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Karl Ove e sua vida

Karl Over Knausgard- Revista Mapa ed. 1 – 2013

Marcos Torres

Recebi duas edições da Revista Mapa, de Curitiba(ed.nov/dez 2013 e ed. jan/fev 2014), uma revista bimestral, que pode ser enviada gratuitamente a todos que escreverem para os editores solicitando a publicação. A reportagem que mais me chamou atenção no primeiro número da revista diz respeito ao mais recente fenômeno mundial de vendas, o norueguês Karl Ove Knausgard.

Karl Ove já vendeu mais de meio milhão de livros, superando o volume de vendas de muitos escritores dentro do mercado americano, inglês ou alemão. Mas a que será que se deve tamanha repercussão? A publicação do primeiro volume, além de um mal-estar familiar generalizado, rendeu a Karl Ove um processo judicial pelo uso de detalhes biográficos expondo a família Knausgard aos holofotes da mídia que quis investigar as figuras de carne e osso por trás do relato.

Não deixa de ser surpreendente também o fato de que corre o boato que as empresas na Noruega foram obrigadas a instituir os chamados “dias sem Knausgard”, proibindo os funcionários de lerem ou comentarem durante a jornada de trabalho o livro de Karl Ove.

Mas o mais interessante é a tensão criada pela narrativa entre vida e ficção. Tematizando a saga autobiográfica do autor (seis volumes, um total de 3600 páginas, cujo primeiro volume intitulado A Morte do Pai já foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras, o texto de Irinêo Neto traz elementos importantes para pensar a produção literária contemporânea. Além de retomar as inquietações a respeito da noção de gênero literário e suas formas cambiantes, fala-se na imbricação entre vida e obra, entre realidade e ficção e aposta-se que Karl Ove propõe a inversão do paradigma do pacto autobiográfico conforme sustentado por Philippe Lejeune. Para Lejeune, o leitor deveria aceitar o pacto de leitura conforme o gênero literário apresentado pelo autor, mas Karl Ove parece inverter ou propor outro pacto e pede para o leitor decidir em qual gênero seus livros devem se encaixar: autobiografia ou ficção?

Vale a pena arriscar um palpite nessa discussão, pois depois da leitura da reportagem de Irinêo Netto e de A Morte do Pai de Karl Ove você vai se dar conta de que alguma coisa está mudando em relação àquilo que, até há bem pouco tempo, chamávamos de ficção.

NETTO, Irinêo Baptista. Ele confia em você. Revista Mapa, Curitiba, p.
4-9, nov/dez 2013.

Reprodução – Bernardo Carvalho

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Marcos Torres

Recentemente, Bernardo Carvalho concedeu uma entrevista para a Globonews Literatura, sobre seu mais novo livro, Reprodução, publicado pela Companhia das Letras em 2013.

Nela, o autor diz nunca ter gostado de a literatura estar atrelada à política, mas, como afirma que o contexto atual pode ser caracterizado como o de um novo fascismo, Carvalho defende um livro mais político. Diante de um mundo confuso em que, segundo o autor, não sabemos direito onde mora o perigo, a justificativa para um livro mais político está na proliferação, principalmente pela internet, de um discurso dissimulado e carregado de fascismo, racismo, anti-semitismo, anti-arabismo etc.

Para Carvalho a internet, que, aparentemente, alardeia a liberdade e a democracia, desconstruindo hierarquias, propiciou, na verdade, o fim da democracia e com ela o fim da privacidade e da vida privada , propalando um sistema de controle absoluto, de pura publicidade.

No livro, o narrador é um sujeito que segue para o aeroporto, mas, ao chegar, é preso na área de embarque; o enredo trata de um trabalhador do mercado financeiro, um estudante de chinês, que perdeu o emprego, perdeu a mulher, e, a partir de um discurso paranoico, acredita que a China será a nova dona do poder global. O texto traz a sensação de ser uma sequência de três monólogos sem um interlocutor, mas na verdade trata-se de um diálogo com um delegado que nunca aparece na história, não há descrição detalhada nem de aspectos físicos, nem psicológicos da personagem. Segundo Carvalho, esse delegado representa certa opacidade e o contrário do mundo da visibilidade absoluta, onde tudo é dito e tudo é mostrado no mundo em que vivemos hoje, e para o qual a gente cada vez mais vai se encaminhando. Por outro lado, o personagem sem nome e que fala quase sem parar é o representante desse fascismo disfarçado de outro tipo de discurso e com isso difícil de ser combatido.

Para Carvalho, o estudante de chinês é a representação desse tipo de discurso que está estreitamente vinculado à internet, à sensação de visibilidade absoluta e à perda da privacidade, onde tudo é mostrado e nada é mostrado, tudo é dito e nada é dito e, portanto, um discurso contraditório. E, como está no próprio título do livro, tudo não passa de uma mera reprodução.

Não sei, mas acho que talvez seja interessante a gente se apropriar deste último termo para pensar sobre a produção literária contemporânea e suas diferentes formas de subjetivação. Assim como discutir se a relação entre Literatura e Política ainda tem alguma validade dentro da produção atual.

Assista a entrevista AQUI!