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O dilema de ser quem se é

Nilo Caciel

Créditos da imagem: James Baldwin em sua casa no sul da França em 1979. Foto: Ralph Gatti/AFP/Getty

O quarto de Giovanni é o segundo romance do escritor americano James Baldwin, lançado em 1956. A obra é protagonizada por David, um expatriado americano na França, que conta seu caso trágico com Giovanni, um garçom italiano instalado em Paris. Os dois se conhecem em um bar gay da capital francesa quando Hella, a namorada de David, viaja para a Espanha para pensar na proposta de casamento que havia recebido dele.

Na ocasião da entrega do romance à sua editora, a ideia de escrever uma trama sobre um relacionamento homoafetivo com personagens brancos foi muito mal recebida. Devido ao sucesso do seu primeiro romance, Go tell it on the mountain(1953, ainda sem tradução no Brasil), que narra as experiências de um jovem negro no Harlem, Baldwin havia se tornado um expoente da literatura afro-americana. Além disso, o contexto cultural dos Estados Unidos dos anos 50 não era exatamente o mais aberto às narrativas LGBTQ. É curioso pensar que em menos de um século depois, teríamos a abertura e o apetite de experiências diversas como temos hoje. 

O quarto de Giovanni tem muito em comum com histórias LGBTQ (literárias ou não) posteriores, como o tom confessional, a narração em primeira pessoa e o final trágico. Ademais, a obra é recheada de elementos autobiográficos, como ocorre frequentemente na contemporaneidade. Baldwin se mudou para Paris na mesma época, era homossexual e frequentava bares gays. No entanto, são evidentes também algumas diferenças importantes quando o comparamos a autores contemporâneos como Garth Greenwell e Garrard Conley, por exemplo.

David vive um grande conflito interno em relação a sua identidade. Em momento nenhum do romance se declara homo ou bissexual. Na manhã seguinte a sua primeira experiência com outro rapaz, por exemplo, ele declara:  ‘‘Senti vergonha. Até a cama em que eu estava, com aquela deliciosa desarrumação, era um testemunho de vileza.’’

Além disso, ele demonstra uma grande aversão aos outros personagens gays do romance, como Jacques e Guillaume:

‘‘Lá estava o rapaz que trabalhava o dia inteiro, dizia-se, numa agência do correio, e que saía à noite com o rosto pintado, brincos nas orelhas e os abundantes cabelos loiros formando um penteado alto. Às vezes chegava a usar saia e sapatos de salto. Geralmente ficava sozinho, a menos que Guillaume se aproximasse para fazer troça dele. Dizia-se que era uma pessoa muito simpática, mas confesso que sua aparência totalmente grotesca me incomodava, talvez pelo mesmo motivo que algumas pessoas sentem o estômago revirar quando veem macacos devorando seus próprios excrementos. Talvez não se incomodassem tanto se os macacos não se assemelhassem — de modo tão grotesco — a seres humanos.’’ 

Nenhum destes elementos é frequentemente encontrado nas narrativas LGBTQ atuais. O que absolutamente não quer dizer que todas as questões sobre o tema tenham sido superadas. Em O que te pertence de Greenwell são evidenciados os inúmeros desafios enfrentados pela população queer na contemporaneidade. Entretanto, vemos no tom do narrador de Greenwell inquietação, e uma necessidade de explorar suas questões identitárias, e não o auto-desprezo de David. Entender o seu lugar no mundo o desassossega, mas sua identidade não o tortura. 

Além de sexualidade, também estão intrincadas na trama questões como expatriação, masculinidade, família e identidade estadunidense. Todas entrelaçadas numa narrativa comovente e penetrante, que continua a ressoar entre seus leitores.

O desejo e o sexo

Nilo Caciel

Créditos da imagem: Alair Gomes, cobertura 2726, muito prazer.

O que te pertence é o romance de estreia do escritor americano Garth Greenwell lançado em 2016. O livro é narrado em primeira pessoa e acompanha o protagonista, um professor americano que mora na Bulgária, às voltas com seus dilemas, na maior parte do tempo relacionados a Mitko, um garoto de programa com quem ele tem um tórrido romance. A obra ganhou notoriedade e encontrou uma recepção muito positiva dos principais jornais e revistas norte-americanos. Aaron Hamburger do The New York Times usa adjetivos como ‘‘vívido’’, ‘‘envolvente’’ ao comentar algumas passagens do livro, chegando a se referir a outras como ‘‘tesouros fascinantes’’.

Em meio aos elogios, Hamburger comenta o caráter fragmentário do romance. Os capítulos retratam momentos distintos da vida do narrador, que aparentemente não têm ligação um com o outro . No primeiro capítulo, testemunhamos o momento em que o narrador conhece Mitko, único personagem nomeado, em um banheiro público no subsolo do Palácio Nacional de Cultura em Sofia. Ele é descrito como um jovem búlgaro atraente e carismático por quem o narrador se sente fortemente atraído. As cenas de sexo são descritas com grande minúcia e sem nenhum pudor, mas as descrições são entremeadas às reflexões do narrador sobre a performance do desejo:

Eu sabia que ele estava performando um desejo que não sentia, e verdadeiramente acho que ele estava muito bêbado para sentir desejo. No entanto, há algo de teatral em todos os beijos, eu acho, já que pesamos nossas respostas contra aquilo que percebemos e projetamos; sempre desejamos demais ou pouco demais, e compensamos de acordo. Eu estava performando também, fingindo acreditar que a demonstração de paixão dele era uma resposta genuína ao meu desejo, que não tinha nada de fingido.

Não se pode afirmar com segurança que haja uma trama linear na qual as relações de causa e efeito estejam aparentes para o leitor. Depois do seu primeiro encontro com Mitko, o narrador retrata pormenores de sua rotina como professor, peculiaridades de Sofia e da cultura local, e lembranças de sua infância no sul dos Estados Unidos. Porém, como nota Hamburger, Greenwell se destaca por nunca deixar que sua narrativa soe clichê ou insípida. Além desse arranjo fragmentário na forma de narrar, um tema atravessa a narrativa, como sugere o título: o pertencimento. Também não é difícil perceber que a interrogação sobre esse pertencimento estão relacionadas com a homossexualidade. Sua condição de expatriado (especialmente em um país onde a intolerância com as populações LGBTQ ainda é a norma), suas lembranças de infância no Kentucky (estado altamente conservador do sul dos Estados Unidos), seu anseio pelo afeto de Mitko estão conectados de alguma forma à sexualidade do narrador como parte de seu desejo e de sua identidade.

Greenwell assume estar interessado em explorar a subjetividade queer no momento atual. O narrador de O que te pertence é um homem letrado e tem experiência com ativismo. Ele tem consciência dos processos históricos e culturais por trás da homofobia tão enraizada na nossa cultura, assim como está alerta para os dispositivos que a mantêm tão viva. O romance se torna interessante porque enreda desejo, sexo e identidade em um labirinto que oferece ao leitor muitos caminhos para pensar.

Mapas e simulacros: representações do espaço urbano

Milena Tanure

Créditos da Imagen: Mapa de Lopo Homem II, Adriana Varejão

Como uma cidade pode caber em um mapa? Como uma fotografia do espaço urbano capta uma cidade? Ouso supor que embora tenhamos a tendência a considerar os modos de representação dos espaços de maneira realista, temos apenas acesso a simulacros, mas não me refiro aos simulacros platônicos, pois a narrativa literária, sobretudo após a crise da representação, não mais se equipara às idealizações platônicas de imitação do real, razão pela qual, falar das imagens do urbano nas literaturas contemporâneas impõe pensar para além da mera falsidade das representações.

Pensei nisso ao assistir ao curta “Nunca é noite no mapa“, de Ernesto de Carvalho. Nele, acompanhamos um deslocamento feito pelo mapa ali representado pelo carro da Google responsável pelas imagens do Google Maps. Construída a partir das imagens capturadas pelo automóvel, a narrativa fílmica problematiza o encontro frontal entre aquele que narra e o próprio mapa, bem como entre o mapa e as transformações das cidades.

Carvalho está interessado em Recife e em pensar questões como especulação imobiliária, desapropriação, violência, pobreza, o capitalismo na era digital e a própria constituição dos mapas. Por meio de frases curtas que duram o tempo da captura da imagem, como versos de um poema, o narrador desenha seu próprio mapa com palavras e imagens e possibilita a reflexão sobre seu próprio projeto cartográfico: “O mapa não anda, nem voa, nem corre, não sente desconforto, não tem opinião. Pro mapa não há governo, não há golpe de estado, não há revolução. Nunca é noite no mapa”. Por meio de uma crítica ao próprio ato de mapear a cidade vai se delineando no filme uma dimensão política e estética sobre o espaço urbano, simultaneamente uma crítica ao poder público e às representações da cidade.

O curta compõe também uma cartografia política à medida que revela cenas cotidianas da violência. É o caso das “batidas policiais” registradas e expostas no curta a partir das imagens captadas pelas câmeras do próprio Google e de sua viatura às quais se sobrepõe a voz narrativa: “Todos são iguais perante a lei. Todos são iguais perante o mapa”. Ou ainda quando assistimos ao aparato policial abrindo caminho para que o próprio carro da Google possa “fazer seu trabalho”: “cidade bem policiada. Cidade bem mapeada”.

Aí surge uma outra dimensão da representação: o que fica fora do quadro, pois qualquer um que já lançou mão de um aplicativo de localização digital por mapas para se deslocar na cidade tem a experiência concreta de que o mapa delimita um território. O curta explora essa dimensão ao expor as imagens de uma mesma rua que, por ser de barro, não é registrada pelo mapa da Google até que por ali passe o poder público com seus tratores, tornando-a acessível ao mapa.

O apagamento de determinados espaços e sujeitos associa-se a uma ideia de modernização que passa a ser reproduzida e capturada pelo mapa, que, simultaneamente, expõe e exclui. Na medida em que o carro passa várias vezes em um mesmo local, vão se projetando as imagens dos espaços, casas e um bar, que desaparecem com a passagem dos tratores e vias, expondo a exclusão e o desaparecimento de sujeitos, casas e espaços.

Se em Platão se tem uma rivalidade entre Real e Ideal, e em Aristóteles podemos pensar uma teatralização do real, para Deleuze, em Lógica do sentido, essa oposição não mais parece fazer sentido: o simulacro nos leva a pensar em gestos, movimentos que constroem representações, contribuindo, portanto, para uma certa ideia de cidade, de realidade