Arquivo do mês: abril 2014

Graphic novels ou as boas e velhas histórias em quadrinhos

Taís Veloso

Já faz algum tempo que não é mais possível afirmar que a leitura de histórias em quadrinhos deve ser indicada apenas para crianças e pessoas com “baixo nível cultural” por conta de sua facilidade e de sua acentuada linguagem gráfica e cenários coloridos. Os mais recentes estudos sobre o gênero já reconhecem que é necessário um grande domínio das linguagens verbal e não-verbal e um bom conhecimento empírico para decifrar e entender tudo o que é comunicado naqueles traços.

Como Eisner (2005, p. 8) afirma, a partir dos anos 60, pode-se perceber que os quadrinhos passaram a buscar temas que eram típicos do cinema e do teatro, lidos também na literatura prosaica e lírica. Hoje podemos falar do advento das graphic novels, que tiveram um grande impacto no mercado cultural. Quanto a este novo cenário, Eisner (2005, p. 8) sugere que “As graphic novels com os chamados ‘temas adultos’ proliferaram e a idade média mudou, fazendo com que o mercado interessado em inovações e temas adultos se expandisse”.

Podemos citar dois exemplos de autores que trabalham desta forma: o brasileiro Lourenço Mutarelli, que, além de cartunista, já atuou como cineasta, roteirista e autor de romances, e a francesa Julie Maroh, que atualmente se dedica aos quadrinhos.

Ambos possuem estilos muito distintos, principalmente nos livros a serem abordados aqui: Desgraçados, do brasileiro, e Azul é a cor mais quente, título traduzido da obra da francesa. Enquanto Maroh buscou retratar as relações adultas e a questão da sexualidade e de gênero de maneira romântica e leve, Mutarelli traz o tema das relações humanas e da imprevisibilidade da vida de maneira cruel e esmagadora. Tudo isso é perceptível não apenas através da leitura dos diálogos, mas de como observamos o traço, a tipografia e a colorização das páginas. No caso de Mutarelli, observamos um constante preto e branco e personagens desenhados de maneira crua e um tanto disforme. Já no texto de Maroh, vemos a presença da cor azul e um traço mais leve, próximo de proporções humanas reais.

Com isso, pode-se ter uma rápida visão da temática e da produção destas obras. Fica ao leitor do blog a indicação de leitura de ambos os autores, para que possam, assim, tirar as suas próprias conclusões.

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Desgraçados – Lourenço Mutarelli

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Azul é cor mais quente – Julie Maroh

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Pesquisador nos espaços: sobre o IV Simpósio memória, (auto) biografia e documentação narrativa


Simpósio
(Conferência de abertura: “Documentação narrativa e investigação-formação-ação em educação”)

Rodrigo Estevão

No início do mês de abril, aconteceu, aqui, em Salvador, o IV Simpósio Memória, (Auto) Biografia e Documentação Narrativa, promovido pelo grupo de pesquisa GRAFHO (Grupo de Pesquisa Autobiografia, Formação e História Oral) da Universidade do Estado da Bahia.

A conferência de abertura ficou a cargo de Daniel Hugo Suárez (UBA), aconteceu em espanhol e o referido professor defendeu a adoção de um novo dispositivo pedagógico, a documentação narrativa, que, segundo o pesquisador, fomenta uma relação horizontal – portanto contra-hegemônica e descolonializadora – dentro dos espaços educacionais diversos.

A organização do evento previu discussão em vários eixos relacionados ao tema principal do evento. O Eixo Temático III: Documentação Narrativa, escrita de si e formação apresentou comunicação de pesquisadores que desenvolvem pesquisas afins a meus interesses. Participando da Sessão 8, coordenada por Carmem Sanches Sampaio (UNIRIO), conheci, além de outras propostas interessantíssimas, um pouco do trabalho de Jamile Maria Nascimento de Assis, estudante de pós-graduação da – vejam que interessante – UFBA. Em sua comunicação, A visão da Cordilheira: Daniel Galera e o campo literário, Jamile lança um olhar sobre a construção de imagens do campo literário no romance Cordilheira. Em uma leitura que se aproxima da minha em muitos momentos, Jamile não somente observa como vai se desdobrando o campo em volta da personagem escritora Anita, mas busca assimilar as experiências da personagem com as experiências de Daniel Galera (autor do livro) enquanto elemento do campo. Estratégias de inserção no campo e as perspectivas de literatura de ambos são contrapostas na análise de Jamile, o que me fez acreditar, mais ainda, na necessidade de um diálogo entre a minha pesquisa e o trabalho que a pós-graduanda vem realizando.

Não sei se, como apontado, Galera vem a ser um autor de sucesso (o sucesso me parece uma invenção do mercado). Contudo, é inegável que cada vez mais se comenta sobre o autor nos espaços acadêmicos. Penso, portanto, se isso significaria algo à figura de escritor de Daniel Galera. Acredito que vale a especulação.