Machado de Assis e a Poética da Dissimulação

Samara Lima

Créditos da imagem: Lost Horizon I, 2008 (detalhe).

Em outro post meu, Falando sobre o silêncio, ao fazer uma pequena análise do conto O Caso da Vara (1899), busquei mostrar como Machado de Assis faz uma crítica à hipocrisia da sociedade e à crueldade do sistema escravagista ao mesmo tempo em que aparenta tratar de assuntos banais. A análise é fruto de alguns meses de leitura, durante os quais venho me debruçando sobre textos teóricos que se propõem a entender as estratégias literárias utilizadas pelo “escritor caramujo”, como o próprio Machado se definiu, para driblar os pensamentos consagrados no período em que vivia e se fazer, dessa forma, um homem de seu tempo e do seu país.

É pensando nessas estratégias e dribles que eu gostaria de discutir brevemente a capoeira enquanto metáfora para a leitura dos escritos machadianos, tendo como disparador reflexivo um trecho do livro Um defeito de Cor (2006), de Ana Maria Gonçalves, que me parece um exemplo emblemático para o debate proposto:

“Um bom capueira nunca deve mostrar tudo o que sabe, ou pelo menos deve fazer parecer que não mostrou, e para isso nem precisa ser forte, mas estar sempre atento e ser esperto. (…) a capueira é como uma conversa, um faz uma pergunta de supetão e o outro tem que ter a resposta pronta, e ganha quem faz a pergunta que o outro não consegue responder.” (p. 666)

Recentemente, ao reler essa passagem, não pude deixar de lembrar do texto A capoeira Literária de Machado de Assis de Eduardo Duarte, no qual a produção machadiana é entendida como uma poética da dissimulação. O que o crítico sugere, com base na ideia de capoeira verbal forjada por Luiz Costa Lima, é que assim como na capoeira existe o ato de gingar, a fim de confundir o adversário para surpreendê-lo de supetão, nos escritos ficcionais e jornalísticos do Bruxo do Cosme Velho, há uma ginga verbal que põe sob disfarce as denúncias muitas vezes propostas pela narrativa ao acomodar, no primeiro plano, amenidades e valores dominantes. Essa necessidade de dissimulação, como a utilização da ironia, do ceticismo e das mudanças do foco narrativo, segundo o teórico, é uma resposta aos leitores e às condições políticas contemporâneas à obra machadiana.

Vamos ver um exemplo dessas condições. O conto Mariana (1971) foi publicado no Jornal das Famílias num momento em que questões, como a instituição da Lei do Ventre Livre, eram discutidas no parlamento. Levando isso em consideração, como se posicionar, em uma sociedade racista e patriarcal, frente à problemática do negro num periódico destinado à família e ao público feminino?

Diante disso, é interessante notar que se, por um lado, o leitor depara-se com um conto que parece tratar de um reencontro entre velhos amigos que não se veem há muito tempo e que trocam confidências amenas, por outro, somos levados a notar como o que parecia um relato banal sobre uma história de amor (considerada, jocosamente, impossível por Coutinho, o narrador), guarda, dentre tantos questionamentos, um profundo debate sobre os problemas raciais no Brasil.

Mariana, a escrava “criada como filha da casa”, apaixona-se por seu senhor. Embora o relato seja narrado do ponto de vista de Coutinho, o protagonismo é assumido por Mariana e seu drama, pois ao contar aos amigos o ocorrido, Coutinho, sempre em tom ameno e jocoso, deixa claro que a paixão da escrava é uma impostura, um absurdo. Nesse sentido, o jogo literário entre o dito e o não dito foi a maneira que Machado encontrou de expor a suposta benevolência do bom tratamento dado à Mariana pela família de Coutinho e de fazer a crítica às mazelas da sociedade escravocrata, atendendo às expectativas de seu público leitor: senhoras e donzelas integrantes da Corte e da elite carioca que podiam se deleitar com um “caso” de amor.

Dessa forma, o leitor, pouco a pouco, é colocado à prova e é exigida dele uma capacidade de lidar com a capoeira verbal machadiana. Seja qual for a estratégia literária empregada por Machado de Assis, minha pesquisa visa estar atenta a cada detalhe da ginga literária no intuito de entender como o autor se compromete com a sua etnia mesmo quando trata de assuntos, à primeira vista, supérfluos.

Marguerite Duras: autobiografia à sombra da autoficção

Ismael Mariano

Crédito da imagem: Marguerite Duras: MD, 2013.

Marguerite Duras escritora francesa nascida na antiga Indochina (atual Vietnã) nasceu em 1914 e morreu em 1996. Perdeu o pai muito cedo e sua mãe, ingenuamente, investiu todas as economias da família em terras improdutivas, sujeitas à inundações constantes. Tinha dois irmãos, o mais velho, odiado e cruel; e o mais novo, frágil e dócil. A infância pobre, quase miserável, na colônia, a “loucura” da mãe, os dois irmãos, a força do mar, todos esses elementos biográficos estão presentes em sua obra.

O primeiro investimento veio com o livro Un barrage contre le Pacifique (1950), que narra a luta inglória de sua mãe para tentar salvar suas terras contra as forças do Oceano Pacífico. Em O Amante (1984), livro base de nossa pesquisa, os temas acima citados retornam, mas sobre outras nuances. Mais de três décadas depois, Duras resolve contar mais sobre sua história, mas pela primeira vez assume o pronome “eu”, muito embora, em alguns momentos do livro o pronome deslize para a terceira pessoa, “ela”.

Nas primeiras páginas do livro Duras escreve “A história de minha vida não existe. (…) Nunca há um centro, uma linha.” Podemos entender essa vida “inexistente” pelo fato dela nunca ter sido contada, escrita; como bem assinala uma de suas comentadoras Leyla Perrone-Moisés. Segundo ela, o que Duras pretende contar “é um segredo, um fato recalcado”.

Mas seria possível pensar em Duras como uma escritora que experimenta brincar com os limites entre a biografia e a ficção, arriscando-se à autoficção? É esse, justamente, o cerne do problema da pesquisa, a engrenagem que moverá a investigação de meu trabalho final do curso de graduação que quer considerar as tortuosas (e muitas vezes contraditórias) teorias que problematizam a autobiografia e a autoficção. A pesquisa pretende se ater à investigação deste limiar e não apenas a catalogar a obra em um dos dois termos mencionados. Queremos instigar, provocar, convidar a uma reflexão sobre o autobiográfico e o autoficcional analisando O Amante, obra de Duras que a crítica, apesar de notar a tensão com a presença de dados biográficos, logo acomodou no terreno da “pura” ficção.

Breves reflexões sobre a cadeia produtiva do livro na Bahia: um lugar em aberto

Milena Tanure

Créditos da imagem: Relativity – M. C. Escher (1953)

Na última semana, a pesquisadora e escritora Calila das Mercês esteve no encontro de Leitura e Literatura (ELLUNEB) da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e, nessa oportunidade, levou algumas notícias sobre sua trajetória e caminhos de pesquisa. Calila é conhecida, em especial, pelo trabalho de seleção e divulgação das escritoras negras da Bahia, no entanto, apesar de tamanha relevância do trabalho realizado, as discussões por ela realizadas me interessam ainda mais pela denúncia ao pouco destaque ofertado às discussões sobre o campo literário e a cadeia produtiva do livro em solo baiano.

O projeto por ela realizado em parceria com Raquel Machado Galvão e Roberto Seidel, intitulado Publicações na Bahia: mapeamento e diagnóstico das editoras baianas (2014), foi responsável por realizar um mapeamento e diagnóstico das editoras baianas no intuito de compreender a cadeia de produção do livro no Estado. Já naquela oportunidade, foi possível identificar, em toda a extensão baiana, uma gama de editoras que operam na formalidade e com ampla divulgação comercial, assim como editoras de pequeno porte que funcionam de modo mais alternativo. Em especial, a pesquisa coloca em cena o modo pelo qual, nesse cenário, as editoras universitárias são aquelas que apresentam estruturado nível de profissionalização. Além disso, há um destaque para a relevância das feiras que possibilitam a circulação dos livros e projeção das editoras. Particularmente, me chama atenção o fato de tal pesquisa, englobando um significativo contexto e o cenário da cadeia produtiva do livro em solo baiano, não ter a projeção necessária para que possamos pensar a promoção de políticas e ações mais efetivas que venham a fortalecer o universo da publicação, circulação e leitura do livro literário produzido na Bahia. Tal inquietação me tomou, sobretudo, ao ouvir Calila sinalizar que aquela era a primeira vez que falava de suas pesquisas e criações literárias em um evento na Bahia.

A pesquisa sobre As Publicações na Bahia já dava indícios de um rico cenário de auto publicação ou auto edição, em especial ao falar sobre os cordelistas, no entanto, outras falas que pude escutar no ELLUNEB foram significativas ao tratarem sobre o agenciamento das carreiras e publicações pelos próprios autores e autoras na atualidade. Sinalizo, por exemplo, a mesa Diálogos Insubmissos de Mulheres Negras e a potente fala da escritora Jovina Souza que, ao final de sua explanação, pontuou que todo o trabalho de publicação das suas obras não conta com o auxílio de editoras e editores que agenciem o seu fazer artístico, cabendo a ela editar, publicar e fazer circular os seus próprios livros. Anajara Tavares, por sua vez, citando a sua participação em uma série de coletâneas que fazem circular os nomes e textos dos artistas, indicou que a publicação de algumas delas também só foi possível pelo financiamento próprio. No mesmo sentido, a poeta Vânia Melo registrou que seu primeiro livro, Sobre o breve voo da Borboleta e suas esquinas (2018), foi possível a partir da publicação pela editora Organismo e pelo trabalho editorial de um editor, Jorge Augusto, engajado com publicações como as que compunham aquela mesa.

O que vai se delineando para mim, com essas e outras inquietações, é o modo pelo qual, para além de uma tentativa de novos gestos para se pensar e movimentar o mercado do livro na Bahia, há, ainda, entraves que apontam para uma falta de profissionalização, mas, sobretudo, para uma falta de amplo debate para se pensar o mercado do livro enquanto material que também é responsável por movimentar as engrenagens culturais. Em verdade, reconhecer o universo do livro enquanto mercado de bens simbólicos e econômicos é indispensável para reconhecer a relevância de diagnósticos como o da pesquisa produzida por Calila das Mercês, Raquel Machado Galvão e Roberto Seidel, mas, sobretudo, para perceber tal debate como indispensável para uma discussão sobre políticas culturais que objetivem a profissionalização do escritor, a publicação dos livros e a formação de amplo público leitor.

Desafios críticos contemporâneos

Davi Lara

Créditos da imagem: Laura Erber

No dia 04 de julho deste ano, defendi minha tese Desafios críticos contemporâneos: autoria e autoficção em Javier Cercas e Enrique Vila-Matas. Alguns meses antes, enquanto ainda estava escrevendo a tese, durante uma conversa na qual certamente falava sobre o meu processo de escrita (quem tem um amigo nesta situação sabe que podemos ficar repetitivos), uma amiga me perguntou se eu não me incomodava com o fato de que provavelmente pouquíssimas pessoas leriam o trabalho que estava me custando tanto escrever. Ela estava se referindo ao estranho regime de produção acadêmica, que produz uma quantidade enorme de artigos, monografias, dissertações e teses que não são lidos na mesma proporção em que são escritos, resultando numa massa enorme de trabalhos que é esquecida num canto escuro de uma prateleira. Lembro-me de ter respondido que, como todo mundo que escreve, eu também era motivado pelo desejo de ser lido, mas que a temporalidade lenta própria da comunicação escrita, tão diferente da imediatez da comunicação oral, onde a resposta é praticamente simultânea, tinha educado minha ansiedade; e que isso não era – e continua não sendo – algo em que eu pensasse muito.

No entanto, o mesmo sistema que promove a produção de trabalhos que nunca serão lidos, cria dispositivos de divulgação, leitura e discussão da produção acadêmica que, quando funcionam, concorrem para a circulação das ideias e para quebrar o isolamento dos pesquisadores. Assim, dentre outras coisas, quem escreve uma tese, sabe que, além do(a) orientador(a), seu trabalho será lido por pelo menos mais quatro pessoas: os quatro professores que comporão a banca de defesa. Por funcionar, na prática, como uma espécie de rito de passagem, a última etapa que separa o estudante do título de doutor, a defesa do trabalho final de curso é geralmente acompanhada por uma grande pressão. No entanto, esta pode ser considerada como uma oportunidade ímpar onde o trabalho de mais ou menos quatro anos vai ser lido, comentado e discutido por pesquisadores experientes que têm interesses em comum aos seus.

Foi justamente esta a maneira com que eu tentei encarar este momento no intervalo de espera que sucedeu à finalização da tese e o envio da versão final para os membros da banca. E devo dizer que minhas melhores expectativas foram confirmadas e excedidas. Ainda hoje, três meses depois da minha defesa, sinto uma grande alegria quando penso na interlocução com Ana Cecilia Olmos, Igor Ximenes, Suzane Costa e Antonio Marcos Pereira, que, com suas leituras generosas, criteriosas, críticas, às vezes combativas, melhoraram o meu trabalho, no duplo sentido de apontar correções a serem feitas e de prolongá-lo com suas leituras. Gostaria de deixar marcada essa alegria. Num momento de necropolítica em que somos assaltados diariamente por uma enxurrada de motivos para nos entristecer, creio que os momentos de alegria como esse devem, mais do que nunca, ser devidamente celebrados.

Tomando as obras de Enrique Vila-Matas e Javier Cercas como casos exemplares de certas transformações na literatura contemporânea, minha tese marca um esforço inicial de compreensão crítica destas transformações. Como o próprio título da tese enfatiza, tratar de um objeto tão fugidio como a literatura contemporânea, que não possui a estabilidade que o distanciamento histórico confere aos fenômenos literários, é bastante desafiador, mas é igualmente estimulante. Agora que a tese está finalizada, e que está prestes a ser disponibilizada para o público, gosto de pensar em todo o processo de sua feitura, em todas as hesitações, as dúvidas, as compreensões adquiridas lenta e laboriosamente, os insights, enfim, em todas as etapas do pensamento que estão registradas no “produto final”. E como vejo este trabalho como uma espécie de work in progress, que pretendo retomar assim que estabilizar minha vida profissional (a carreira acadêmica tem essa contradição: aqueles que, como eu, se dedicam exclusivamente à pesquisa científica ao longo de sua formação, quando alcançam o mais alto grau de formação superior, que é o doutorado, se veem de repente retornando ao início de suas carreiras), gosto de pensar, igualmente, nos desdobramentos possíveis destas questões em outros problemas de pesquisa que ampliem ou aprofundem o que foi tratado na tese.

Romance que é diário

Carolina Coutinho

Créditos da imagem: Rossana Feudo, La maschera e il volto

Pensando na relação complexa que Barthes manteve com o gênero diário e em como certos aspectos dessa tensão parecem fazer parte do nosso cenário literário contemporâneo, comecei a investigar as relações entre o diário e o romance, para testar a hipótese de que algo da forma do diário está presente em muitos romances da atualidade.

Em The Diary Novel, Lorna Martens propõe investigar o que seria um diary novel, um tipo de narrativa ficcional que se vale de traços da forma dos diários. Para a autora, o diário, como escrita de si, não visa a um leitor específico, é um gênero que cultiva o segredo e que registra os acontecimentos vividos pelo autor. Martens afirma que é interessante pensar como a ficcionalidade se vale das características desse gênero (auto)biográfico e as contraria. Na sua opinião, a escrita de um romance diário implica sempre na preocupação com um leitor imaginado e adentra uma zona de reflexão sobre a própria escrita, que está ausente no diário “puro”.

Martens está trabalhando sob a premissa de que é possível fazer uma distinção fundamental entre a primeira pessoa do diarista real e do diarista ficcional. Um romance que se vale da forma do diário seria marcado pela falta de correspondência entre o diarista ficcional e o autor. Enquanto o diarista “real” escreveria sobre si, para si, o diarista ficcional (um personagem da narrativa) é uma criação do autor do romance (que assume a forma de um diário), ou seja, estamos diante da velha proposição de que o narrador não é o autor.

Ainda assim, escrevendo em 1985, Martens já levanta considerações sobre as narrativas que colocam em xeque as fronteiras, já não muito estáveis, entre realidade e ficção, e sobre o uso da forma do diário como um terreno fértil para produções interessadas em problematizar a distinção entre autobiográfico e ficcional, apontando não somente exemplos contemporâneos, mas também exemplos mais antigos, de quando essa distinção era, se não bem resolvida, menos problemática. Apesar desse movimento, a autora ainda considera que esses sejam casos limítrofes e aposta na diferença intrínseca entre a primeira pessoa não ficcional (própria ao diário como gênero autobiográfico) e a ficcional (própria das narrativas literárias).

Pensando em minha investigação, essa proposição abre janelas para diversas reflexões: como essas interações são modificadas em um momento em que diversos diaristas passam a escrever seus diários na internet, através de blogs, e essa escrita, antes secreta, passa a contar com interlocutores? Vivemos um momento em que há uma incidência mais alta de autores que brincam com essa correspondência entre autor e narrador em primeira pessoa e ainda assim reivindicam para o que escrevem a condição de literário? Será que é possível pensar o mergulho da vida na obra, a mistura entre essas primeiras pessoas, entre autor e narrador, não apenas como meras exceções, como aponta Martens, ou dignas apenas de descrédito ou acusações de narcisismo, motivo constante de preocupação para Barthes?

Autoficção: o lado de fora

Caroline Barbosa

Créditos da imagem: René Magritte- La réproduction interdite, 1937.

Vincent Colonna define quatro categorias distintas para o que chama fabulação de si. Na autoficção fantástica “o escritor está no centro do texto como uma autobiografia (é o herói), mas transfigura sua existência e sua identidade, em uma história irreal, indiferente à verossimilhança”; na autoficção biográfica, por outro lado, o autor fabula a partir de dados reais, evita o fantástico e com o mecanismo do ‘mentir-verdadeiro’ modela sua imagem; a autoficção especular se configura como aquela em que há um reflexo do autor ou do livro dentro do próprio livro, ele não está mais no centro do texto, se torna apenas uma silhueta; e, por fim, a autoficção intrusiva, que faz pensar na figura do narrador colada a do autor, sem fazer parte da história, se torna apenas alguém que conhece os detalhes da narrativa e vai transmiti-los ao leitor com quem mantém constante contato durante a narração.

As definições de Colonna foram muito criticadas, em especial, a autoficção fantástica. Serge Doubrovsky, o criador do termo, a considerava absurda por não estabelecer um pacto oximórico com o leitor. Porém, não deixa de ser interessante testar dentro da grande gama de vertentes da autoficção, a autoficção especular como uma das chaves de leitura da obra de Saavedra.

Seria possível pensar a obra de Carola Saavedra, Com armas sonolentas, como uma possibilidade de autoficção especular. Saavedra, a autora, embora não se nomeie no texto como tal, pode ser lembrada a partir de alguns dados biográficos “emprestados” a uma das narradoras, presente nas bordas da narrativa, como no trecho que destaco a seguir:

“Sentia que meu conhecimento da língua ia ficando cada vez melhor, mais fluente, e junto a isso a sensação de que viver numa língua estrangeira era tornar-se, mesmo que sutilmente, outra pessoa. No meu caso, essa pessoa que eu me tornava, apesar de um pouco tosca, me parecia muito mais próxima de mim do que a que vivia na Alemanha, como se em português eu me tornasse quem eu realmente era.”

A aposta de que o romance flerta com a autoficção se dá a partir do momento em que esse discurso da personagem Mike se alinha com os discursos da própria Saavedra em entrevistas sobre o livro. Além do trecho acima, há outros relacionados à maternidade, ao sentimento de não pertencer a um só país e a sua língua, à condição feminina. Enfim, aspectos da narrativa que são retomados no discurso de Saavedra, autora, relacionados à sua vida.

E é essa mesma miríade de vertentes que surgiram a partir da autoficção que torna o conceito difícil de ser caracterizado . Tudo é autoficção? Nada é autoficção? A obra de Carola Saavedra, em que sua presença é apenas uma silhueta, seria mesmo uma autoficção especular? É dentro desse espaço impreciso que busco compreender a resistência dos autores à prática autoficcional.

Um novo campo literário?

Lílian Miranda

Créditos da imagem: Arte de Maria Júlia Moreira para a revista Pernambuco

“Quantas perdas cabem na vida de uma mulher?”, assim a escritora Micheliny Verunschk inicia a orelha do livro O peso do pássaro morto, publicado pela editora Nós de autoria de  Aline Bei.  Depois de ganhar o prêmio promovido por Marcelino Freire em sua oficina-concurso, a Toca, Bei conquistou o prêmio São Paulo de Literatura 2018, na categoria de melhor livro do ano- autores estreantes com menos de 40 anos.

O peso do pássaro morto é o romance de estreia da autora paulista e narra, em primeira pessoa, a história de uma mulher sem nome, desde de seus 8 aos 52 anos, com alguns saltos temporais que se concentram nos fatos trágicos e nas perdas que a personagem sofre ao longo da vida. No livro, são abordados temas delicados e muito debatidos nos últimos tempos como estupro, gravidez na adolescência, machismo, o papel da mulher na sociedade e também questões subjetivas que tratam da situação psicológica da personagem, suas escolhas ao longo da vida e as consequências oriundas delas.

Não é possível falar sobre o livro de Bei e deixar de comentar sua forma, já que o livro é inteiramente escrito em fragmentos (que lembram versos), que impõem ao leitor um ritmo “quebrado” de leitura:

quando um bebê

nasce

é preciso contar para ele que bebês

também morrem

e o caixão

é sempre branco. ainda assim

quando um bebê nasce

uma Flor brota

no peito e sai

pelo leite da mãe.

é assim que os bebês crescem (p.64)

A história provoca um forte efeito de verossimilhança, pois muitas das agruras presentes na vida da personagem são as que estão presentes hoje em nossa sociedade. Também por isso, o romance recebe uma ótima aceitação do público, virando rapidamente leitura obrigatória entre clubes do livro, bookgrams e booktubers. Vide entrevista da autora para o canal LiteraTamy: https://www.youtube.com/watch?v=bohKftiJYQw&t=309s

Mas há um outro elemento que é surpreendente: a forma como o livro é promovido pela própria autora, que se engaja no merchandising da obra. Aline Bei usa o quanto pode as redes sociais como ferramenta para divulgação e venda do seu livro. Qualquer pessoa que interaja com seus posts na internet, curtidas, compartilhamentos e comentários, ou apareça em algo relacionado à literatura no Instagram, recebe automaticamente uma mensagem convidativa oferecendo o link para compra de seu Pássaro Morto. A estratégia deu certo, pois o livro esgotou a primeira edição graças a esse cheek to cheek virtual.

Pensando nas discussões teóricas atuais sobre a literatura, é possível dizer que o livro e a atuação de Bei tornam possível pensar dois postulados apresentados pela crítica argentina Josefina Ludmer em seu texto “Literaturas Pós-autônomas” (2000). O primeiro deles diz que esse novo regime da literatura representa “o fim das lutas pelo poder no interior da literatura”, representando por tabela, o fim do campo literário, tal como proposto pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu. O segundo pressuposto de Ludmer é o que afirma que as literaturas pós-autônomas “fabricam um presente”.

Na pesquisa que empreendo, utilizo o livro de Aline Bei para colocar à prova essas premissas, investigando melhor a noção de campo literário e observando alguns elementos relacionados à noção de literatura contemporânea, em especial o modo como o autor surge, como começa uma carreira literária e como insere seu nome de autor e sua obra no campo literário.

Falando sobre o silêncio

Samara Lima

Créditos da imagem: Ulay and Marina Abramović, AAA-AAA, 1978.

Em Julho, durante a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), foi lançado no Brasil, pela Editora Cobogó, traduzido pela Mestre Jessica Oliveira, o livro Memórias da Plantação: Episódios de racismo cotidiano da escritora e teórica portuguesa Grada Kilomba. Tal livro, como está escrito na orelha e subtítulo, é formado por “uma compilação de episódios cotidianos de racismo” que, tendo como referência alguns intelectuais negros, como Frantz Fanon, busca expor o racismo e analisar a herança colonial presente na sociedade à luz de determinados conceitos psicanalíticos.

No primeiro capítulo do livro, intitulado A Máscara: Colonialismo, memória, trauma e descolonização, a teórica mostra como a máscara, um aparato de tortura que os escravizados eram obrigados a utilizar durante o trabalho nas plantações, também pode ser considerada o símbolo do projeto colonial de silenciar a voz do sujeito negro e impor medo durante o período escravocrata, já que a boca representaria a fala e a enunciação.

A fala, dessa forma, significa não só o ato de emitir som e um conjunto de palavras, mas também, a existência, a humanidade desse sujeito. O instrumento, então, legitima a política de silenciar aqueles que não fazem parte do regime de autorização discursiva e abre margem a vários questionamentos, de acordo com a pensadora, sobre quem pode falar numa sociedade racista e patriarcal.

Pois bem. É pensando nessa problemática que busco tecer um ligação com um trecho do conto O caso da Vara (1899) de Machado de Assis, escrito após a Abolição da Escravatura (1888), mas que tem a história desenvolvida num período anterior à data de sua publicação, como expõe o narrador no início da narrativa: Damião fugiu do seminário às onze horas da manhã de um sexta-feira de agosto. Não sei bem o ano; foi antes de 1850.

À primeira vista, o conto parece tratar da fuga de Damião do seminário e da carreira eclesiástica. O personagem rapidamente escolhe Sinhá Rita, uma amiga querida do padrinho, para ajudá-lo em tal empreitada. Com a fuga seguida dos adjetivos usados pelo narrador ao descrever a condição de Damião, como espantado, medroso e fugitivo, o leitor deixa-se comover pela situação de Damião, torcendo até para que tudo corra bem com o rapaz. Porém, no decorrer da narrativa, Lucrécia, escrava de Sinhá Rita, que vinha ocupando o pano de fundo da cena, ganha protagonismo quando é ameaçada por rir de uma piada:

Sinha Rita tinha quarenta anos na certidão de batismo, e vinte e sete nos olhos. Era apessoada, viva, patusca, amiga de rir; mas, quando convinha, brava como o diabo. Quis alegrar o rapaz, e, apesar da situação, não lhe custou muito. Dentro de pouco, ambos eles riam, ela contava-lhe anedotas. (…) Uma destas, estúrdia, obrigada a trejeitos, fez rir a uma das crias de Sinhá Rita, que esquecera o trabalho, para mirar e escutar o moço. Sinhá Rita pegou de uma vara que estava ao pé da marquesa, e ameaçou-a:

-Lucrécia, olha a vara!

Essa passagem é interessante para refletir como Machado, utilizando-se de uma contenda familiar aparentemente sem importância, problematiza nas entrelinhas questões mais sérias, como a escravidão e o poder senhorial. Os personagens assumem características que antes não aparentavam, como Sinhá Rita, que transparecia ser um mulher vaidosa, risonha, mas torna-se cruel quando dirige-se à Lucrécia. E Damião que, aparentemente frágil e bom rapaz, não interfere na ameaça feita pela Sinhá. Dessa forma, pouco a pouco, quase em silêncio, o Bruxo do Cosme Velho, desmascara a sociedade – e seus leitores de mentalidade escravagista, que se apiedam de Damião, mas pouco se importam com o destino de Lucrécia.

Se, ao invés de deixarmos nos levar pelo protagonismo de Damião e ouvirmos o silêncio da Lucrécia, podemos nos perguntar: sobre quem, realmente, é a história? É igualmente intrigante notar, para quem tem conhecimento do conto, como a narrativa termina sem a resolução do caso, sugerindo, então, uma ambiguidade: trata-se da fuga do seminarista ou da hipocrisia da sociedade e crueldade do sistema escravagista? Assim, ao mesmo tempo em que propõe ao leitor um exercício crítico e de escuta do silêncio daquela que não tinha seus direitos de fala garantidos numa sociedade baseada nas relações de poder, a narrativa questiona quem obriga a personagem a usar a máscara, isto é, quem a silencia e detém a vara como um instrumento de poder/punição.

Nessa perspectiva, minha pesquisa visa entender como Machado de Assis e os autores negros contemporâneos, que fazem parte do meu corpus, transcendem, através da literatura, o regime hegemônico de enunciação e discutem problemáticas da sociedade brasileira, como as mazelas da colonização e o racismo. Eles falam, então, pelos orifícios das máscaras, às vezes com tanta potência que a máscara é estilhaçada, como afirmou a escritora Conceição Evaristo em entrevista ao site Carta Capital.

Notas sobre assinatura e performance

Nivana Silva

Créditos da imagem: imagem do filme A Morte de J.P. Cuenca, 2015.
 - Será que você vai escrever um livro sobre isso aí? 
-Não.
(Descobri que estava morto, João Paulo Cuenca)

Considerando o “retorno do autor” e a emergência das novas tecnologias, podemos dizer que a formação de um nome de autor hoje se dá não somente por meio da obra, mas também encontra solo fértil fora dela, especialmente quando o autor se dispõe a lançar mão de estratégias para alcançar leitores, firmar-se no mercado editorial e ganhar reconhecimento da crítica. Nesse contexto, acredito que a performance autoral contribui, de maneira significativa, para a promoção de uma assinatura ou para mantê-la ativa no campo literário.

Muitos exemplos da produção literária atual apresentam narradores-personagens cujas identidades se confundem com as do autor empírico, trazendo-o para a trama textual como matéria prima da ficção e arrastando de roldão referências factualmente rastreáveis, o que não deixa de ser uma performance que dialoga com um certo fetiche exibicionista próprio da contemporaneidade. O leitor que quer ser espião da “vida real” de quem escreve e do processo de criação daquilo que lê coloca-se como um “cúmplice voyeurista” (SIBILIA, 2015) do autor, que, por sua vez, parece capitalizar essa demanda em prol da performance dos “eus” para explorar o limiar entre realidade e ficção.

Para além disso, a performance também extravasa o nível do texto, pois manifesta-se na disposição autoral para usar as tecnologias, as mídias sociais, participar de eventos literários e divulgar a obra. Assim, a exposição do autor ao lado e fora da obra é, muitas vezes, o ponto de partida para a leitura do próprio texto.

João Paulo Cuenca, nesse cenário, pode ser chamado de um autor “midiático”. Colunista, roteirista e muito ativo nas redes sociais, Cuenca, desde o início de carreira, apoia-se no suporte tecnológico para performar vozes e aproximar-se da recepção. Com a publicação de seu primeiro romance, Corpo presente (Planeta, 2003), o autor alimentava um blog, hoje fora do ar, de nome “Carmen Carmen” – alusão à personagem do livro – no qual trazia os bastidores da escrita e que funcionava como uma primeira janela de divulgação do romance de estreia. Nesse mesmo ano, Cuenca também ganhou visibilidade ao participar de uma mesa na primeira edição da Festa Literária Internacional de Paraty, devido ao lançamento do livro Parati para mim (Planeta, 2003), em que há um conto seu. Voltando à FLIP em 2016, dessa vez para falar do seu livro Descobri que estava morto (Tusquets Editores, 2016), o autor declara que: “O que eu estou fazendo aqui agora é teatro, uma performance teatral, não tem nada a ver com literatura. Estou falando de livros…”.

Enquanto no livro de estreia, a performance do “eu” fora do papel foi importante para chegar ao público e inserir seu nome de autor no campo literário, no último romance de 2016, Cuenca potencializa uma estratégia semelhante para manter a assinatura ativa. O livro, assim como seu contraponto, o filme A morte de J.P.Cuenca (2015) – com direção e atuação do autor – foram muito divulgados por ele no facebook, tanto em seu perfil pessoal, quanto numa página dedicada ao longa.

O investimento na performance percorre o livro cuja história, ambientada no Rio de Janeiro pré-olímpico, é contada pelo narrador-personagem João Paulo Cuenca, que também é escritor e toma conhecimento de “sua própria morte”, pois um corpo foi identificado e reconhecido com os dados pessoais do próprio Cuenca (nome, data de nascimento): “Descobri que estava morto enquanto tentava escrever um livro”, diz ele. O enredo de ficção que o autor garante ter realmente vivido em 2011 culminou na narrativa “baseada em fatos reais”, na qual são apresentados documentos oficiais, como o registro de ocorrência e o guia de remoção do cadáver, e alusões biográficas ligadas a Cuenca. A história não se resume a isso, porém é notável o jogo performático que pulveriza a(s) voz(es) do autor num procedimento de mise en abyme e que envolve o leitor, talvez menos interessado nas pistas sobre o cadáver do que em “procurar o autor” e ouvir essas vozes performadas que falam dentro e fora obra, forjando personas, trazendo referências “reais” e embaralhando as expectativas de quem lê.

As estratégias utilizadas, portanto, vão flertando com o público e fomentando um trânsito que não é apenas de fora para dentro da obra, mas da própria obra para fora: um dentrofora criado por uma performance do autor. Assim, o binômio performance e assinatura parece ter sido exitoso no caso Cuenca, ainda que encontremos, na literatura contemporânea, exemplos não tão bem sucedidos, mas isso fica para outra reflexão.

A Ocupação Poética Da Karina Rabinovitz

Milena Tanure

Créditos da imagem: poesia no olho [da rua]. poesia atravessada [na garganta da cidade] (Imagem disponível no blog da escritora: https://karinarabinovitz.blogspot.com/p/na-rua-meus-poemas-fragmentos.html)

No texto “Entre palavras e imagens, o espaço híbrido na poética de Karina Rabinovitz”, Mila Araujo Fonseca nos apresenta o lugar múltiplo dessa poeta-artista que experimenta o lugar fragmentado das fronteiras contemporâneas das artes. Esgarçando limites, Karina me interessa em especial por seus gestos estéticos que me levam a pensar um termo que tentarei abarcar teoricamente nas minhas pesquisas: a ideia política de ocupação dentro da literatura e da cidade. Agenciando formas de estar/ocupar a cidade com sua poética, Karina realiza intervenções poéticas nas ruas da cidade, seja colando lambe-lambe em postes, deixando bilhetes poéticos nos pontos de ônibus ou colocando versos em muros da capital baiana.

Uma rápida busca pelas produções de Karina no Google revela como produção poética, ocupação do espaço urbano e diálogo com outras artes, sobretudo as plásticas, se correlacionam com o seu fazer literário. Nesse sentido, é possível citar “poesia atravessada [na garganta da cidade]”, no qual são colados poemas em faixas de pedestres; “lambe-lambe poesia”, instalação audiovisual montada em praça pública; “poesia: intimidade pública ou poemas toylete”, stickers com trechos de poemas a serem colados em banheiros públicos e “poesiamobília de vento ou móbilepoesia”, mobiles de palavras flutuantes no céu da cidade.

Tem-se, então, outras formas de produção que tornam mais fluidas as fronteiras entre o processo de feitura e a circulação do objeto literário. A cidade, por sua vez, não pode ser pensada aqui apenas como espaço de suporte para exposição das produções, pois atua como elemento constitutivo da performance artística ou chave de leitura que ajuda a atribuir sentidos ao texto poético.

Se pensarmos, por exemplo, o LIVRO de água, um livro-objeto construído em coautoria com Silvana Rezende, parceira de Karina em muitas de suas propostas artísticas, não há como ser alheio a como nele há o esgarçamento dos limites entre produção e exposição da obra. Este livro surge não apenas como livro-objeto, mas também como instalação artística que ocupou o Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM) em 2013, e nisso percebemos um provável indício do que Ludmer nos sugere sobre “textos que apresentam uma ambivalência de se posicionar ao mesmo tempo dentro e fora do que tradicionalmente se considera literatura e ficção”.

Vai se delineando, assim, o modo pelo qual Karina vai me interessando por ser essa autora baiana que se coaduna a muitas das propostas e inquietações mais contemporâneas no campo literário. A produção literária por ela proposta quebra as lógicas tradicionais e coloca em cena textos/instalações que não respondem às categorias tradicionais de análise. Em LIVRO de água, por exemplo, tem-se um livro sem princípio ou fim cuja leitura pode seguir o ritmo da numeração das páginas ou se desenvolver pela mistura e desordem de textos e imagens a serem lidos na ordem e desejo do leitor que organiza e desorganiza as páginas soltas. Nele, tem-se acesso aos poemas que nos são apresentados como nos cadernos de pesquisa da poeta, escritos à mão, dando acesso à caligrafia e intimidade do fazer poético.

Tanto o LIVRO de água como as demais produções aqui citadas relacionam produção estética e política, bem como a ocupação do campo literário atrelada a uma ocupação do espaço urbano. Nesse contexto, percebe-se uma produção que nos leva a questionar de que forma textos como esses questionam as formas institucionalizadas de literatura e da crítica literária.