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Afropolitanismo e Um defeito de Cor

Lílian Miranda

Créditos da imagem: MOVEMENT OF JOY AND UPLIFTMENT, Cecilia Lamptey-Botchway, 2022

Pensando na preparação do meu relatório final de pesquisa sobre Viva o povo brasileiro e Um defeito de cor, comecei a ler Achille Mbembe e sua Crítica da Razão Negra. A leitura é densa e complexa já que a obra visa um empreendimento grandioso, ao elaborar um percurso histórico-filosófico que desafia o leitor a se debruçar sobre uma outra epistemologia e lógica de funcionamento do mundo: críticas ao colonialismo, a exploração da ideia do negro enquanto “outro” e das relações entre a lógica do capital e o racismo e a proposição do que o autor chama de afropolitanismo.

O historiador e cientista político camaronês Achille Mbembe, autor do conhecido ensaio Necropolítica, reúne na obra Crítica da Razão Negra as reflexões iniciadas em De la postcolonie, seguido por Sair da Grande Noite. Ensaio sobre a África descolonizada. Mas é o conceito de afropolitanismo que me interessa para ler a obra de Gonçalves. Nas palavras do próprio autor, num artigo originalmente publicado no jornal Le Messager de Douala, em 2005, podemos compreender afropolitanismo enquanto:

“uma estilística, uma estética e uma certa poética do mundo. É uma maneira de ser no mundo que recusa, por princípio, toda forma de identidade vitimizadora, o que não significa que ela não tenha consciência das injustiças e da violência que a lei do mundo infringiu a esse continente e a seus habitantes. É igualmente uma tomada de posição política e cultural” (p.70, v.4, n.2, revista Àskesis, 2015)

Para Mbembe, como para Fanon, negro é uma categoria que significa “ser-outro”, que só significa a partir da existência do que seria o referencial, nesse caso, a branquitude. Ainda no início do livro ele afirma “o negro é, na ordem da modernidade, o único de todos os humanos cuja carne foi transformada em coisa e o espírito em mercadoria – a cripta viva do capital.”. É essa mesma ideologia que faz da África um “não-lugar”,  sinônimo de atraso e  miséria. Na visão desse pensador, a noção eurocêntrica de civilização que determina a construção da inferioridade negra, só começa a ser questionada quando há uma descolonização do pensamento, mas ainda assim persiste a compreensão de que o indivíduo negro deve ser encarado como perigoso.

Em Um defeito de cor é possível visualizar essa movimentação de independência de uma epistemologia branca e de uma linha do tempo narrada pelos colonizadores. Aí, poderíamos sugerir o Afropolitanismo como uma chave de leitura da obra visto que tanto a história narrada quanto seu modo e contexto de produção opta por se distanciar da noção de negro enquanto “o outro” e colocá-lo como protagonista de sua história de uma forma que independe da branquitude. Num movimento sutil, Ana Maria Gonçalves subscreve a história de Kehinde numa malha que não se sustenta pelo racismo nem pelo branco, que aqui vira ainda menos que um antagonista, mas um coadjuvante. Kehinde vivencia inúmeras situações de barbárie e opta por não romantizá-las. Ao invés disso, privilegia a narração de suas atitudes de enfrentamento e das estratégias de sobrevivência e ascensão de vida.

Além disso, a personagem em sua trajetória está em constante travessia. De África à Bahia, passando pelo Maranhão, Rio de Janeiro e mais tarde de volta à África. A travessia é uma das características atribuídas por Mbembe ao afropolitanismo, já que a diáspora é entendida como um movimento de vaivém “capaz de permitir a articulação, a partir da África, de um pensamento da circulação e da travessia” e “à entrada de África na nova era de dispersão e circulação”.

Liana Amorim, em sua dissertação de mestrado intitulada “Pensatempos, cosmopolitismo e afropolitanismo: perspectivas híbridas do pensamento africano”, ao revisar as proposições de Mbembe acerca do afropolitanismo e a noção de escrita de si explorada pelo autor ao analisar as obras de Ahmadou Kourouma em O sol das independências e Yambo Ouolonguem que escreveu Devoir de violence, conclui que nesses escritos “não se tenta mais representar a realidade de maneira mimética, e sim produzir algo novo a partir de montagens e de discordâncias, sem resgatar a origem nem a reconstituição do passado, o que há é a recriação que almeja o protagonismo intelectual”.

É nesse momento que o processo de curadoria que Gonçalves faz não só dos momentos históricos de fundação da nação, mas também da história do racismo em nosso país, pode ser entendido como parte dessa montagem que manipula e rasura o documento, as versões oficiais de nossa História, a fim de contar uma história que não se limita a recriar ou mimetizar os fatos históricos no relato romanesco, mas que aposta na enunciação ficcional a partir de um pensamento afropolitanista: afirmação não vitimizadora pela narrativa que explora a dispersão e a imersão  na trajetória de Kehinde, realçando o que Mbembe chama de uma “modernidade africana pré-colonial” que Gonçalves explora com sua “criatividade contemporânea”.

Estratégias da autorrepresentação na literatura brasileira contemporânea

Samara Lima

Créditos da imagem: “Birth of Oshun”, de Harmonia Rosales

Há cerca de um ano, iniciei um projeto de iniciação científica intitulado “A autorrepresentação do negro no conto brasileiro: o retorno do recalcado”.

Longe de pretender fazer um retrato totalizante, a investigação pretendia mostrar a complexidade da ideia de autorrepresentação e a pluralidade do fazer literário dos escritores atuais que escolhemos para o corpus de análise: Cidinha da Silva, Geovani Martins e Cristiane Sobral. Assim, a investigação teve como mote a seguinte pergunta: quais foram os artifícios literários utilizados pelos autores negros para inscreverem a complexidade das maneiras de conceber a negritude?

bell hooks, em seu ensaio o olhar opositor: mulheres negras espectadoras (2019), tece uma discussão sobre como muitas produções fornecem “representações positivas ‘realistas’ que surgem […] como resposta à natureza generalizante das narrativas existentes”. Dentro desse cenário, a partir das leituras ficcionais e teóricas sobre a autorrepresentação foi possível perceber que muitas textualidades produzidas pelos escritores afrodescendentes propunham questionar as representações desumanizantes criadas pela branquitude impostas à sua raça, como a visão da mulher negra enquanto um corpo-objeto, por exemplo. Essa estratégia consiste, então, em tomar os valores da  branquitude para desconstruí-los. A narrativa constrói-se assim num diálogo cerrado entre o preconceito e a afirmação.

Durante a investigação, também nos deparamos com produções que, sem evocar ou se referir diretamente aos preconceitos da branquitude, optava pela atitude afirmativa, de inscrição dos valores capazes de fortalecerem uma (auto) representação positiva da negritude. O objetivo é o mesmo, mas há uma mudança na forma como alcançá-lo.

 Em meu último post, por exemplo, analisei o conto Metal-Metal, de Cidinha da Silva e comentei como os deuses e mitos que perpassam o universo da religião de matriz africana são recorrentes na poética da autora. É curioso notar como Cidinha da Silva não põe em tensão a imagem da religião de matriz africana com a representação negativa, que associa essa religião ao mal, um lugar comum do que há de pior no imaginário coletivo. Neste conto e em muitas outras de suas produções, da Silva produz uma maneira de pensar política e literariamente que explora diretamente o universo das simbologias e expressões africanas. Assim, não encontramos na narrativa nada que evoque os preconceitos correntes contra o candomblé, por exemplo, mas somos apresentados diretamente à lógica de representação de suas entidades, lógica que é incorporada pelos personagens e representada pela narrativa. A incorporação de divindades das religiões de matriz africana em sua literatura não é mero adereço, os deuses interferem na construção do sentido da narrativa e são motores de sabedorias ancestrais, como o encontro, no conto, entre Ogum e a protagonista, no post anterior.

Seja confrontando as representações estereotipadas sobre a negritude ou dando menos importância a essa tensão, o fato é que os autores, através da literatura e de diferentes recursos, questionam as problemáticas do negro na sociedade brasileira e buscam criar imagens humanizadas de suas identidades que, durante muito tempo, foram representadas de forma estigmatizada. 

As escritoras mulheres “de cor”

Samara Lima

Na cena contemporânea, é notável o incremento do número de estudos que buscam pensar os diversos obstáculos historicamente impostos às mulheres, principalmente, às negras e não-brancas. É nesse cenário, por exemplo, que recentemente foi traduzido por Larissa Bery, pela Zazie Edições, o ensaio A Tríplice Negação de Artistas Mulheres de Cor de Adrian Piper, que foi publicado originalmente em 1990. Ainda que seu texto esteja preocupado com investigar o mundo da arte e as relações sociais, a artista traz discussões que podem ser relacionadas com outras manifestações artísticas, como a literatura.

Nesse ensaio, dentre tantas outras questões, Piper aponta como os trabalhos dos afro-americanos e, em especial, das “artistas mulheres de cor”, foram duramente excluídos das galerias, museus e publicações. Ainda que, cada vez mais, possamos apontar iniciativas que visam a estimular a exposição desses trabalhos, muitas dessas artistas sofreram com discursos acusatórios que insistiam em afirmar que suas produções eram derivativas, o que redundava quase sempre em censura.

Ainda assim, Piper chama a atenção para um aspecto interessante. Na sua opinião, a visibilização dessas produções, por parte do mundo da arte euroétnica, está mais interessada na investigação da trajetória das artistas do que em suas produções. Ou seja, como uma espécie de boa consciência reparadora, o mercado da arte abre suas portas para a alteridade interessando-se muito mais pela biografia das artistas do que pela análise da maneira como escolheram se expressar artisticamente. O resultado mais evidente disso para Piper é que as exposições das “mulheres de cor” adquirem um viés didático: se se trata de uma artista negra, sua produção  “ensina sobre o racismo”. É como se sua produção não merecesse ou valesse a pena uma leitura teórica ou estética.

Salvaguardadas as devidas diferenças, será que podemos transferir a crítica de Piper para o que acontece com a literatura? No decorrer da minha pesquisa venho me debruçando sobre textos teórico-críticos que buscam analisar as obras de autores negros. É interessante notar como em muitos desses textos os críticos interessam-se pela biografia do autor, suas vivências e leem suas obras como mero relato de experiência e embora façam isso porque acreditam no valor literário das produções comentadas, na condição de leitora, gostaria de ser levada pela crítica a refletir melhor sobre a experiência singular de leitura que muitos desses textos me propõem.

Pois bem. Pensando nisso é que me proponho agora a fazer um pequeno exercício de análise do conto Metal-Metal de Cidinha da Silva, publicado no livro Um Exu em Nova York (2018), pela Editora Pallas. Em muitos textos que circulam pela internet é comum encontrarmos que o conto fala sobre a ligação entre a cura africana e a medicina oriental, mas podemos nos perguntar: de que forma isso ocorre na narrativa?

O conto parece tratar de um mero encontro entre a narradora, que não tem nome, e um homem chamado Zebrinha Onirê. Cabe ressaltar que o personagem é uma referência a uma figura importante da cena cultural baiana, chamado José Carlos Arandiba, um dos maiores coreógrafos e bailarinos do Brasil. De volta à narrativa, esse personagem sobe rindo a escada de três em três degraus e depara-se com a narradora que com a devida deferência ao filho de um rei lhe pergunta: Como vai? Tudo bem? E Zebrinha logo lhe responde: Que mal vai com o povo de Ogum? Como se tivesse percebido que algo está incomodando a narradora.

Nos contos de Cidinha, é notável a recorrência a mitos e deuses das religiões de matriz africana. A pergunta de Zebrinha, então, não é apenas retórica, mas supõe uma referência meio implícita, como se houvesse aí também uma piscadela de olho para o leitor, um convite para que o leitor acrescente à tentativa de interpretação do texto a referência ao orixá e o que isso pode significar para a narrativa. A pergunta engendra um fluxo de pensamentos na narradora, que olha através dele, como que distraída com a situação. A boa forma de Zebrinha contrasta com os problemas físicos que a narradora vinha enfrentando, como as dores e nódulos do vasto lateral, mas também, com vários outras preocupações, como a personagem frouxa do conto que precisava acertar.

Zebrinha Onirê logo exige uma resposta, que a narradora, de volta à cena, agora sim presente no diálogo, responde: Mal não há no caminho dos filhos de Ogum. Nem no meu, amiga dos filhos dele. O encontro com essa figura tão simbólica parece acionar um gatilho na narradora, que percebe que não está bem e que está em desarmonia com sua mente, seu corpo e seu espírito. A personagem que no decorrer da história aparenta estar perdida, aos poucos se encontra. Ogum é o orixá que abre caminhos com a força de sua espada e é nesse momento em que os princípios de cura da narradora se cruzam.

Após o encontro, a personagem resolve fazer o caminho das Ássanas e das agulhas, ou seja, recorre à yoga e à acupuntura para tranquilizar a mente e tratar as dores que sente no joelho. Mas é como se a personagem só pudesse se sentir leve e decidida, após o encontro com Zebrinha Onirê.

E o que significa o título do conto? O primeiro Metal pode sugerir, então, o saber ancestral africano, a força do encontro com o filho de Ogum, que é o Orixá da guerra e senhor dos metais; o segundo metal do título refere-se à agulha da acupuntura, uma técnica tradicional da medicina chinesa. É a partir da imbricação desses dois saberes que a personagem pode encarar suas outras preocupações e tratar o seu joelho, que estava inquizilado por inseguranças do pé durante a caminhada.

Ao propor essa análise, acredito que mais do que reiterar a escolha temática pela afirmação da identidade racial de Cidinha da Silva por meio da evocação a entidades das religiões africanas, o que importa é investigar como as textualidades dos autores negros contemporâneos carregam uma potencialidade que, muitas vezes, fica à deriva com os simples comentários, por parte dos críticos, sobre o tema.

A autorrepresentação do negro e o retorno do recalcado

Samara Lima

Créditos da imagem: Surreal Portraits – Henrietta Harris

Já faz algum tempo que não é novidade afirmar que os grupos marginalizados foram objetificados e representados na literatura brasileira a partir de visões que destoam da sua realidade social. Domício Proença Filho em A trajetória do negro na literatura brasileira (1998), por exemplo, discute o percurso do negro nas produções literárias e a forma como esses sujeitos foram estereotipados por meio de análise dos personagens de obras, tais como o conto “Setembro” do livro O corpo vivo (1962) de Adonias Filho. Aí, o personagem tomado para análise é a figura do escravo fiel, que encarna o símbolo da antiviolência.

Por outro lado, também não é rara a afirmativa de que a contemporaneidade vem sendo marcada por um contexto de efervescência cultural e política em que movimentos sociais buscam repensar diversas estruturas da sociedade e discursos cristalizados no imaginário coletivo. O campo literário brasileiro, que também se constitui enquanto esfera de produção de discurso, não fica imune a tais tensões.

O fato é que a disputa por representatividade nas esferas sociais e pela autorrepresentação põe em xeque, no cenário da literatura brasileira, as representações negativas fixadas pela tradição literária. Dessa forma, os sujeitos negros, que na historiografia literária foram apresentados sempre sob tutela, subalternizados e, muitas vezes, excluídos da representação, buscam manifestar em seus escritos o comprometimento com a etnia, uma vez que a manifestação literária tem a capacidade de (re)inventar positivamente essas tantas identidades.

Pois bem. É esta postura que os estudos culturais identificam como o retorno do recalcado, o retorno da identidade negra que por muito tempo foi recalcada no âmbito cultural ao condenar qualquer referência às características físicas e culturais dos negros.

É pensando na ideia de que cada vez mais esses sujeitos buscam e afirmam em suas obras a sua condição na realidade brasileira que meu plano de pesquisa atual utiliza-se do termo Recalque, criado por Sigmund Freud para caracterizar um mecanismo de defesa que se baseia na repressão da memória de eventos passados dolorosos.

O que chamamos, portanto, de retorno do recalcado diz respeito ao posicionamento afirmativo cada vez mais recorrente na literatura brasileira recente por parte dos escritores afrodescendentes como Cidinha da Silva, Cristine Sobral e Geovani Martins que reafirmam nos textos literários que produzem valores importantes para sua identidade racial.

Minha pesquisa, então, visa entender como esses escritores, por meio da literatura, discutem problemáticas da sociedade brasileira, como o racismo, e noções, não raras vezes estereotipadas, de identidade.