Autoficção e desdramatização

Marília Costa

Créditos da imagem: Cena do espetáculo Conversas com o pai (2014). 

Na dramaturgia brasileira contemporânea, nota-se maior interesse e valorização de dados biográficos na elaboração da cena teatral. As experiências pessoais dos atores/diretores servem como mote para os enredos ficcionalizados no palco, que geralmente são compostos por elementos que enfatizam a mistura dos gêneros, dos recursos midiáticos e do metateatro. A partir dessa perspectiva, o espetáculo Conversas com meu pai (2014) é interessante para pensar algumas das estratégias de desdramatização propostas por Jean-Pierre Sarrazac em “O drama não será representado”.

“O drama não será representado” é o primeiro capítulo do livro Poética do drama moderno do dramaturgo e pesquisador francês Jean-Pierre Sarrazac. O ponto de partida da discussão proposta por Sarrazac é a peça “Seis personagens à procura de um autor” do dramaturgo, poeta e romancista italiano Luigi Pirandello. Dentro do contexto sócio-histórico em que a peça é escrita (em 1921, início do século XX), a peça é considerada inovadora por apresentar mecanismos do metateatro, já que a peça comenta o teatro dentro do teatro provocando uma reflexão sobre os limites da representação.

Sarrazac não acredita no fim do drama e rechaça a nomenclatura pós-dramático para caracterizar produções contemporâneas. O teórico reconhece uma alteração na forma dramática que prefere chamar de desdramatização.  Será que poderíamos aproveitar as reflexões de Sarrazac para a análise do espetáculo Conversas com meu pai (2014)? 

O monólogo Conversas com meu pai estreou em 2014 no SESC Copacabana no Rio de Janeiro e foi concebido com base no material (bilhetes, diários, vídeos, fotos, áudios etc.) que a atriz Janaina Leite acumulou nos sete anos em que a comunicação com o pai passou a ser silenciosa. Por conta de um câncer na garganta, o pai perdeu a capacidade de falar e os dois passaram a se comunicar por meio de frases escritas em pequenos pedaços de papéis que foram guardados por Janaina em uma caixa de sapato. Um ano depois do diagnóstico do pai, Janaina, por conta de uma doença, precisou submeter-se a uma operação que teve como consequência a perda auditiva. No início da peça, a personagem revela a existência de um segredo, que no decorrer das cenas o espectador descobre tratar-se de um possível incesto, acontecimento que todo o tempo transita entre a memória e a imaginação de Janaina, dúvida que permanece até o final da peça sem resolução, deixando a plateia pairando sobre a incerteza, o real e o imaginário.

No drama de Pirandello, as personagens à procura de um autor surgem do fundo da plateia em direção ao palco, mas os espaços não chegam a se confundir. Em Conversas com meu pai, o recurso é mais extremo, a peça já começa fora do espaço cênico tradicional, no hall do teatro, fazendo parecer que aquele ambiente e o público já estão engendrados como parte da convenção teatral. A personagem se comunica diretamente com o público, em um gesto de quebra da quarta parede, mas que nesse monólogo vai além, colocando a plateia como interlocutor e parte da cena, sentada em círculo ao redor da atriz. Nesse momento, é explorado um dos temas centrais do espetáculo: o silêncio, que se instaura a partir dos problemas de saúde do pai e da filha. Paradoxalmente, é quando ele perde a fala e ela perde a audição que os dois, enfim, começam a se comunicar com profundidade.

Em cotejo com Seis personagens à procura de autor, a peça Conversas com meu pai também promove rupturas na fábula. A palavra fábula tem origem latina e na concepção tradicional corresponde tanto ao material anterior à composição da peça, o mito (o tema do qual a peça vai tratar), quanto à estrutura narrativa que o autor vai utilizar (a forma como ela é escrita). Brecht defendeu uma ruptura da ideia de que as ações tinham que ter uma ordem cronológica e causal como preconizou Aristóteles. Ou como afirma Sarrazac: “A peça não é mais esse organismo do qual a fábula seria a ‘alma’, e que sempre avançaria conforme um processo linear definido por um começo, um meio e um fim”. 

Em “Seis personagens à procura de um autor” percebe-se a desdramatização através da ruptura da fábula, do texto estruturado em ações divididas em atos e cenas. A nota de Pirandello que abre a peça aponta para isso: “A comédia não tem atos nem cenas”. 

Também em Conversas com meu pai percebe-se a ruptura na fábula, na forma como a peça é escrita e encenada. A estrutura elaborada por Aristóteles – exposição, aumento da tensão, crise, nó, catástrofe e desenlace – é desconsiderada, a história começa a ser encenada em um movimento “de trás para diante”. Além disso, a atriz instrui o público a ir para outro ambiente no qual a outra cena é iniciada.

Essa foi a terceira versão da peça. Essa aqui, que está terminando agora. E então eu levanto e saio daqui. Vocês vão para a outra sala. Vocês também vão para a outra sala comigo, é para isso ser feito, agora, porque existe a outra versão que eu criei. Existe a segunda versão. Eu estou mostrando de trás para diante.

Na outra sala (terceiro espaço cênico, considerando o hall como o primeiro e a sala anterior como o segundo), o cenário é composto por uma piscina de plástico, plantas, um microfone, uma mesa, cadeiras de praia, uma gaiola e uma série de objetos pessoais da atriz, na parede, uma foto 3×4 ampliada. Além disso, imagens documentais aleatórias são transmitidas em um telão durante toda a cena: “o pai – e uma mulher – a filha -, em silêncio, pescam, close nas mãos do homem que escreve pequenos bilhetes, close nos olhos da mulher, o rio, uma casa no meio da floresta, um peixe sendo aberto com as vísceras expostas, o pai e a filha, em silêncio, dividindo uma cerveja, etc, etc”.

A partir dos elementos mencionados, percebe-se no espetáculo Conversas com meu pai um investimento no procedimento autoficcional pela maneira como os dados biográficos são mobilizados na cena teatral, o que implica em uma mudança formal, que segundo Sarrazac, pode-se chamar de desdramatização. A ambiguidade entre vida e ficção faz parecer que o palco é uma reprodução da casa do pai da atriz, o que é acentuado pelos recursos cênicos: uma foto gigante na parede, as imagens projetadas no telão, os objetos pessoais que compõem o cenário. Nessa perspectiva, pode-se identificar nesse drama a “convergência de distintos gêneros, diversificação das formas de autorrepresentação, problematização da dualidade factual-ficcional, inclusão de novos suportes e mídias” como afirmou Stelzer ao buscar uma caracterização para peças teatrais autoficcionais. 

Cansamos das ficções?

Luciene Azevedo

Créditos da imagem: Arnulf Rainer,  Untitled- 1974- Oilstick and Crayon Over Photograph

Acho que não é preciso dizer que um dos maiores desafios para aquele que pensa as produções artísticas hoje é a presença marcante da primeira pessoa. Comentando a relação entre a poesia e a fotografia, Adolfo Montejo Navas afirma que o autor nunca está por cima da materialidade da linguagem se não quiser cair em uma ressaca de conto romântico, mas cada vez mais quando falamos de textos que, ainda que com algum hesitação, continuamos a chamar de literários é notável que o trabalho com a materialidade da linguagem não parece tão fundamental quanto o foi para o modernismo.

A descoberta moderna de que a linguagem é dúbia, vacilante e de que, na verdade, precisamos de muitas convenções para garantir um pouco de eficácia comunicativa, é quase um truísmo hoje na era da guerra das narrativas e por isso os experimentos linguísticos que marcaram as produções literárias da modernidade já não são necessários para provar a zona incerta em que se inscreve toda palavra.

A própria tradição moderna na qual muitos de nós nos formamos como leitores sempre nos alertou contra a ingenuidade de confundirmos os autores com os personagens e narradores de suas próprias histórias. Como devemos reagir, então? Meu interesse pelas formas narrativas nas quais a primeira pessoa do texto é confundida com a presença do próprio autor me leva a uma pergunta sobre a maneira como lidamos com as ficções, que durante a modernidade foi tomada quase como um sinônimo da própria ideia de literatura.

Mas se hoje, em muitas produções atuais, é possível questionar a ficcionalidade como ato imaginativo em operação, já que muitas vezes a “evocação do nome próprio do autor dá ideia de sua absoluta presença”, como afirma o teórico espanhol Pozuelo Yvancos, será possível pensarmos em uma nova disposição discursiva para o que chamamos de literatura? Será possível ler em muitas narrativas hoje um processo de desficcionalização sistemática do texto? Curiosamente, encontro o comentário num estudo de Stefano Calabrese para caracterizar a incorporação dos relatos enviados por cartas a Eugène Sue por seus leitores e que eram incorporados aos romances do autor.

Em muitas narrativas contemporâneas essa “desficcionalização” está relacionada à presença da primeira pessoa nos textos que realizam verdadeiros inventários pessoais, relatando a forma como os narradores-autores experimentaram a experiência que nos contam.

Vamos considerar o único romance escrito pela americana Lydia Davis, O fim da história. Seu título contém uma ambiguidade sustentada pelo romance, pois podemos interpretá-lo em sentido literal, (como a história terminará?), mas também podemos entendê-lo como um indicativo de que certa concepção da narrativa ficcional à qual estamos acostumados desde o século XVIII, está ausente do livro.  Diria mesmo que sustentar essa ambiguidade é revelar dois procedimentos narrativos distintos: narrar ou não a história? Qual história há para contar?

O impasse da narradora sobre expor (ou não) a intimidade de sua vida amorosa é acoplado materialmente à forma anotada da narrativa, que se reescreve aos olhos do leitor como se ele estivesse lendo um palimpsesto de versões, um acumulado de rascunhos que tateiam simultaneamente um modo de contar e um final para a história. Entendo que essa descrição pode soar muito próxima à operação metaficcional tão explorada pela própria modernidade, mas não seria possível me deter neste problema no espaço deste post. Ainda que haja claramente um comentário sobre os impasses sobre o que e como narrar, é como se a narradora expusesse sua preparação, suas anotações para escrever, incorporando a descrição sobre o método de preparação para a escrita da materia narrativa, pois o que lemos é a experiência do autor escrevendo ficção e a narrativa como uma oficina ficcional dessa criação:

“tenho tentado separar algumas páginas para acrescentar ao romance e quero juntá-las numa caixa, mas não sei como etiquetar a caixa. Gostaria de escrever nela MATERIAL PRONTO PARA SER USADO, mas se fizer isso posso atrair o azar, porque o material pode ainda não estar “pronto”. Pensei em incluir parênteses e escever MATERIAL (PRONTO) PARA SER USADO, mas a palava “pronto” ainda era forte demais apesar dos parênteses. Pensei então em colocar um ponto de interrogação e deixar MATERIAL (PRONTO?) PARA SER USADO, mas o ponto de interrogação introduziu de imediato mais dúvida do que eu podia aguentar. A melhor alternativa talvez seja MATERIAL – PARA SER USADO, o que não vai tão longe a ponto de dizer que está pronto, apenas que de algum modo vai ser usado, ainda que não precise ser usado, mesmo que seja bom o bastante”.

Ao narrar a experiência de escrever um romance expondo os preparativos para escrever, a voz narrativa, embora se mantenha sem identificação, garante uma proximidade quase íntima, confessional com seu leitor. E se acionamos o alerta vermelho contra essas ingenuidades identificatórias entre narrador e autor, entre autor-narrador e leitor, o próprio texto parece não desejar manter as coisas muitos estáveis, insinuando que nem tudo o que está sendo lido é obra de ficção e que então o romance deve ser encarado como uma charada de difícil solução, como afirma a narradora. Ou ainda: eu não estou disposta a inventar muito. A maioria das coisas se mantém como era. Talvez eu não consiga pensar em algo para por no lugar da verdade. Talvez eu só tenha uma imaginação fraca.

Será que a presença invasiva do eu nas narrativas, ambiguamente aproximado aos autores das histórias, pode ser pensado como um rechaço à ficção?  Estamos realmente nos cansando das ficções, como afirmou a crítica argentina Beatriz Sarlo há um tempo atrás?

 

Sobre a fotografia transversa

Samara Lima

Créditos da imagem: Duane Michals, The spirit leaves the body, 1968

Em seu livro Fotografia & Poesia (afinidades eletivas) (2017), o crítico e poeta Adolfo Montejo Navas, dentre tantas outras coisas, comenta que cada vez mais a fotografia contemporânea vem assumindo uma nova relação com o real, cujo foco encontra-se em articular um maior espaço para o imaginário em detrimento do estatuto de verdade. Pensando nessa nova maneira de entender a imagem visual, Navas traz um conceito bastante interessante: fotografia transversa.

O conceito está pautado na ideia de que as imagens do presente buscam romper com os limites impostos que predominam em boa parte da teoria da fotografia. Já comentei que a imagem fotográfica, desde o seu surgimento, foi compreeendida como captura da realidade, servindo ao uso documental, à informação e à memória e valorizada por seu status de autenticidade.

Nesse contexto contemporâneo de dissolução das fronteiras entre as diferentes linguagens, em que cada vez mais as artes tensionam a especificidade de seu meio, seria interessante pensar em um deslocamento da fotografia para fora de um certo modo de compreensão de seu funcionamento. Segundo Navas, a fotografia transversa é pensada a partir de um trânsito entre o que está dentro e fora da imagem fotográfica e procura formas de hibridização artística em favor de uma visualidade mais viva, mais contaminada. A aposta do crítico sugere que as imagens do presente distanciam-se da esfera representacional, a fim de apostar em outras intenções estéticas e contextualizações que proporcionem outras funções simbólicas.

No decorrer do livro, o autor se debruça sobre fotografias que nomeia como plásticas, aquelas construídas não só a partir da exploração de truques técnicos que visam tornar a foto difusa, mas principalmente por meio de intervenções de outras práticas artísticas, como a pintura. Ainda que as imagens fotográficas reproduzidas no meu corpus ficcional não sofram tais intervenções, acredito que a reflexão proposta pelo autor possibilita diversas maneiras de lidar com a maioria das imagens presentes nas obras ficcionais contemporâneas.

Como vimos nos posts anteriores, as fotos de infância de Isabela Figueiredo e da cidade de Lourenço Marques buscam jogar com a ideia da imagem como prova e superar a mera confirmação do pacto autobiográfico. O fato é que elas são utilizadas como artifício de uma prática ficcional. Gostaríamos de apostar, então, que a transversalidade da foto está na relação e tensão que ela mantém com o texto literário ou com o próprio lugar em que se insere em meio à narrativa. Ao embaralhar as noções de ficção e realidade e não compactuar com o dizível, a fotografia questiona seu caráter de registro indiscutível e permite significações múltiplas, abrigando experiências que, muitas vezes, estão além da própria imagem.

A presença do HIV/AIDS no romance A estrangeira, de Claudia Durastanti

Ramon Amorim

Créditos da imagem: Roger Ballen, Wounded, 2011.

“vê-lo reduzido a uma criatura de cartilagens e tendões foi o suficiente para que entendesse, ainda criança, que era aquela doença: uma impostura, um sortilégio que desvirtua o sangue”. (Claudia Durastanti, 2019)

A estrangeira é um romance italiano (a tradução para o português é da poeta Francesca Cricelli) escrito por Claudia Durastanti e publicado no ano de 2019, sendo um dos finalistas do prêmio Strega, o mais importante da literatura de língua italiana. A obra tensiona os limites entre memória e ficção, como muitas outras obras da contemporaneidade, ao propor esse jogo entre acontecimentos da vida da autora e a produção de certa ficcionalidade.

Filha de pais com deficiência auditiva, a narradora/protagonista (re)constrói trechos da sua vida e da vida dos membros da própria família a partir das memórias e das histórias que a cercam. Assim, a narrativa é carregada de temas espinhosos, a começar pela deficiência dos pais (e a estigmatização oriunda dela), a precarização financeira, os relacionamentos abusivos e, talvez o mais importante, a eterna sensação de estrangeira experimentada pela personagem.

Entre os vários assuntos que aparecem de forma colateral durante a narrativa, a presença do HIV/AIDS chama a atenção. A principal ocorrência do tema está ligada ao adoecimento do tio da narradora. A doença que acreditam ser um “câncer de pele”, por causa de um dos sintomas (o sarcoma de Kaposi), depois de exames de sangue e consultas médicas é diagnosticada como AIDS. Esta representação, ainda que lateral, aponta para um caminho diverso, se comparada com outras produções que abordam o tema. O primeiro ponto a se considerar é que o tio da protagonista, um sujeito heterossexual, “provavelmente era homofóbico”. O acometimento da doença em um personagem normativo, que difere dos estereótipos construídos sobre o tema causa uma espécie de perplexidade na narradora e aponta para um distanciamento entre o que ela vivia e a representação social a qual tinha acesso: “As informações que tínhamos sobre a aids, todas questionáveis, não batiam com as que tínhamos a respeito da vida do nosso tio Arturo”.

Outro aspecto importante a se destacar é o fato de que a confirmação da sorologia do personagem o fez ser vítima do estigma relacionado ao HIV/AIDS. Para a narradora “a doença o fez perder sua popularidade”, visto que as pessoas pararam de frequentar a casa do tio, assim como indicavam que ela deveria tomar cuidado com os objetos usados por ele e evitar qualquer aproximação física: “diziam para lavar bem os garfos e não tocar nos pentes e barbeadores do banheiro”.

Ainda que a representação do personagem com HIV/AIDS no romance se aproxime muito de outras comuns na produção literária mundial, visto que a deterioração corporal é uma imagem recorrente e a origem da infecção está relacionada a uma mulher que “teria sido prostituta e usuária de heroína”, a obra tem desdobramentos pouco vistos nas produções que abordam o tema. O fato de a doença estar presente em um membro de uma família tradicional de imigrantes italianos vivendo nos EUA, o fato dele ser um sujeito que tem um trabalho que exige força física (diferentemente dos escritores, jornalistas e redatores tão comuns em outras produções sobre o tema) e de estar tão longe do universo da homocultura são diferenciais de A estrangeira, principalmente porque apontam para uma representação mais diversa.

A abordagem do tema do HIV/AIDS na produção de Claudia Durastanti, mesmo que de forma discreta, é atual e importante pois tensiona e coloca em discussão a representação literária da doença em contraste com a sua representação social. O romance acaba por indicar que o que se crê sobre o HIV/AIDS não necessariamente corresponde aos resultados da experiência com o vírus (e/ou a doença).

Kehinde e Luísa Mahin: A reelaboração de um mito

Lílian Miranda

Créditos da imagem: Dalton Paula, Luiza Mahin, 2020, oil and gold leaf on canvas in two parts.

Como já mencionei em alguns posts anteriormente, a escritora Ana Maria Gonçalves constrói a narrativa de Um defeito de cor transitando entre ficção e fatos históricos. O livro conta a história de Kehinde e sua trajetória enquanto negra africana nascida no Benin e traficada para o Brasil ainda criança. A narrativa em primeira pessoa é feita pela personagem já idosa numa viagem de retorno ao Brasil em busca de seu filho Luís, que foi vendido pelo pai na infância.

A personagem Kehinde é uma das representações ficcionais de Luísa Mahin, figura histórica. O livro de Gonçalves compõe uma história completa e detalhada acerca da vida de Kehinde, apesar de a história oficial contar com pouquíssimos registros historiográficos sobre a vida de Mahin. O que se sabe, no geral, é que a ex-escravizada participou ativamente do levante dos Malês em 1835 e que poderia ser a mãe do poeta Luís Gama.

Uma questão que me inquietou durante a leitura foi perceber que  a tematização desse evento (o levante dos malês) pelo romance de Gonçalves não deu à atuação de Kehinde grande protagonismo narrativo. Embora nós, leitores, possamos observar as movimentações dos Malês através do ponto de vista dessa personagem, fica evidente que ela não atua como líder e foge à imagem desenhada pelo imaginário comum, também apresentada em outras produções ficcionais, como em Malês, a insurreição das senzalas de Pedro Calmon que inclusive, atribui a ela o título de Rainha Africana.

A opção de Ana Gonçalves por construir a história dessa forma faz com que a representação de Mahin por meio de Kehinde ganhe outras nuances, explore outras dimensões de sua subjetividade, preenchendo uma lacuna da própria historiografia. Como aponta Aline Najara em “Entre o popular e a historiografia, uma imagem controversa: O caso Luiza Mahin”:

“Luiza Mahin é uma personagem presente em segmentos da memória brasileira, lembrada como símbolo de luta feminina e referência na resistência ao escravismo. A análise de representações e a percepção de distintas (re)construções discursivas acerca desta personagem em narrativas literárias e/ou historiográficas é o ponto de partida para compreender os mecanismos que permitiram a sua idealização e o que tais representações revelam sobre o contexto no qual foram (re)elaboradas.” (NAJARA, 2009)

No caso de Um defeito de cor, a autora (re)elabora um outro ponto de vista que narra, além da vida de Kehinde, uma parte da história do Brasil ao explorar diversos aspectos e particularidades da construção da nossa nacionalidade, por meio de seu trabalho de curadoria de documentos e arquivos, como aponta a bibliografia que a autora elenca no final do livro.

“O que estava em jogo não era apenas a participação dos pretos na revolta, mas também a defesa do país contra os pretos sem pátria  que queriam tomá-lo à força, a defesa do Deus do Brasil contra os feiticeiros da África”. Assim narra Kehinde numa passagem em que explica detalhadamente as deliberações judiciais às quais os suspeitos de terem participado da revolta dos malês estariam sujeitos diante do tribunal brasileiro, pois, ainda que fossem inocentes ou tivessem sido acusados arbitrariamente, deixariam o tribunal com algum tipo de pena, e quase sempre a maior possível. A personagem ainda reflete com indignação que na verdade esses movimentos de “tomar um país à força” eram realizados pelos brancos há muitos anos e completa: “Eles nos tiravam do nosso país e das nossas propriedades, faziam nossos batismos na religião deles, mudavam nossos nomes e diziam que precisávamos honrar outros deuses.”

Ao pisar em solo brasileiro ainda na infância, Kehinde foge ao batismo e demonstra grande expertise em recusar um nome cristão, utilizando-o somente quando necessário visto que para os brancos ela jamais poderia ser chamada de Kehinde ou manter quaisquer elementos que a ligassem à sua origem africana. Porém no seu regresso a Uidá ela assume a identidade de Luísa, seu nome brasileiro, que ela considera bonito, e cresce financeiramente através do comércio que consegue expandir a partir dos contatos que estabeleceu no Brasil e no Benin.

Essa transição representa uma série de acontecimentos e reviravoltas que a personagem narra ao longo do livro, mas, além disso, representa também o compromisso da autora em narrar uma história verossímil e humanizada que embora simbolize resistência e atribua à personagem características heróicas, não se resume a mitificar sua figura.

Pra que serve a literatura?

Nilo Caciel

Créditos da imagem: Paulo Nazareth, Pão e circo (2012)

Detransition, Baby, romance de estreia da escritora americana Torrey Peters acompanha a vida de três mulheres em Nova York, duas trans e uma cis, cujas vidas se conectam em virtude de uma gravidez inesperada. Reese é uma mulher trans que sempre sonhou ser mãe. Ames, ex de Reese, é uma mulher trans que passou pelo processo de destransição e passa a viver como homem novamente. Após engravidar Katrina, sua chefe, depois de um envolvimento casual, Ames entra em conflito com o peso da ideia de se tornar pai e propõe a Resse que os 3 criem a criança juntos. O lançamento da obra em janeiro deste ano foi seguido de uma recepção altamente favorável por parte da crítica especializada. Veículos como The New Yorker e The New York Times, bastiões do gosto literário americano, foram alguns dos que acolheram bem a estreia de Torrey, seja pelo estilo da escritora, seja pela forma irreverente com a qual ele tratou seu tema. Além disso, uma adaptação televisiva já foi anunciada.

Contudo, a circulação do livro não aconteceu sem polêmicas. Em março, Detransition, baby foi anunciado como um dos indicados ao prestigioso prêmio britânico de literatura feminina The Women’s prize for fiction. A presença de Peters, que é uma mulher trans, na lista do prêmio causou revolta em alguns setores do meio literário anglófono. Algumas dessas pessoas concentraram seus ataques na escritora, referindo-se a ela no masculino e publicando ofensas transfóbicas nas redes sociais. É sabido que este tipo de reação on-line é previsível e não meritória de atenção especial. Por isso, gostaria de comentar outro aspecto das detratações: os ataques à obra.

Uma carta aberta atacando a indicação de Peters se refere ao livro como misógino e “um trabalho de pornô sissy impregnado de ódio por mulheres”. Acredito que este argumento se baseia unicamente no fato de as personagens do livro não terem sido construídas com o intuito de serem lidas como uma afirmação positiva das questões de gênero. Em muitos momentos, elas mostram manter certos comportamentos e ideais problemáticos sobre a representação do feminino nos dias atuais. Reese, por exemplo, em um trecho declara pensar que “mulheridade é iluminada pela violência masculina”. Em outra parte, no começo do romance, ela cogita transar sem camisinha com um homem casado soropositivo com quem tem um caso. Ela faz uma analogia do risco de ser infectada e se tornar portadora do vírus com o risco que as mulheres héteros correm de engravidar quando fazem sexo desprotegido. Como fica claro, Torrey não parece ter nenhuma intenção de construir uma história didática, cujas personagens são exemplos a ser seguidos.  Crispin Long fez um comentário a respeito em sua crítica no The New Yorker:

recusando evitar partes dolorosas da vida trans, Peters oferece uma lucidez que seria impossível se seu único objetivo fosse inspirar simpatia. Ela é inovadoramente desinteressada em convencer o público da coragem e nobreza das pessoas trans, e as deixa ser tão disfuncionais como todo mundo.

      Concordo com Long quando afirma que se a autora tivesse se preocupado em inspirar simpatia, o resultado final da obra seria muito menos rico. Acredito que o que está em jogo nesse questionamento é a própria definição de literatura e seu propósito. Testemunhamos na atualidade, uma ascensão poderosa da ideia de arte como mero instrumento para conscientização política, o que muitas vezes significa pouca tolerância com as ambiguidades (éticas, políticas etc), que acabam silenciadas por uma cartilha ideológica muito restrita. As reações à Detransition, baby demonstram bem esta mentalidade.  Vejo este movimento como empobrecedor da própria ideia de literatura, mas também da leitura, já que o leitor parece reduzido ao papel de mero receptor de lições relativas a questões sociológicas. Ou como declarou Bernardo de Carvalho em seu recente artigo para a Folha de São Paulo:

Fazer a literatura corresponder à representação de um modelo moral serve de ilusão paliativa, é o correlato natural e desesperado da nossa impotência diante da indecência da realidade, diante do mal. Mas também é desistir da charada que não conseguimos resolver. É jogar a toalha antes mesmo do início da partida.

“sou ‘eu’ que não coincido jamais com minha imagem”

Samara Lima

Créditos da imagem: “Caderno de memórias coloniais” de Isabela Figueiredo

No meu post anterior, comentei que Cadernos de memórias coloniais é escrito em primeira pessoa e tem cunho memorialista. Na obra, somos apresentados à trajetória de infância da narradora-personagem em Moçambique. As recordações mesclam-se com comentários das contingências históricas e sociais. Da mesma forma, o livro se debruça sobre a construção da identidade de Figueiredo, a partir do contato (problemático) com a família, com seu grupo social e a diferença, com os seus questionamentos internos e com o próprio território africano. Ainda que tenha crescido em um ambiente que considerava o negro como um sujeito “abaixo de tudo”, é a partir da relação com o Outro que a narradora busca formar a sua identidade. É certo que é uma identidade maleável, ora construída em oposição ao pai e aos seus pares, ora pela convivência com práticas e discursos racistas. Na narrativa, os discursos são diferenciados a partir da distinção entre “preto” (quando o posicionamento é semelhante ao do pai etc) e “negro” quando a narradora assume seu ponto de vista crítico.

O que a questão da identidade tem a ver com a série de fotos que nos apresentam à Figueiredo criança? Na imagem acima, podemos visualizar a narradora, criança, bem vestida, em um momento de lazer, em algum parque de diversão, olhando fixamente para a câmera. Do mesmo modo, a foto nos impele a observar o menino ao fundo, com uma perna apoiada na outra, atrás das grades, também mirando a objetiva. Nos deparamos com essa foto, que ocupa o centro de uma página inteira, depois de lermos este trecho:

“Quem, numa manhã qualquer, olhou sem filtro, sem defesa ou ataque, os olhos dos negros, enquanto furavam as paredes cruas dos prédios dos brancos, não esquece esse silêncio, esse frio fervente de ódio e miséria suja, dependência e submissão, sobrevivência e conspurcação.

Não havia olhos inocentes.”

Curiosamente, é o olhar da menina que contrasta com o olhar do garoto. Diante da imagem, nos perguntarmos se são realmente “os olhos dos negros” que aparentam olhar sem filtro e furar as paredes. Afinal de contas, é o olhar de Figueiredo com um misto de desprezo e ódio que parece escapar à página, inquietando o leitor e contradizendo o relato. É interessante perceber como o olhar infantil (que contradiz o trecho que lemos) da narradora na foto e o discurso (adulto) do relato embaralham-se. Em entrevista à Rita Veleda Oliveira, a autora afirma que “o caderno é uma narrativa dúplice. Há uma criança que se exprime, mas também há uma mulher adulta: são duas pessoas.”

Nesse jogo de olhares, é como se o olhar maduro da narradora e, em última instância, o olhar da autora, buscasse em retrospectiva compreender as imagens da sua infância: quem é esse “eu” anterior? É Figueiredo, “filha do branco”, que não se separa das condutas racistas do colonizador? Ou a “negrinha loira” que questiona as regras e a partir da negação da figura do pai busca uma socialização com o negro? Ou, ainda, as duas coisas, já que “não havia olhos inocentes”? Dessa forma, poderíamos pensar que a imagem não parece atuar como uma mera confirmação do pacto autobiográfico (entre narrador, personagem e autor), mas sim como um duplo que evidencia “um corpo infantil que é e não é do autor” abrindo-se, assim, à distância entre o sujeito da narração e sujeito da experiência, permitindo, então, um ensaio crítico e distanciado sobre questões de sua própria vida.

Elena Ferrante e o Bildungsroman

Allana Santana

Créditos da imagem: The Year’s Midnight, Rafael Lozano-Hemmer, 2010.

Na tentativa de se aproximar do objeto que estuda, a crítica recorre a diferentes estratégias de leitura. É o que tento fazer ao me arriscar a comentar a produção da autora italiana Elena Ferrante. No meu caso, estou passeando pela já gigantesca produção crítica sobre a autora e sua obra e pela profusão de termos empregados pelas mais diversas abordagens.

Alguns teóricos aproximam a escrita de Ferrante ao melodrama e aos folhetins tentando entender a utilização de artifícios como as peripécias e os cliffhangers utilizados na composição narrativa dos livros da tetralogia. Outros, comentam a serialização narrativa e o flerte com as séries de TV. Mas não é incomum encontrarmos leituras que nomeiam o empreendimento narrativo de Ferrante como uma forma de Bildungsroman, associando as características do romance de formação à trajetória de Elena e Lila, já que acompanhamos a formação moral, intelectual e afetiva das duas personagens à medida que a narrativa avança.

Em seu clássico O Bildungsroman como forma simbólica, Franco Moretti afirma existirem duas linhas de romance de formação que se orientam a partir de dois princípios: o de classificação e o de transformação. No primeiro, temos os romances de formação que apresentam um desfecho marcado, claro e estável; e, no segundo, o final é o momento mais pobre de sentido, o que indica uma “impossibilidade” de formar um sentido fechado para a narrativa.

Considerando a narrativa de Ferrante, é comum que alguns críticos afirmem que a lógica narrativa da tetralogia se equilibra em uma ambiguidade, pois ao mesmo tempo que acompanhamos Lenù, a narradora, na tentativa de dar forma à Lila, ao “escrever cada detalhe de nossa história, tudo o que me ficou na memória” (A amiga genial, p.17), também vamos percebendo um movimento narrativo que apesar de parecer ordenar eventos vai delineando uma esgarçamento, uma impossibilidade de capturar a imagem da amiga, do relacionamento entre ambas, da “realidade” da vida que viveram. Essa ambiguidade que se revela no movimento de construção narrativa pode representar as tentativas de entender ou ordenar a própria subjetividade, que no caso das duas amigas se constrói em paralelo.

Entretanto, será possível pensar que a tetralogia se associe de fato à tradição do Bildungsroman? Se comparamos as análises dos exemplos clássicos considerados por Moretti, Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, O vermelho e o negro, entre outros, percebemos que as heroínas de Ferrante podem integrar a galeria dos exemplos do gênero. No entanto, é possível perceber também algumas diferenças. Talvez a mais explícita esteja no fato de que acompanhamos os anos de formação de duas personagens femininas (ao contrário do centralidade que os personagens masculinos ocupam na forma clássica do gênero), mas também poderíamos comentar a imersão da narrativa na pobreza de uma Nápoles que marca suas personagens, o que não deixa de representar um deslocamento em relação à predominância na forma clássica do “romance de artista”, no qual a narrativa, quase sempre, representa personagens de um outro universo social.

Ainda como uma conclusão parcial, arriscaria a dizer que se é possível pensar na tetralogia de Ferrante como um romance de formação, essa possibilidade implica também avaliar as transformações sofridas pela própria forma do gênero, já que acompanhamos duas trajetórias a de Lenù e a de Lila. Um veio narrativo, o de Lenu que tenta construir o “romance de formação” de Lila, atua para tentar ordenar, dar uma lógica ao vivido e recontado na obra, mas simultaneamente, também acompanhamos uma desorganização (não é à toa que a noção de smarginatura é tão comentada pelos críticos) que realça um certo desconsolo de Lenù ao perceber que a tentativa de dar forma à vida a partir de palavras é falha. E talvez seja a presença dessa convivência ambígua dos dois veios narrativos na construção da trama romanesca que faz com que a obra esteja, ao mesmo tempo, tão perto e tão longe do romance de formação.

A exposição pública da condição sorológica em duas narrativas ficcionais brasileiras

Ramon Amorim

Créditos da imagem: Telmo Lanes, O buraco, 2004.

A sorologia positiva para HIV tem sido um assunto abordado de forma recorrente em narrativas brasileiras. No post falei sobre alguns aspectos da questão no relato autoficcional de Gabriel de Souza Abreu. Nesta produção o autor se questiona bastante sobre para quem irá revelar sua condição sorológica e quando. Abreu tem consciência de que essa é uma informação sensível e que sua publicidade pode ocasionar todo tipo de resposta violenta e preconceituosa.

Se na obra de Abreu o manejo da informação está sob o controle do narrador/autor, o mesmo não ocorre com os personagens Walter, do livro O tribunal da quinta-feira (2016), de Michel Laub, e Henrique, de Você tem a vida inteira (2018), escrito por Lucas Rocha. Nos dois romances, a sorologia positiva para HIV é revelada de forma pública, através da internet, por terceiros como uma espécie de vingança.

Em O tribunal da quinta-feira, romance predominantemente em primeira pessoa, o protagonista, José Victor, tem parte da correspondência por e-mail que troca com o amigo Walter divulgada pela esposa. A descoberta da traição do marido com uma colega de trabalho e o fim do casamento servem de motivo para o ato de vingança. Aproveitando-se da forma descuidada e leviana com a qual os dois amigos abordam diversos temas sensíveis, entre eles o HIV/AIDS, Teca, a esposa do narrador, envia para um círculo de amigos parte do conteúdo das conversas contidas no correio eletrônico do marido.

Já no romance de Lucas Rocha, a condição sorológica de um dos protagonistas, Henrique, é revelada pelo ex-namorado que não aceita a rejeição depois de uma tentativa de reconciliação. A exposição é feita através de uma postagem por um perfil anônimo na rede social Facebook. O conteúdo da mensagem aponta para um imaginário preconceituoso sobre o HIV e a AIDS, nele são usadas expressões como AIDÉTICO, DOENÇA IMUNDA e DOENÇA MALDITA (assim mesmo, em caixa alta).

Além da vingança, principal motivo da exposição pública da sorologia dos personagens, o “jogo” com o preconceito e o imaginário público sobre o HIV/AIDS também está presente nas narrativas.

Na produção de Laub, a sorologia em si não é colocada como o principal problema, mas sim a forma despreocupada com que os personagens fazem piadas de gosto duvidoso sobre o tema, por vezes associando o ato sexual a uma infecção proposital: “Remetente: eu. Destinatário: Walter. (…) Estou pensando em convidar a vítima redatora-júnior para contrair A.I.D.S./S.I.D.A.” (LAUB, 2016, p. 94). Em Você tem a vida inteira, o “jogo” está na associação da condição sorológica com um possível comportamento promíscuo e na afirmação de que o personagem, vítima da postagem caluniosa, é um transmissor proposital do vírus HIV: “tenho certeza que ele passa essa DOENÇA MALDITA para todos aqueles que se relacionam com ele” (ROCHA, 2018, p. 238).

A exposição da sorologia nos romances aponta para uma tentativa de se utilizar dos preconceitos mais arraigados na sociedade para produzir mais violência contra sujeitos soropositivos. A tentativa se apoia na certeza de um imaginário coletivo que ainda vê pessoas com HIV/AIDS como promíscuas, sujas, perversas e irresponsáveis, entre outras coisas. A sociedade representada nas narrativas reflete a sociedade “real”. De forma mimética a ficção aponta, talvez não de forma proposital, para problemas recorrentes na “realidade”. Considerando que essa tem sido umas das principais funções, não a única, da produção narrativa brasileira sobre HIV/AIDS, é possível dizer que as obras se enquadram em um conjunto difuso e mais amplo  das representações sociais  sobre HIV/AIDS.

Trabalho de luto e metatextualidade em WandaVision

Antonio Caetano Jr.

Créditos da imagem: Divulgação

WandaVision (2021), uma série de TV hollywoodiana, fomentou discussões nas redes sociais e em fóruns na internet. Tal atenção deve-se, também, ao fato de que a história faz parte do lucrativo Universo Cinematográfico da Marvel, que adapta histórias dos quadrinhos da Marvel Comics para o cinema. Somado a isso, o caráter metatextual da série, e o luto que atravessa uma das protagonistas, foram pautas frequentes nos debates sobre a produção.

No percurso da minha pesquisa de mestrado estudando o romance O pai da menina morta, de Tiago Ferro, tenho me concentrado em leituras acerca do trabalho de luto e da autoficção, pois há no romance um narrador-escritor que escreve sobre sua vida — e sobre seu processo de escrita — em que elabora o luto pela morte da filha. Dessa forma, também acredito ser pertinente comentar alguns aspectos da série focando em um trabalho de luto que se dê pela escrita devido às seguintes razões: Wanda está em luto e, nesse processo, passa a ficcionalizar um modo de vida para si e para seu companheiro falecido.

Uma breve contextualização sobre WandaVision se faz necessária para este post: Wanda possui superpoderes, tais como os de moldar a realidade de acordo com sua vontade, enquanto que Vision, par romântico de Wanda, é um robô, de estrutura humanóide, dotado de sentimentos humanos. Em filmes anteriores ao seriado sabe-se que Vision foi morto em batalha, o que faz com que, no tempo atual da série, Wanda se isole da sociedade e crie uma realidade e um “novo Vision” para dividir com ela esse espaço. Tal “realidade” é constituída correspondendo aos formatos das chamadas “comédias de situação”, ou sitcoms (séries televisivas de humor que apresentam famílias e/ou amigos em situações corriqueiras, sendo A feiticeira e Friends exemplos do formato).

Dessa forma, a cada episódio somos expostos a estratégias técnicas e estéticas encontradas nas sitcoms à medida em que Wanda e o novo Vision vivem, através dessas estratégias, como personagens. Tais artimanhas culminam na série que nós vemos e na série criada e estrelada por Wanda, que está contida na primeira. Além do mais, a metatextualidade envolvida reforça ainda mais o caráter narrativo do que Wanda está vivendo, pois personagens que estão fora da realidade de Wanda interceptam,  como sinal de TV, o que se passa dentro da realidade criada por ela: justamente as sitcoms acontecendo. Dessa forma, os personagens de WandaVision conseguem assistir a série de Wanda, assim como nós, o público empírico.

E é para este detalhe que quero chamar atenção. Me interessa observar aqui os jogos estabelecidos com os gêneros narrativos em que as histórias são construídas. Será possível associar essa relação metatextual ao processo de elaboração do luto vivido pela personagem? No romance de Tiago Ferro vemos que o narrador é um escritor, e percebemos como este exibe seu processo de escrita (emails trocados com a editora; listas do que falta escrever; referências úteis ao texto; reflexões sobre escrita).

Já na série, Wanda demonstra paixão por sitcoms e comprova isso ao exibir técnicas por trás do gênero televisivo no seu trabalho de luto (filtros em preto e branco e em cores; mudança de diagramação da tela de um formato mais “quadrado” para um formato widescreen; roteiro; quebra da quarta parede; trocadilhos; risadas gravadas ao fundo das cenas). Assim, o que minha reflexão propõe é que o esmiuçamento e a exploração da técnica (seja ela técnica de escrita ou técnica televisiva) ajudam a, de certa forma, pavimentar um caminho para uma busca pelo que foi perdido. Em outras palavras, nas duas produções artísticas, tanto o trabalho de luto, a exibição da técnica, quanto a construção de sentidos elaborados pelos personagens estabelecem relações tais, que não se sabe exatamente onde começa um e termina o outro.

Em certo momento, Wanda é posta diante da seguinte pergunta: “O que é o luto senão o amor perseverando?”. Inclino-me, então, a pensar tais mobilizações no romance e na série como expressões da subjetividade do sujeito ao elaborarem um trabalho de luto que, por si só, é laborioso e perseverante, pois parte do desejo de um encontro impossível  — sempre evocado, mas nunca realizado plenamente —, do enlutado com o objeto perdido a partir dos entrelaçamentos, ou das reformulações, da realidade e da ficção.