a subjetividade queer no momento atual. O narrador de O que te pertence é um homem letrado e tem experiência com ativismo. Ele tem consciência dos processos históricos e culturais por trás da homofobia tão enraizada na nossa cultura, assim como está alerta para os dispositivos que a mantêm tão viva. O romance se torna interessante porque enreda desejo, sexo e identidade em um labirinto que oferece ao leitor muitos caminhos para pensar.

Mapas e simulacros: representações do espaço urbano

Milena Tanure

Créditos da Imagen: Mapa de Lopo Homem II, Adriana Varejão

Como uma cidade pode caber em um mapa? Como uma fotografia do espaço urbano capta uma cidade? Ouso supor que embora tenhamos a tendência a considerar os modos de representação dos espaços de maneira realista, temos apenas acesso a simulacros, mas não me refiro aos simulacros platônicos, pois a narrativa literária, sobretudo após a crise da representação, não mais se equipara às idealizações platônicas de imitação do real, razão pela qual, falar das imagens do urbano nas literaturas contemporâneas impõe pensar para além da mera falsidade das representações.

Pensei nisso ao assistir ao curta “Nunca é noite no mapa“, de Ernesto de Carvalho. Nele, acompanhamos um deslocamento feito pelo mapa ali representado pelo carro da Google responsável pelas imagens do Google Maps. Construída a partir das imagens capturadas pelo automóvel, a narrativa fílmica problematiza o encontro frontal entre aquele que narra e o próprio mapa, bem como entre o mapa e as transformações das cidades.

Carvalho está interessado em Recife e em pensar questões como especulação imobiliária, desapropriação, violência, pobreza, o capitalismo na era digital e a própria constituição dos mapas. Por meio de frases curtas que duram o tempo da captura da imagem, como versos de um poema, o narrador desenha seu próprio mapa com palavras e imagens e possibilita a reflexão sobre seu próprio projeto cartográfico: “O mapa não anda, nem voa, nem corre, não sente desconforto, não tem opinião. Pro mapa não há governo, não há golpe de estado, não há revolução. Nunca é noite no mapa”. Por meio de uma crítica ao próprio ato de mapear a cidade vai se delineando no filme uma dimensão política e estética sobre o espaço urbano, simultaneamente uma crítica ao poder público e às representações da cidade.

O curta compõe também uma cartografia política à medida que revela cenas cotidianas da violência. É o caso das “batidas policiais” registradas e expostas no curta a partir das imagens captadas pelas câmeras do próprio Google e de sua viatura às quais se sobrepõe a voz narrativa: “Todos são iguais perante a lei. Todos são iguais perante o mapa”. Ou ainda quando assistimos ao aparato policial abrindo caminho para que o próprio carro da Google possa “fazer seu trabalho”: “cidade bem policiada. Cidade bem mapeada”.

Aí surge uma outra dimensão da representação: o que fica fora do quadro, pois qualquer um que já lançou mão de um aplicativo de localização digital por mapas para se deslocar na cidade tem a experiência concreta de que o mapa delimita um território. O curta explora essa dimensão ao expor as imagens de uma mesma rua que, por ser de barro, não é registrada pelo mapa da Google até que por ali passe o poder público com seus tratores, tornando-a acessível ao mapa.

O apagamento de determinados espaços e sujeitos associa-se a uma ideia de modernização que passa a ser reproduzida e capturada pelo mapa, que, simultaneamente, expõe e exclui. Na medida em que o carro passa várias vezes em um mesmo local, vão se projetando as imagens dos espaços, casas e um bar, que desaparecem com a passagem dos tratores e vias, expondo a exclusão e o desaparecimento de sujeitos, casas e espaços.

Se em Platão se tem uma rivalidade entre Real e Ideal, e em Aristóteles podemos pensar uma teatralização do real, para Deleuze, em Lógica do sentido, essa oposição não mais parece fazer sentido: o simulacro nos leva a pensar em gestos, movimentos que constroem representações, contribuindo, portanto, para uma certa ideia de cidade, de realidade