Arquivo do mês: junho 2013

Uma nota sobre o romance Cordilheira de Daniel Galera

Rodrigo Estevão

“Toda arte é egoísta, mas a literatura é a mais egoísta de todas. Não há como escrever honestamente sobre qualquer coisa que não seja nós mesmos.” (p. 89), diz o personagem Holden no romance Cordilheira, de Daniel Galera, tornando mais intensa a tensão entre ficção e realidade que atravessa todo o livro.

O enredo do romance é movido pelo súbito, inexplicável e desesperado desejo da protagonista de ser mãe. Anita é escritora e seu livro ganha uma tradução para o espanhol. Para fazer o lançamento do livro, a personagem decide ir a Buenos Aires. Embora não se mostre muito empolgada com a oportunidade, aceita o convite da editora com a única intenção de passar uma temporada na cidade até encontrar qualquer figura masculina que possa dar a ela um filho, já que, Danilo, o ex-namorado, não cede à idéia.

É lá, na capital argentina, que encontra Holden, um rapaz misterioso e fã entusiasmado de seu romance, e logo começam um caso. Anita passa a morar com o admirador de sua obra e a fazer parte do cotidiano dos amigos de hábitos ultra-extravagantes de Holden: cada um de seus amigos, incluindo o próprio Holden, possui um romance autobiográfico, cujo enredo deve ser literalmente vivido pelos autores – a intenção do grupo é que a própria Anita viva a vida de sua personagem, já que todos acreditam que é preciso viver a ficção na realidade.

Holden quer atuar como se representasse o destino dos personagens do livro de Anita. Já grávida do argentino, ela resolve ceder aos apelos do grupo e fazer a vida emular a arte. Para isso, sobe até o cume do Cerro Bonete simulando a situação em que se encontra a personagem final de seu livro, acreditando que a troca é justa: já que Holden dera-lhe um filho, Anita está disposta a levar a encenação do romance na vida real.

Em Cordilheira, somos conduzidos por uma narradora-personagem (Anita) cuja dicção está baseada em uma linguagem bastante imprecisa, respaldando um aspecto que vem sendo notado na escrita do autor desde seu primeiro livro Até o dia em que o cão morreu: uma oscilação notável no equilíbrio da voz narrativa, que, ora assume a coloquialidade, ora insiste numa linguagem mais rebuscada. A brusca mudança da voz que narra o primeiro capítulo (um narrador em terceira pessoa em Como água) para a voz que predomina no restante do livro [a de Anita], pode ser melhor notada se colocamos lado a lado passagens como essas: “[…] ela perguntou deitando a escova sobre as pernas” (p. 10) [grifo nosso], “[…] tendo o corpo sacudido pelo pau de um desconhecido” (p. 80).

O amplo detalhamento do campo literário no qual a protagonista está inserida é que mais contribui para a construção da representação da personagem como escritora: explanações minuciosas dos eventos literários e situações não tão conhecidas pelo grande público, como reuniões com os editores e sua relação com os autores. Porém, não se pode atribuir igual juízo de valor positivo à aparição inesperada do personagem Esteban, de verossimilhança dúbia, por exemplo – não há nada no livro que indique algo que sustente o motivo do personagem na história, já que as passagens nas quais ele está presente não alterariam o enredo em nada caso não existissem.

Mas, para retomar o mote da relação entre ficção e realidade explorado pelo autor em Cordilheira, valeria a pena perguntarmo-nos se há alguma relação entre Anita e Galera. O autor tem sido enfático em afirmar que Anita é seu personagem menos autobiográfico. No entanto, não é possível escamotear a probabilidade de a personagem escritora do romance ter sido construída com base na experiência de Galera no campo literário brasileiro contemporâneo e esse aspecto representaria mais uma possibilidade de polemizar a delicada relação entre ficção e realidade.

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